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Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 08, número 13, 2008 - ISSN 1676-2924

 

Polifonia de vozes: conversa e encontro entre jovens e velhos

 

Cristie de Moraes Campello

UERJ

Mestre em Memória Social

Professora na UNATI

cristie.campello@ig.com.br

 

Sandra Albernaz de Medeiros

UNIRIO - CCH  

Doutora em Memória Social, professora adjunta 4 do Departamento de Fundamentos da Educação:

sandra.albernaz@globo.com

 

 

RESUMO: O trabalho pretende evidenciar como nos tempos atuais a juventude e a velhice são apontadas como etapas da vida em oposição; a primeira delas vista como portadora da beleza e, portanto, do “bom”, e a segunda referir-se-ia ao momento da vida no qual se experimentaria nada mais que perdas e ressentimentos. Tais representações empobrecem as múltiplas experiências e são apontadas como inadequadas. Propomos uma crítica a esta perspectiva tendo como referência as idéias de Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, e a partir de suas noções de impulso apolíneo, dionisíaco e do trágico. Perguntamo-nos sobre a possibilidade de um encontro existencial entre jovens e velhos. Relata-se uma experiência na UnATI, na qual observou-se a falta de pertinência das representações cristalizadas a eles atribuídas e propomos a idéia nietzcheana de afirmação da vida, condição na qual as forças da vida se mostrariam em todas as suas variações e intensidades. 

Palavras-chave: velhice, juventude, encontro

 

ABSTRACT: This paper wants to show how nowadays youth and elderly are seen as being in opposed champs: the first one is seen as beauty, so as “good”. The second one should be a life’s moment of loss and bad feelings. Those representations are poor and inadequate to think about the multiplicity of human experiences. We propose a critical point of view based on Nietzsche’s thought as shown in Tragedy Birth. His apolinean and Dionysian impulses are also used to think about the elder and the youth and the tragic existence. We question about the possibility of an existential meeting between young and elder people. We report an experience in UnATI, where we propose that the usual social representations about youth and old age are inadequate. As a new way to comprehend those people we propose a Nietzschean idea of life’s affirmation when life may show all his variations and intensities.

Keywords: old age, youth, meeting

 

 

 

 

Vivemos um tempo no qual são valorizadas as identidades, sejam elas dos grupos, de gênero ou de etnias. As diferenças, sejam elas quais forem, tornaram-se objeto de lutas e reivindicações. Diferentes grupos estão em busca de reconhecimento e de afirmação valorizando suas características e desejos próprios. Neste contexto social, o individualismo autocentrado no próprio sujeito teria se estabelecido e, com isso, as necessidades individuais adquiriram status prioritário e o mundo, por vezes, tem ar rarefeito. Numa sociedade na qual o consumo é a palavra de ordem há quem diga que tudo está à venda, já que a voracidade pelos objetos e a importância do olhar do outro através do reconhecimento teriam tomado conta de nossas vidas. Viver, nos dias atuais, se resumiria em uma engrenagem perversa na qual estaríamos aprisionados. Os prazeres seriam instantâneos e evanescentes e o que era objeto de nosso desejo imediatamente desaparece para pouco depois desejarmos outros objetos de consumo.

Estaríamos, porventura, vivendo uma época de sensibilidades empobrecidas e embotadas pelo consumo ou simplesmente acabaram os tempos iluminados, das grandes descobertas e dos conhecimentos produzidos por uma ciência que se afastou da magia e da religião? Será que os “verdadeiros” valores teriam desaparecido, engolidos pelos mass media homogeneizantes, fábricas incessantes de seres do e para o consumo? Seríamos incapazes de nos dar conta do que algumas mentes melífluas planejam e executam? Neste sentido, será que podemos  afirmar oposições tão radicais? Até onde nos colocaríamos diante de uma falsa escolha? Até onde estaríamos diante de uma velha luta entre o “Bem” e o “Mal”, categorias morais, que não aceitam tonalidades outras que não os absolutos branco e negro?

Sob este aspecto, seríamos meros marionetes, frágeis, cegos, surdos e paralíticos, realizando o que queria o Big Brother de George Orwell, em sua obra famosa 1984. Fácil, para alguns, fazer ciência humana! Para prever fatos sociais futuros, basta ter em mãos os do presente. O futuro – o nosso agora – já estava escrito, talvez nas estrelas, talvez no pensamento de alguns que entenderiam que a vida e o tempo são caixas pretas e que para prever o vindouro, basta ter em mãos algumas variáveis manipuláveis e controláveis, mundo no qual o conhecimento sobre o viver humano se faria com ratos em labirintos de laboratório.  Não existe mais a surpresa nem o deslumbramento.

