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Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 07, número 12, 2008 - ISSN 1676-2924

 

A SEDUÇÃO QUE A MAGIA DA SÉRIE “HARRY POTTER” EXERCE NA CONTEMPORANEIDADE

Paula Viana Mendes
Graduada em Comunicação Social
paulavmendes@hotmail.com

 

Resumo: Este artigo trata da difusão do conhecimento da magia através dos meios de comunicação e pretende divulgar as considerações feitas por sua autora, graduada em Comunicação Social, na realização de seu TCC. A série Harry Potter foi pesquisada por englobar os objetivos propostos pelo seguinte problema: por que pessoas de idades e nacionalidades diferentes sentem-se seduzidas por uma narrativa que trata de magia na sociedade contemporânea ocidental, uma vez que esta foi construída por um pensamento científico e cristão? Rowling, a autora da série Harry Potter, apresenta a magia enquanto sistema de pensamento que organiza os valores e estrutura de uma sociedade. Esta abordagem tem contribuído para a construção de uma nova visão da magia na contemporaneidade.

Palavras-chave: Magia. Harry Potter. Comunicação.

 

Abstract: This article argues about the diffusion of the knowledge of magic through the medias in the present time and intends to divulge the conclusions made by its author when she graduated in Social Communication, in the accomplishment of her graduation´s monographic theses. The series “Harry Potter” was searched because it gathers the elements to achieve the objectives considered for the following problem: why people of different ages and nationalities feel themselves seduced by a narrative that deals with magic in the contemporary occidental society, once it was constructed, amongst other factors, trough a Scientific and Christian thought? Rowling, the author of the series Harry Potter, presents magic as a System of Thought that organizes the values and structures of a society. This boarding has contributed for the construction of a new vision of magic in our present time.

Key-words: Magic. Harry Potter. Media.

 

 

Os Meios de Comunicação têm exercido na atualidade um papel importante na difusão de diversos conteúdos, informações e conhecimentos, elegendo e consagrando produtos de uma Indústria Cultural que, ocasionalmente, por conta da Globalização e de outros fatores, tem sido consumidos em todo o mundo.

As produções cinematográficas inseridas nesta Indústria vêm sendo vistas, cada vez mais, como uma fonte de conhecimento sobre alguma questão da realidade. Mônica Almeida Kornis (1992) em seu artigo “Cinema e História: um debate metodológico” explica que “o filme adquiriu de fato o estatuto de fonte preciosa para a compreensão dos comportamentos, das visões de mundo, dos valores, das identidades e das ideologias de uma sociedade ou de um momento histórico. Os vários tipos de registro fílmico - ficção, documentário, cinejornal e atualidades vistos como meio de representação da história, refletem contudo de forma particular sobre esses temas. Isto significa que o filme pode tornar-se um documento para a pesquisa histórica, na medida em que articula ao contexto histórico e social que o produziu um conjunto de elementos intrínsecos à própria expressão cinematográfica” (KORNIS, 1992, p.240).

Um dos fenômenos mais recentes deste caso é a série Harry Potter, que não apenas tem sido procurada em mais de 60 países em todo o globo, mas também, obtido sucesso entre crianças, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres, de diversas culturas, sociedades e etnias, difundindo conhecimentos sobre um mundo mágico, simbólico e mitológico. É um recorte de como a contemporaneidade passa a ver a magia e a bruxaria que perdem, aos poucos, sua associação com o demônio e com a irracionalidade.

A série Harry Potter que aqui me refiro não se resume unicamente à estória narrada nos livros e filmes, mas também, a marca Harry Potter, patenteada pela Warner Bros Company, que através da venda de licenças, permite que uma série de produtos dê continuidade ao mundo maravilhoso e à trama da série.

A estória narrada em Harry Potter possui vários elementos responsáveis por todo este sucesso. Ela trata da tradicional luta do Bem contra o Mal, aborda temáticas clichês, parte do universo escolar que conhecemos, tais como as amizades verdadeiras, as panelinhas, a rivalidade entre estudantes, os professores carrascos ou incompetentes, a luta pela libertação e o tratamento mais justo as diversas raças e povos menos favorecidos, o gosto pela aventura, o humor, o romance, o drama e o terror. Sendo que Harry Potter seria, talvez, mais uma estória a tratar desses temas, se não fosse por mais um elemento decisivo, que contextualiza todos estes outros: o uso da temática da magia. Sentimo-nos atraídos por Harry Potter porque ele apresenta temáticas clichês, por conta de sua mistura de informações e diversos sentimentos e emoções que ele nos faz sentir, mas sobretudo, sentimo-nos seduzidos por Harry Potter porque sua história faz parte de um mundo mágico, literalmente. E esta não é uma magia qualquer. É uma magia que atende a princípios lógicos e racionais próprios, uma forma de organizar e se relacionar com o meio sistematicamente, o que dá origem na trama a mundo à parte.

