NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 08, número 13, 2008 - ISSN 1676-2924

 

Memória Social e Transdisciplinaridade

 

Edna Maria Galvão

UNIRIO – PPGMS – Programa de Pós-Graduação em Memória Social

Pedagoga/Professora de História, Mestre em Educação e doutoranda em Memória Social.

edna.galvao@gmail.com                                                                                        

 

RESUMO

A transdisciplinaridade objetiva compreender um mundo que carrega a característica da complexidade e no qual o conhecimento é cada vez mais imperativo. Propõe ultrapassar o universo fechado da ciência e trazer à tona a multiplicidade dos modos de conhecimento. A maneira de o homem ver o mundo, de pensá-lo e de se repensar a si próprio, mudou. Atualmente, não há dicotomia entre sujeito e objeto, já que se leva em conta a interação entre um e outro. Nessa direção, a tríade sujeito/objeto/interação coexiste num mesmo instante do tempo e a tensão entre os contraditórios constrói uma unidade maior, que os inclui. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade na medida em que atravessa, coerentemente, os diversos domínios do conhecimento.  Essa discussão abrange a Memória Social, por ser um campo transdisciplinar, que atravessa e é atravessado por diversos saberes.

PALAVRAS-CHAVES: transdisciplinaridade, complexidade, campos de saber.

 

ABSTRACT

The transdisciplinarity aims to understand a world known for its complexity, in which the more knowledge we can achieve, the better. The main goal of transdisciplinarity is to go beyond the closed universe of science and bring to light knowledge’s multiplicity of modes. The general way human beings see the world, try to understand it and themselves have changed. Nowadays there is no dichotomy between subject and object, since both interact with each other. Thus, the triad subject / object / interaction coexists in the same instant of time, and the tension between the contradictory builds a larger unit. The logic of the included third one is a logic of the complexity, as it consistently crosses, coherently, the various fields of knowledge. This study deals with the Social Memory, as it is a transdisciplinary field, in wich different types of knowledge are in connection.

KEYWORDS: transdisciplinarity, complexity, fields of knowledge.

 

 

 

A transdisciplinaridade é uma circulação de idéias, um exercício que se faz na mudança de hábitos, nos questionamentos que fazemos, propomos e trocamos com o outro. É um trânsito, um diálogo entre um ou mais campos de saber com vários outros campos. É o movimento, um fluxo de idéias e uma nova maneira de pensar essas idéias, uma proposta nova de ver e atuar no mundo, construção pulsante do conhecimento, necessária à sociedade contemporânea que abriga subjetividades múltiplas.

O prefixo trans indica que a transdisciplinaridade está entre, através e além de qualquer disciplina. O objetivo da transdisciplinaridade é compreender um mundo no qual o conhecimento se torna cada vez mais imperativo. Nesse entendimento o olhar transdisciplinar aponta para uma multiplicidade de discursos e de práticas sociais que supera antigos paradigmas no que se refere às concepções tecnicistas e analítico-reducionistas dos chamados “especialismos”, que terminam por despotencializar as atividades de criação.

Pensamos como Foucault (1979), que as ações praticadas no mundo não são neutras e que por isso, possuem poderosos efeitos. Nessa direção, com as nossas práticas determinando as coisas, urge mudar o paradigma da disciplinarização para aquele que traga o entrecruzamento de saberes necessários à complexidade contemporânea. A transdisciplinaridade é uma tendência atual, no que se refere à sociedade da informação e do conhecimento, e aponta uma mudança de cenário em relação à hierarquia entre os saberes disciplinares que não se sustentam mais na contemporaneidade. Propõe, portanto, ultrapassar o universo fechado da ciência e trazer à tona a multiplicidade de novos modos de conhecimento que objetiva compreender um mundo complexo e no qual o conhecimento é cada vez mais imperativo.

