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Internados com Covid-19 recebem alta hospitalar sem condições para dirigir, revela estudo da UNIRIO

por Comunicação publicado 11/04/2022 13h26, última modificação 20/07/2022 13h36
Pesquisadores apontam prejuízo cognitivo em mais de 90% dos pacientes avaliados no momento da alta

Pacientes internados com Covid-19 podem não ter condições para dirigir após receber alta hospitalar, devido ao prejuízo cognitivo provocado pela doença. A constatação foi feita por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Neurologia (PPGNeuro) da UNIRIO, em estudo publicado no periódico Journal of Psychiatric Research.

Para a pesquisa, foram selecionados 30 pacientes internados no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG), de 19 a 66 anos, que manifestaram quadros moderados da doença, sem necessidade de intubação, e não apresentavam patologias neurológicas ou psiquiátricas. No dia da alta, cada paciente foi submetido ao Teste Computadorizado de Atenção Visual (TCAV), desenvolvido na década de 1980 e utilizado em avaliações neuropsicológicas para medir a capacidade de atenção.

O teste tem duração de um minuto e meio. Durante esse tempo, a cada segundo, é mostrada a ilustração de um losango ou de uma estrela na tela do computador, sendo a estrela o “alvo” a ser indicado. Quando esse alvo aparece, a pessoa deve pressionar a “barra de espaço” no teclado. O método permite medir variáveis como tempo de reação a estímulos e taxa de omissão (quando a tecla não é pressionada, mas deveria ser) e comissão (quando a tecla é erroneamente pressionada).

A análise dos dados revelou prejuízo cognitivo, em diferentes graus, em 93% dos indivíduos. Em um grupo pouco menor, correspondente a 76% do total, as perdas eram graves a ponto de impossibilitar a prática da direção segura. “As alterações ocorreram, principalmente, no tempo de reação e na variabilidade desse tempo ao longo do teste”, revela o médico intensivista Aureo do Carmo Filho, principal autor do estudo.

Grupo de controle

Para avaliar os resultados, os pesquisadores utilizaram um grupo-controle formado por 211 motoristas saudáveis habilitados pelo Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ), que haviam se submetido ao mesmo teste antes da emergência do novo coronavírus. Nesse grupo, apenas 16,6% dos participantes apresentaram alterações em uma ou mais variáveis mensuradas pelo teste, em contraste com os resultados encontrados no grupo dos pacientes avaliados.

Segundo o professor Aureo do Carmo, a explicação para o déficit cognitivo acarretado pela Covid-19 reside na ação direta do vírus em áreas cerebrais. “O Sars-CoV-2 tem a capacidade de provocar inflamação neuronal e de formar tromboses, ocasionando ‘microinfartos’ no cérebro”, aponta. Como consequência, ocorre o chamado brain fog (“névoa mental”), estado de confusão mental e dificuldade de concentração relatado por muitas pessoas após a recuperação da doença. “A maioria dos pacientes fazia queixas como: ‘Doutor, estou me sentindo mais lento’, ou ‘estou com problemas de memória’”, revela o médico.

O estudo contribui para a compreensão das consequências a longo prazo da Covid-19, especialmente no que diz respeito às sequelas neurológicas da infecção. Os pesquisadores pretendem analisar dados sobre acidentes de trânsito durante a pandemia, relacionando-os ao prejuízo atencional desencadeado pela doença. Será feita, também, a análise das imagens cerebrais dos pacientes, para a verificação da ocorrência de sequelas radiologicamente identificáveis.

Teste exibe imagens de losango e estrela durante um minuto e meio, estabelecendo a estrela como “alvo” a ser indicado (Crédito: Schmidt e Manhães)

registrado em: Ciência na UNIRIO

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