A idéia, portanto, era trabalhar através de uma Pesquisa Documental a busca pelo conhecimento da temática da magia na contemporaneidade, através dos Meios de Comunicação e de Literatura, tendo por objeto a série Harry Potter que, como podemos observar através do consumo de seus livros, filmes e artigos relacionados, vem seduzindo a atualidade justamente por conta da construção de uma idéia de magia. Este artigo é fruto da realização de meu Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Comunicação Social, que posteriormente foi publicado como livro com o título “Por que não magia? A Sedução Contemporânea pelo mundo mágico de Harry Potter” e minha proposta com ele é apresentar alguns dos dados e considerações que fiz, juntamente com meu orientador, acerca da temática sugerida. 

Como dispúnhamos apenas de seis meses resolvemos que obter o máximo de informações possíveis a partir da limitação temporal aqui apresentada, seria uma técnica de pesquisa que faria jus aos nossos objetivos; a análise de conteúdo foi também uma ferramenta que nos possibilitou a reunião dos dados para interpretação e construção deste trabalho, uma vez que nos vimos diante de uma variedade de temas, símbolos e formas de um imaginário social e cultural.

A magia da série Harry Potter é a questão central deste trabalho e a primeira necessidade que tive, portanto, foi a de delimitar de que “magia” está-se falando. Freud (2005, p.89) a conceitua como a técnica do animismo, o primeiro Sistema de Pensamento criado pela humanidade, dotando todos os objetos da natureza com um espírito, ou anima. Deste modo, o homem primitivo passou a aplicar à natureza, através do que Tylor citado por Freud (2005, p.92) descreve como sendo o “tomar equivocado entre uma conexão ideal por uma natural”, as mesmas regras de conexão entre os objetos físicos que ele aplicava aos conteúdos de sua própria mente, transferindo sua estrutura psicológica à realidade. Ou seja, aplicando à realidade física e material as mesmas regras e construções percebidas em sua realidade mental, configuradas e organizadas por um sistema onde cada objeto da natureza é dotado de um espírito, isto é, identificado a um conteúdo psicológico autônomo.

O desenvolvimento de sistemas mágicos, sob a perspectiva do homem primitivo, está relacionado a busca pelo controle de aspectos desconhecidos da realidade referentes a sua sobrevivência e à satisfação de necessidades básicas. O mesmo contexto de precisão que levou o homem a desenvolver e a criar ferramentas, a linguagem e a arte, o levou também a criar a magia, como nos explica Fischer (1967) no primeiro capítulo de seu livro “A Necessidade da Arte”.

Como a recém adquirida consciência humana ainda não havia passado pelos diversos processos de diferenciação e individuação que conhecemos através da psicanálise de Freud (2005) em seu trabalho “Totem e Tabu” ou da psicologia analítica de Jung (1984) em “O Eu e o Inconsciente”, em que a consciência se desenvolve, respectivamente, segundo os autores, em fases demarcadas pelo tipo de relação entre sujeito e objeto (FREUD, 1978) e do contato e distinção das representações, denominadas por Jung (1984) como arquetípicas, do inconsciente coletivo. Especialidades como a cultura, a organização social, a arte, a linguagem, a magia e a técnica interligavam-se de modo que, uma não poderia ser vista sem que isto implicasse de alguma forma na outra.

O processo de aquisição da consciência no homem primitivo se deu de forma lenta, uma vez que este percebia a realidade como uma totalidade não-diferenciada, a qual ele próprio faz parte. Só aos poucos é que ele se destaca e percebe a “quebra” entre esta unidade “homem-natureza”. Freud (2005) percebe que a conexão feita entre o homem, o meio e a sua mente não se dá de forma aleatória, pois afirma que o animismo foi o primeiro Sistema de Pensamento criado pela humanidade e ao mesmo tempo percebe também que dentro deste sistema há uma técnica, a magia, que é capaz de manipular a realidade, pois possuí os elementos necessários para a promoção da comunicação entre homem e meio, já que este é visto de forma mental.