Nessa direção, Edgar Morin (2002) criador do conceito de complexidade, termo oriundo da Cibernética, aponta que o ser do mundo e no mundo tem a capacidade de interferir e modificar o seu próprio mundo. O pensamento científico ou disjunta realidades inseparáveis sem poder encarar a sua relação, ou identifica-as por redução da realidade mais complexa à realidade menos complexa. Isso indica que a complexidade se liga a tudo e nada está isolado no Cosmos e sim relacionado a algo, isto é: o indivíduo é autônomo e dependente ao mesmo tempo, numa circularidade que o distingue e o singulariza.

Essa discussão abrange a Memória Social, por ser um campo transdisciplinar, que atravessa e é atravessado por diversos saberes. Dessa forma, refletir acerca das práticas sociais para buscar na diversidade uma maior disseminação de conhecimento possível entre os diversos campos da Ciência é discutir o avanço no entrecruzamento de saberes dos diversos campos, sejam eles: econômico, cultural, social, política, de raça e de credo.

Nesse sentido, a idéia é repensarmos a questão disciplinar no contexto desta primeira década do século XXI, discutindo o avanço do conhecimento com o entrecruzamento de saberes. A transdisciplinaridade é percebida pela Memória Social, por seu cunho político e social dentro da economia global dos diversos campos de saber, segundo Gondar (2008):

a Memória Social, como objeto em permanente construção, não pertence a nenhuma disciplina específica, mas se produz e se alimenta dos movimentos transversais entre diferentes saberes, e entre saberes e práticas. É justamente nesses interstícios que a memória pode ser construída como objeto de pesquisa e como potência de transformação social.

 

Pensamos que em uma sociedade dita do conhecimento, não cabe mais compartimentalização de saberes, pois a incompletude das disciplinas já não dá conta da certeza das complexas e atuais necessidades de informação e de conhecimento. A Memória Social é um campo que, por ser transdisciplinar, percebe o mundo dessa forma e visa dialogar e discutir com as Artes, as novas mídias e tecnologias e com todas as áreas do saber nas quais atravessa e pelas quais é atravessada.

A transdisciplinaridade, dentro desse pensamento, direciona sua força para os diversos campos, sejam eles: econômico, cultural, social, política, de raça e de credo, que tangencia uma sociedade e que se fortalece nela mesma, moldando novos valores e promovendo desequilíbrio entre as estruturas sociais para transformar e trazer paradigmas novos.

Basarab Nicolescu (2000), romeno que foi considerado pela UNESCO uma das 20 personalidades de maior influência na educação do século XX e um dos maiores estudiosos da transdisciplinaridade, pontua que este é um campo que aborda e atravessa as fronteiras epistemológicas de cada ciência. Uma das propostas da transdisciplinaridade - cuja carta encontra-se em anexo - é romper com a dicotomia entre sujeito e objeto. A transdisciplinaridade propõe transcender o universo fechado da ciência e trazer à tona a multiplicidade fantástica dos modos de conhecimento. O termo data de 1970 quando Piaget o introduziu durante um colóquio em Nice (PIAGET, 1970), afirmando que a interdisciplinaridade deveria ser sucedida pela transdisciplinaridade que, para ele, seria a memória do conhecimento. Também ali foi aceita a adição do “para além das disciplinas” à definição do conceito de Nicolescu (1996): a transdisciplinaridade diz respeito ao que se encontra entre as disciplinas, através das disciplinas e para além de toda a disciplina.

Para Nicolescu (2000), o cientificismo, em nome de uma verdade absoluta, transformou o homem em objeto de experiências limitando a realidade que o cerca a um único nível e relata o surgimento da complexidade a partir das pesquisas que resultaram no nascimento de inúmeras disciplinas, as quais focando-se nas limitações de se ter um conhecimento total e pleno, sobre seus respectivos assuntos oferecem, no máximo, uma “incompetência generalizada”. O autor aponta a transdisciplinaridade como uma solução possível para a adaptação do indivíduo aos saberes e aos novos conhecimentos vivenciados.

