A EDUCAÇÃO MODERNA COMO BARBARIZAÇÃO DO TIPO
HOMEM
Vagner da Silva
Mestre em Filosofia Puc-Campinas.
vagnerdasilva@hotmail.com
Resumo
O objetivo deste texto é fazer uma
análise de uma vertente pouco explorada do pensamento
nietzscheano, que é sua aplicação à educação. Buscaremos mostrar
relações entre os conceitos de barbárie apresentados pelo filósofo
e a educação do homem moderno. Para tal não nos limitaremos a uma
única obra ou período do autor, abordando textos distintos de
todas as fases em que mais comumente se divide a filosofia
nietzscheana, por acreditar que não há descontinuidade em sua
obra, nem no plano temático nem no plano metodológico, apenas
algumas mudanças quanto aos modelos humanos adotados por Nietzsche
na sua juventude e os adotadas em seus períodos intermediário e
final.
Palavras-chave: barbárie - cultura - educação.
Abstract
The objective of this work is to do an
analysis of a part of Nietzsche’s thought that is not too much
explored, that is its application to the education. We will show
the relationship between the concepts of barbarism used by the
philosopher and the education of the modern men. For this, will be
used several books of the three most common periods in what
Nietzsche’s philosophy is divided, for believing that there is not
discontinuity in his works, neither in the thematic field nor in
the methodological field, only some changes about the humans
models adopted by Nietzsche in his youth period and those adopted
in his intermediary and final period.
Key words: barbarism -
culture - education.
A EDUCAÇÃO MODERNA COMO BARBARIZAÇÃO DO
TIPO HOMEM.
1. Introdução.
Nietzsche é sem dúvida um dos mais polêmicos
filósofos da modernidade. E isso não se deve apenas à forma como
escrevia seus livros: aforismos, parágrafos e dissertações
aparentemente desconexos, mas que analisados cuidadosamente
guardam profunda relação entre si. O que tornou Nietzsche tão
polêmico vai além da forma, encontra-se no conteúdo. Ao longo de
toda sua carreira filosófica Nietzsche perscrutou os mais diversos
assuntos, detendo-se de forma mais demorada e intensa nos estudos
acerca da moral, da ciência e da arte, sempre ligando seus estudos
ao panorama da cultura européia de sua época. Foi a partir daí que
Nietzsche chegou ao incômodo diagnóstico de que a Europa estava
doente, mais do que isso, chegou ao diagnóstico de que o homem
europeu cada vez mais degenerava e tendia para a decadência. Um
dos mais claros indícios desta decadência para Nietzsche, era a
barbárie que rondava as portas da civilização européia. Barbárie
essa que se manifestava das formas mais diversas, mas que
geralmente apresentava-se na figura da violência e da escatologia
cultural.
Foi a partir deste diagnóstico que Nietzsche traçou
seus objetivos. Era preciso “curar este doente”, ou ao menos saber
até que ponto ele era capaz de suportar os mais duros remédios.
Porém como curar o homem? Como torná-lo forte? Mais do que cura,
Nietzsche tinha em mente superação. Eis o principal objetivo
filosófico de Nietzsche: a superação do tipo homem em direção de
algo superior, o que Nietzsche nomeia de além-do-homem. Mas aqui
também cabem outras perguntas: é possível superar o homem? Como
tornar o homem algo superior ao que ele é? Podemos encontrar em um
texto do próprio Nietzsche a resposta para estas perguntas:
Aquilo que em parte a necessidade constringente
(Not), em parte o acaso, aqui e ali alcançaram, as condições para
a produção de uma espécie mais forte. Podemos agora compreender
isso, e sabendo-o, querer. Podemos criar as condições sob as quais
uma tal elevação é possível.
O trecho acima deixa-nos perceber que tal elevação
é possível, e até mesmo desejada, todavia, há a necessidade de
antes criar as condições nas quais esta elevação possa ocorrer,
uma conjunção de fatores que até hoje só se reuniu de maneira
fortuita e casuística, pode agora ser criada de forma
“artificial”. Justamente aqui se insere o que talvez poderíamos
chamar de pensamento educacional de Nietzsche: a possibilidade de
criar as condições necessárias para prover a elevação do homem,
fazendo com que este possa superar-se a si mesmo. Ainda uma outra
pergunta cabe-nos fazer aqui, para a qual o próprio Nietzsche
ofertou a resposta: o que seria este homem superior? Pergunta por
demais conveniente, principalmente se tivermos em mente que num
passado não distante as idéias de Nietzsche, principalmente estas,
concernentes à superação do homem atual em direção a um homem
superior, foram usadas como argumento pelo movimento nazista na
Alemanha:
O crescente apequenamento do homem é justamente a
força propulsora para se pensar na criação (Züchtung) de uma raça
mais forte, que teria seu excesso justamente ali, onde a espécie
diminuída tivesse se tornado fraca e mais fraca (vontade,
responsabilidade, certeza de si mesmo, poder instituir metas).
