HOME NORMAS PARA PUBLICAÇÃO NÚMEROS ANTERIORES

MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

Informação e

Sociedade

A REPRESENTAÇÃO DO FILME DOCUMENTÁRIO INSTITUCIONAL: TESTEMUNHO HISTÓRICO-CIENTÍFICO NO ESPAÇO INFORMACIONAL ACADÊMICO
Rosale de Mattos Souza

QUISSAMÃ SOMOS NÓS: RECURSOS INFORMACIONAIS PARA A CONSTRUÇÃO DE HIPERTEXTO SOBRE IDENTIDADE CULTURAL
Carmelita do Espírito Santo

Teorias da Cultura

AS CIDADES DE BAUDELAIRE E HUGO NA PARIS MODERNA DE WALTER BENJAMIN
Antonio Carlos Gaeta
AS CONTRIBUIÇÕES DO FILME “O PIANISTA” PARA A TEORIA DA MEMÓRIA
Joana D’Arc Fernandes Ferraz
Rogério Ferreira de Souza

Práticas Educativas, Comunicação e Tecnologias

PELAS VEREDAS DE PAULO FREIRE E PIERRE LÉVY : COMPILANDO PENSAMENTOS NA (RE)CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO POPULAR
Genoveva Batista do Nascimento
A EDUCAÇÃO COMO COMPONENTE BÁSICO PARA DIRECIONAR O TRATAMENTO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS NO MUNICÍPIO DE SEDE NOVA/RS
Mara Adriane Scheren

Resenhas

“O COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO: DA DAERROCADA DO SOCIALISMO DE CASERNA À CRISE DA ECONOMIA MUNDIAL” DO LIVRO DE ROBERT KURZ.
Maro Lara Martins

Ponto de Vista

REDES, AMBIENTES VIRTUAIS E O GESTOR DA INFORMAÇÃO.
Diego Salcedo
 

EXPEDIENTE
A revista MORPHEUS é uma publicação do Laboratório de Linguagens e Mídias, do Centro de Ciências Humanas da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e objetiva disseminar a produção científica acadêmica, optando pela interdisciplinaridade e pela multiculturalidade, tanto na abordagem como com relação aos objetos.


Editores
Evelyn Goyannes Dill Orrico; Cláudia Cerqueira do Rosário; Leila Beatriz Ribeiro; Mônica Cerbella Freire Mandarino;  Valéria Cristina Lopes Wilke; Carmen Irene C. de Oliveira; Guaracira Gouvêa de Souza.

Conselho Editorial
Angela Maria Martins (UNI-RIO)
Antonio García Guttierez (Universidad de Sevilla)
Denise Sardinha M. S. de Araújo (UNI-RIO)

Dayse Martins Hora (UNI-RIO)
Icléia Thiesen (UNI-RIO)
José Mauro Matheus Loureiro (UNI-RIO)
José Carlos Liggiero (UNI-RIO/NEPPA)
Lúcia Maria Alves Ferreira (UNI-RIO)

Miguel Angel Barrenechea (UNI-RIO)
Marco Aurélio Santana (UNI-RIO)
Nilson Moraes (UNI-RIO)
Regina Abreu Monteiro (UNI-RIO)
Regina Marteleto (IBICT/UFRJ)
Roberto Charles Feitosa (UNI-RIO)
Sérgio Albite (UNI-RIO)
Ulysses Pinheiro (UFRJ)


Webmaster
Alexandre de L. Antunes/ Caroline Barros

E-mail:mailto:morpheus@unirio.br

CARMELITA DO ESPÍRITO SANTO

“QUISSAMÃ SOMOS NÓS”: RECURSOS INFORMACIONAIS PARA CONSTRUÇÃO DE HIPERTEXTO SOBRE IDENTIDADE CULTURAL

Carmelita do Espírito Santo
Mestre em Ciencia da Informação
Bibliotecária

carmelitasanto@hotmail.com
carmelitasanto@yahoo.com.br



RESUMO

Este trabalho tem como objetivo apresentar um modelo de gestao da informacao que possa fundamentar acoes informacionais no contexto da inclusao social/digital. Trata-se de uma pesquisa participante realizada em Quissama, RJ, Objetivou a construcao de um hipertexto digital, aqui considerado um recurso informacional para produzir e organizar informacoes como estruturas significantes visando sua disponibilizacao na Internet. Para tanto, e necessario a socializacao da informacao, parte da responsabilidade social da Ciencia da Informacao. O conteudo informacional do hipertexto reflete um regime de informacao sobre a identidade cultural de Quissama, que tem no folclore um dos elementos mais expressivo.