Sabemos que para acontecer a explosão do conhecimento, o modelo de um universo mecânico e fracionado elaborado por Descartes (1637), foi importante para o desenvolvimento científico e tecnológico que se seguiu. Esse modelo e mais ainda os que regem as leis de Bacon, Copérnico, Galileu, Newton e Kepler deram conta nos séculos 17, 18 e 19 e ainda de uma boa parte do século 20, privilegiando o intelecto, mas, contudo, relativizando questões como a da sensibilidade e a do corpo. No século XXI, portanto, urge que sejam levadas em consideração todas as dimensões do ser humano para se alcançar um equilíbrio entre a inteligência analítica, o sentimento e o corpo e para que a sociedade contemporânea possa, a partir daí, reconciliar a efetividade dos níveis de realidade com a afetividade nos níveis de percepção, harmonizando sujeito e objeto. Nicolescu (2000) operando dentro desta lógica aponta que o conhecimento é assimilado pela inteligência quando o mesmo é compreendido também com o corpo e com o sentimento.

A evolução das ciências abalou as bases do pensamento científico clássico, ou seja, os critérios de ordem, de separabilidade e de razão. As mudanças trazidas pela física quântica e pela teoria da complexidade trouxeram um universo onde a ordem não é absoluta, a separabilidade é limitada e provocaram o surgimento de uma lógica transgressora que comporta as descontinuidades.

A maneira de ver o mundo, de pensá-lo e de se repensar a si próprio, mudou. O sujeito e seus muitos níveis de percepção são o sujeito transdisciplinar e, a descontinuidade, o objeto transdisciplinar. O problema sujeito/objeto foi reflexão filosófica do mundo quântico, para quem essa divisão binária opera na abordagem transdisciplinar pela lógica ternária: sujeito/objeto/interação, sendo a interação, o terceiro termo, o qual Nicolescu chama de terceiro incluído. Este, não é redutível nem ao objeto, nem ao sujeito. Para Nicolescu (2000), a redução de qualquer um desses dados a um único nível de realidade produz a aparência de pares antagônicos, mutuamente exclusivos. A tríade sujeito/objeto/interação coexiste num mesmo instante do tempo e, a tensão entre os contraditórios, constrói uma unidade maior, que os inclui. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade, na medida em que atravessa, coerentemente, os diversos domínios do conhecimento.

Morin (2002) vem corroborar com essa idéia ao afirmar que o pensamento complexo, ou seja, a complexidade está apta a reunir, contextualizar, globalizar, e ao mesmo tempo a reconhecer o singular, o individual e o concreto. Caminhando nessa direção a transdisciplinaridade é uma tendência derivada da necessidade da desfragmentação do conhecimento, onde a hierarquia entre os saberes está com os dias contados, visto um cenário em que não há mais apenas um saber nem uma verdade absoluta.

Para Zemelmam (1995) transdisciplinaridade é a reunião das contribuições de todas as áreas do conhecimento num processo de elaboração do saber voltado para a compreensão da realidade, a descoberta de potencialidades e alternativas de se atuar sobre ela, tendo em vista transformá-la. Como já apontamos, uma das propostas da transdisciplinaridade é o rompimento da dicotomia entre sujeito e objeto, a qual propõe diferentes níveis de percepção de realidade: uma alternância entre os níveis da sensibilidade, da experiência e da prática.

Nesse sentido, na sociedade do conhecimento e da informação, a Memória Social é uma abordagem que passa entre, além e através das disciplinas, numa busca de compreensão da complexidade, e que não é mais considerada um braço da História. A Memória guarda e preserva as culturas, as línguas, os bens culturais, o saber fazer, as crenças e ritos de um povo e de uma sociedade. Sua transdisciplinaridade potencializa as tendências subjetivas heterogêneas em contraponto às tendências homogeneizantes. Seria como o rizoma de Deleuze e Guattari (1976) – uma rede de autômatos finitos, dentro da condição de complexidade, em que não há uma cópia de uma ordem central, mas múltiplas conexões que são estabelecidas a todo o momento. Uma rede virtual que passa, perpassa e transpassa o conhecimento de todos para todos, ora em uma luta de forças, ora em harmonia.

