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Conhecer a memória do Rio de Janeiro é um projeto de desenvolvimento do Estado, afirma antropóloga Regina Abreu

por Comunicacao UNIRIO publicado 22/08/2013 00h00, última modificação 02/06/2015 09h24

No ar desde 2010, sob coordenação da antropóloga e professora da UNIRIO Regina Abreu, o portal Museus do Rio (www.museusdorio.com.br) apresenta um mapeamento dos museus cariocas e fluminenses, com informações, imagens e vídeos que retratam a história e a memória de nosso estado. O sucesso do portal despertou o interesse da Secretaria de Cultura do Estado do RJ, o que resultou numa parceria para publicação do “Museus RJ: Um guia de memórias e afetividades”.

Lançado na semana passada, durante a Conferência Geral do Conselho Internacional de Museus (Icom, na sigla em inglês), o guia será apresentado à comunidade da UNIRIO nesta sexta-feira, 23 de agosto, durante o encerramento da 12ª Jornada de Iniciação Científica.

A edição bilíngue (português-inglês) reúne informações sobre 72 instituições do Rio de Janeiro, além de percursos sugeridos na capital, nas regiões metropolitana, serrana e litorânea, na Costa Verde, no Norte e Noroeste, no Médio-Paraíba e no Centro-Sul.

Em entrevista ao site da UNIRIO, a professora Regina Abreu fala sobre o projeto Museus do Rio, desenvolvido no Laboratório de Memória e Imagem do Programa de Pós-Graduação em Memória Social (PPGMS) da UNIRIO, e sobre a parceria com o governo do Estado, viabilizada pela Superintendência de Museus da Secretaria Estadual de Cultura, sob responsabilidade da museóloga Mariana Varzea.

Regina também destaca a participação dos estudantes no projeto. “Foram muitos os alunos que passaram pelo projeto, como bolsistas ou voluntários, e tem sido muito gratificante perceber o quanto o projeto vem contribuindo para a trajetória destes alunos dentro e fora da Universidade. Alguns passaram a desenvolver temas ligados ao projeto no mestrado e até no doutorado. É o caso de uma ex-aluna de História que realizou sua dissertação no PPGMS sobre um dos museus pesquisados, o Museu Sambaqui da Tarioba, em Rio das Ostras, e hoje desenvolve uma tese também no PPGMS sobre o município de Caxias e seus museus. É um retorno muito positivo para a UNIRIO", avalia.

Leia a seguir a entrevista:

- Como surgiu o projeto Museus do Rio?

Regina Abreu: A ideia de sair da universidade, percorrer o Rio de Janeiro e levar os alunos para conhecer melhor a cidade e o Estado sempre foi uma preocupação minha. Em 2007, concorremos por meio de um edital da Faperj [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro], Pensa Rio, que contemplava projetos voltados a alavancar o Rio de Janeiro, em várias áreas, entre elas a de Memória e Patrimônio Cultural. A iniciativa do projeto foi de professores da UNIRIO, em parceria com professores de outras universidades, como a Uerj e a UFRJ. Entramos com o projeto ressaltando que conhecer melhor as memórias e o patrimônio cultural do Rio de Janeiro pode contribuir para alavancar projetos de sustentabilidade para o Estado. Isso porque um dos grandes tesouros do Rio de Janeiro é o fato de conter um celeiro de memórias plurais e diversificadas, que podem fomentar uma economia criativa para o Estado. Um exemplo está na cidade de Conservatória, que hoje vive do seu patrimônio material, os museus e casarios antigos, e do seu patrimônio imaterial, as famosas serestas que se tornaram referência até mesmo internacional.

- Como se deu, na prática, o desenvolvimento do projeto e como foi a participação dos estudantes nesse processo?

RA: Começamos a fazer caravanas com alunos da graduação, principalmente da Museologia, mas também alguns da História e do Programa de Pós-Graduação em Memória Social. Com isso foram surgindo temas para monografias, dissertações de mestrado e até para teses de doutorado. Como uma tese sobre o Museu Nacional e dissertações sobre o Museu Antonio Parreiras, em Niterói, sobre o Museu Casa do Pontal, sobre o Museu de Arte Sacra de Parati, entre outras. E tem outro lado, que é o do intercâmbio com a região. Como aconteceu com o Museu Casa da Hera, em Vassouras, que conta a história da Eufrásia Teixeira Leite, uma latifundiária ligada à economia cafeeira, namorada do Joaquim Nabuco, considerada muito à frente de seu tempo, uma figura incrível. Ela era uma benemérita da cidade e, como não teve filhos, deixou todo o seu patrimônio para o município de Vassouras. O museu retrata bem a vida daqueles barões do café. Depois de conhecermos e pesquisarmos sobre o museu, historiadores e intelectuais da Academia Vassourense de Letras nos convidaram para uma mesa-redonda, o que nos possibilitou entrar em contato com pessoas da cidade e argumentar sobre a importância da nossa pesquisa. Então o projeto vai redundando em outras ações. A atual diretora do Museu Casa da Hera conversou comigo recentemente interessada em fazer um doutorado conosco, por exemplo. Sempre digo que o melhor é sair da universidade, porque assim muitos mundos vão sendo descobertos. E na pesquisa você tem que ir para o campo, não dá para ficar dentro dos muros.

- Você mencionou que ainda há poucos registros da memória do Rio de Janeiro. Quais são os desafios de trabalhar numa área em que o conhecimento ainda está em construção?

