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Ao Sul do Equador

por Comunicação publicado 30/03/2026 16h47, última modificação 30/03/2026 20h19
Professora Juliana Manhães, da Escola de Teatro, transita por danças e ritmos tradicionais do Brasil e da África, como pesquisadora, docente e "artista brincante"

“É uma máscara com expressão animalesca, que assusta, incomoda e ao mesmo tempo traz o riso, dizem que pode ser homem, mulher ou bicho, que vive no reino do entre, é chamado também de espírito da floresta, carregado de mistérios e simbolismos”. Essa é a descrição do cazumba, personagem da cultura popular maranhense, feita pela professora da Escola de Teatro Juliana Manhães no artigo O ridículo e o sagrado do cazumba: uma performance do avesso.

O cazumba faz parte do movimento Bumba meu Boi, originado no Maranhão e representado por mais de 400 grupos espalhados pelo Brasil. “‘Brinco’ no Boi da Floresta”, revela a professora, que há 26 anos incorpora o personagem no grupo, formado por cerca de 200 pessoas.

Natural do Maranhão, Juliana graduou-se em Teatro pela UNIRIO no ano 2000. Retornou em seguida à sua terra natal, passando a buscar mestras e mestres da cultura popular brasileira e envolver-se com as danças e os ritmos tradicionais, ligados tanto à herança africana quanto ao legado indígena do estado.

Nesse processo, conheceu o mestre Abel Teixeira, artesão, cazumba e mentor, que a incluiria no Boi da Floresta. “Foi um artista popular muito importante, presente em vários museus do Brasil e de Portugal”, conta a professora, apontando o estilo singular das caretas produzidas pelo mestre, falecido há três anos. “Quem trabalha com máscaras e, de alguma maneira, busca essas culturais tradicionais, conhece o trabalho dele”.

Junto com Abel Teixeira, ela confeccionou sua própria careta de cazumba. Seria o início de uma trajetória de sete anos de pesquisas e vivências sobre as manifestações culturais brasileiras. Nesse tempo, frequentou as festas de São João e do Divino Espírito Santo, no Maranhão, onde reforçou o aprendizado da dança de tambor de crioula e começou a tocar a Caixa do Divino, para a dança do cacuriá.

“Fiz diversos trabalhos sociais e artísticos com as comunidades locais, sem imaginar que isso viraria epistemologia na universidade”, relembra. Sete anos após graduar-se, Juliana regressaria à UNIRIO – dessa vez, para o curso de mestrado do então Programa de Pós-Graduação em Teatro, sob orientação do professor Zeca Ligiéro. Sua dissertação foi defendida em 2009, com o título Memórias de um Corpo Brincante: A Brincadeira do Cazumba no Bumba-Boi Maranhense.

“Saí do espaço da rua, da festa, e comecei a pesquisar isso, e fiz meu mestrado e meu doutorado sobre as tradições”, conta. “Atualmente, levo essas manifestações para dentro da UNIRIO – tanto com as pedagogias brincantes quanto com a pesquisa acadêmica –, na formação de mestras, mestres e doutores”.

Esta é a terceira reportagem da série Ao sul do Equador, cuja proposta é difundir as atividades promovidas pela UNIRIO no contexto dos movimentos sociais, em parceria com instituições do sul global.

Juliana Manhães em seu “batizado de boi”, quando se tornou cazumba, no ano 2000 (Foto: Márcio Vasconcelos)
Juliana Manhães em seu “batizado de boi”, quando se tornou cazumba, no ano 2000 (Foto: Márcio Vasconcelos)

Cazumba no Boi da Floresta (Foto: Arquivo Pessoal)
Mestre Abel Teixeira como Cazumba (Foto: Arquivo pessoal)

Academia

Na licenciatura em Teatro, Juliana ministra as disciplinas “Dança e Pedagogia” e “Movimento e Pedagogia”. Já no bacharelado em Atuação Cênica, leciona “Dança Moderna e Contemporânea”. Todas as matérias são teórico-práticas e incluem elementos da cultura popular brasileira. “Trabalho com matrizes e motrizes de danças tradicionais brasileiras e africanas”, enfatiza. Atualmente, os cursos passam por processo de reforma curricular. “Essas disciplinas estão em mudança de ementa e nomes, visando destacar os conteúdos relacionados às pedagogias ancestrais e às tradições afro-diaspóricas e de povos originários.