Palavras-chaves: Hipertexto, Identidade cultural, recursos informacionais, Quissama (Rio de Janeiro, Brasil)

ABSTRACT
This participant research was developed in association with Quissama community, located in Rio de Janeiro, represented by students, teachers and educational agents of six public schools. The objective of the research was to construct a digital hypertext, considered as a part of an information regime and significant structure [information] with the purpose of producing knowledge. We assume that is necessary to socialize information to produce knowledge, as part of the social role played by Information Science. The hipertext is considered as an instrument to produce, organize and to make information available in the Internet, known as a potential space to socialize information. The information contents of the hypertext reflects the information regime about the cultural identity of Quissama, that has in its folklore one of the most expressive elements.

Key Words: Hipertext, Cultural identity, Informational resources, Quissama City (Rio de Janeiro, Brazil)

1. INTRODUCAO.
Este trabalho tem como objetivo apresentar um modelo de gestao da informacao que possa fundamentar acoes informacionais no contexto da inclusao social/digital. Esta fundamentado nos resultados da pesquisa de mestrado “ Quissama somos nos: pesquisa participante para a construcao de hipertexto sobre identidade cultural.” (Espirito Santo, 2004) A pesquisa objetivou a construcao de um hipertexto digital sobre a identidade cultural de Quissama, cidade localizada na regiao norte do Estado do Rio de Janeiro. Foi motivada pelas necessidades de inclusao social/digital da sociedade da informacao no Brasil. Abordamos a informacao como estruturas significantes para gerar conhecimento no individuo, no seu grupo e na sociedade (Barreto, 1994). Isto se concretiza atraves da socializacao da informacao. Para tanto, utilizamos a estrutura operacional do conceito de regime de Informacao Gonzalez de Gomez, (1999). O tema da identidade cultural comporta elementos da cultura nacional. Dentre esses elementos, destacamos o folclore como tema principal do conteudo do hipertexto. Para caracterizar o regime de informacao, foi elaborado um questionario com base no conceito de cultura nacional, onde se procurou identificar os exemplos da cultura local. Para caracterizar o folclore foi realizada uma gincana cultural, que mobilizou alunos, professores e outros agentes educacionais de seis escolas de Quissama. Como resultado, temos um instrumento para socializacao da informacao sobre a identidade cultural de Quissama que tem no folclore sua tematica central. O hipertexto ainda nao e digital mas sua versao preliminar ja nos permite vislumbrar o potencial de expressao da cultura local pelos caminhos da rede global.

2. OBJETIVOS

· Apresentar os resultados de um processo participativo de gestao da informacao na construcao de um hipertexto sobre identidade cultural
· Contribuir para estudos de Gestao da Informacao que envolvam a participacao dos usuarios.

2. 1. Objetivos especificos

· Identificar os elementos da cultura local;
· Caracterizar o regime de informacao local;
· Delinear o modelo do hipertexto contendo a informacao cultural local.


1-Dissertação de mestrado realizado no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – PPGCI IBICT/UFRJ/ECO, sob orientaçao da prof. Isa Maria Freire. Ver ref. bibliográficas


3. BREVE REFLEXAO SOBRE GLOBALIZACAO, IDENTIDADE CULTURAL E INFORMACAO

A chamada sociedade da informacao e do conhecimento traz consigo impactos sociais capazes de levar ao aprofundamento da clivagem social trazida pelas novas tecnologias. Neste contexto, os excluidos se-lo-ao ainda mais, se politicas e acoes visando combater este problema, nao forem implementadas (Seabra, 2004). Umas das consequencias da globalizacao foi a geracao de uma grande diversidade de comunidades virtuais interligadas em rede, caracterizando a metafora da “aldeia global” de McLuhan, conforme verificado em Ianni (1995) e Ortiz (1994), entre outros: Nesse espaco social, ocorre a difusao de padroes culturais globais que acarretam em processos de alienacao dos valores e das culturas locais. Isto envolve a ideia de perda ou enfraquecimento das Identidades Culturais locais. Aqui no Brasil, pode-se evidenciar essa preocupacao atraves do capitulo cinco do Livro Verde da Sociedade da Informacao no Brasil.

