NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 08, número 13, 2008 - ISSN 1676-2924

 

Qual é a tarefa do tradutor? Uma conversa entre Benjamin e Borges

 

Lucrecia Corbella 

UNIRIO – PPGMS – Programa de Pós-Graduação em Memória Social

Mestranda em Memória Social / bolsista da CAPES pela UNIRIO/ PPGMS

lucorbella@ig.com.br

 

RESUMO:

 

O presente artigo visa a esclarecer a concepção do filósofo alemão Walter Benjamin sobre a tradução, assim como estabelecer uma relação entre essa concepção da tradução e a poesia de Jorge Luis Borges. A partir dessa relação, pretende-se refletir sobre a importância que a língua tem para cada um desses autores. Para poder fazer uma tradução, é preciso, antes, entender o que é uma língua e o que ela comunica. Para Borges, uma língua não é um mero amontoado de símbolos, mas contém toda uma tradição. Benjamin, por sua vez, afirma que existe afinidade entre as línguas, que se manifesta através da tradução. Para o filósofo alemão, em cada língua há elementos comunicáveis e outros incomunicáveis, misteriosos e justamente a tradução seria uma forma de lidar com o incomunicável da língua.

 

PALAVRAS-CHAVE: tradução, língua, comunicação.

 

ABSTRACT:

 

The present article deals with Walter Benjamin’s conception of translation. Establishing a relationship between his conception of translation and Borges’ poetry, one can get an idea of the importance of language for both authors. To translate, one needs to know what a language is and what it communicates. For Borges a language is not just a pile of symbols but a tradition. Benjamin states that there is an affinity among languages which can be raised from translation. Through translation it is possible to search for the core of language. In each language there are elements that can be communicated and mysterious elements that can not be communicated. Translation is a way to face the non communicative aspect of the language.

 

KEY WORDS:  translation, language, communication

 

 

 

 

                                                         

Paris, 1923, Bar La Tartine, final de tarde chuvosa, ouve-se este trecho de uma conversa entre dois amigos:

 

BENJAMIN- Querido Borges, ¿Es posible hacer una traducción?

BORGES- Y, mi querido Benjamin, diria que no, porque “los idiomas del hombre son tradiciones que entrañan algo de fatal”[1].

 

Esta conversa fictícia entre Walter Benjamin e Jorge Luis Borges poderia realmente ter acontecido já que este é um assunto que interessava profundamente tanto ao poeta quanto ao filósofo. Nesse mesmo ano de 1923, enquanto Borges escrevia os poemas de “Fervor de Buenos Aires”, Benjamin escrevia o texto filosófico “Die aufgabe des übersetzers” ou “A tarefa, renúncia do tradutor”. Para avançar na tematização da tradução e da convergência entre os diversos idiomas do homem, vejamos um dos mais belos poemas de “Fervor de Buenos Aires”:

 

“Las calles (1923)

 Las calles de Buenos Aires

ya son mi entraña.

No las ávidas calles,

incómodas de turba y de ajetreo,

sino las calles desganadas del barrio,

casi invisibles de habituales,

enternecidas de penumbra y de ocaso

y aquellas más afuera

ajenas de árboles piadosos

donde austeras casitas apenas se aventuran,

abrumadas por inmortales distancias,

a perderse en la honda visión

de cielo y de llanura.

Son para el solitario una promesa

porque millares de almas singulares las pueblan,

únicas ante Dios y en el tiempo

y sin duda preciosas.

Hacia el Oeste, el Norte y el Sur

Se han desplegado- y son también la patria- las calles;

ojalá en los versos que trazo

estén estas Banderas.”

 

Como traduzir este poema? É possível traduzi-lo? O que é preciso saber para poder traduzir um poema como este? Para os italianos, tradução é tradurre, mas também é tradire, ou seja, trair. Conforme essas sugestões presentes no italiano, poderíamos sustentar que fazer uma tradução é sempre cometer uma traição contra a língua original? Para Borges, traduzir é uma tarefa muito difícil, pois “un idioma es una tradición, un modo de sentir la realidad, no un arbitrario repertorio de símbolos”[2]. (BORGES, 1974, p.857).

