ESCOLA, JUVENTUDE E VIOLÊNCIA
Ana Maria Alexandre Leite
(Mestre em Educação – PUC-Rio)
Eliane Ribeiro Andrade (Doutora
em Educação – UFF)
Luiz Carlos Gil Esteves (Doutor
em Educação – UFRJ)
Maria Fernanda Rezende Nunes
(Doutora em Educação – UFRJ)
Maria Inês do Rego Monteiro
Bomfim (Doutouranda em Educação – UFRJ)
Miguel Farah Neto (Mestre em
Educação – PUC-Rio)
Resumo: O texto
discute questões relacionadas a violência e juventude e seus
reflexos no âmbito escolar. A escola pública constitui um campo
plural e diversificado, marcado por dificuldades, mas também
reúne condições mediante a construção de um projeto político
pedagógico capaz de instituir práticas e respostas inesperadas
que possam modificar o rumo da história dos jovens das classes
populares lá inseridos.
Palavras-chaves:
escola,juventude e violência
ABSTRACT
The text discusses related subjects the
violence and youth and their reflexes in the school extent. The
public school is a plural field and diversified, marked by
difficulties, but it also gathers conditions by the construction
of a pedagogic political project capable to institute practices
and unexpected answers that can modify the direction of the
youths' of the popular classes history there inserted.
Keywords: school, youth and violence
A questão da violência
envolvendo a juventude assume especial significado no Brasil,
largamente identificado e reconhecido como “um país jovem”,
tanto pela cronologia de sua história oficial quanto pela
estrutura etária de sua população. De acordo com o Censo
Demográfico de 2000 (IBGE), haveria 34.081.330 de jovens entre
15 e 24 anos de idade – cerca de 20% da população –, dos quais
mais de 20 milhões vivendo nas Regiões Metropolitanas.
Face a essa imagem de “país
jovem”, cabe a nós, educadores, perguntar: que lugar estamos
reservando à juventude? O presente tem demonstrado que os jovens
constituem parcela significativa do imenso contingente de
brasileiros vitimados pelos processos de exclusão e
desigualdade. As últimas décadas exibem as marcas desses
processos, seja na precariedade das políticas educacionais, na
escassez das oportunidades de trabalho ou no difícil usufruto de
condições mínimas de existência digna. É importante ter claro
que tais marcas, eventualmente, podem estar apenas aparentemente
suavizadas, ao se avaliar que, a despeito de o acesso à educação
ter sido bastante ampliado nesse período, não houve,
necessariamente, um aumento das possibilidades de inclusão
social, dada a crescente perda de qualidade do ensino.
A elevação acelerada dos níveis
de violência a que está submetida a população - notadamente a
população jovem - parece ser conseqüência inevitável desse
quadro. Tal panorama vem originando iniciativas de distintas
naturezas, cujo objetivo é a produção de espaços que possam
garantir minimamente canais de manifestações afirmativas das
diversas juventudes, tendo a escola como referência essencial de
ação.
Ao se
examinar o fenômeno, constata-se que, não raras vezes, a escola
tende a aparecer na medida de sua configuração como instância
atingida pela violência, seja aquela gerada internamente, no
âmbito do cotidiano escolar, seja a resultante da interferência
de processos originados externamente. Entretanto, é necessário
que se tenha claro que a violência na escola não pode ser
analisada como um fenômeno isolado, parte que é de um processo
mais amplo, que extrapola os limites da unidade escolar, pois
implica uma série de fatores que dizem respeito ao contexto
social como um todo. O consenso se dá no sentido de que se
desenvolva uma intervenção que represente contraponto à
violência. Seu sucesso, porém, estaria condicionado ao
envolvimento da participação das famílias, das comunidades e das
escolas no processo.
No bojo desse debate, merece ser
abordada a forma como as políticas voltadas para a juventude
revelam o espaço escolar. Há, por certo, uma gama de olhares
sobre os papéis a serem desempenhados pela escola e, em
conseqüência, distintas expectativas a respeito dos possíveis
resultados das ações levadas a efeito. Enquanto em algumas delas
o que se valoriza é fundamentalmente a infra-estrutura física
que o estabelecimento escolar oferece, em outras é a própria
especificidade das funções que a instituição desempenha que a
faz reconhecida como locus potencialmente privilegiado
para o investimento em um processo de mudança de atitude e
comportamento dos jovens. Concretamente, porém, tais políticas
adquirem feições próprias e plurais, refletindo fatores e
processos que, freqüentemente, são desprezados nas análises e
avaliações realizadas a seu respeito.
A relação entre escola e
juventude: uma questão sempre atual.