3.1. Informacao no contexto global

E a partir da metade do seculo XX, periodo marcado por um grande fluxo de informacao, que se pode caracterizar a informacao como fator-chave da economia. A partir desse momento historico, ‘informacao’ torna-se objeto de pesquisa em diversas areas e contextos, sendo ate mesmo uma categoria filosofica ou categorias filosoficas como materia, espaco, movimento, tempo e energia.” (Araujo, 1994, p.15). Procuramos identificar, para nossa pesquisa, um conceito que pudesse abordar o papel da informacao no ambito da globalizacao da economia e dos padroes culturais. Conforme Barreto, a informacao funcionam como estruturas significantes nesse novo contexto, pois: [...] como agente mediador na producao do conhecimento, a informacao qualifica-se, em forma e substancia, como estruturas significantes com a competencia de gerar conhecimento para o individuo e seu grupo. (Barreto, 1994, p.3). Observa-se neste contexto a funcao social da Ciencia da Informacao, interesse maior desta pesquisa, que ve na socializacao da informacao o principio basico para a producao do conhecimento. Conforme Wersig e Nevelling: [...] a transmissao do conhecimento para aqueles que dele necessitam e uma responsabilidade social e essa responsabilidade social parece ser o fundamento em si para a Ciencia da Informacao. (Wersig e Nevelling citados por Freire, 1995) Em artigo onde busca contextualizar o Programa Sociedade da Informacao no Brasil nas transformacoes sociais contemporaneas, Legey e Albagli sustentam que a geracao de conhecimento e um processo que se alimenta de aprendizados, resultantes de experiencias e interacoes, como de informacoes classificadas, processadas e analisadas, que geram um tipo novo de saber. (Legey e Albagli, 2004). Isto passa necessariamente pela questao do acesso e uso de informacao, o que exige uma ampla circulacao e disseminacao/comunicacao de informacao. Ou seja, nas condicoes sociais de producao do conhecimento, a informacao deve ser vista como um bem social e um direito coletivo como qualquer outro, sendo tao importante como o direito a educacao, saude, moradia, justica e tantos outros. (Araujo, 2004).

3.2. A Gestao na Ciencia da Informacao

Para Gonzalez de Gomez, a Ciencia da Informacao seria a disciplina que estuda fenomenos, processos, construcoes, sistemas, redes e artefatos de informacao. Informacao, nesse contexto, e definida por acoes de informacao, que remetem seus atores aos contextos e as situacoes onde estas ocorrem. Neste contexto, “cresce a responsabilidade [...] da Ciencia da Informacao enquanto atividade social para a organizacao e a transferencia da informacao” (Freire, 1995). Sob esta perspectiva, cabe a Ciencia da Informacao oferecer recursos teoricos e/ou metodologicos para que os profissionais da area possam gerir os recursos informacionais necessarios para a inclusao social. No presente trabalho, designa-se recursos informacionais ao conjunto de acoes, procedimentos e/ou elementos englobados nas atividades de producao, organizacao, acesso, comunicacao e uso da informacao. Como Uma das praticas bastante significativa neste conjunto e a gestao da informacao. O termo gestao da informacao significa “[...] o planejamento, a construcao, a organizacao, a direcao, o treinamento e o controle associados com a informacao”. pode agregar tanto a informacao ela mesma quanto os recursos relacionados, tais como pessoas, equipamentos, recursos financeiros e tecnologia.(DECIGI, 2004) Para Marchiori (2002) existem pelo menos tres recortes no contexto da gestao da informacao no Brasil. Dentre estes, destacamos o enfoque da Ciencia da Informacao, que trata da necessidade do gerenciamento de recursos de informacao, o monitoramento, a localizacao, a avaliacao, a compilacao e a disponibilidade de fontes de informacao [...] no ambito de diferentes fluxos de informacao. (Institute of Information Scientists, apud por Marchiori, 2002). Segundo Gonzalez de Gomez (1999), e de responsabilidade da gestao da informacao “[...] o planejamento, instrumetalizacao, atribuicao de recursos e competencias, acompanhamento e avaliacao das acoes de informacao e seus desdobramentos em sistemas, servicos e produtos. Visto dessa maneira, podemos dizer que e atraves do processo de socializacao, que a Ciencia da informacao pode intermediar a realizacao de uma acao informacional que contemple um contexto comunitario, onde produtores e usuarios possam participar de forma ativa e igualitaria na producao e divulgacao da informacao.