O conteúdo programático passeia pelos diversos marcos do calendário festivo popular – dentre eles, os ciclos do carnaval e de São João, no primeiro semestre, o Dia da Consciência Negra e o ciclo natalino, no segundo. As turmas saem da Universidade para conhecer tradições como o jongo, “avô do samba”, e as folias de reis. Ao final do semestre, os alunos de “Dança e Pedagogia” apresentam um seminário a partir de uma tradição escolhida, abordando tanto o lado artístico quanto questões econômicas, sociais, políticas e territoriais da manifestação cultural estudada, além de criarem um plano de aula que reflita sobre essas pedagogias brincantes.

Em 2022, ainda durante a pandemia de Covid-19, a docente organizou o curso de extensão on-line Encontro de Saberes, sobre os chamados “sotaques” do Bumba meu Boi do Maranhão – estilos relacionados ao lugar de origem de cada grupo. “O estilo do boi do interior é diferente do estilo do boi do litoral, que é diferente do estilo da capital, uma ilha”, aponta Juliana.

Segundo ela, as especificidades permeiam a música, a dança, as cores e o bordado. “Os instrumentos mudam, o ritmo muda, a indumentária muda, os personagens, o jeito de dançar – e tudo isso está relacionado aos distintos territórios do Maranhão”. Cinco grupos de Bumba meu Boi participaram dos encontros. As 20 aulas do curso estão disponíveis para visualização no canal audiovisual Cultura UNIRIO.

No campo da extensão e cultura universitária, a professora coordena o coletivo Matuba, criado em 2014, quando ainda era aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIO. O grupo surgiu em resposta à mobilização de estudantes das Escolas de Música e Teatro, reivindicando o ensino das culturas tradicionais dentro da Universidade.

Aberto à participação da comunidade, o coletivo é formado por pesquisadores de pós-doutorado, estudantes de graduação e integrantes dos movimentos tradicionais. Uma vez por semana ocorre a reunião do grupo de pesquisa e, uma vez por mês, os membros se reúnem publicamente, para uma “brincadeira” nos Jardins do Centro de Letras e Artes (CLA), com apresentação de ritmos tradicionais. “Fazemos questão de que isso ocorra dentro da UNIRIO, para que os estudantes e professores que não conhecem a temática possam vir a conhecê-la e se interessar”, salienta.

No último mês de dezembro, o coletivo Matuba estreou o espetáculo Rastros Brasis, que reúne danças e ritmos tupiniquins, homenageando mestres e mestras da cultura popular. Este ano, o grupo tem planos de circular com o espetáculo e lançar um EP com cinco canções autorais, compostas pelos alunos.

Coletivo Matuba reúne pesquisadores de pós-doutorado, alunos de graduação e integrantes dos movimentos tradicionais (Foto: Arquivo pessoal)
Coletivo Matuba reúne pesquisadores de pós-doutorado, alunos de graduação e integrantes dos movimentos tradicionais (Foto: Arquivo pessoal)

Além-mar

O estudo das danças de umbigada levaria Juliana a cruzar as fronteiras nacionais para investigar além-mar a origem e a evolução das tradições afro-diaspóricas. Seu curso de doutorado incluiu um período-sanduíche em 2012, na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, quando conheceu as variantes africanas dessa família de danças.

“Fui para lá em busca das corporeidades que se relacionassem com as danças de umbigada que eu estava estudando”, destaca. A pesquisa resultou na tese Um convite à dança: Performances de Umbigada entre Brasil e Moçambique, defendida em 2014, novamente, sob orientação de Zeca Ligiéro.

De acordo com a professora, as danças de umbigada recebem esse nome porque incluem movimentos de encontro de umbigos – embora algumas delas tenham “embranquecido” com o tempo, passando a sugerir a aproximação, sem o contato físico de fato. Após muito viajar, ela percebeu que essas danças estavam presentes no Brasil inteiro.