Na atualidade, pode-se reconhecer a existência de um movimento, de parte dos mais
variados segmentos da sociedade, caracterizado por diversas
iniciativas direcionadas ao fortalecimento de ações pautadas na
construção de trajetórias cidadãs para a juventude, a partir de
novas oportunidades e alternativas, muitas das quais apoiadas em
propostas que colocam a escola como espaço privilegiado dessas
ações.
Tal movimento, progressivamente,
vem dando corpo a uma rede de parcerias entre diferentes atores
- o poder público, organizações não-governamentais, organismos
internacionais, movimentos sociais, empresariado etc.
Entretanto, no que se refere às políticas adotadas, quando não
se restringem à mera propaganda, revestem-se, freqüentemente, de
caráter pontual e apresentam-se sob a forma de ações
fragmentadas, focalizando mais as conseqüências do que as causas
dos problemas, o que sinaliza a necessidade de serem
desenvolvidos novos estudos a respeito delas, muitas das quais
apresentando como traço comum o fato de reconhecerem a escola
como elo possível para intervenções destinadas a questões
sociais que envolvem os jovens.
Certamente, os últimos anos
correspondem a um período marcado pela assunção, por parte da
escola, de novos papéis, na sociedade em geral e nas políticas
sociais em particular, ainda que se apresente aparentemente
desqualificada em suas atribuições formais. Conhecer as maneiras
como ela desempenha esses papéis constitui um desafio para a
educação, dado que se trata de uma instituição sobre a qual
existe uma multiplicidade de compreensões, que se traduzem em
diferentes possibilidades da experiência escolar sobre aqueles
que a constroem - diretores, professores, funcionários, alunos e
familiares. Entretanto, quaisquer que sejam os paradigmas em que
esteja alicerçada, seu papel permanece fundamental no processo
de socialização dos sujeitos em nossa sociedade. Não por outro
motivo, torna-se foco de uma série de políticas, cujos
objetivos, direta ou indiretamente, têm em vista processos de
reconstrução social.
Não se pode desprezar o fato de a escola estar
atrelada à dinâmica social e , portanto, no seu cotidiano, se
conformar - direta ou indiretamente, formal ou simbolicamente -
a partir das tensões, contradições e conflitos próprios da
sociedade do seu tempo.
Os problemas a que está
submetida a escola, particularmente a escola pública, localizada
nas áreas pobres e periféricas, voltada às camadas mais
atingidas pela desigualdade social, remetem à necessidade de se
compreender a instituição em um contexto mais amplo. Em muitos
aspectos, a realidade com que se defronta, hoje, a escola
pública brasileira, aparece profundamente marcada pela tensa
relação com seu entorno e pelo não-atendimento às
especificidades daqueles a quem destina seus serviços,
configurado na inadequação das propostas pedagógicas e
curriculares, no despreparo dos professores, na rigidez das
estruturas de gestão e funcionamento.
Apesar de uma parcela
substancial daqueles a que atende serem reconhecidos como
jovens, a escola ainda parece distante, em sua atuação
cotidiana, de uma compreensão mais clara sobre a especificidade
dessa condição. O que significa, para a “escola de jovens”,
desenvolver práticas educativas com a juventude?
Cabe ressaltar que, em cada
tempo, em cada sociedade, os significados de juventude são
construídos de maneira diversa, a começar pela própria definição
do período da vida identificado com essa categoria. Idade não é
um dado imediato na consciência universal, variando bastante em
diferentes formações sociais. Não se trata apenas, portanto, de
uma questão cronológica, tendo um forte significado social.
A incorporação da juventude como
agente de destaque no cenário contemporâneo está relacionada aos
processos extremamente velozes de urbanização e modernização,
ocorridos, principalmente, a partir da segunda metade do século
XX. Esses processos vêm resultando na construção de novos
referenciais nos campos da ética, da moral, dos costumes e do
comportamento, entre outros.
No cenário brasileiro, os
jovens, freqüentemente, aparecem como protagonistas em questões
ligadas à violência, às drogas. Suas expressões, suas tentativas
de atuar na construção de sua própria história são pouco
visíveis aos olhos do restante da sociedade, incluindo-se aí a
escola. Pouco se diz sobre quem, de fato, são
esses jovens, sobre como vivem e como se relacionam, por
exemplo, na escola. Por um lado, o temor e o sentimento de
insegurança que o imaginário adulto associa ao jovem traduzem-se
na ameaça que ele encarna para o mundo adulto. Por outro, quando
se relaciona a questão da juventude à da cidadania, o que se
focaliza, geralmente, são os problemas.
Pesquisas recentemente
realizadas sobre jovens estudantes permitem observar que, de um
modo geral, os alunos dos estabelecimentos públicos defendem a
opinião de que a escola deve constituir-se como espaço dotado de
diversas funções, sobretudo a socializadora, de forma a
possibilitar a construção de conhecimentos, a convivência, a
experiência e a crítica social.