Justamente por não ser um amontoado de palavras, e sim uma relação entre palavras que apresenta sentidos diversos em cada língua, é tão difícil saber exatamente como traduzir um poema. Como diz Borges, as línguas são tradições, dentro delas estão contidas visões de mundo, costumes, conflitos, prazeres, dores, esperanças, crueldades, deferências, críticas.  Como traduzir Borges sem entender um pouco a “alma portenha”?[3] Como traduzir Borges sem entender, por exemplo, o significado que as ruas de bairro tinham para ele? Como traduzir Borges sem perceber o caráter combativo dos argentinos que se mescla com os aspectos melancólicos? Como traduzir Borges sem entender que “el alma del porteño es gris”[4] e não ensolarada.

Borges, na sua escrita, afirma a língua espanhola, ou melhor, argentina, acima de tudo. A língua, para Borges, contém uma tragicidade intraduzível; ela já nasce poética. Nesse sentido, pode-se afirmar que o olhar que Borges tem da língua e da própria vida é ao mesmo tempo trágico e poético: “para un verdadero poeta, cada momento de la vida, cada hecho, debería ser poético, ya que profundamente lo es”.[5] (BORGES, 1974, p.1081). Seria possível fazer uma tradução fidedigna de Borges? Para avançar nesta problematização, vejamos o que pensa sobre a tradução o filósofo alemão Walter Benjamin.

Benjamin, em seu texto “A Tarefa, Renúncia do Tradutor”, de 1923, se pergunta o que comunica exatamente uma obra poética: o que seria essencial em uma obra poética?

Uma obra poética, para Benjamin, não é destinada ao leitor. Então, uma tradução tampouco estaria destinada ao leitor. Sendo assim, cabe perguntar: o que está em jogo numa tradução? Todo poema pode ser traduzido? Segundo Benjamin, a traduzibilidade é algo que diz respeito à essência da própria obra poética. Conforme essa perspectiva, para poder traduzir um poema, ele deve possuir na sua essência, no original, uma traduzibilidade inerente a ele próprio. Vejamos como podemos entender esta noção de traduzibilidade, na concepção de Benjamin. A traduzibilidade, para este autor, não significa, de forma alguma, que exista similitude entre o original e sua tradução. Ao enunciar a traduzibilidade de um texto de uma língua para outra, não estamos falando de identidade, nem que haveria uma relação especular entre o original e sua tradução: “de fato, essa relação é tanto mais íntima quanto nada mais significa para o próprio original”. (BENJAMIN, 2001, p. 193). O liame que há entre um texto e sua tradução para outra língua é denominado por Benjamin como “relação de vida”. E o que significa vida para Benjamin? Vida, para Benjamin, não é algo da ordem da alma nem tampouco da ordem da animalidade. Vida, para o pensador, “é tudo aquilo que possui história” (BENJAMIN, 2001, p.193). Ou seja, a vida, para Benjamin, é o que produz história e não um mero invólucro para a história. A história da obra de arte está sempre relacionada ao tempo em que o autor da obra de arte viveu. Quando a vida da obra de arte perdura no tempo, Benjamin afirma que estamos diante da fama. Mas a fama não é condição de existência, a fama é uma conseqüência da condição de permanecer vivo.[6] Só é possível traduzir uma obra de arte que perdure no tempo, que continue viva. Através da tradução, as obras artísticas podem renovar-se constantemente. Benjamin dá o nome de “desdobramento” à transformação no tempo de uma obra literária.

Retomemos a questão da tradução. É através da tradução que as línguas se aproximam: “a tradução tende a expressar o mais íntimo relacionamento das línguas entre si”. (BENJAMIN, 2001, p.195).  A tradução confere à obra poética uma espécie de intensificação do presente, ela outorga à obra poética uma posteridade, uma permanência num tempo futuro, que excede o tempo em que ela foi criada.[7] O que garante a vida de obra poética ao longo do tempo é sua tradução, são seus desdobramentos que lhe permitirão ter vigência em outras épocas. A tradução garante que a obra poética continue viva ao longo do tempo sempre se atualizando, estabelecendo um diálogo com o tempo presente. Então não se trata da mesma obra poética e sim de uma obra poética em sintonia com o tempo na qual ela foi traduzida, com os signos daquele tempo, com os olhares, os cheiros, os costumes, e os mistérios dessa época. Há sempre algo de misterioso que permanece na obra poética, algo que, mesmo oriundo de um passado longínquo, remete ao tempo futuro, algo do inusitado, do pressentimento, da intuição. É isto também que caracteriza a vida da obra poética. Aprofundaremos esta questão do mistério posteriormente.