A transdisciplinaridade pode se dar através de um processo de curto, médio ou de longo prazo, porém depende de criarmos lugares que possibilitem seu caminhar e assegure seu desenvolvimento. É nessa direção que pensamos que a Universidade é o locus privilegiado onde esse processo pode se tornar uma corrente dirigida às complexas necessidades contemporâneas.

Para Basarab Nicolescu (2000) a atitude transdisciplinar paira, pois, sobre a busca de novos laços sociais e é embasada por uma revolução da inteligência com vistas à dimensão poética da existência. A memória social como campo de saber transdisciplinar constitui nossas subjetividades, posto que somos atravessados pelas forças que nos afetam.  Propõe transcender o universo fechado da ciência e trazer à tona a multiplicidade dos modos de conhecimento e reafirmar o valor de cada sujeito como criador legítimo de conhecimento.

Quando apontamos a Universidade como locus ideal para a normatização da transdisciplinaridade é no entendimento da real necessidade de um aprofundamento na utilização deste conceito, para evitar a hiperespecialização profissional e o grande número de disciplinas que não acompanham todo o desenvolvimento, principalmente na área tecnológica, visando formar profissionais compatíveis com as exigências do atual mercado de trabalho. A proposta é que ocorra uma interrelação, uma conexão, uma complementação dos diversos saberes que compõem o corpus universitário.

 Esclarecendo um pouco mais, Edgar Morin (2002) adverte que o grande problema da ciência moderna foi acreditar que a validade de sua experiência fosse aplicável a todas as demais formas de validação da verdade existentes no mundo. A concepção de que o conhecimento científico era mais importante do que o conhecimento humano promoveu a elevação da racionalidade ao posto de comando dos saberes humanos e recusou toda forma de saber que não estivesse sob a ótica cartesiana-newtoniana. Esta lógica racionalista, abstrata e objetiva, não está funcionando a contento na contemporaneidade, o que propiciou uma abertura à lógica das afecções - lógica interna que surge das subjetividades e que não se opõe à lógica externa -, pelo contrário a complementa. Esta lógica opera dentro de uma metodologia deontológica, ou seja, o estudo dos princípios, dos fundamentos e sistemas de moral; e também do tratado dos deveres, a fim de que as ocorrências naturais e antropossociais possam ser analisadas e nas quais não somente o racional seja peso de valia para a análise dos fatos, mas também o emocional. O que importa é o processo em que os motivos e as repercussões se dão.

Diferentemente da lógica cartesiana-newtoniana que deu origem à disciplinarização baseando-se na decomposição do todo, a lógica transdisciplinar prega a conexão dos saberes e a interrelação dos conhecimentos, englobando e transcendendo o que passa por todas as disciplinas, buscando encontrar seus pontos de interseção e um vetor comum.

Não há como não ser influenciado pelas transformações e mudanças de paradigmas que estão acontecendo na contemporaneidade. Um exemplo é a importância que hoje se dá ao papel do observador, sem o qual não existe o observado e as influências que um sofre com o outro. As possibilidades estão aí e se abrem através das diversas janelas disponíveis para o conhecimento, não há mais apenas uma única janela para se olhar o mundo. Portanto, novas definições abertas e direcionadas para o enfoque sistêmico e transdisciplinar são necessárias para que possamos sair dessa inteligência compartimentada e de arcabouço reducionista, que a atual sociedade do século XXI está dispensando.

Há hoje a possibilidade de escolha da abordagem transdisciplinar como uma nova prática de vida e que, por sua vez, não exclui a visão clássica. À multiplicidade de conceitos e problemas que atravessam o campo de estudos da Memória Social corresponde o seu caráter transdisciplinar, no qual as perspectivas não se esgotam e sim se redimensionam, mas que não prescinde, no entanto, da severidade científica. Segundo Edgar Morin (1997), essa racionalidade aberta pressupõe uma relação dialógica com o rigor, com a abertura e com a tolerância. A transdisciplinaridade é o mecanismo de ruptura com as linhas fronteiriças das disciplinas, e para Morin (2002), é a forma mais adequada para que a sociedade consiga solucionar os problemas pós-modernos, os quais se apresentam no mundo contemporâneo. A lógica dialógica desse mundo está direcionada para uma produção do conhecimento complexo e globalizante.