Neste mundo, a vida teria contornos muito bem definidos e dela são retirados os borrões, os ritmos e as tonalidades. Nele seríamos representados por curvas estatísticas ou determinações genéticas, nas quais o auge da vida seria representado pelas etapas de crescimento que chamamos de infância e adolescência. Nesta perspectiva, a plenitude de forças, com todo o seu brilho, pertenceria às crianças e aos jovens, instalados no início da curva vital. O desgaste e o esvanecimento deste brilho natural se desenrolaria até que aos velhos restaria apenas a espera da morte, melancolia pura, dor do fim, degenerescência, perda, impotência. A curva da vida é uma descendente, quase uma linha reta, apenas com leves modulações apontando para o fim inevitável. Nesta medida a velhice tem sido marcada por representações cristalizadas que transmitem a idéia de uma época desvitalizada, de perdas e desesperança.

Porém, entendemos que tanto na infância, na adolescência, como na velhice há ritmos e intensidades, modulações que são próprias destes momentos da vida. Não desejamos aqui compará-los. A comparação exige um modelo de referência que empobrece a compreensão sobre o viver, pois a vida não pode ser reduzida a um mero modelo estabelecido pela razão. Ao se comparar vê-se a vida sem sua força, sem sua potência já que se referencia em um modelo que institui aquilo que é “bom” e exclui o indesejável. Comparar é uma ação que produz uma percepção ingênua e simplória da vida deixando-se de lado as múltiplas experiências singulares, sua força e as sensibilidades dos diferentes momentos da vida.

Hoje vemos e ouvimos com frequência um modelo que nos é imposto nos discursos que propalam a idéia de uma juventude eterna: valoriza-se a pele fresca, os cabelos sedosos, os ossos fortes, o desejo sexual imorredouro. A morte e a velhice estariam sendo apagados do corpo humano pelas mãos de uma ciência que se pretenderia miraculosa que, por sua vez, promete o brilho e o frescor da juventude. Luta-se contra o envelhecimento como se ele fosse um inimigo. Por outro lado, a juventude tem sido tratada como “o” paradigma em que devemos nos espelhar. Neste quadro, promover-se-ia a inveja da beleza dos jovens e criar-se-ia o horror ao envelhecimento e à decadência; neste modelo, os jovens devem lutar contra o “horror” da velhice, procurando apagar toda e qualquer marca de sua inevitável presença. De acordo com o que entendemos que se tem valorizado, os velhos tornam-se ressentidos e melancólicos da força e da beleza da juventude. As marcas corporais – as dobras da pele, espaço rugoso - no rosto seriam uma presença intolerável.

Sem dúvida, muito tem sido feito para que a vida física melhore. No entanto, nosso sentimento é de que as relações tornaram-se marcadas pelas representações cristalizadas às quais nos referimos no início deste trabalho. As trocas afetivas, a escuta ficou mais difícil, há mais cansaço...

Diante do fato da população brasileira estar envelhecendo, já que a expectativa de vida aumentou, perguntamo-nos se seria possível um encontro e o diálogo entre jovens e velhos. Como seria esse encontro? Entendemos que há uma contradição nos dias atuais: o modelo de referência é o jovem e, ao mesmo tempo, temos uma população que está envelhecendo cada vez mais. Seria possível uma mudança no paradigma cujo centro é o jovem?

Como pensar, nos nossos dias, a possibilidade de velhos e de jovens criando e realizando trocas? Afinal, tudo nos leva a crer que predominam os tons monocórdios das buscas identitárias que falam apenas para si mesmos, a fim de reafirmar suas identidades. Impossível diálogo!

O senso comum diria que a aproximação da juventude revitalizaria a velhice... Ilusão midiática de um encontro em que uns sabem – os velhos - e outros ouvem e aprendem – os jovens - a sabedoria que os primeiros têm a transmitir. Nesta afirmação há claramente uma idéia de hierarquia na qual os velhos deteriam a sabedoria e os jovens teriam o monopólio de uma beleza vazia de experiência. Estas condições seriam excludentes. Os velhos não podem ser belos, nem os jovens poderiam ser sábios. Mais uma vez encontramos uma polaridade excludente e empobrecedora da vida, pois pressupõe que exista uma beleza e haveria o monopólio de uma suposta sabedoria.