RA: Quando começamos o trabalho, tivemos uma ajuda muito grande do Ibram, o Instituto Brasileiro de Museus. Na época, o professor Mario Chagas, que é da UNIRIO, era o diretor do Ibram. Ele estava fazendo, junto com a Rose Miranda, que tinha sido nossa aluna de Museologia, um inventário de museus do Brasil. Nós partimos desse mapeamento, que era preliminar, o que nos deu um bom ponto de partida para uma primeira identificação dos museus do Rio de Janeiro. Ligávamos para os lugares, marcávamos visitas e, assim, fomos descobrindo outros museus e muitos universos de patrimônio material e imaterial em nosso Estado. Assim, a pesquisa foi crescendo de forma surpreendente. E nós tínhamos sempre muita clareza sobre a função social da pesquisa para a sociedade. E, principalmente, para a cidade e para o Estado onde habitamos. A pesquisa, a meu ver, realiza-se plenamente quando, além de produzir conhecimento, contribui para novas políticas públicas. Acredito que a universidade deve estar sempre antenada com a sociedade e que o trabalho produzido por nós deve retornar para a vida social. Não podemos ficar encastelados, conversando apenas entre pares, falando para dentro, temos que fazer ecoar o que produzimos.

- Como aconteceu a parceria com o governo do Estado do RJ, que resultou na publicação do guia “Museus RJ”?

RA: Começamos a pesquisa em 2008. Em 2010, decidiu-se que a próxima reunião internacional do Icom seria no Rio de Janeiro. Quando eu soube disso, pensei: temos que fazer um trabalho para essa reunião, que vai dar visibilidade internacional para o Rio de Janeiro. Como não existia um guia atualizado dos museus do Estado, percebi que poderíamos sair na frente, tínhamos muito material. Reuni os bolsistas de iniciação científica, de mestrado e de doutorado do PPGMS e começamos a preparar esse guia. Foi aí que o Governo do Estado nos procurou, por meio da Mariana Varzea, que é a superintendente de Museus. Ela conheceu nosso trabalho graças a um assessor, que tinha sido meu bolsista de iniciação científica. Tínhamos lançado o portal Museus do Rio como uma forma de difundir os resultados da pesquisa em meio digital. Então a Mariana nos procurou e disse: tínhamos a ideia de criar um portal de museus do Rio, mas quando vi o de vocês achei que o melhor seríamos somar, e não fazer algo igual. E nos apresentou a proposta de fazer o guia impresso. Conversei com o coordenador do PPGMS, professor Francisco Farias, com nosso pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, professor Ricardo Cardoso, e com o reitor, professor [Luiz Pedro San Gil] Jutuca, que assinou um convênio com a Secretaria de Cultura para publicação do guia. Acertamos que esse foi o primeiro termo de compromisso, e nossa intenção é que seja o primeiro de muitos outros. Já temos a ideia de fazer um novo encontro de museus do Rio, que deve acontecer no Museu do Ingá, em Niterói.

- Além de reunir informações sobre os principais museus e centros culturais do Estado, o guia também indica percursos que retratam a história das diferentes regiões do RJ. Como foi feita essa seleção?

RA: Em nossa pesquisa trabalhamos com [o crítico e filósofo alemão] Walter Benjamin, que valoriza muito a ideia dos rastros, dos vestígios. Para ele, com o fim das pequenas comunidades, o ser humano é lançado como um anônimo que circula pela cidade. Então precisa colecionar vestígios, rastros, ruínas, porque com isso esse homem vai ganhando sentido e vai se territorializando. Em uma sociedade urbana, onde tudo muda muito rápido, as pessoas vão se sentindo desmapeadas. E a forma como você vai se mapeando é fazendo percursos e reconstruindo memórias. Durante nossa pesquisa, na medida em que fomos saindo do Rio, percebemos que os museus são pontos de referência. Trabalhamos o museu como um elo de ligação. Sempre que você entra em um museu alguma coisa te toca, porque aquilo tem a ver com você. Por isso chamamos de ‘Guia de memórias e afetividades’. É a ideia de que a memória te afeta. E usamos isso para definir o nosso caminho. Não queríamos que o guia fosse essencialmente geográfico, mas precisávamos de uma base no território. Então pensamos em fazer os percursos pelas regiões. São nove regiões administrativas do Estado do Rio de Janeiro, que nos serviram como um caminho para oito sugestões de percursos. Também propus aos bolsistas que cada um fizesse seu pequeno percurso, em que pudessem descobrir algo que os mobilizassem mais.

- Como a participação dos estudantes no projeto repercute em termos acadêmicos?

RA: Foram muitos os alunos que passaram pelo projeto, como bolsistas ou voluntários, e temos muito retorno dos nossos ex-alunos. Alguns hoje estão nos museus, outros na pós-graduação, outros no Ibram. É uma enorme gratificação para nós. O projeto também gerou muitas monografias, dissertações e teses. Inclusive no portal Museus do Rio temos um espaço para publicar esses trabalhos. Porque sentimos que muitos trabalhos desenvolvidos na universidade não são difundidos adequadamente. Ou o aluno não publica, e aí fica esquecido, ou até publica, mas em veículos de pouca circulação. Temos esse lema, o portal tem que contribuir para a difusão do conhecimento produzido na Universidade e para a valorização dos museus e dos tesouros de memórias contidos no Rio de Janeiro. E o livro "Museus RJ: Um guia de memórias e afetividades" certamente abrirá muitos outros caminhos para conhecermos e valorizarmos as memórias e o patrimônio cultural do nosso Estado.


Acesso a Informação Capes CNPQ