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Pesquisa liderada pela UNIRIO aponta efeito antiviral da lactoferrina no combate ao Sars-CoV-2

por Comunicação publicado 21/05/2020 12h05, última modificação 21/05/2020 13h17
Ensaios ‘in vitro’ revelaram taxa inibitória de 84,6% da infecção pelo novo coronavírus

A lactoferrina, proteína derivada do leite, é capaz de inibir a infecção pelo novo coronavírus. A conclusão é do estudo In Vitro Inhibition of Sars-Cov-2 Infection by Bovine Lactoferrin, liderado pelo coordenador do Laboratório de Bioquímica Estrutural (LBE) da UNIRIO, Rafael Braga, e publicado esta semana em formato preprint – disponível para acesso aberto, ainda sem revisão dos pares.

Em experimentos in vitro conduzidos no Instituto Oswaldo Cruz, a infecção pelo Sars-CoV-2 em células renais de macaco (Vero E6) foi inibida em 84,6%, por meio da técnica de reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa quantitativa (qRT-PCR). Já em células pulmonares humanas, a taxa de inibição atingiu 68,6%, na concentração de lactoferrina de 1 mg/mL, utilizando-se o mesmo método. Segundo Braga, a técnica consiste na análise do número de cópias do material genético do vírus, que se replica ao infectar a célula, “produzindo grande quantidade de RNA”.

Uma vez concluída a etapa de experimentos in vitro, o passo seguinte será a realização de testes clínicos com a lactoferrina, para verificar a segurança e a eficácia da administração da molécula em seres humanos. Além da UNIRIO e do Instituto Oswaldo Cruz, também participam da pesquisa o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) e a Universidade Estadual do Pará (UEPA).

Efeito duplo

Braga tem desenvolvido pesquisas sobre a lactoferrina desde 2005. À frente do LBE, ele e sua equipe investigam a ação da biomolécula no tratamento de diversas doenças, como zika, chikungunya, febre amarela, dengue e influenza. De acordo com o professor, a ação da proteína, in vitro, é muito mais profilática que terapêutica. “Nos estudos realizados com os arbovírus mayaro, Zika e chikungunya, observamos que a lactoferrina impede que o vírus se ligue à célula, pois ela própria se liga aos receptores da membrana celular, deixando-os indisponíveis para o invasor”, ressalta. “Quando surgiu essa pandemia, logo pensei que a lactoferrina poderia funcionar também contra o Sars-CoV-2”, revela.

Foi, então, que ele encontrou um artigo científico publicado em 2011 evidenciando a atividade antiviral da lactoferrina contra outro coronavírus, o Sars-coV-1. O mecanismo de ação antiviral proposto pelo trabalho era a inibição competitiva – mesmo fenômeno apontado nos ensaios realizados com arbovírus no laboratório da UNIRIO. A ideia, agora, é utilizar a proteína para desenvolver um fármaco capaz de prevenir a Covid-19.

A lactoferrina é utilizada em diversos produtos, como cremes dentais e cápsulas para fortalecimento do sistema imunológico, vendidas como suplemento alimentar nos Estados Unidos. De acordo com Braga, há estudos in vitro indicando que a proteína apresenta potente atividade anti-inflamatória. “Acreditamos que ela também possa ter essa utilidade no tratamento da Covid-19, para evitar a resposta inflamatória exacerbada na região do pulmão, que pode provocar a morte”, aponta. A molécula teria, assim, dupla utilidade, atuando tanto na prevenção quando no tratamento da doença. Cabe ressaltar que não é recomendada a automedicação em qualquer hipótese e que, ao aparecimento de sintomas de Covid-19, deve-se seguir as orientações do Ministério da Saúde.


Capes CNPQ Imagem Rede Unirio