4. INFORMACAO E CULTURA

Neste caso, como o tema da identidade cultural pode ser inserido no contexto da informacao? Antes de mais nada e necessario uma passagem pelo conceito de cultural. Segundo a visao de varios autores a cultura e um tema complexo que engloba diferentes discussoes. Geertz (1989), Williams(1992), Santos (1994), (Featherstone (1994), e Burity (2002), O conceito de cultura procura designar uma estrutura social no campo das ideias, dos simbolos, das crencas, dos costumes, dos valores, artes, linguagem, moral, direito, leis, etc., e que se traduz nas formas de pensar, sentir e agir de uma dada sociedade. A cultura, neste inicio de seculo XXI, passa por transformacoes no seu quadro conceitual devido a sua relacao com as comunidades digitais e com o indeterminismo do sujeito pos-moderno. Mortari e Matos (2002). Nao se trata de uma adaptacao ao mundo virtual, mas por uma busca a uma nova ideia de compartilhamento. Assim, as culturas habitam hoje uma regiao de fronteira, lugar onde transitam nao apenas sujeitos em busca do novo e do estranho, mas individuos que lutam pela sobrevivencia social e cultural em sua relacao com o virtual. Para Marteleto (1995) a relacao da informacao com a cultura esta em suas bases conceituais, pois: “[a cultura] se torna o primeiro momento de construcao conceitual da informacao, como artefato, ou como processo que alimenta as maneiras proprias do ser, representar e estar em sociedade.” (Marteleto, 1995, p. 90) Assim, enquanto elemento da informacao, a cultura “... funciona como uma memoria, ... ao conservar e reproduzir artefatos simbolicos e materiais de geracao em geracao, [tornando-se] a depositaria da informacao social”. (Marteleto, 1995, p.90) Neste sentido, se os novos processos de dominacao cultural estao embutidos nos fluxos de informacao, a construcao da autonomia deve se fundamentar nos fluxos reversos da informacao.

4.1. Elementos de Identidade cultural

As definicoes de identidade cultural reflete a complexidade do termo nos mais diversos segmentos. Burity (2002), Castells (1999), Catelan (2002), Hall (1998). Catelan (2002) designa como IC o “conjunto de habitos, costumes, ideais, padroes de comportamento, criacoes artisticas, literarias e folcloricas que formam a personalidade historica de um povo.” De acordo com Burity (2002), a questao do enfraquecimento das identidade diz respeito ao conceito de cultura, pois este assunto tornou-se relevante a partir do momento em que o sujeito social percebeu que as suas relacoes sociais estao cada vez mais fortemente mediadas pela cultura. Desta forma a cultura e ponto de discussao do que sao e para onde vao as sociedades contemporaneas. Segundo Hall (1998), uma das formas pela qual se pode caracterizar a identidade cultural e atraves da Cultura Nacional, que tem no folclore dos principais elementos. A palavra folclore apareceu pela primeira vez, na Inglaterra, quando foi publicado que fatos arrolados como antiguidades populares constituiam em um saber popular. Para designar estes saberes, sugeriu a palavra anglo-saxonica Folklore. A palavra poderia englobar o conjunto de fatos que constituem os usos, os costumes, as cerimonias, as crencas, os romances e as supersticoes conservadas pelo povo. (Brandao, 1994). Para Brandao, (1994, p.24), a palavra folclore diz respeito a “tudo que o homem do povo faz e reproduz como tradicao.” Na visao de Cascudo: “uma manifestacao e folclorica quando alem de ser popular, constitui-se em sobrevivencia. O folclore, seria, portanto, uma manifestacao do passado no presente. ..Um conjunto de residuos, de fragmentos de costumes e praticas culturais desaparecidas, que torna dificil estabelecer os vinculos entre as manifestacoes populares e os contextos em que surgiram (Cascudo, apud Ayala e Ayala, 1987, p.15)

4.2. Hipertexto: um recurso informacional para a identidade cultural na Internet

Hipertexto e um tipo de programa para a organizacao de conhecimentos ou dados, a aquisicao e a comunicacao de informacoes (Levy, 1994, p.33). Dessa forma, o leitor participa da redacao e edicao do documento, conectando uma infinidade de documentos e, ate mesmo, criando um novo documento hipertexto. Este No que tange a sua constituicao, o hipertexto e formado por partes que sao ligadas a um corpo principal e nao deve ser construido solitariamente. Para Freire (1998), o hipertexto torna-se relevante como um instrumento de transferencia de informacao por possibilitar estrategias de buscas informais, personalizadas e orientadas ao conteudo: Diante do exposto, o hipertexto pode ser visto como um recurso informacional que tem a funcao de produzir, organizar e comunicar informacoes. Isto pode se efetivado atraves da Internet, novo espaco social, politico e economico aonde ocorre o fenomeno da producao e circulacao da informacao (Freire, 1998, p.103). Isto implica dizer que, neste contexto, a Internet e mais um recurso informacional para a socializacao da informacao. A rede Internet, antes arpanet, foi criada ha cerca de trinta anos nos Estados para permitir que o compartilhamento de recursos computacionais entre instituicoes militares, visandom garantir a integridade dos canais de de transmissao de dados em caso de catastrofes Tradicionalmente voltada para troca informacoes entre pesquisadores de C&T, agora se estende a toda sociedade. (Araujo e Freire, 1996). Nossa pesquisa propos a ideia da utilizacao do hipertexto na Internet para a preservacao das identidade cultural de uma dada comunidade.

