RESENHA DO
LIVRO “O DIREITO À PREGUIÇA” DE PAUL LAFARGUE.
Autor: Reginaldo
Guiraldelli
Mestrando em Serviço Social
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
Campus de Franca-SP
Endereço eletrônico:
reguiraldelli@hotmail.com
Sobre a obra:
Título: O direito à preguiça
Autor: Paul Lafargue
Edição: 2ª
Editora: Hucitec/São Paulo
Ano da edição: 2000
Nos últimos anos,
vem sendo travado um rico debate entre vários teóricos acerca da
categoria trabalho; alguns defendendo sua centralidade, enquanto
um elemento fundamental para a sociabilidade humana e outros o
colocando em segundo plano, como é o caso das teorias de
Habermas, André Gorz, Domênico De Masi, Claus Offe, dentre
outros.
Em sua obra O
direito à Preguiça, Paul Lafargue relata com assaz excelência, o
pensamento que esteve envolto do trabalho, desde a gênese da
humanidade. Para isso, foi necessário traçar um itinerário
histórico das diversas visões sobre o trabalho até aquele
momento em que foi escrito o seu livro, em meados do século XIX,
em meio às incipientes idéias socialistas inspiradas no
pensamento de Karl Marx e as transformações que vinham ocorrendo
com o advento da Revolução Industrial.
Nas suas análises,
faz profundas críticas ao padrão capitalista emergente, que
inspirado nos princípios teológicos e positivistas, explorava
cada vez mais a força de trabalho. Diante da superexploração da
população, o quadro apresentado pelos ideários da
industrialização e da revolução burguesa, era o de um aumento
crescente de miserabilidade e pauperização de grande parcela dos
segmentos sociais. Desde a Revolução, com a burguesia no poder,
aboliram-se os feriados a fim de subjugar os operários às leis
do trabalho. Para que os burgueses pudessem atingir seus
anseios, foi necessário buscar dogmas do passado para que a
população de modo geral “aceitasse” as normas que eram impostas.
Segundo a tradição judaico-cristã, como forma de castigar Adão e
Eva, que “desobedeceram” certas regras, Deus impôs para ambos o
trabalho. Esse foi um mecanismo punitivo, que por não cumprir a
vontade divina, passaram a ter o trabalho como uma imposição e a
preguiça como um pecado capital. É com esses preceitos, que o
clero propagará uma filosofia que explicará que o homem está na
terra para sofrer. O trabalho passa a ser visto como um dogma a
ser cumprido e respeitado. Mas, o que pode ser percebido é que
Deus, após a criação do universo em seis dias, foi descansar
eternamente no sétimo dia, constatando uma notória contradição
entre o pensamento religioso.
Já na concepção dos
filósofos gregos, principalmente as idéias aristotélicas e
platônicas, acreditar-se-á que o trabalho manual está destinado
somente aos escravos, enquanto que o ócio era privilégio dos
homens que exerciam a filosofia, a arte e a política.
Lafargue acredita
que a chave que irá libertar a humanidade de todas as formas de
opressão e exploração encontra-se na classe proletária, que se
deixou dominar pelo dogma do trabalho. Para o autor, o trabalho
deve ser a essência do homem, onde este tenha sua interação com
a natureza e satisfaça suas necessidades vitais através de sua
capacidade criativa e inventiva (dimensão teleológica). Não
havendo isso, o que se tem é um trabalho alienado, visto que a
força de trabalho se torna uma mercadoria que pode ser vendida
no mercado. O homem vai perdendo sua condição humana e ganha
forma de objeto mercadológico, pois aceita qualquer situação
para exercer o trabalho. Na sociedade capitalista que visa o
lucro, a acumulação, a propriedade e a riqueza não são fenômenos
sociais, pois estão nas mãos dos detentores dos meios de
produção, e por isso são privadas.
Contudo, Lafargue
considera a preguiça uma virtude, um elemento fortalecedor do
corpo e do espírito dos operários, pois diante da preguiça,
poderão se preparar para a revolução, com o propósito de se
atingir a emancipação humana. Segundo o autor, a principal
virtude da preguiça é denunciar a maldição do trabalho
assalariado e expressar a necessidade de sua superação. Além do
mais, acredita que a liberdade e o lazer da humanidade serão
conquistados com a implantação massiva de máquinas.