Vamos pensar pelo avesso. Propomos que nos retiremos dos extremos e nos dirijamos àquelas regiões nas quais as fronteiras se misturam e se confundem. O avesso está na própria vestimenta, tem o mesmo fio que a produziu. Assim, a luz que ilumina e o negro que cega compõem o opaco, região sem fronteiras a que queremos nos referir.

Até agora falamos de olhos que olham o mundo “fora de si mesmo”, falam de outro visto até o limite de seus próprios olhos. Vejamos o que Ítalo Calvino em O Caminho de San Giovanni (2000) nos diz no texto Do Opaco:

E assim, mesmo agora, se me perguntam que forma tem o mundo, se perguntam ao mim mesmo que mora no interior de mim e guarda a primeira impressão das coisas, tenho de responder que o mundo está disposto sobre uma porção de sacadas que irregularmente se debruçam sobre uma única grande sacada que se abre no vazio do ar, no parapeito que é a breve tira de mar contra o imenso céu, e naquele peitoril ainda se debruça o verdadeiro mim mesmo no interior de mim, no interior do suposto morador de formas do mundo mais complexas ou mais simples, mas derivadas, todas elas, dessa forma, bem mais complexas e ao mesmo tempo muito mais simples, na medida em que todas estão contidas naqueles desaprumos e declives iniciais ou deles podem ser deduzidas, daquele mundo de linhas quebradas e oblíquas entre as quais o horizonte é a única reta contínua (p. 105/106).

É com este olhar mais oblíquo, que enxerga “desaprumos e declives” que pretendemos abordar nossa discussão. É também com a compreensão de que somos moradores de “formas do mundo mais complexas ou mais simples...” que pretendemos apontar alguns aspectos da nossa proposta neste trabalho. Velhos e jovens juntos, em geral, são pensados como um encontro “ideal”, pois este contato seria positivo para aqueles que são considerados mais inexperientes. Queremos dizer que no opaco, onde a luz se mistura com a escuridão, é possível transitar o pensamento para se pensar relações, de tal forma que não estejam aprisionadas em si mesmas, em suas supostas necessidades e características.

Neste sentido consideramos que nossa discussão pode ser articulada com o pensamento de Nietzsche, que aposta numa estética existencial. A vida, para o autor, é um jogo de forças gerador de uma possível potência que metamorfosearia uma vida comum em obra de arte. Esse processo não tem idade.

Em seu primeiro escrito, O Nascimento da Tragédia, Nietzsche expõe um de seus importantes pensamentos. Ele diz nesse livro que: “(..) a existência do mundo só se justifica como fenômeno estético” (1992, pág.18) .

Daí provém o conceito, que encontramos nesse livro, de uma “metafísica de artista”. O conceito de metafísica vem de uma tradição socrática, onde há uma valorização da razão e do pensamento lógico em detrimento dos instintos[1].

No livro a que nos referimos acima, Nietzsche critica tal forma de pensar que se baseia numa racionalidade e na busca de uma verdade a qualquer custo. Nietzsche aposta na arte como a forma suprema de pensar a existência e tem, como ponto de partida, a relação entre uma “metafísica de artista” e uma “metafísica racional”. Machado (1999) comenta: “o socratismo despreza o instinto e, portanto, a arte” (pág 31), mostrando que a racionalidade socrática exclui as dimensões sensíveis da vida. 

Nietzsche escreveu O Nascimento da Tragédia na sua juventude. Este é um texto que traz criatividade e inovação, pois desenvolve uma discussão sobre o papel que a arte desempenha na existência humana. O filósofo, nesse livro, analisa a oposição entre o saber racional e o saber artístico pois, para ele, a arte é a atividade metafísica do homem, por excelência, já que é ela que proporciona à existência uma poderosa alegria.

Para dar mais ênfase a essa tese, o autor apresenta os dois impulsos artísticos básicos ligados à natureza inspirados em duas divindades gregas: Apolo e Dionísio, e propõe as noções de impulso apolíneo e impulso dionisíaco. Segundo o autor, o impulso apolíneo está ligado ao sonho, à forma, à individuação, à medida, à ordem, à aparência e o impulso dionisíaco refere-se à embriaguez, às orgias, às forças anárquicas, às intensidades associadas às forças da natureza, fluxo em tumulto, em desordem, princípio de diferenciação.

Nietzsche considera que esses dois impulsos são disposições fundamentais do ser humano, e que separados têm esses componentes primários da realidade: o apolíneo e o dionisíaco.