5. UM PASSEIO EM QUISSAMA, RJ

Quissama e uma pequena cidade localizada na regiao norte do Estado do Rio de Janeiro. Possui uma populacao de aproximadamente quatorze mil habitantes. A formacao social de Quissama pode ser compreendida atraves das varias transformacoes politicas economicas e sociais desencadeadas pela implementacao do setor acucareiro e da era dos engenhos centrais de cana-de-acucar: Atraves dos recursos financeiros gerados pelos royalties oriundos da exploracao do petroleo na regiao, o crescimento economico ao mesmo tempo em que garante a manutencao da prosperidade do municipio concorre, tambem, para a importacao de padroes culturais. Assim, apesar do grande potencial historico e cultural da regiao, a cultura local vem adotando os padroes de manifestacao da cultura importada. Tal fato concorre para o enfraquecimento da identidade cultural local: “Nao queremos que nossa populacao deixe de ouvir ou ver o “Tchan”, mas e importante que eles tenham conhecimento e consciencia de nossa riqueza cultural, que nos garante uma identidade propria” (negrito nosso). (Depoimento da Secretaria de Educacao e Cultura de Quissama). O municipio possui uma biblioteca publica e um espaco cultural e a pagina oficial da prefeitura na Internet. Porem, estes recursos informacionais ainda carecem de alguns elementos referentes a producao, acesso e disseminacao da informacao, compativeis com a nova demanda exigida para promocao da inclusao social/digital. Podemos citar pequeno grau de interatividade com o usuario, devido a pouca ou nenhuma participacao da comunidade no seu planejamento; necessidade de profissionais especializados em trabalhos com informacao, falta de equipamentos, etc...

6. ASPECTOS METODOLOGICOS

6.1. Pesquisa participante: a comunidade presente

A pesquisa participante combina tecnicas de pesquisa, processos de ensino-aprendizagem e programas de acao educativa. .que apontam para: a) promocao da analise coletiva na ordenacao da informacao e no uso que dela se possa fazer; b) promocao da analise critica, utilizando a informacao ordenada e classificada, a fim de determinar as raizes e as causas dos problemas e as vias de solucao para os mesmos; c) estabelecimento de relacoes entre problemas individuais e coletivos, funcionais e estruturais, como parte da busca de solucoes conjuntas para os problemas enfrentados" (Gajardo citada por Freire, 1998, p.18) Sua estrategia de investigacao contempla a mobilizacao de grupos para a organizacao, a transformacao e o desenvolvimento de acoes que redundem em beneficio coletivo da realidade social. Surge da necessidade de se criar uma sociedade mais justa, menos dividida, e na qual a populacao ate agora excluida possa ter acesso aos beneficios proporcionados a uns poucos.

6.2. A Nocao de um Regime de Informacao Conforme Gonzalez de Gomez

A sociedade da informacao poderia ser entendida como aquela em que o regime de informacao caracteriza e condiciona todos os outros regimes sociais, economicos, culturais, das comunidades e do estado. (Gonzalez de Gomez, 2004) Segundo o Repertorio Portugues de Ciencia Politica (RPCP), a palavra regime vem latim regimen, de regere, que significa “dirigir, reger, governar”. Como exemplo, regime politico, sistema de organizacao e funcionamento de uma entidade coletiva politicamente organizada (RPCP, 2002). No contexto informacional, temos o conceito de “regime de informacao”, ou o modo de producao informacional numa formacao social. Assim, para melhor caracterizar o conteudo do hipertexto, procuramos operacionalizar a pesquisa seguindo os fundamentos do conceito do regime de informacao: [...] os sujeitos, instituicoes, regras e autoridades informacionais, os meios e os recursos preferenciais de informacao, os padroes de excelencia e os arranjos organizacionais de seu processamento seletivo, seus dispositivos de preservacao e distribuicao.(Gonzalez de Gomez, 2002).

7. A IMPLEMENTACAO DA PESQUISA

7.1. As fases da pesquisa

Todas as reunioes e eventos foram documentadas e devidamente registradas em memorias de reunioes As fonte de informacoes utilizadas na pesquisa foram um questionario e uma gincana cultural. O questionario foi destinado a caracterizacao dos aspectos gerais da cultura local. A gincana cultural foi direcionada especificamente para caracterizar o folclore local. O projeto foi desenvolvido em cinco fases: a) planejamento dos procedimentos necessarios para a implementacao da pesquisa no municipio; b) escolha do tema da identidade cultural a ser tratado na pesquisa e pela selecao da amostra de participantes; c) elaboracao de instrumentos para a coleta de dados; d) apresentacao da pesquisa para a comunidade; e)realizacao das atividades da pesquisa e pela analise das informacoes para a producao da versao preliminar do hipertexto. A amostra da pesquisa foi constituida de alunos, professores e outros agentes educacionais da comunidade, tendo como criterios: a) escolas que oferecem ensino de primeiro e segundo graus; b) alunos matriculados nos niveis compreendidos entre a oitava serie do primeiro grau e terceiro serie do segundo grau; c) escolas localizadas de acordo com os nucleos habitacionais de cada comunidade. As escolas que se enquadraram nos criterios foram: Centro Integrado de Educacao Publica - CIEP municipalizado 465, Colegio Cenecista Nossa Senhora do Deterro (CCNSD), Colegio Estadual Visconde de Quissama (CEVQ), Escola Municipal Delfica de Carvalho Wagner (Delfica), EscolaMunicipal Maria Hilka de Queiroz e Almeida, Escola Municipal Nelita Barcelos dos Santos As questoes dos questionarios foram:

1)em quais fontes a populacao local pode buscar informacoes sobre sua cultura;

2) que fatores que concorrem para dificultar a busca de informacoes sobre a cultura local;

3) quais informacoes seriam necessarias para os alunos trabalharem a cultura local em sala de aula;

4) quais informacoes seriam necessarias para que os professores, supervisores, orientadores e outros agentes educacionais pudessem trabalhar o tema da cultura local com os alunos;

5) quais aspectos da cultura local se escondem no cotidiano do municipio;

6) quem sao os produtores culturais que representam o folclore local No que diz respeito a Gincana Cultural Local, foi necessario a elaboracao de um sub-projetono ambito do projeto de dissertacao, pois o evento exigia uma detalhada organizacao operacional, onde foram sugeridas as seguintes tarefas:

a) Fazer uma enquete junto aos familiares, amigos, vizinhos, conhecidos etc, para saber quais as manifestacoes folcloricas caracteristicas da municipio, registrando lendas, contos e cantigas conhecidas dos informantes;

b) identificar quais sao as pessoas que apresentam ou representam as manifestacoes folcloricas do municipio;

c) fazer uma entrevista em publico com alguem que faca parte de algum grupo folclorico ou represente alguma manifestacao folclorica local;

d) dissertar sobre os elementos caracteristicos do folclore local;

e) organizar a apresentacao publica de uma manifestacao folclorica do municipio Seguindo os procedimentos adotados na pesquisa, tracamos um pequeno esquema das acoes e outros elementos englobados na gestao dos recursos informacionais. A figura abaixo procura ilustrar os recursos utilizados na pesquisa, tendo como criterios as fases utilizadas na pesquisa. Conforme ilustrado na figura, a questao politica e o primeiro recurso informacional a ser considerado no trato de um projeto de inclusao social/digital. A seguir, os aspectos metodologicos, ou seja, os elementos que fundamentarao o planejamento de cada projeto. A partir desta etapa, levantar as fontes de informacoes, os recursos informacionais necessarios para implementacao das atividades e das acoes informacionais a serem realizadas para a implantacao e finalizacao de cada projeto no contexto da sociedade da informacao: Apoio financeiro Abordagens e conceitos Politicos Delimitacao do tema Metodologicos Aprovacao da pesquisa visitas, reunioes, Questionarios, gincana Fontes de Informacao Equipamentos/Recursos Comunidade: artesaos, produtores culturais palestras, seminarios Semec: alunos, professores biblioteca, espaco cultural eventos culturais livros, periodicos, outros Internet Internet Hipertexto figura 1: esquema de recursos informacionais

7.2. Limitacoes dos recursos informacionais

Aconteceram alguns contratempos nesta fase:

a) necessidade de reelaborar as instrucoes da Gincana, pois os alunos acharam o texto dificil de entender;

b) Problemas de saude da pesquisadora impediram o acompanhamento de algumas atividades da gincana;

c) necessidade de mudancas no cronograma da pesquisa;

d) dificuldades para conciliar o novo cronograma com as atividades escolares;

e) dificuldades para visitar as turmas e recolher as informacoes coletadas, especialmente as escolas mais distantes da sede do municipio;

f) dificuldades para reunir todas as escolas para a realizacao do evento, ultima tarefa da gincana.

8. A IDENTIDADE CULTURAL NO REGIME DE INFORMACAO LOCAL

8.1. A cultura local Muitas manifestacoes foram citadas e exemplificadas pelos participantes: lendas, religiao, alimentacao, musica, artistas populares, entre outras. Aqui destacamos o fado Quissamaense: O fado e constituido de palmeados e sapateados que constituem em elementos coreograficos de funcao especial na marcacao ritmica. O acompanhamento instrumental e feito por violas e pandeiros e acompanhamento vocal e feito pelo canto de duas vozes. Atualmente ele e tido como a mais expressiva manifestacao do folclore local. O fado nao tem data fixa nem pertence a nenhum ciclo do calendario religioso. O fado e considerado da parte de Deus por seus dancadores. Isto pode ser provado na formacao dos dancarinos durante a apresentacao: dois pares, dama frente a dama e cavalheiro frente a cavalheiro, formam uma cruz e evoluem basicamente nesta posicao.