Benjamin afirma que “as línguas não são estranhas umas às outras” (BENJAMIN, 2001, p.195). Ele nomeia essa característica de não estranheza de afinidade. É através da tradução que percebemos a afinidade entre as línguas. Diante disso, é possível indagar qual a relação entre o original e a tradução? Benjamin explica que a obra poética só permanece viva uma vez que se transforma. A transformação acontece tanto na língua do original quanto na língua materna do tradutor. Daí que, para Benjamin, as línguas não estão mortas, mas percorrem um processo de constante modificação.

Ainda devemos esclarecer o que significa afinidade. Afinidade é sinônimo de semelhança? Para Benjamin, não, afinidade nada tem a ver com semelhança. Segundo o filósofo, não há semelhança entre as obras poéticas nem entre as palavras que conformam a obra poética. A semelhança é da ordem da identidade, a afinidade, diferentemente, nada diz respeito à identidade. Apesar de existir uma relação de antecedência do original em relação à tradução, não é uma relação identitária, é uma relação de afinidade, de uma proximidade que não tem nada a ver com cópia nem com reprodução de um pretenso original. A afinidade, segundo Benjamin, não diz respeito a características isoladas de cada língua e sim a uma totalidade da língua: “Toda afinidade meta-histórica entre as línguas repousa sobre o fato de que, em cada uma delas, tomada como um todo, uma só e mesma coisa é designada; algo que, no entanto, não pode ser alcançado por nenhuma delas, isoladamente, mas somente na totalidade de suas intenções reciprocamente complementares: na pura língua”. (BENJAMIN, 2001, p.199).

Benjamin explica que esta é uma das leis da filosofia da linguagem, segundo a qual, por um lado encontra-se o modo de designar e, por outro lado, o designado. O modo de designar difere de língua a língua, e cada modo de designar traz à tona diferentes significações. Mas, para Benjamin, levando em consideração a totalidade da língua, apesar do modo de designar uma palavra ser diferente de uma língua para outra língua, o que é designado é a mesma coisa em todas as línguas. As palavras, em cada língua, têm diferentes significações, mas o seu significado, considerando a língua como um todo, é o mesmo. Por exemplo, para traduzir “eu te amo” do português para o espanhol, temos que mudar as palavras para tentar trazermos o mesmo significado em ambas as línguas. Quando traduzimos “eu te amo”, em português, por “te quiero” em espanhol, tivemos que trocar as palavras que têm diferentes significações para cada língua. Contudo, é possível afirmar que o significado é o mesmo: em ambas as línguas, aludimos ao sentimento de amor de uma pessoa por outra. Nesta linha de raciocínio, Benjamin sustenta que “tomadas em termos absolutos, elas significam a mesma coisa” (BENJAMIN, 2001, p.199).

Agora focando a questão do mistério que introduzimos acima, considerando o que estaria oculto no seio mesmo de todas as línguas, Benjamin afirma que a tradução é uma forma de lidar com este mistério: “Toda tradução é apenas um modo de alguma forma provisório de lidar com a estranheza das línguas”. (BENJAMIN, 2001, p.201).  Borges, por sua vez, escreveu um poema relevante, “Una Brújula” que fala justamente sobre este enigma que está contido na língua:

 

        Una Brújula (1964)

    Todas las cosas son palabras del

    Idioma  en que Alguien o Algo, noche y día,

    Escribe esa infinita algarabía

    Que es la historia del mundo. En su tropel

 

 

    Pasan Cartago y Roma, yo, tú, él.

    Mi vida que no entiendo, esta agonía

    De ser enigma, azar, criptografía

    Y toda la discordia de Babel.

 

   Detrás del nombre hay lo que no se nombra;

   Hoy he sentido gravitar su sombra

   En esta aguja azul, lúcida y leve.