Segundo ele, ambos precisam se unir para tornar possível ao homem a convivência criativa com a totalidade da existência, tanto nas suas benesses, como nas suas vicissitudes. Aqui, o dionisíaco com seu caráter caótico, animalesco e assustador não seria negado, pelo contrário, o apolíneo afirma essas forças possibilitando a plenitude da existência a ser vivida. O fundo horrível da existência, o dionisíaco, é vivido com suportabilidade porque foi dotado da bela aparência apolínea. Nesse ponto, a vida toda é afirmada. O “sim à vida” é incondicional, tanto na dor como na alegria.

Ao integrar esses dois princípios, o apolíneo e o dionisíaco, chegamos ao seu conceito de trágico. Quando a existência é afirmada em sua totalidade temos, segundo Nietzsche, uma existência trágica. E mais ainda, “o homem não é mais artista, tornou-se obra de arte” (1992, pág. 31).

Relacionando esses conceitos nietzschianos apresentados em O Nascimento da Tragédia com o tema que abordamos nesse artigo observamos que nossa cultura propicia uma representação cristalizada do jovem, mais ligada a um falso apolíneo, e a do velho mais ligada a um falso dionisíaco, no sentido do horrível da vida que este termo significa em Nietzsche. O jovem, em geral, se encontra na bela forma, na bela medida, valorizando a aparência como uma importante motivação para se sentir aceito e desejado. Ele está praticamente iniciando a vida, é valorizado pela cultura, tudo se volta para ele. Nesse momento, está vibrando, “a plenos pulmões”, pois tudo giraria em torno do jovem, justamente pelo fato dele expressar o belo, o apolíneo.

O velho estaria mais sujeito a doenças, marcado corporalmente, sem formas, sem medidas para a vida, dilacerado pelas perdas, marcado pelo “horrível” da vida. Estranho ao tempo presente que é mais voltado para a juventude, o velho seria um estranho num mundo que, muitas vezes, não condiz mais com seu modo de vida. Oprimido pela própria velhice e pela proximidade da morte, freqüentemente o velho está ou se percebe isolado, com uma maior suscetibilidade física e emocional, não “olhado” pelo outro. Sente-se descartado, a não ser quando se quer explorá-lo ou infantilizá-lo. A velhice seria um tempo distanciado da condição apolínea e aos velhos não restaria mais nada...

Um dos horrores da vida contemporânea está em envelhecer. É insuportável tornar-se e ser velho, numa cultura que aposta num falso apolíneo, queimando a ferro e fogo, marcando para sempre, com as suas imagens o caminho da existência.    

Porém, retornando a Nietzsche, podemos pensar no impulso apolíneo como a “chave” para entendermos os jovens e o impulso dionisíaco como “chave” para entendermos o velho. Neste sentido a experiência trágica nos forneceria os elementos para pensarmos no encontro entre jovens e velhos. Analisando com o filósofo: como a junção desses dois impulsos mantém vivos, tanto uns como outros? A proposta deste artigo é a de pensar jovens e velhos descolados de uma idéia de oposição e refletir sobre o encontro entre eles para, assim, pensar sua possível vivacidade. O que propomos é ouvir suas vozes em polifonia: a voz do jovem no velho e a voz do velho no jovem. Desejamos pensar na possibilidade dessa polifonia de vozes, de existências que possam se tornar trágicas, no sentido dado por Nietzsche, onde jovens e velhos troquem suas histórias e suas experiências e, a partir delas abrirem-se ao novo ao se deslocar de suas posições cristalizadas.

A experiência da UnATI (Universidade Aberta da Terceira Idade), na UERJ, permite essa vivência trágica: jovens e velhos partilham os bancos universitários, as lanchonetes, os elevadores da Universidade, conversam, trocam olhares, palavras, risos. Lá, essa polifonia de vozes e o encontro entre jovens e velhos é possível, possibilitando-os a afirmar a vida incondicionalmente: os jovens, afirmando seus excessos de vida e os velhos afirmando o seu crepuscular envelhecer e a sua proximidade com a morte. Ali, o envelhecimento recupera a potência da vida e, mais do que isso, o jovem afirma o velho em si e o velho afirma o jovem em si.  No espaço da universidade, o brilho da juventude e o crepúsculo do envelhecimento podem conviver, sem se excluir. O encontro se realiza e Apolo não se vê mais separado de Dionísio.