Por esta razão, defini a magia neste trabalho como a construção e manipulação de símbolos capazes de acessar conteúdos, não obstante, inconscientes, mas necessários à obtenção e expansão da consciência que, quando ordenados sob uma lógica específica, são capazes de "transformar" a maneira como seu praticante vê e se relaciona com a realidade. Ela funciona como uma espécie de “ponte” entre consciente e inconsciente, entre homem e meio. É uma definição fundamentada e voltada para uma visão antropológica e psicológica da magia, mas que permite uma articulação com os demais conteúdos que me propus a trabalhar nesta pesquisa, pois no desenrolar da história da humanidade, a mágica é demonizada, desacreditada, negada e refutada, a partir do ponto de vista do conhecimento Científico Moderno e da Tradição Religiosa Cristã. Escolhi realizar uma breve análise destas outras duas formas de conhecimento antes de responder a questão sobre o porquê de nos sentirmos seduzidos pela magia de Harry Potter, porque elas possuem uma influência significativa no modo como o ocidente vê a magia.

A noção de magia que apresento está apoiada na forma que é entendida uma realidade, como o homem deve relacionar-se com esta, quais as possibilidades que esta apresenta, suas regras e leis. No caso da magia, a realidade é entendida como tendo as mesmas propriedades da natureza psíquica humana, pois as suas formas de regulação e existência têm origem na transferência das estruturas e conteúdos mentais que seu praticante faz à realidade, como já afirmei embasada em Freud. O modo como a ciência e a religião vão definir e tratar a realidade e os conteúdos de natureza psíquica vai divergir, em alguns casos, completamente da do animismo.

A religião cristã vai categorizar os conteúdos psíquicos como bons ou maus, segundo sua proximidade com Deus ou o Diabo. Não por uma questão de coincidência, os conteúdos associados ao Diabo são aqueles que serão identificados como mágicos. Ao passo que aqueles que são bons, são considerados milagres, e não mágica, e associados a Deus, como nos demonstra Keith Thomas (1991) em seu livro “Religião e o Declínio da Magia”. É a partir da interpretação que a Igreja Cristã Medieval faz da magia, que seu aspecto "sobre-natural" ganhará força e será tido como mau. Mas o demônio, como sabemos, é Lúcifer, o anjo caído que leva a humanidade à perdição.  Se interpretarmos o mito da queda do paraíso cristão e o grego de Prometeu, a partir de seus elementos simbólicos, no entanto, perceberemos que tanto Lúcifer como Prometeu foram castigados apenas pelo pecado de "presentear" a humanidade com o conhecimento.

Infelizmente, este artigo não me permite explorar esta questão detalhadamente, mas para todos os efeitos, mantenhamos em mente que, aquilo que tememos quando nos encontramos diante de uma situação sobrenatural é o próprio conhecer. Adão e Eva são punidos porque passam a conhecer; Prometeu é aprisionado porque ensina a humanidade a lidar com o fogo, um dos símbolos do conhecimento e do esclarecimento.

A raça humana passa, nos dois casos, de uma condição primitiva, inconsciente e tosca para uma nova condição onde pode, através do trabalho e do conhecimento, passar a compreender a realidade de uma forma consciente, diferenciada e individual, daí a semelhança entre a magia, em sua função primitiva, e estes mitos. Lúcifer e Prometeu ensinam os seres humanos a serem “mágicos” e tanto Lúcifer, como Prometeu, como os seres humanos são, de alguma forma punidos, por “transgredirem” as regras dos Deuses, sendo este o caráter “herético” da prática da magia, que ao contrário do milagre, faz do homem e não de Deus, um ser capaz de realizar fenômenos maravilhosos.

Quanto a Ciência Moderna, embora nem sempre os livros que tratem do assunto nos lembrem, podemos encontrá-la permeada por traços do Conhecimento Oculto. O Renascimento Europeu foi o período da humanidade em que mais presenciamos, até onde sabemos, a existência de praticantes ou estudiosos de algum tipo de magia. Cornelius Agripa (1485-1535), Paracelso (1493-1541), Copérnico (1473-1543), Descartes (1596-1650), Kepler (1571-1630), Giordano Bruno (1548-1600) e Sir Isaac Newton (1643-1727) são apenas alguns nomes que se pode citar. Isto ocorreu por várias razões, sendo uma delas, o fato da própria idéia de “ciência” não estar ainda concebida como a ciência que conhecemos hoje. A partir do momento que esta noção passa a fechar-se e delimitar-se, as práticas ocultas passam a ser descartadas; as até então "Ciências Ocultas" são retiradas da ordem taxonômica das ciências, não antes que vários de seus princípios e filosofias tenham sido aglutinados por seus antigos praticantes, deixando, não por coincidência, de serem consideradas como mágicas para tornarem-se científicas.