No que concerne aos conteúdos
programáticos do ensino, as opiniões são unânimes: questionam o
tipo de matéria e o excesso de conteúdos, cuja utilidade não é
percebida; defendem que a escola deve articular os ensinamentos
com a vida prática, para prepará-los para o mercado de trabalho;
criticam o volume de provas e testes. A escola é vista como
liberal quando tem a capacidade de estar aberta ao diálogo, para
que os alunos sejam ouvidos e suas reivindicações discutidas. Os
jovens consideram que o caminho para que a escola não seja
autoritária e não “vire bagunça” deve ser, tão somente,
privilegiar as relações pautadas no diálogo, não impor regras
excessivas e levar em conta o que pensam os alunos.
A escola é, como se vê, campo de
conflitos, em que confrontos entre diferentes agentes se
manifestam e, apesar da retórica da participação do jovem -
assim como de seus pais e dos moradores do entorno escolar, bem
como de representações populares e sindicais -, esta, na
prática, é restrita.
Ao se partir do princípio de que
a escola não é autônoma, fazendo parte de um determinado
contexto social, recebendo múltiplas influências e sendo alvo de
diferentes controles, compreende-se que não existem – nem podem
existir – propostas salvadoras, capazes de produzir milagres,
no que diz respeito à participação da juventude. Todavia, as
possibilidades que a instituição apresenta também apontam para a
necessidade de se refletir a seu respeito como um espaço que
deve estar sempre aberto ao diálogo e ao debate, capaz de
admitir e suportar conflitos entre os saberes dos jovens e os
dos demais agentes.
Um importante aspecto a ser
abordado remete à própria construção das condições necessárias à
ampliação das possibilidades de uma aproximação significativa
entre escola e juventude. Os jovens atendidos por políticas
sociais não enfrentam apenas os obstáculos impostos pela
condição de transitoriedade atribuída pela sociedade à sua
categoria – a juventude. Enfrentam, ainda – e principalmente – a
segregação que lhes é imposta pela cisão social que caracteriza
a sociedade brasileira, que exclui das possibilidades de
participação democrática e usufruto da cidadania uma parcela
cada vez mais significativa da população.
Assim, contorna-se um sério
problema: as escolas em que programas para jovens são
implantados têm diante de si entraves historicamente acumulados,
refletindo uma “crise” que se concretiza na formação precária
dos educadores para o diálogo com os jovens; na má remuneração
dos docentes e demais envolvidos no trabalho escolar; na
inadequação e insuficiência das condições materiais dos
estabelecimentos; na escassez de recursos financeiros e na
sujeição a intervenções de cunho técnico-pedagógico pontuais,
freqüentemente impostas verticalmente e desconectadas de sua
prática cotidiana.
No que tange à efetividade das
políticas sociais que se baseiam no uso do espaço escolar, um
ponto a ser destacado, intrinsecamente associado à situação da
escola pública na pauta das decisões de ordem
político-administrativa que subjazem a essas políticas, concerne
à forma como são concebidos e impostos programas e estratégias
para jovens, cujos encaminhamentos atropelam as condições
minimamente necessárias à participação da escola e da comunidade
na condução de processos que, em princípio, deveriam atender a
seus anseios e demandas.
Ao secundarizar-se a experiência
construída na adversidade por dezenas de escolas públicas que,
de uma forma ou de outra, lutam para preservar seu papel social,
deixa-se de trazer à tona e de estimular iniciativas
potencialmente inovadoras, impedidas de avançar pelas limitações
impostas pela cegueira político-administrativa vigente na esfera
da educação e pela adoção de medidas pautadas nos interesses
ditados pela ordem homogeneizante das políticas globais.
Juventude, escola e projeto pedagógico
Nos estudos mais atuais, é possível perceber a escola, por um
lado, como um dos locais de reprodução da violência - seja ela
moral, simbólica, física, social etc. - e das discriminações -
sexual, étnica, econômica etc. Por outro, são também bastante
visíveis suas possibilidades como espaço eficaz, tanto de
socialização, ressocialização, construção e ressignificação das
identidades dos jovens quanto - e, principalmente - de
recontextualização de determinações sociais e políticas,
possibilidades estas que se concretizam por meio do trabalho
escolar. Além disso, o jovem, de maneira geral, demonstra
gostar da escola e de seus professores, neles depositando
confiança.
Nesse quadro, cabe indagar se
estará a instituição tirando partido de suas potencialidades.
Historicamente, ela tem se mostrado como espaço de expressão da
cultura de determinados grupos sociais, relegando a segundo
plano as diferentes realidades culturais de seu alunado.