Enfim, é possível que no espaço da universidade dois impulsos básicos, apolíneo e dionisíaco, estão presentes, para que juntos tenham a oportunidade de criar um aprendizado trágico.  É esse o encontro que chamaremos de encontro feliz, numa via em mão dupla, numa estética da existência, nos quais ritmos e intensidades dos velhos e dos jovens não se repelem, mas produzem novas sintonias, novas melodias e se desenrolam nas salas de aula, nos elevadores e nas rampas da UERJ.

Em seguida, exemplificaremos com um relato. Certo dia houve falta de luz na Universidade. Ao chegar lá encontramos os velhos que frequentam a UnATI[2] aguardando no andar térreo a volta da luz para usarem os elevadores. A UnATI se localiza no 10º andar da UERJ. Neste dia o aniversário da professora seria comemorado e muitos dos velhos carregavam sacolas com comidas e bebidas. Como a luz demorava a chegar, eles começaram a subir as rampas por conta própria. Até que alcançaram o décimo andar e as salas. Neste trajeto encontram alguns jovens estudantes da universidade sentados nas escadas, queixando-se de cansaço. Vendo isso, os velhos lhes diziam: “não fiquem aí parados, subam com a gente!”.

A festa de aniversário da professora pode acontecer porque os frequentadores da UnATI não estavam submetidos às representações que deles são produzidas, ou seja, os idosos não aceitam a crença de sua suposta impotência. Neste sentido podemos afirmar que as práticas realizadas pelos idosos na UnATI criaram um novo modo de existência, cheio de potência e de afirmação da vida.

Podemos, assim, pensar na criação de intensidades novas, numa micropolítica que se esparrama no território acadêmico, em processos invisíveis, oblíquos, atravessando os espaços concretados da Universidade. Este processo se constitui numa “(...) bifurcação além dos esquemas preestabelecidos(...)” e “(...) num duplo processo autopoiético criativo e ético-ontológico(...)” (Guattari, 1996, p. 127).  Estes encontros dissolvem os discursos transcendentes e essencialistas: “o velho é...” opondo-se ao que “o jovem é...”, assim como também apagam o que Guattari (idem) chama de “cortina de ferro ontológica”, ou seja, espírito e matéria dissociados. Eles passam a habitar o mesmo território, o que lhes imprime densidade ontológica, multiplicando encontros que são permeados de dor e alegria “...a dor e a alegria de ser o que se é...”, pensando com Caetano Veloso.

Casanova (2003, p. 57) faz a seguinte observação: “Dioníso não é uma divindade que se caracteriza pela clareza e distinção de sua forma, mas pela volúpia e pela dor com que dá voz ao incessante movimento da geração”. Velho e jovem podem, então, se encontrar através desta dor e dessa volúpia ouvindo mutuamente suas vozes. No exemplo que citamos acima podemos dizer que os velhos que subiam as rampas da UERJ tinham em seus corpos a volúpia e a força dionisíaca, enquanto que o horrível da existência perdia sua proeminência. Fica presente o dionisíaco intenso, amante da festa, princípio de celebração.

Queremos terminar sublinhando que nossa aposta é no valor da transmutação, quer dizer, da metamorfose, dado o encontro. Afirmamos a importância do movimento contínuo, sobrepondo-se à cristalização que é a própria negação da vida.

 

Referências

 

CALVINO, Italo. O caminho de San Giovanni, São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

 

CASANOVA, Marco Antonio, O instante extraordinário, vida, história e valor na obra de Friedrich Nietzsche, Rio de Janeiro: Forense universitária, 2003.

 

GUATTARI, Felix. O novo paradigma estético, in Schnitman, Dora Fried, Novos paradigmas, cultura e subjetividade, Porto Alegre:Artes Médicas, 1996.

 

NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia, São Paulo:Companhia das Letras, 1992.

 

MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade, Rio de Janeiro: Graal 1999.

 

[1] O termo instinto é usado por Nietzsche, não devendo ser confundido com a expressão biológica. O termo está associado às forças da natureza, que ao serem colocadas em evidência, opõem-se a um saber racional.

[2] Universidade Aberta da Terceira Idade. A UnATI é um projeto desenvolvido na UERJ com o fim de receber em suas instalações pessoas idosas de múltiplas origens, etnias, extratos sociais e culturais. A UnATI oferece um grande número de cursos e atividades que vão desde aulas de dança, cinema, atividades corporais, assim como assistência a esta população. Cf. www.unati.uerj.br/