Sobre a luz destas novas informações nos voltemos novamente para a série Harry Potter. O conhecimento mágico chega à contemporaneidade demonizado ou desacreditado. Tendemos a nos manter ora indiferentes e céticos, ora aterrorizados por suas manifestações. A criação de um universo mágico, seja lá por quem fosse feita, teria de levar estas reações em consideração se quisesse ser bem recebida e, por conta disto, a autora britânica J.K. Rowling, sem dúvidas, teve de criar estratégias que qualifiquei aqui como sedutoras.

A visão de Rowling sobre o mundo dos trouxas, ou pessoas sem poderes mágicos, é como o próprio nome nos diz. Elas não percebem a magia que ainda existe no mundo, em parte porque não estão atentas o suficiente. Os trouxas não querem ver que a magia ainda existe e se, por alguma razão, tem de ter contato com esta, sua atitude é de medo e terror.  A atitude de ódio e pavor dos Dursleys, a família trouxa que cria Harry enquanto este desconhece seus poderes mágicos, é de desaprovação e afastamento de tudo e qualquer coisa que trate de magia, quase como que uma doença infecciosa, já que esta não faz parte do mundo que eles conhecem como “normal”.

 Mas ao contrário do que os Dursleys pensam, pessoas mágicas vivem numa atmosfera quase tão familiar quanto a nossa e nós conhecemos esta outra sociedade, aos poucos, conforme Harry, que é bruxo, mas foi educado no mundo dos trouxas, o conhece. Estas duas estratégias – a de construir um mundo mágico tão “normal” quanto o nosso e a do protagonista da série ter sido criado num mundo trouxa – são decisivas para que possamos aceitar e querer conhecer o mundo mágico da série (MENDES, 2008).

A nova realidade que Harry e os telespectadores descobrem a cada volume não se encontra ausente de regras, de uma lógica, ou raciocínio próprio. Os bruxos vão a escola, são regrados por um Ministério, vão para a prisão caso não se comportem segundo os padrões sociais da bruxandade e cada personagem pode representar uma dimensão diferente, mas complementar do que possa vir a ser magia. Rowling não trabalha com uma única visão estereotipada do que é ser um bruxo ou bruxa, pois em seu mundo mágico há bruxos muito sábios como Dumbledore, há bruxos fraudulentos, como Gilderoy Lockhart e Siblia Trelawney, há bruxos empenhados em manter as regras da comunidade bruxa que trabalham inclusive num Ministério da Magia e há bruxos, obviamente, que não são bons, que utilizam a magia de forma imprópria, buscando os próprios interesses, como Lord Voldemort, Gargamel Grindelwald e os Comensais da Morte.

Através destes recursos, Rowling não "bate de frente" com o que fomos ensinados a pensar sobre magia, mas a contextualiza numa atmosfera segura e conhecida, representando seu lado sombrio, o qual se foi ensinado a temer, no vilão, o maior bruxo das trevas da nossa Era, Lord Voldemort, que Harry, o protagonista, tem de lutar.

Assim, a vitória de Harry sobre o mal é também a vitória de uma nova concepção de magia, que não é sobrenatural ou desacreditada, mas apenas mais uma forma de ver e conceber a realidade e que a contemporaneidade, não apenas parece aceitar, mas também, sente-se seduzida por ela.

É neste sentido que podemos encontrar nesta série, uma fonte de conhecimento acerca da magia, embora sua criação seja real e legítima apenas na ficção, mas que, sem dúvidas, pode servir como base de reflexão sobre como encaramos este tema na atualidade. Quase que todas as referências que Rowling faz na construção de seu mundo mágico (as criaturas mitológicas, as palavras mágicas utilizadas nos feitiços, as roupas, as disciplinas ensinadas na escola, etc.) tem um fundamento em alguma forma de conhecimento mágico da história da humanidade.

Ao aceitarmos uma construção ficcional do tema “magia”, que coloca em evidência seu lado positivo e benéfico, ao invés apenas de seu lado sombrio e “irracional”, estamos, em realidade, buscando possíveis contribuições que esta antiga forma de conhecer pode nos proporcionar e buscando uma forma de encará-la que não seja, nem através do medo, nem através da descrença.

 

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