 

   Que hacia el confín de un mar tiende su empeño,

   Con algo de reloj visto en un sueño

   Y algo de ave dormida que se mueve”.  (BORGES, 1974, p.875)

 

Para Benjamin, é como se, através da tradução, a angústia que sentimos em relação ao vazio, ao indecifrável, ao misterioso da língua, ficasse contornada.   Por isso Benjamin afirma que a tradução é uma forma.  Ela dá contorno ao que parecia incontornável, ela constrói delimitações onde parecia haver somente abismo. Benjamin sustenta que haveria uma missão quase mística da tradução, é como se através dela fosse possível atingir a origem da língua, aquilo que é “mais puro” na língua. É como se a tarefa do tradutor fosse uma busca por uma essência, pelo âmago da língua através da tradução. A tradução faz com que o original se modifique, é como se a tradução possibilitasse o caminho em busca da pureza da língua, deste âmago.[8] Benjamin denomina este âmago de núcleo essencial, o intocável, o que não pode ser traduzível. A poesia, na língua em que está originalmente escrita, tem certas relações que são intransponíveis para outra língua, pois cada língua outorga sentidos para as palavras e forja relações de sentidos entre elas, que, traduzidas para outra língua, perderiam totalmente o sentido do original. Benjamim afirma que esta quebra com o original produzida pela tradução, criando novos sentidos, novas relações entre os significados na língua materna do tradutor é importantíssima para a língua. A tradução coloca o original num limite intransponível no qual não há mais volta, no qual perdesse seu aspecto matricial, tornando-se algo novo, algo outro: “A tradução transplanta, portanto, o original para um âmbito – ironicamente - mais definitivo da língua, mais definitivo ao menos na medida em que o original não poderá mais ser transferido dali para parte alguma por nenhuma outra tradução; poderá somente ir sendo elevado para dentro dele, começando de novo e em outras partes”. (BENJAMIN, 2001, p.201 e 203).

Como a tradução tem uma forma própria, a tarefa do tradutor também é uma tarefa própria. Em que consiste esta tarefa? Benjamin afirma que “esta tarefa consiste em encontrar na língua para a qual se traduz a intenção, a partir da qual o eco do original é despertado”. (BENJAMIN, 2001, p.203). Benjamin diferencia a obra poética da tradução justamente neste ponto, na intenção. Enquanto uma obra poética é singular e se dirige a construções de sentido pontuais, a tradução dirige-se à língua enquanto um todo. Há também uma relação de pertencimento que o original tem com sua própria língua. Já a tradução jamais consegue estabelecer esta relação de inserção com a língua do original, ela fica sempre à margem deste pertencimento. Benjamin afirma que é justamente por não conseguir esta relação de pertencimento, a tradução, por estar situada numa dimensão de exterioridade, chama o original ao seu âmago, através do eco que ela estabelece com a língua da tradução: “o eco é capaz de reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra da língua estrangeira”. (BENJAMIN,  2001, p.203). Benjamin afirma que outra diferença entre o poeta e o tradutor reside na própria construção do trabalho de cada um. Quando o poeta escreve, ele é invadido por uma série de articulações de sentido como se esses sentidos irrompessem pela primeira vez, portanto, o trabalho dele é intuitivo. Já o tradutor se debruça sobre estes emaranhados de sentidos que já foram construídos pelo poeta e, racionalmente, procura estabelecer o eco destes sentidos na sua língua materna. É por esta razão que Benjamin considera o trabalho do tradutor importantíssimo por ter a relevante missão de integrar todas as línguas. Justamente é o tradutor quem integra todos os elementos isolados, contidos nas diversas  línguas. Essa integração entre as línguas é denominado por Benjamin como “verdadeira língua”. Seria uma língua perfeita na qual convivem todos os sentidos e todos os encontros de designação. A tradução é uma busca por esta “verdadeira língua”, é um árduo caminhar em direção ao desconhecido: “a tarefa de fazer amadurecer na tradução o sêmen da pura língua parece absolutamente insolúvel, indefinível numa solução qualquer”. (BENJAMIN, 2001, p.205).