(...) Não apenas uma raça de senhores, cuja tarefa se esgotaria em
governar; porém uma raça com esfera vital própria, com um
excedente de força para a beleza, coragem, cultura, maneiras, até
no que há de mais espiritual; uma raça afirmadora, a quem é
permitido gozar todo grande luxo..., suficientemente forte para
não ter necessidade da tirania do imperativo da virtude,
suficientemente rica para não ter necessidade de poupança e
pedantismo, além de bem e mal; uma estufa para plantas especiais e
seletas.
Se não pelos caminhos da força e da tirania, por
quais caminhos se superaria o homem? Pelos caminhos da educação.
Como foi dito na citação anterior, é possível criar as condições
necessárias para fazer surgir este homem superior, eis a tarefa da
educação, não qualquer educação, não a educação moderna, contra a
qual Nietzsche lançou duras críticas, mas sim a educação cultural,
aquela que prepara o indivíduo para ser algo além de um
profissional...
2. Cultura e Civilização.
Nietzsche vê a cultura como algo distinto da
instrução, para ele, “Cultura é, acima de tudo, unidade de estilos
artísticos em todas as expressões de vida de um povo.”. Nietzsche
distinguia cultura de instrução:
Portanto, meus amigos, não confundam esta cultura,
esta deusa etérea, delicada e de pés ligeiros, com esta útil
escrava que se costuma chamar às vezes também de “cultura”, mas
que é somente a criada e a conselheira intelectual das carências
da vida, do ganho, da miséria. Além disso, toda educação que deixa
vislumbrar no fim de sua trajetória um posto de funcionário ou um
ganho material não é uma educação para a cultura tal como a
compreendemos, mas simplesmente uma indicação do caminho que podem
percorrer para o indivíduo se salvar e se proteger na luta pela
existência.
O filósofo distinguia civilização de cultura, ele
via a primeira como o processo de domesticação e amansamento do
animal homem, a civilização representa “a passagem da barbárie à
ordenação regular de uma práxis humana, isto é, a constituição de
um esquema praxeológico a que se dá o nome de ethos.”. A segunda,
como dito anteriormente, é visto como unidade de estilos. É
sobretudo através da cultura que se poderá elevar o tipo homem, o
que poderíamos expressar em uma fórmula, que embora simplista,
pode dar-nos uma idéia da relação entre cultura e civilização: “a
civilização domesticou o animal, tornou-o homem, e através da
cultura ele pode tornar-se algo para além dele próprio, através da
cultura, ele pode tornar-se um homem superior”. A civilização é
por excelência castradora, funcionando através de cálculos
utilitaristas de busca de prazer e repulsão de dor. Já a cultura é
por excelência pródiga, e não funciona dentro de padrões tão
simples de valoração. Por isso para Nietzsche a cultura é um
artigo de luxo, não está acessível às massas ou ao rebanho humano,
apenas para aqueles que compõem o que Nietzsche chama de
Aristocracia do Espírito, que não é uma aristocracia de sangue ou
raça, ou uma condição determinista:
O homem que não quer pertencer à massa só precisa
deixar de ser indulgente para consigo mesmo; que ele siga a sua
consciência que lhe grita: ‘Sê tu mesmo! Tu não és isto que agora
fazes, pensas e desejas.’
Tornar o homem o que ele é, eis o ponto
fundamental de uma educação voltada para a cultura. Todavia este é
um caminho repleto de perigos tentadores, que por todos os lados
seduzem o homem para torná-lo outra coisa distinta daquilo que ele
é: talvez um burocrata, talvez um apertador de parafusos, talvez
um artista da indústria cultural, talvez um douto, mas sempre,
como uma junção de todos estes tipos em uma só figura, um
bárbaro.
3. Da Barbárie.
O termo barbárie, tanto de origem grega (barbaros)
quanto romana (barbarum), foi inicialmente usado por estes dois
povos para designar uma incapacidade de pronúncia de sua própria
língua, posteriormente foi usado para designar os estrangeiros,
por fim a palavra foi usada em Roma para designar os povos que
migraram e invadiram o império a partir do Séc. I da era cristã,
quando o termo tornou-se sinônimo de violência e destruição de
toda espécie.
Vale ressaltar que no início da utilização do
termo, ele não designava apenas a incapacidade de pronúncia da
língua grega, mas também da língua vernácula, como era o caso dos
habitantes da Caria (na Ásia Menor), que foram descritos por
Homero como “barbarófonos”, por pronunciarem mal sua própria
língua. O termo bárbaro está ligado ao balbucio, ato de falar com
má dicção ou batendo os dentes, o tartamudear.
Nietzsche deu um
novo significado ao termo bárbaro, embora sem abandonar o
tradicional acima exposto. Para ele o bárbaro precede a
civilização:
(...) na história da humanidade; as forças mais
selvagens abrem caminho, primeiramente destrutivas, e no entanto
sua ação é necessária, para que depois uma civilização mais suave
tenha ali sua morada. Estas terríveis energias - o que se chama de
mal - são os arquitetos e pioneiros ciclópicos da humanidade.