Conviver com a diferença ou fazer valer as diferenças, conquanto
seja direito de cada um de seus alunos, não é, na maior parte
das vezes, a preocupação de uma instituição que encara a
história desses jovens como única e homogênea. Cabe, pois,
buscar alternativas para reverter tal situação.
Com tal perspectiva, é
fundamental que se reconheça o fato de que não existe projeto
pedagógico que não seja, também, um projeto político. Não há
neutralidade possível nessa construção. Como produção coletiva e
desafiadora para um determinado grupo, em uma dada sociedade, de
um dado tempo, o projeto - instrumento importante para se pensar
e definir o que se quer, porque se quer, em favor de quem e como
se quer a educação - estará refletindo tanto a visão de mundo
quanto as necessidades, as contradições e os sonhos de seus
atores, definindo os caminhos a serem seguidos e o compromisso a
ser assumido pelos envolvidos na proposta que se quer
desenvolver.
Com isso, fala-se da construção
de um projeto pedagógico que, a partir da reflexão dos
professores, dos jovens, de suas famílias e dos demais
interessados na ação educacional a eles dirigida, organiza, sem
amarras, caminhos - e não destinos - da prática educativa,
voltados para a democracia, para a cidadania e para a
transformação.
Entretanto, cidadania e
democracia não podem ser valores abstratos e difusos na escola.
Romper com essa visão – que, na verdade, só nos afasta do seu
exercício real – para construir uma nova identidade como
educadores da juventude, parece ser uma das alternativas.
Elaborar projetos de forma
coletiva, em um processo do qual todos possam efetivamente
participar, não é, todavia, tarefa fácil. De modo geral, a
escola que conhecemos não tem essa tradição. Concorrem, para
isso, o fato de o professor necessitar dividir-se em muitos
empregos, a existência de uma certa descrença nas possibilidades
da educação no momento atual, a tendência vertical de nossas
estruturas, as formas autoritárias de gestão, ainda muito
presentes, e, especialmente, a pouca vivência democrática da
sociedade brasileira.
Se trabalhar no coletivo não é
uma prática da escola, garantir ao jovem o direito de participar
efetivamente das decisões escolares é menos ainda. Isto ocorre
não porque as pessoas envolvidas considerem desnecessário
fazê-lo, mas porque, historicamente, a ação de planejar tem
estado a cargo das chefias, das instâncias superiores, e não dos
profissionais que, de fato, executam as ações.
A construção de um projeto
pedagógico precisa rever sempre o que já se encontra instituído
para, a partir daí, constituir um processo capaz de viabilizar
uma escola democrática, direito de todos e dever do Estado, sem
desigualdades em seu interior, voltada à formação de cidadãos
trabalhadores, criativos e críticos.
E o que seria rever o que já foi
instituído na educação de jovens? Nas falas dos educadores,
percebe-se, com freqüência, uma escola com dificuldades de lidar
com a diversidade característica da juventude, com seu jeito de
ser, com seus valores e sonhos. Apesar disso, e também com base
em depoimentos dos próprios jovens, fica visível a possibilidade
de discussão e recontextualização, pela escola, no seu
dia-a-dia, de valores e temas importantes para a juventude.
Dentre eles, destacam-se questões vitais para ela, tais como
cidadania, violência, democracia, sexualidade e preconceito.
Será, portanto, a partir da
própria sala de aula que as possibilidades de
transformação do atual estado de coisas tornar-se-ão
potencialmente maiores. Um caminho complementar, mas não menos
importante, implica a revisão do processo de planejamento
(inclusive o curricular) e de outros processos inerentes ao
trabalho escolar (como o de avaliação). A partir daí, será
possível entender como tais processos, dependendo do modo como
foram concebidos, podem trazer contribuição ou dificuldade para
o que se quer transformar.
Para a efetivação de um projeto pedagógico democrático, não há
como gerir a escola de uma forma que não seja democrática, como
um aprendizado. Vivenciar tal experiência, neste caso, é de
fundamental importância para todos, especialmente para a
juventude, que se mostra descrente das formas
institucionalizadas de participação e se encontra distante de
sua própria organização como categoria estudantil. Desta forma,
a gestão democrática pode contribuir concretamente para a
melhoria do serviço oferecido em cada escola.
Entretanto, não bastará que se
atribua às escolas o “poder mágico” da gestão democrática; é
vital para o processo que se viabilizem, de fato, os meios e as
condições para isso, garantidos por políticas educacionais
comprometidas com a materialidade que tal autonomia requer.
Se cada projeto é único, porque define a situação também única
de cada escola, pode-se pensar em alguns caminhos que orientem
sua elaboração, de modo que ele crie raízes e que estas
encontrem terreno propício para o seu fortalecimento. Este, sem
dúvida, é um grande desafio.
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