A tarefa do tradutor não é algo simples de se definir. No próprio texto, Benjamin diz que os conceitos que caracterizam uma boa tradução são contraditórios entre si. Até agora sustentamos que a tradução é um trabalho racional por se tratar de uma tarefa dedutiva, não intuitiva. Também afirmamos que é uma busca pelo desconhecido na qual não é possível saber a priori aonde vamos chegar, então é uma construção artística.  Aqui já poderíamos detectar uma primeira complexidade: a tradução é um trabalho racional, dedutivo ou é um trabalho criativo e intuitivo? Não é por acaso que Benjamin afirma que a tradução está a meio caminho entre a poesia e a doutrina. A segunda contradição diz respeito à fidelidade e liberdade, conceitos que, durante muitos séculos, guiaram os tradutores para fazer suas traduções. Benjamin afirma que, além de contraditórios, estes conceitos deixaram de ser adequados para definir uma tradução que não seja uma mera reprodução de sentido. Pois, fica a questão da impossibilidade de ser fiel às palavras isoladas sem elas perderem seu valor poético. Neste ponto, Benjamin é categórico: não é possível ser fiel às palavras isoladas “pois, em seu valor poético para o original, o sentido não se esgota no designado; ele adquire esse valor precisamente pela maneira com que o designado se liga ao modo de designar em cada palavra específica”. (BENJAMIN, 2001, p.207). Para definir o que é uma boa tradução, Benjamin apresenta uma belíssima analogia com os cacos de um vaso. O importante na reconstituição de um vaso quebrado é a ligação entre os cacos. É fundamental prestar atenção aos mínimos detalhes, às ranhuras, ao colorido, ao tamanho. É uma construção delicada e atenta aos elos entre as partes. Benjamin diz que a procura do tradutor não é estabelecer uma semelhança entre a língua do original e a língua a ser traduzida e sim uma nova construção na própria língua a ser traduzida. É uma construção de elos entre os modos de designar entre as línguas em busca da verdadeira língua. E esta delicada construção deve ser feita com amor. Segundo Benjamin, a verdadeira tradução “é transparente, não encobre o original, não o tira da luz; ela faz com que a pura língua, como que fortalecida por seu próprio meio, recaia ainda mais inteiramente sobre o original”. (BENJAMIN, 2001, p.209).

Benjamin afirma que, nas línguas, existe o que é comunicável e também o que não é comunicável. O que não é comunicável pode ser simbolizante ou simbolizado: “Simbolizante são apenas os que se encontram nas construções finitas das línguas; simbolizados, os que estão no devir da própria língua. E o que se busca expor-se, e mesmo, constituir-se no devir das línguas é o próprio cerne da pura língua” (idem, idem). E esse movimento em busca do cerne da pura língua somente pode ser obtido pela tradução. Este cerne, para Benjamin, não diz respeito a um lugar onde estão todas as respostas, todas as equivalências entre simbolizantes e simbolizados. Este cerne é como se fosse um magma, ou melhor, uma fonte de energia criadora, onde a partir dela a língua se move e está em constante transformação. O tradutor bebe desta fonte e cria uma nova língua: “Redimir na própria língua a pura língua, exilada na estrangeira, liberar a língua do cativeiro da obra por meio da recriação- essa é a tarefa do tradutor” (BENJAMIN, 2001, p.211). O tradutor enriquece a língua, tornando-a mais ampla, mais repleta de novos sentidos e de novas significações, sempre em contato com o tempo presente. Ele, ao beber da fonte criadora do cerne da pura língua, quebra muros de contenção que limitavam a fluidez da língua. Com seu trabalho, o tradutor faz nascer uma nova língua que não tem mais uma relação identitária com a língua do original; ele recria uma relação mais fundamental, elas se aproximam pelo cerne e não pela forma. Por isso, a tradução tem uma relação delicada com o texto original, fazendo com que ele desabroche: “a tradução toca fugazmente e apenas o ponto infinitamente pequeno do sentido do original, para perseguir, segundo a lei da fidelidade, sua própria via no interior da liberdade no movimento da língua” (idem, idem). Segundo Benjamin, a tradução funciona através dos princípios de literalidade e liberdade, que devem andar sempre lado a lado.

