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'Quando escrevia, ele mergulhava na própria obra', diz filha de João Guimarães Rosa em aula aberta sobre o escritor

por Comunicacao UNIRIO publicado 04/12/2015 18h50, última modificação 08/12/2015 08h29

“O sertão está dentro da gente. Alguns têm um sertão pequenininho, outros têm um sertão grande: cada um tem que viver de acordo com seu sertão”. Foi assim que o escritor João Guimarães Rosa respondeu à pergunta da filha Agnes Guimarães Rosa Amaral quando ela lhe indagou: “Por que Grande Sertão?”. Em aula aberta sobre o autor realizada na noite desta quinta-feira, dia 3, na Escola de Letras, Agnes revelou essa e outras memórias com o pai e falou sobre a trajetória do escritor  desde os tempos em que trabalhava como médico no interior de Minas Gerais até sua morte, em 1967, aos 59 anos de idade, três dias após tornar-se imortal da Academia Brasileira de Letras. Com muito bom humor e deixando transparecer grande admiração pela figura paterna, a convidada abordou assuntos como a visão de mundo, o processo criativo, a vida amorosa e a carreira diplomática de Guimarães Rosa. Confira alguns trechos da aula, que integrou a disciplina Literatura Brasileira Moderna, lecionada pela professora Masé Lemos.

Família

“‘Joãozito’ era como mamãe o chamava. Para nós, ele era o ‘João Papai Beleza’. Conheci os dois: o escritor João Guimarães Rosa e o João Papai Beleza.”

“Eu combinava muito com ele no amor pelos bichos e pela geografia. Pegávamos uma barca e íamos para Paquetá. Papai dizia: ‘Desenha uma tartaruga !'. Eu ainda era pequena, mas ele me tratava como gente, não como uma criança tola.”

“Eu lia muito. Até os 15 anos, eu era aquela menina chata cujos pais não deixavam ler coisas mais sensuais. Depois disso, eles deixaram. Foi aí que li um livro chamado A Esquina do Pecado: a maior bomba que eu já li!”

“Papai dizia: ‘Leia muito, mas escolha quem você vai ler, pois ler coisas ruins não vale a pena’. Uma vez, perguntei quem eu deveria ler. Ele respondeu: ‘Você deve ler Rudyard Kipling, Joseph Conrad e Guimarães Rosa’.

 “Certa vez, na faculdade, tive que fazer um trabalho sobre um personagem histórico. Escolhi San Martín e minha nota foi 95. O professor me devolveu o texto com os dizeres: ‘Muito bom seu trabalho: 95. Não te dou 10 porque senti que tem dedo de Guimarães Rosa’. Mas tinha era sangue de Guimarães Rosa!”

Criação literária

“Quando ele escrevia, mergulhava na própria obra. Naquele momento, ele era o escritor Guimarães Rosa – não o homem nem o diplomata. Ele tinha um livrinho no qual tomava nota de tudo. Uma vez escrevendo, ele se transformava. E era uma pessoa muito angustiada – como todo artista, ele tinha a angústia da criação.”

“Ele gostava de ficar no cantinho dele escrevendo e lendo. Gostava de ir para uma fazenda e ficar conversando com as pessoas de lá. Gostava de gente.”

“A linguagem popular [utilizada nas obras] é a linguagem dele. Ele nasceu no interior e essa foi a linguagem que ele aprendeu. Depois de adulto, não assimilou a linguagem culta, usada no meio diplomático.”

“Eu perguntava por que os livros dele era difíceis de ler. Ele dizia: ‘Porque você não lê em voz alta.’ Tinha que pegar a entonação certa para ler.”

Trajetória

“Ele foi para Belo Horizonte quando terminou o colégio, fez faculdade de medicina lá, se casou e foi para Itaguara (MG). Mas ele não gostava de medicina, detestava ver as pessoas sofrerem. Quando foi para o interior, trabalhava com a ajuda de curiosos [em vez de profissionais] – e isso o deixou possesso."

“Depois, ele foi para Barbacena (MG), onde se tornou coronel-médico da Polícia Militar. Foi lá que eu nasci.”

 “Mamãe sugeriu que ele fizesse o concurso para o Itamaraty. Ele fez e passou em segundo lugar.”

“Ele gostava de viajar, ver novos costumes, novos mundos, mas não gostava de ser diplomata. Viajar é uma coisa; ser diplomata em um país estranho é outra.”

“O papai não gostava de mediocridade. ‘Quando você é medíocre, você perde metade da sua personalidade’, ele dizia.”

Vida pessoal

“Houve três mulheres importantes na vida dele. A primeira foi mamãe, que era a namoradinha que ele apanhava na porta da escola em Belo Horizonte. Na Alemanha, como diplomata, ele conheceu outra mulher, que chamo de ‘carma’ da vida do papai; foi o problema da vida dele. E a terceira, que digo que foi um ‘amor de outono’, se chamava Francisca.”

“Papai gostava de Bach e Mozart, mas a música preferida dele vinha dos berrantes [cornetas feitas de chifres de animais para chamar o gado no campo]. Ele dizia que aquilo era a melodia mais bonita do mundo, porque lembrava a infância dele.”

“Ele enchia a banheira de água quente, punha uma pilha de livros ao lado e ficava lendo – manias que ele tinha.”

“Tinha pavor de avião.”

“Em qualquer país onde chegasse, ele ia logo visitar o jardim zoológico e fazia comentários espirituosos sobre os bichos.”

“Quando ele foi para a Academia tomar posse, já foi de fardão. O taxista era português. Quando papai chegou, ele perguntou: ‘Sois rei’?”

“Ele quis ver as netas [pouco antes de ter um infarto fulminante]. Abraçou minha filha e disse: ‘Não esquece nunca do seu avô!' Acho que pessoas inteligentes como ele têm um sexto sentido.”

“Para mim, ele ficou encantado, não morreu. Ele está viajando, um dia desses aparece por aí.”

[Gabriella Praça/Comso]

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