Mas, tendo como
ponto de partida a sociedade contemporânea, podemos notar que a
incorporação tecnológica e robótica nos processos produtivos,
decorrentes da revolução tecnológica da segunda metade do século
XX, contribuem crescentemente para o desmantelamento dos
direitos trabalhistas e sociais, além de gerar desemprego de
caráter estrutural, afetando diretamente os trabalhadores.
Sendo assim, urge
encontrar respostas para a problemática apresentada frente às
profundas alterações ocorridas no mundo do trabalho. É nesse
contexto que muitas teorias vão surgindo a respeito da categoria
trabalho, com o intuito de enfrentamento das questões que vem
sendo postas à sociedade como um todo.
Habermas, um dos
teóricos mais polêmicos e de grande destaque da Escola de
Frankfurt, confronta-se com inúmeros teóricos adeptos da teoria
marxiana ao propugnar em sua análise sobre a sociedade
contemporânea, que a centralidade do trabalho foi substituída
pela centralidade da esfera comunicacional (ação comunicativa)
ou da intersubjetividade (agir societal/ relações
interpessoais). Em suas obras, Habermas fará inúmeras críticas
ao “paradigma do trabalho”.
Em seu livro Adeus
ao Proletariado, André Gorz defende a abolição do trabalho, pois
segundo o autor, este nem sempre existiu, objetivando haver uma
sociedade do tempo livre. Para ele, a finalidade de
“trabalhar menos” não é “descansar mais” e sim “viver mais”;
além do que, considera que o trabalho não é e nem deve ser o
essencial da vida. Contudo, considera que o primordial é haver
uma mudança em toda a sociedade e não no trabalho.
Ainda nessa
discussão, o sociólogo italiano Domêncio De Masi, em seu livro
“O Ócio Criativo”, sustenta que nos anos passados o trabalho
colonizou o tempo livre e nos anos futuros, o tempo livre
colonizará o trabalho. Durante muitos séculos, com o respaldo da
Igreja, o ócio era tido como o pai de todos os vícios.
Para esses teóricos, o trabalho
apresenta uma crise em sua dimensão concreta na vida da
sociedade.
Porém, ainda temos
alguns nomes nas Ciências Sociais e Humanas, que defendem a
categoria trabalho como eixo estruturador da vida societal,
visto que este não perdeu sua forma substancial de centralidade.
Entre eles podemos citar: Ricardo Antunes, George Lukács, Istvan
Mészaros, Jacob Gorender, dentre outros.
Em sua obra “Adeus
ao Trabalho? Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do
mundo do trabalho”, o sociólogo Ricardo Antunes reafirma o
caráter de centralidade para o trabalho, considerando este como
um elemento que produz valores de uso e não como um produtor de
valores de troca, que é o que vem ocorrendo na sociedade
capitalista, que propicia cada vez mais a exploração e a
intensificação do ritmo de trabalho, afetando diretamente
aqueles que vendem sua força de trabalho em troca de míseros
salários. Fundamentado nas concepções marxianas, acredita que é
pelo trabalho, produtor de valores de uso, ou seja, o trabalho
concreto, que ocorre o metabolismo entre homem (sociedade) e
natureza. Através da cooperação entre os homens, o trabalho
torna-se social, pois assim, o homem passa de um ser meramente
biológico para um ser social. Para ele, o trabalho tem uma
intenção ontológica, voltada para o processo de humanização do
homem. Através do trabalho, o ser social produz-se a si mesmo
como gênero humano e abre caminho para a realização da
liberdade.
Com isso, a
contribuição de Paul Lafargue é de suma importância nos dias de
hoje, visto que diante de linhas divergentes sobre o papel do
trabalho na atualidade, suas idéias são dotadas de competência e
originalidade, o que torna a leitura do seu livro uma atividade
essencial para a compreensão das condições de vida e trabalho da
população num determinado contexto histórico.
Lafargue, Paul. O direito à
preguiça. 2ªed. São Paulo: Hucitec, 2000.