Entendemos ser fundamental conferir à metodologia transdisciplinar um maior peso posto que, já não cabe, na contemporaneidade, o saber fragmentado, baseado na lógica racionalista, cartesiana, estática e simplista e, onde somente uma nova ordem de valor, poderá apreender as transformações de um mundo global, amplo, complexo e digital.  É através dos níveis de realidade, ou seja: da razão sensível, da razão experiencial e da razão prática, da complexidade (o dizer não ao pensamento unívoco); e da lógica do terceiro incluído (interação entre sujeito e objeto), que a metodologia da transdisciplinaridade é definida.

A busca pela superação da visão racionalista e linear aposta em uma abordagem sistêmica e transdisciplinar. Nessa medida, a transdisciplinaridade traz a proposta de mudança da visão fragmentada para a de concepção transdisciplinar, na qual a complexidade integra-se aos diversos modos de pensar opondo-se ao pensamento linear, reducionista e disjuntivo, na qual o terceiro incluído interage entre o sujeito e o objeto coexistindo num mesmo instante do tempo. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade, na medida em que atravessa, coerentemente, os diversos domínios do conhecimento.

 

 

REFERÊNCIAS

 

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia.Vol.2. São Paulo: Ed. 34, 1995.

 

DESCARTES, R. Œuvres, édition Charles ADAM et Paul TANNERY, Léopold Cerf, 1897-1913, 13 volumes ; nouvelle édition complétée, Vrin-CNRS, 1964-1974, 11 vol. (edição de referência).

 

FAZENDA, Ivani. Dicionário em construção: interdisciplinaridade. São Paulo: Cortez, 2001.

 

GONDAR, Jô. Justificativa do folder. II Seminário Memória, Subjetividade e Criação: afecções e reflexões acerca da Memória Social. UNIRIO, 2008.

 

MORIN, Edgar; LE MOIGNE, Jean Louis. A inteligência da complexidade. São Paulo: Petrópolis, 2004.

 

______ . A religação dos saberes: o desafio do século XXI. Idealizadas e dirigidas por Edgar Morin. Tradução e notas, Flávia Nascimento. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. 588p.

 

______ . Ciência com consciência. Trad. Maria D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. Ed revista e modificada pelo autor. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 350p.

 

______. Educação e Complexidade: os sete saberes e outros ensaios. Edgar Morin; Maria da Conceição de Almeida; Edgard de Assis Carvalho – tradução, (Orgs.). São Paulo: Cortez, 2002. 102p.

 

______. Introdução ao Pensamento Complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 1991.

 

______. Complexidade e Transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental. Natal: EDUFRN, 1999.

 

NICOLESCU, Basarab. Educação e transdisciplinaridade. Brasília: UNESCO, 2000.

 

______. O Manifesto da transdisciplinaridade. Portugal: Hugin Editores, 2000.

 

______. Educação e transdisciplinaridade II. CETRANS – São Paulo: Triom, 2002.

 

ZEMELMANN, H. 1995. Determinismos y alternativas en las Ciencias Sociales de América Latina. Universidad Nacional Autónoma de México. Nueva Sociedad. México. 

