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Hippeastrum puniceum (Lam.) Voss

Família: AMARYLLIDACEAE

Nome científico: Hippeastrum puniceum (Lam.) Voss

Nome popular: amarilis

 

Hippeastrum puniceum - Canto das Flores 6

Foto: Alexandre Machado (www.instagram.com/alexandrejbrj/)

Hippeastrum puniceum - Canto das Flores 1

Hippeastrum puniceum - Canto das Flores 2

Hippeastrum puniceum - Canto das Flores 3

Hippeastrum puniceum - Canto das Flores 4

Hippeastrum puniceum - Canto das Flores 5

Fotos: Ricardo Cardoso Antonio

Barra exsicata

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Hippeastrum puniceum - Exsicata

Foto: Matheus Gimenez Guasti

Barra verde - características

Hippeastrum puniceum, o belo e popular amarilis, é uma planta extremamente vistosa, com ampla distribuição geográfica, ocorrendo na América do Sul (principalmente na região sudeste do Brasil1 e Andes - Peru, Bolívia e Argentina) e em vários países da América Central, até o México. Além de ornamental, possui potentes alcaloides na sua composição bioquímica, fazendo dela uma planta com grande potencial terapêutico. O mais interessante, no entanto, é a sua história taxonômica e a etimologia de seu nome.

amarilis se apresenta como uma erva perene e bulbosa que atinge até 80 cm de altura. Seu bulbo é ovalado, de onde partem as folhas, verdes claras ou glaucassésseis, eretas a levemente declinadas, ensiformes e afiladas no ápice. A inflorescência é tipo pseudo-umbelapauciflora, protegida por uma espata bivalvar, reunida no ápice de um escapo floral longo, cilíndrico e glauco. As flores são pediceladas, grandes e vistosas, muito ornamentais, infundibuliformes, com 6 tépalas, sendo as externas um pouco mais largas que as internas, e as três superiores fortemente reflexas em relação ao tubo, todas de cor vermelho-alaranjadas a rósea, com a região proximal amarelo-esverdeada. As flores apresentam corona fimbriada desta mesma cor, assim como a base dos estames e estilete. A diferença de coloração entre a base e o resto das tépalas forma um desenho estrelado no centro da flor. Os frutos são tipo cápsula com sementes de cor marrom escura, achatadas e papiráceas.  

amarilis é uma espécie com inegável apelo ornamental: suas belas, grandes, vistosas e coloridas flores fazem dela uma planta muito procurada na floricultura comercial, tanto para flor de corte, como de vaso. Por possuir vários híbridos e cultivares comerciais, adquiriu grande importância econômica no mercado mundial de plantas ornamentais. O que poucos sabem é que, além da beleza, esta espécie possui potentes alcaloides na sua composição, assim como outros representantes da família Amaryllidaceae, que fazem dela ao mesmo tempo uma planta tóxica e medicinal. A licorina, um alcaloide presente no amarilis, tem comprovada ação emética, analgésica, anti-inflamatória, estimulante respiratória, anticancerígena, antiviral e expectorante. Em contrapartida, é altamente venenosa e pode causar vômitos, diarreia e convulsões, podendo ser letal em doses elevadas. Ou seja: saborear "elixires de amarilis", como sugere a bela música2 da década de 80, embora soe poético, não é recomendável. 

O nome amarilis, na verdade, surgiu da popularização do nome Amaryllis, cunhado por Linnaeus em 1738, a partir do nome pelo qual esta planta era conhecida pelos jardineiros: Amarellas ou Amaryllis. Em 1753, foi publicado no Species Plantarum, para denominar um gênero de plantas herbáceas, perenes e bulbosas, com belas e vistosas flores que, até o início do século XIX, englobava mais de 100 espécies. Amaryllis deriva do grego, ἀμαρύσσω (amarysso) e significa "brilhar"; era o nome de uma das heroínas do poema Eclogues, de Vírgílio, o poeta romano autor de Eneida.

Ocorre que a primeira espécie descrita de Amaryllis era Amaryllis belladona (supostamente o nosso amarilis, esse das fotos), descrita por Linnaeus em 1738. Em 1753, ele possivelmente re-descreveu esta espécie, no seu Species Plantarum. Até aí, sem problemas. Acontece que seu filho - Linnaeus, o Jovem - fez a descrição da mesma espécie entre 1781-83, denominando-a Amaryllis equestris, mas não publicou o manuscrito. Em 1789, o botânico escocês William Aiton reuniu estas descrições e outras já existentes e manteve o nome Amaryllis equestris.

Começa aí a história do nome Hippeastrum... Mas, como na taxonomia vegetal nada é tão simples, segue um resumo da história, porque ela é looooonga3...

Em 1795, pouco depois desta publicação de W. Aiton, foi publicado que o epíteto específico equestris se originava da semelhança que a espata bivalve (bráctea que envolve a inflorescência) tinha com duas orelhas, dando à inflorescência "semelhança fantasiosa com a cabeça de um cavalo". Apesar desta interpretação etimológica ser um tanto estranha - e encontrada até hoje em algumas referências - ela foi retificada em uma nota de correção datada de 1803, onde é esclarecido que o epíteto equestris provém da "notável semelhança que a vista frontal (da flor) tem com a estrela de algumas das ordens de cavaleiros", muito comuns na Europa dos séculos XVIII e XIX. 