8.2. Conteudo Informacional do Hipertexto Como titulo do hipertexto adotamos "Nossa Identidade Cultural no Ar" O hiperexto e identificado atraves do titulo: "A identidade cultural de Quissama no ar: Um sitio de informacao e cultura", onde sao resumidos os creditos da pesquisa. Retratamos a comunidade de Quissama atraves da secao "Quem Somos Nos", onde apresentamos a comunidade que participou da pesquisa. Na secao “Somos Quissama” , mostramos aspectos gerais do municipio, destacando a cultura representada pelos casaroes locais. Em "Identidade e Folclore" relacionamos algumas manifestacoes do folclore, base da Identidade Cultural local. Temos ainda Mais folclore, representado por nossas lendas e nossas estorias. Na secao "Nossos artistas populares" , transcrevemos as entrevistas realizadas durante a pesquisa com artistas locais. Em Nossos Links, relacionamos todas as pessoas e instituicoes envolvidas na pesquisa

9. O MODELO PRELIMINAR DO HIPERTEXTO

A partir das informacoes acima, delineamos o primeiro modelo para a construcao do hipertexto a ser disponibilizado na Internet: Figura 2: Modelo preliminar do hipertexto

10. REALIZAMOS NOSSOS OBJETIVOS

Durante a realizacao do trabalho observamos que a gestao de recursos informacionais exige uma grande capacidade para entender que estes recursos ultrapassam os quesitos tecnologia, esquipamentos e recursos financeiros. Sao muitos detalhes que devem ser considerados, como o olhar de interrogacao ou o gesto de excitacao de cada aluno, em poder participar de um processo de redescobrimento de sua cultura... Descobrimos que, para que um projeto de pos-graduacao possa ser realizado com sucesso, devemos deixar um pouco de lado o academicismo, e atentar mais para o cotidiano dos participantes, pois isto tambem se concretiza como recurso informacional. Na ocasiao da visita a Escola Maria Hilka, a Sra. Aparecida, diretora da escola. alertou que as questoes tratadas na pesquisa, embora sejam cruciais na atualidade, ainda nao foram totalmente absorvidas pela maioria das pessoas. Isto inclui nao so alunos, mas tambem professores e outros agentes de ensino do municipio. Concluimos que para efetivar uma pesquisa participante para a gestao de recursos informacionais na questao da inclusao social/digital e necessario considerar questoes poliiticas, metodologicas, informacionais, profissionais, entre outras. Neste sentido, devemos:

a) planejar minuciosamente a pesquisa de modo que ela faca parte do calendario escolar da comunidade participante;

b) programar todas as acoes, incluindo horarios de reunioes e visitas, os contatos, recursos material e financeiro, etc;

c) demonstrar para a comunidade a importancia do papel de cada membro na pesquisa;

d) lembrar que a pesquisa e participante, mas que a interacao entre todos envolve lideranca. O estudo mostrou que falar, tratar do tema da identidade cultural na otica do regime de informacao permite compreender varios fenomenos contemporaneos que interferem na preservacao de nossa cultura. Isto Ressaltamos, no entanto, que esta foi apenas a primeira fase de construcao do hipertexto, pois nao foi possivel disponibiliza-lo ainda na rede internet. “A implementacao deste processo depende de uma serie de outras acoes serem discutidas com a comunidade” (Espirito Santo e Freire, 2004) Destaca-se, entretanto, o papel relevante da Ciencia da Informacao na socializacao da informacao atraves de sua capacidade de intermediar a realizacao de uma acao informacional que contempla um contexto comunitario onde produtores e usuarios de informacao participaram de forma ativa e igualitaria na sua realizacao

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ARAUJO, E. A.

Informacao: recurso para a acao politica do cidadao?

Disponivel em:
http://www.encontros-bibli.ufsc.br/Edicao_9/eliany.html.