 

Carta de Transdisciplinaridade (adotada no Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, Convento de Arrábida, Portugal, 2-6 novembro 1994)

Preâmbulo

·                     Considerando que a proliferação atual das disciplinas acadêmicas conduz a um crescimento exponencial do saber que torna impossível qualquer olhar global do ser humano;

·                     Considerando que somente uma inteligência que se dá conta da dimensão planetária dos conflitos atuais poderá fazer frente à complexidade de nosso mundo e ao desafio contemporâneo de autodestruição material e espiritual de nossa espécie;

·                     Considerando que a vida está fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante que obedece apenas à lógica assustadora da eficácia pela eficácia;

·                     Considerando que a ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais acumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido leva à ascensão de um novo obscurantismo, cujas conseqüências sobre o plano individual e social são incalculáveis;

·                     Considerando que o crescimento do saber, sem precedentes na história, aumenta a desigualdade entre seus detentores e os que são desprovidos dele, engendrando assim desigualdades crescentes no seio dos povos e entre as nações do planeta;

·                     Considerando simultaneamente que todos os desafios enunciados possuem sua contrapartida de esperança e que o crescimento extraordinário do saber pode conduzir a uma mutação comparável à evolução dos humanóides à espécie humana;

·                     Considerando o que precede, os participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (Convento de Arrábida, Portugal 2 - 7 de novembro de 1994) adotaram o presente Protocolo entendido como um conjunto de princípios fundamentais da comunidade de espíritos transdisciplinares, constituindo um contrato moral que todo signatário deste Protocolo faz consigo mesmo, sem qualquer pressão jurídica e institucional.

Artigo 1: Qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma mera definição e de dissolvê-lo nas estruturas formais, sejam elas quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar.

Artigo 2: O reconhecimento da existência de diferentes níveis de realidade, regidos por lógicas diferentes é inerente à atitude transdisciplinar. Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível regido por uma única lógica não se situa no campo da transdisciplinaridade.

Artigo 3: A transdisciplinaridade é complementar à aproximação disciplinar: faz emergir da confrontação das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa.

Artigo 4: O ponto de sustentação da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas. Ela pressupõe uma racionalidade aberta por um novo olhar, sobre a relatividade definição e das noções de ““definição”e "objetividade”. O formalismo excessivo, a rigidez das definições e o absolutismo da objetividade comportando a exclusão do sujeito levam ao empobrecimento”.

Artigo 5: A visão transdisciplinar está resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas por seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual.

Artigo 6: Com a relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é multidimensional. Levando em conta as concepções do tempo e da história, a transdisciplinaridade não exclui a existência de um horizonte trans-histórico.

Artigo 7: A transdisciplinaridade não constitui uma nova religião, uma nova filosofia, uma nova metafísica ou uma ciência das ciências.

Artigo 8: A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O surgimento do ser humano sobre a Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional de um pertencer duplo - a uma nação e à Terra - constitui uma das metas da pesquisa transdisciplinar.

Artigo 9: A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta com respeito aos mitos, às religiões e àqueles que os respeitam em um espírito transdisciplinar.

Artigo 10: Não existe um lugar cultural privilegiado de onde se possam julgar as outras culturas. O movimento transdisciplinar é em si transcultural.

Artigo 11: Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração no conhecimento. Deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar reavalia o papel da intuição, da imaginação, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos.

Artigo 12: A elaboração de uma economia transdisciplinar é fundada sobre o postulado de que a economia deve estar a serviço do ser humano e não o inverso.

Artigo 13: A ética transdisciplinar recusa toda atitude que recusa o diálogo e a discussão, seja qual for sua origem - de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado deverá conduzir a uma compreensão compartilhada baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma única e mesma Terra.

Artigo 14: Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na argumentação, que leva em conta todos os dados, é a barreira às possíveis distorções. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às idéias e verdades contrárias às nossas.

Artigo final: A presente Carta Transdisciplinar foi adotada pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, que visam apenas à autoridade de seu trabalho e de sua atividade.

Segundo os processos a serem definidos de acordo com os espíritos transdisciplinares de todos os países, o Protocolo permanecerá aberto à assinatura de todo ser humano interessado em medidas progressistas de ordem nacional, internacional para aplicação de seus artigos na vida.

Convento de Arrábida, 6 de novembro de 1994. Comitê de Redação: Lima de Freitas, Edgar Morin e Basarab Nicolescu.