Após estas ponderações, recolocamos a questão levantada no início: toda obra poética pode ser traduzida? Para Benjamin, não. Somente as que são verdadeiramente obras de arte são passíveis de tradução. Poderíamos afirmar que somente as obras clássicas de autores clássicos como Shakespeare, Molière, Cervantes são traduzíveis? Para Benjamin, não. A característica da traduzibilidade está imersa na obra. Por isso podemos afirmar que é possível traduzir Borges, Clarice Lispector, Ferreira Gullar e Liane dos Santos. Mas é claro, para isso, a obra precisa ser grande, grande no sentido de generosa, preciosa, delicada, rica de sentidos e aberta em seus horizontes. Vejamos um exemplo belíssimo de grande obra:

 

           AUSENCIA (1923)

 

Habré de levantar la vasta vida

que aún ahora es tu espejo:

cada mañana habré de reconstruirla.

Desde que te alejaste,

cuántos lugares se han tornado vanos

y sin sentido, iguales

a luces en el día.

Tardes que fueron nicho de tu imagen,

músicas en que siempre me aguardabas,

palabras de aquel tiempo,

yo tendré que quebrarlas con mis manos.

¿En qué hondonada esconderé mi alma

para que no vea tu ausencia

que como un sol terrible, sin ocaso,

brilla definitiva y despiadada?

 

Tu ausencia me rodea

como la cuerda a la garganta,

el mar al que hunde.” (BORGES, 1974, p.41)

 

Como traduzir o poema Ausencia, que Borges também escreveu em 1923?

Bem, esta é uma tarefa que reservamos para um grande tradutor.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BENJAMIN, Walter, A tarefa- Renúncia do tradutor (Die aufgabe des übersetzers), 2001, Clássicos da Teoria Bilíngüe, Antologia Bilíngüe, Volume I, Alemão- Português, Werner Heiderman (org.), Universidade Federal de Santa Catarina, CCE/DLLE- Núcleo de Tradução: Florianópolis.

 

BENJAMIN, Walter, Magia e Técnica, Arte e Política, Ensaios sobre Literatura e História da Cultura, Obras escolhidas, Volume 1, 2002, Editora Brasiliense: Rio de Janeiro.

 

BENJAMIN, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, 1992, Relógio D’Àgua Editores: São Paulo.

 

BORGES, Jorge Luis, Obras Completas, 1974, Emecé Editores: Buenos Aires, Argentina.

 


 

[1] BENJAMIN: Querido Borges é possível fazer uma tradução?

    BORGES: Veja bem, querido Benjamin, eu diria que não, porque “os idiomas do homem são tradições que entranham algo de fatal”. (a tradução é de minha autoria). A frase que está entre parênteses está contida no Prólogo de “El Otro y el mismo”. BORGES, 1974, p. 857.

[2] Um idioma é uma tradição, uma forma de sentir a realidade, não um repertório arbitrário de símbolos (as traduções do espanhol para o português são todas de minha autoria).

[3] Alma da pessoa nascida em Buenos Aires, Argentina.

[4] A alma da pessoa nascida em Buenos Aires é cinza. Esta frase estava escrita em um muro pintado de cinza numa ruela do bairro de Santelmo, Buenos Aires, em dezembro de 2008.

[5] Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é.

[6] Pode-se tomar como exemplo a carreira de uma grande atriz ou de um grande ator, para entender esta questão levantada por Benjamin. A fama, no caso desta grande atriz ou grande ator, é uma conseqüência de sua vida profissional e não um fim em si mesmo. A busca desses intérpretes não diz respeito à fama; e sim à construção de uma personagem imersa em uma história que merece ser lembrada.

[7]  A título de ilustração, o grande autor teatral italiano Luigi Pirandello afirma que a obra teatral morre a partir do momento em que autor a acaba de escrever. Ela só volta à vida quando encenada. São os atores e o diretor, com suas interpretações próprias, num determinado tempo histórico, quem lhes devolve a vida.  Pode-se ler esta concepção pirandelliana no prólogo da peça “Esta noite se Improvisa” na qual Pirandello, através da voz do Dr. Hinkfuss, dialoga com a platéia. Pirandello foi um autor que sempre expressou suas concepções da arte e da existência através da fala e das atitudes de suas personagens. 

[8] Há um poema realmente significativo de Borges no qual ele se refere a este âmago como “una felicidad que no viene del lado de la esperanza, sino de una antigua inocencia”. (BORGES, 1974, p.926) (“uma felicidade que não vem do lado da esperança, e sim de uma antiga inocência”).