“No Pará, por exemplo, era o lundú, berço corporal e musical de muitas tradições no país, como o maxixe e o chorinho”, ensina. “Pesquisei o tambor de crioula, no Maranhão, o coco de roda, em Pernambuco, o samba de roda, no Recôncavo Baiano, e o jongo, do Sudeste, que tem no Rio de Janeiro, e também no Espírito Santo e em São Paulo”, completa.

No continente africano, ela estudou danças de origem bantu, como a massepua, o tufo e o semba, que influenciaram as danças de umbigada do Brasil. “A palavra ‘samba’ deriva de semba. Então, a umbigada está relacionada ao movimento do samba”, indica. A experiência extrapolou os muros da universidade. “Conheci muitos grupos tradicionais locais, mestres e mestras, fui à periferia”, relembra.

Em Moçambique, a docente mergulhou no universo das danças de umbigada (Foto: Arquivo pessoal)
Em Moçambique, a docente mergulhou no universo das danças de umbigada (Foto: Arquivo pessoal)

Frutos

O diálogo com Moçambique permanece até hoje. Em novembro de 2023, já como docente da UNIRIO, Juliana esteve no país para organizar o primeiro encontro internacional Confluências Artísticas entre Brasil e Moçambique, sediado na Universidade Eduardo Mondlane. Em 2024, foi firmado o acordo de cooperação acadêmica entre as duas instituições e, em dezembro do mesmo ano, ocorreu a segunda edição do evento – dessa vez, sediado na UNIRIO.

Em 2025, o intercâmbio entre as universidades culminaria em uma nova disciplina de pós-graduação – "Confluências Artísticas entre Brasis e Moçambiques: performances, patrimônios, sonoridades e corporeidades". O curso foi ofertado na modalidade remota, como disciplina dos programas de pós-graduação em Música (PPGM) e em Memória Social (PPGMS) e do curso de graduação em Teatro e em Letras.

A iniciativa reuniu professores da UNIRIO e da Universidade Eduardo Mondlane. “Todas as aulas eram compartilhadas entre um docente brasileiro e um moçambicano”, destaca a professora. “Tinha o momento de cada um falar e o momento das perguntas, e permanecíamos o tempo inteiro em diálogo sobre as confluências entre cada país”.

Este ano, Juliana embarca novamente para Moçambique, onde permanecerá por dois semestres, desenvolvendo sua pesquisa de pós-doutorado. “Vou buscar a relação corporal entre a dança tradicional e a dança contemporânea no país”, revela. Ela também pretende realizar no período a terceira edição do encontro Confluências Artísticas.

Além de desenvolver a pesquisa acadêmica, a professora e “artista brincante” levará para o país africano sua performance Cazumbaria, que já passou pelas cidades de Paraty (RJ), Petrolina (PE), Itacaré (BA) e Cariri (CE). “Somos professores da Universidade, mas não podemos nos esquecer de que somos também artistas”, enfatiza.

O espetáculo reflete sobre territórios ocupados por mulheres e a relação desses espaços com ancestralidades, memórias e resistência. “Começo na tradição e termino trazendo uma cena contemporânea, relacionada às minhas memórias – à minha avó, à minha mãe e ao meu pai”, conta, revelando ter sido umas das primeiras mulheres a assumir o papel de Cazumba, ainda no início dos anos 2000. A performance, individual, foi concebida para ser apresentada em espaços abertos, em relação com a natureza.

Performance ‘Cazumbaria’ dialoga com as dimensões do feminino tradicional e contemporâneo (Foto: Divulgação)
Performance ‘Cazumbaria’ dialoga com as dimensões do feminino tradicional e contemporâneo (Foto: Divulgação)

Professora em tambor de crioula na Rua do Mercado, na cidade do Rio de Janeiro, em 2010 (Foto: Arquivo pessoal)

“Altar do boi”, território da reza do batizado (Foto: Arquivo pessoal)
“Altar do boi”, território da reza do batizado (Foto: Arquivo pessoal)

(Gabriella Praça - UNIRIO/Comso)

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