Pesquisadora da UNIRIO participa de rede internacional de agricultura espacial
O recente sucesso da missão Artemis II, que no mês de abril levou quatro astronautas em uma viagem ao redor da Lua, reacendeu o interesse sobre os desafios da presença humana no espaço. Um deles é como garantir um suprimento estável de alimentos para os astronautas. O Brasil já tem pesquisas avançadas no campo da agricultura espacial, e a UNIRIO está entre as instituições que contribuem para o desenvolvimento de estudos nessa área.
A professora Camila Maistro Patreze, do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (Ibio), é uma das integrantes da Rede Space Farming Brazil, rede de pesquisa que busca soluções inovadoras para a produção de alimentos em ambientes extraterrestres, com o suporte da Agência Espacial Brasileira (AEB) e liderança da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Coordenadora na UNIRIO do Laboratório de Biologia Molecular de Plantas e Fungos (LBMPF), Camila faz parte do subgrupo de microbiologia espacial da Space Farming Brazil. Nele, os pesquisadores estudam aspectos como a atuação de microrganismos (bactérias e fungos) no crescimento das plantas e no aumento da tolerância das espécies a situações extremas, similares às condições encontradas na Lua e em Marte, por exemplo.
Um dos experimentos realizados no âmbito da Rede aconteceu em outubro do ano passado, na Itália, com a participação da docente da UNIRIO. Sementes de plantas desenvolvidas especialmente para pesquisas espaciais foram levadas à caverna Grotte di Castellana para germinar e, em seguida, permanecer por 14 dias numa câmara de crescimento com condições rigorosamente controladas, a fim de simular ambientes fora da Terra. Algumas amostras foram inoculadas com um fungo específico (Trichoderma), visando à comparação de seu crescimento com o das amostras que não continham o fungo.
Segundo Camila, esse microrganismo é conhecido por ser benéfico e auxiliar no desenvolvimento das plantas, na absorção de nutrientes e na saúde em geral do vegetal. As análises das amostras que se desenvolveram no experimento seguem em andamento, para posterior publicação dos resultados encontrados.
Capacitação na Nasa e artigo em periódico internacional
A entrada de Camila Patreze na Rede Space Farming Brazil se deu no final de 2024, mas a professora iniciou as pesquisas na área um ano antes, em dezembro de 2023, com a orientação de uma tese do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas - Biodiversidade Neotropical (PPGBIO). A doutoranda Jéssica Carneiro Oliveira (atualmente com bolsa sanduíche na Florida Institute of Technology) desenvolve pesquisa, sob orientação de Camila, no campo da astrobotânica, em parceria com os pesquisadores de instituições norte-americanas, Rafael Loureiro e Andrew Palmer, que hoje também fazem parte da Space Farming Brazil. Por sugestão dos colegas, Camila se inscreveu, foi selecionada e realizou um curso oferecido pela Nasa.

A rotina de experimentos no laboratório da UNIRIO/ Camila Patreze (à dir.) e Jéssica Oliveira durante o 1º Simpósio Internacional sobre Agricultura Espacial - SIAE, realizado em 2025 (Fotos: Arquivo pessoal)
“Foi uma oportunidade incrível, a turma reuniu pesquisadores do mundo todo. O curso, do Programa STAR [Tecnologia, Aplicações e Pesquisa de Voos Espaciais, na sigla em inglês], fornece conhecimentos sobre ciências espaciais, incluindo plantas e microrganismos, que é meu campo de estudo”, explicou Camila.
A pesquisa desenvolvida no PPGBIO, com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio do Programa Apoio às Cientistas Mães com Vínculo em ICTs do Estado do Rio de Janeiro (2024), rendeu um artigo publicado recentemente na revista Frontiers in Astronomy and Space Sciences, que mostra o potencial dos chamados fungos benéficos para o crescimento de vegetal nas superfícies da Lua e de Marte. Isso porque os regolitos lunar e marciano apresentam desafios físico-químicos, como pH alcalino, altas concentrações de elementos tóxicos (como alumínio, manganês, percloratos) e baixa biodisponibilidade de nutrientes essenciais (como nitrogênio, fósforo e potássio). Os fungos poderiam atenuar ou reverter essas características.
Sobre as perspectivas futuras do campo das pesquisas botânicas no espaço, Camila tem uma visão otimista. “Vejo como algo viável, já temos anos de experimentos na Estação Espacial, desde a primeira germinação da planta modelo Arabidopsis no regolito lunar. Todas as pesquisas na Estação e em ambientes análogos indicam que vamos poder desenvolver plantas fora da Terra”, avalia.
Atualmente, além da doutoranda, Camila orienta alunos de Iniciação Científica que estudam o desenvolvimento de plantas, como o feijão-fava e a batata-doce, associadas a bactérias e fungos em regolito lunar e marciano. A docente também participa, em parceria com outros pesquisadores da Rede Space Farming Brazil, de estudos relacionados à adaptação de microrganismos promotores do crescimento vegetal às condições espaciais, como o voo suborbital e experimentos análogos em microgravidade.
Palestra no IFRJ
Nesta quinta-feira (11/6), às 13h30, a professora Camila Patreze ministrará a palestra "Plantas no espaço e suas contribuições para a sustentabilidade terrestre" no X Simpósio de Biotecnologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), localizado na Rua Senador Furtado, 121, Maracanã. Outras informações sobre o evento estão no perfil do Simpósio no Instagram.
(Daniela Oliveira, Comso/UNIRIO)

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