Acontece que, com tantas espécies perenes, herbáceas e bulbosas sendo descritas na época, o gênero Amaryllis tinha se tornado altamente polimórfico, com espécies sul-americanas e sul-africanas com diferentes características e sem afinidade taxonômica necessária para estarem no mesmo gênero. Com o intuito de resolver este problema, o botânico e reverendo inglês Willian Herbert fez o seguinte: manteve as espécies sul-africanas em Amaryllis, criou outros gêneros para distribuir as "ex-Amaryllis" de acordo com suas características e criou um gênero só para as espécies sul-americanas. Ele queria nomear este novo gênero seguindo a ideia que deu origem ao epíteto específico - equestris - que significa "algo relacionado a cavalo ou cavaleiro". 

Assim, as espécies sul-americanas que pertenciam a Amaryllis foram transferidas para o novo gênero criado por W. Herbert em 1821: Hippeastrum - "the Knight's-star-lily", claramente referenciando a nota de correção de 1803. O nome provém do grego clássico ἵππος (hippos), que significa "cavalo" e do latim astrum que significa "estrela" ou "astro", formando o nome idealizado por W. Herbert: o lírio estrela-de-Cavaleiro4.

Se a manutenção de espécies sul-africanas em Amaryllis e transferência das espécies sul-americanas para Hippeastrum pareceu uma ótima solução na época, um século depois isso se tornou um problema taxonômico, pois violava regras do Código Internacional de Botânica. Em 1938 surgiu a dúvida acerca da procedência da espécie descrita por Linnaeus em 1738: afinal, a planta era sul-americana ou sul-africana? Isso não era claro nas publicações... Se fosse sul-africana, sem problemas. Se fosse sul-americana, o gênero Hippeastrum seria desnecessário, pois as espécies sul-americanas seriam todas Amaryllis e seria necessário um novo gênero para as Amaryllis sul-africanas... O imbróglio taxonômico perdurou meio século, até 1987, quando resolveu-se, no Congresso Internacional de Botânica que, independente da prioridade, ambos os gêneros se tornariam um nomen conservandum (nome conservado), mantendo-se assim a ideia original de W. Herbert. 

Até o presente momento, o atual e legítimo nome do nosso amarilis é Hippeastrum puniceum. O epíteto puniceum provém do latim phoeniceus, originalmente do grego Φοίνιξ (phoinix) que, embora signifique "fenício", é uma alusão à cor púrpura, pois a Fenícia era considerada a "terra da púrpura", já que lá era produzida a púrpura em pó mais cobiçada de todos os tempos5

Antes: Amaryllis, hoje: Hippeastrum. Antes: belladonadubia, equestris, ignescens, purpureum e tantos outros epítetos6, hoje: puniceum7. A inconstância de nomes - em busca da correta denominação - frente à perfeita constância da espécie e sua essência: assim é a taxonomia. Mudam-se os nomes, os descritores, os idiomas, mudam-se os séculos... Só o encantamento que o amarilis desperta permanece intocado...

Autoria: Sandra Zorat Cordeiro 

 

NOTAS 

 

1 - Na região sudeste do Brasil, as restingas do Rio de Janeiro se destacam pela flora exuberante mas também ameaçada. Elas são o habitat do belo Hippeastrum striatum (Lam.) H.E.Moore, que está na Lista Vermelha da Flora Brasileira como espécie em perigo de extinção, ou seja, que enfrenta um risco muito elevado de extinção na natureza:   

 Hippeastrum striatum - Canto das Flores 2

Hippeastrum striatum - Canto das Flores 4

Fotos:  Anna Carina Antunes e Defaveri

 

2 - A música em questão foi composta por Tetê Espíndola e Carlos Rennó, lançada em 1986:

 

3 - Na verdade, a história de separação de Hippeastrum de Amaryllis é bem mais complicada, bem como a validação da procedência da primeira Amaryllis descrita por Linnaeus. Para saber mais sobre este problema taxonômico que só foi resolvido no Congresso Internacional de Botânica de 1987:

 

4 - Há referências que acreditam que W. Herbert, na verdade, quis homenagear o próprio Linnaeus ao criar o nome Hippeastrum. Em 1753, após a publicação do Species Plantarum, Linnaeus foi nomeado pelo Rei Frederico I da Suécia como Cavaleiro da Ordem da Estrela Polar, título que, até então, nunca tinha sido concedido a um civil. Ela era uma espécie de recompensa pelos "méritos cívicos suecos e estrangeiros, pela devoção ao dever, pela ciência, pela literatura, obras eruditas e úteis e por instituições novas e benéficas". O lema da Ordem é Nescit Occasum, em latim, que significa "Não conhece declínio"; seu símbolo está logo abaixo, inegavelmente parecido com o desenho formado pela diferença de coloração das tépalas do Hippeastrum puniceum:

Ordem da Estrela Polar Sueca

 Foto: Bjørn Christian Tørrissen / CC-BY

 

5 - O processo de produção deste corante foi desenvolvido em 1500 a.C., na Fenícia (território do atual Líbano), a partir da tinta de um molusco proveniente do mar Mediterrâneo. A púrpura em pó era usada para o tingimento de roupas que eram usadas apenas por pessoas da realeza, como o Imperador Romano e sua família, já que seu preço era exorbitante. Até hoje, a cor púrpura está relacionada à realeza, ao poder e à Igreja Católica. 