Acesso em: 29.09.2004 ARAUJO, V. M. R. H.; FREIRE, I. M. A rede internet como canal de comunicacao, na perspectiva da ciencia da informacao. Transinformacao, Campinas, SP, v. 8, n? 2, maio/ago., 1996 . Disponivel em: www.puccamp.br/~biblio/araujo82.html . Acesso em 11. Fev.2003. ARAUJO, V.M.R.H. Sistemas de recuperacao da informacao: nova abordagem teorico conceitual. Rio de Janeiro: UFRJ/CFCH/ECO, 1994. Tese. (Doutorado em Comunicacao). AYALA, M. AYALA, M. I. N. Cultura popular no Brasil: perspectiva de analise Sao Paulo: Atica, 1987. BARRETO, A.A. A questao da informacao. Sao Paulo em perspectiva, v.8, n.4, p.3-8, out./dez. 1994. BRANDAO C.R. (org.) Pesquisa participante. 6.ed. Sao Paulo: Brasiliense, 1986. DECIGI: Departamento de Ciencia da Informacao e Gestao da Informacao - Universidade Federal do Parana. Disponivel em:. Acesso em: 04/10/2004 ESPIRITO SANTO, C. “Quissama somos nos”: pesquisa participante para construcao de hipertexto sobre identidade cultural. Rio de Janeiro, 2003. Dissertacao (Mestrado em Ciencia da Informacao) - CNPq/IBICT/UFRJ/ECO. ESPIRITO SANTO, C., FREIRE, I.M. “Quissama somos nos”: construcao participativa de hipertexto. Ci. Inf., Brasilia, v.33, n.1, p.155-168, jan./abr. 2004 FREIRE, G. H. de A. Construcao de um instrumento para a comunicacao da informacao sobre saude. Rio de Janeiro, 1998. Dissertacao (Mestrado em Ciencia da Informacao)- CNPq/IBICT/UFRJ/ECO. FREIRE, I. M. A responsabilidade social da ciencia da informacao e/ou O olhar da consciencia possivel sobre o campo cientifico. Rio de Janeiro, 2001. Tese. (Doutorado em Ciencia da Informacao) - CNPq/IBICT/URJ/ECO. ______. Informacao; consciencia possivel; campo. Um exercicio com construtos teoricos. Ciencia da Informacao, Brasilia, v.24, n.1, p.133-142, jan./abr., 1995. FREIRE, I.M., NATHANHSON, B., TAVARES, C. ESPIRITO SANTO, C. Estudos de usuarios: o padrao que une tres abordagens. CI. INF., Brasilia, v.31, n.3, p.103-107, set./dez. 2002. GAJARDO, M. Pesquisa participante: propostas e projetos In: BRANDAO C.R., (org.) Pesquisa participante. 6.ed. Sao Paulo: Brasiliense, 1986. p. 15-55 A globalizacao e os novos espacos da informacao. Informare. Cad.Prog. Pos-Grad. Ci. Inf, Rio de Janeiro, v.3, n.1/2, p.8-22, jan./dez, 1997. GONZALEZ DE GOMEZ, M.N. Revista Internacional de Estudos Politicos. RIEP, v.1, n.1 abr.1999. ______. Novos cenarios politicos para a informacao. Ciencia da Informacao, Brasilia, v.31, n.1, p.27-40, jan./abr. 2002. Disponivel em Acesso em 27. dez. 2002. Versao em html ______. Novas fronteiras tecnologicas das acoes de informacao: questoes e abordagens. Ci. Inf., Brasilia v.33 n.1 jan./abr. 2004. Disponivel em: http://www.ibict.br/cienciadainformacao LEGEY, L-R, ALBAGLI, S. Construindo a sociedade da informacao no Brasil: uma nova agenda. DataGramaZero - Revista de Ciencia da Informacao - v.1 n.5 out. 2000. disponivel em: < http://www.dgz.org.br/out00/Art_02.htm>. Acesso em: 15.10.2004 MARCHIORI, Patricia Zeni A ciencia e a gestao da informacao: compatibilidades no espaco profissional. Ci. Inf. v.31 n.2 Brasilia maio/ago. 2002. Disponivel em http://www.ibict.br/cienciadainformacao MARTELETO, R. M. Cultura, educacao, distribuicao social dos bens simbolicos e excedente informacional. INFORMARE – Cad. Prog. Pros-Grad. Ci. Inf. Rio de Janeiro, v.1, n.2, p.11-23, jul./dez.1995. MARTELETO, R. M. Cultura informacional: construindo o objeto informacao pelo emprego dos conceitos de imaginario, instituicao e campo, Ciencia da Informacao, Brasilia, v.24, n.1, jan./abr. 1995. REPERTORIO Portugues de Ciencia Politica. Centro de estudos do pensamento politico. Disponivel em www.iscsp.utl.pt/~cepp/indexfro. Acesso em 19 dez. 2002. SEABRA, Carlos. Inclusao digital: algumas promessas e muitos desafios http://www.cidec.futuro.usp.br/artigos/artigo6.html SOCIEDADE DA INFORMACAO NO BRASIL. Livro verde. Disponivel em www.socinfo.org.br/livro_verde/ . Acesso em 18 fev. 2003. YUEXIAO, Z. Definitions and sciences of information. Information Processing & Management, v.25, n.4, p.479-491, 1988.