 

6 - Desde a descrição de Linnaeus, esta espécie já teve mais de 40 denominações, considerando-se quando estava em Amaryllis e quando foi transferida para Hippeastrum - http://www.theplantlist.org/tpl1.1/record/kew-278253.

 

7 - Hippeastrum puniceum e suas diversas representações artísticas publicadas em trabalhos científicos ao longo do tempo: 

Hippeastrum puniceum - representações

 Foto: Plant Illustration 

 

*** Nossos agradecimentos:

  • ao fotógrafo Alexandre Machado (www.instagram.com/alexandrejbrj/) do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, pela incrível foto do Hippeastrum puniceum no arboreto.
  • à Dra. Anna Carina Antunes e Defaveri, do Centro de Responsabilidade Socioambiental (CRS) do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, pelas belíssimas fotos do Hippeastrum striatum no seu habitat natural, a restinga.

Barra verde - referências bibliográficas

Amaral, A.C. Amaryllidaceae Jaume St.-Hil.: levantamento das espécies do Distrito Federal, Brasil, e estudos de multiplicação in vitro. 2007. Dissertação (Mestrado em Botânica) - Instituto de Ciências Biológicas. Universidade de Brasília, Brasília, DF. 

Amaryllidaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: http://reflora.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB4366. Acesso em: 07 ago. 2020

Aiton, W. Hortus Kewensis, or, A catalogue of the plants cultivated in the Royal Botanic Garden at KewLondon: Printed for George Nicol, Bookseller to his Majesty. 1789. 

Candido, R.S.; Gonçalves-Esteves, V.; Lopes, R.C. Hippeastrum (Amaryllicoideae - Amaryllidaceae) das restingas do Rio de Janeiro: flora e conservação. Pesquisas, Botânica, n. 65, p. 49-65, 2014.

Curtis, W. The Botanical Magazine, Or, Flower-garden DisplayedIn which the Most Ornamental Foreign Plants, Cultivated in the Open Ground, the Green-house, and the Stove, are Accurately Represented in Their Natural Colours. Vol. 9. London: Printed by Stephen Couchman. 1795. 

Dutilh, J.H.A. Amaryllidaceae In: Wanderley, M.G.L.; Shepherd, G.J.; Melhem, T.S.; Giulietti, A.M.; Martins, S.E.; Romanini, R.P. et al. (2012). Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. São Paulo: Instituto de Botânica/FAPESP/RiMa, Vol. 4, pp. 244-256.

GBIF - Global Biodiversity Information Facility. Hippeastrum puniceum (Lam.) Voss. Disponível em: https://www.gbif.org/species/2854416. Acesso em: 07 Ago. 2020.

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Jacquin, N.J.F. von. Plantarum rariorum horti caesarei Schoenbrunnensis descriptiones et icones. Vol. 1. Viennae: Apud C. F. Wappler. 1797.

Lorenzi, H. Plantas para jardim no Brasil – herbáceas, arbustivas e trepadeiras. 2ª. ed., São Paulo: Instituto Plantarum de Estudos da Flora. 2015.

Linnaeus, C. von. Hortus Cliffortianus. Amstelaedamum. 1738. 

Mathew, B. Spring bulbs - Hippeastrum, the secret of the knights star. Royal Botanical Gardens, Kew. Disponível em: https://web.archive.org/web/20130520110359/http://www.kew.org/plants/springbulbs/hippeastrum.html. Acesso em: 06 Ago. 2020.

Oliveira, R.S. O gênero Hippeastrum Herb. (Amaryllidaceae) no Brasil: evidência de evolução reticulada e análise de caracteres florais. 2012. Tese. (Doutorado em Biologia Vegetal) - Instituto de Biologia. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP. 

Quattrocchi, U. (2012) CRC World Dictionary of Medicinal and Poisonous Plants: Common Names, Scientific Names, Eponyms, Synonyms, and Etymology. Reimpressão. Boca Raton: CRC Press. 2012.

Plant Illustration. Hippeastrum puniceum (Lam.) Voss. Disponível em: http://www.plantillustrations.org/species.php?id_species=532241. Acesso em: 12 Ago. 2020.

Sims, J. Curtis's botanical magazine. Vol. 17. London; Academic Press. 1803.

Soprani, L.C. Estudo químico e biológico de Hippeastrum puniceum (Lam.) Kuntze (Amaryllidaceae). 2017. Dissertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) - Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES.   

Wikipedia. Hippeastrum. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Hippeastrum. Acesso em: 06 Ago. 2020.

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