Apesar da importância atribuída ao bárbaro como
preparador do terreno no qual cresceu a civilização, o
reaparecimento da barbárie significa sempre uma ameaça à própria
civilização e também à cultura, por sua violência e desmedida.
Nietzsche contrapõe a idéia de barbárie à idéia de cultura
(unidade de estilos), mostrando o bárbaro como um homem no qual
não há uma unidade nas paixões, o que ele vê como um indício de
doença, degeneração:
(...) 2) a contraposição das paixões, a
duplicidade, triplicidade, multiplicidade das ‘almas em um só
peito’: nada saudável, ruína interior, autodissolução, revelando e
ampliando uma divisão interna e um anarquismo -, exceto se por fim
uma paixão assumir o controle. Restabelecimento da saúde -
O problema da barbárie reside justamente na sua
multiplicidade incontrolável de paixões. Nietzsche vê o homem
bárbaro como aquele pleno de forças, que ainda não foi amansado,
amolecido pela civilização. Todavia a essa gama incontrolável de
paixões, é necessário opor uma paixão ainda mais forte, para que
no interior do indivíduo não reine a anarquia dos instintos.
4. Educação Moderna e Democracia.
A educação capaz de conduzir o homem a uma
superação de si próprio é uma educação que não destrói os
instintos, mas que os usa em favor do homem. Parece-nos claro que
ao contrário do que algumas vulgatas interpretativas do pensamento
nietzscheano dizem, o autor em momento algum defende a ação
irresponsável ou a sucumbência aos instintos. O que não vige na
educação moderna, que descobriu um outro processo de
depauperamento e enfraquecimento do homem - a democracia como
forma de educar, a crença na autonomia de ação daquele que deve
ser educado. Prática que hoje se vê por toda a parte, sob as mais
diversas formas: nova escola, escola aberta e outras... Que
requerem cada vez mais a inserção de narcóticos no processo
educacional, fazendo com que os professores submetam-se ao
ridículo e ao escatológico como forma de educação, e vão
progressivamente tendo sua função transformada: de mestres para
professores, daí para facilitadores, não tarda muito e
tornar-se-ão animadores. Esta pratica democrática na educação
enfraquece os instintos por um processo de negação do conflito, e
concomitantemente barbariza o homem.
Nietzsche critica a
democracia por esta basear-se em valores morais descendentes do
pensamento judaico-cristão, que Nietzsche chama de moral de
rebanho, caracterizada por uma vontade de poder, que não podendo
ser exercida, em função da fraqueza do povo, dissimula-se e torna
a sua fraqueza exemplo de virtude, criando no próprio povo a idéia
de fraqueza voluntária como sinal de virtude que agrada o seu
Deus, que sendo um Deus universal, deve manifestar-se e agradar-se
da mesma forma em todos os locais, sendo assim, a forma judaica de
agir é a correta, é a que agrada o Deus. Esta moral se estabelece
como a única possível e desejável. Falando sobre a relação entre a
moral e democracia, Nietzsche escreveu que:
(...) com a
ajuda de uma religião que satisfez e adulou os mais sublimes
desejos do animal de rebanho, chegou-se ao ponto de encontrarmos
até mesmo nas instituições políticas e sociais uma expressão cada
vez mais visível dessa moral: o movimento democrático constituí a
herança do movimento cristão.
Um outro problema que Nietzsche vê nas práticas
democráticas é a forma como elas lidam com o discurso de
liberdade, discurso que faz crer no aumento das liberdades
individuais, baseando-se na idéia de que todos são iguais, e são
da mesma forma capazes de escolher o que é melhor para si e em
escolhendo este melhor para si escolherão também o que é melhor
para a coletividade.
Na educação o discurso e as práticas
democráticas trazem dois grandes problemas, ambos ligados aos
instintos: por um lado o enfraquecimento por outro, a anárquica
liberação dos instintos, nos dois casos, a barbárie.
Sobre a
anárquica liberação dos impulsos que pode ser promovida por uma
educação democrática, podemos afirmar que um auto-governo das
paixões e impulsos humanos, procedido de forma democrática
conduziria o homem inevitavelmente à barbárie. Se todas as paixões
e instintos, mesmo os mais violentos e destruidores tivessem a
mesma liberdade de ação no interior do homem, e nenhum deles
devesse obedecer ao comando de um mais forte, abrir-se-ia uma
grande porta para a barbárie, aquela à qual Nietzsche chama de
“pioneiros ciclópicos da humanidade”, forças que requereram
séculos para serem controladas por impulsos mais fortes e
afirmadores da vida.
4.1. - A Educação e a Guerra.
Por outro lado, e agindo de forma não menos
perigosa, o discurso democrático enfraquece os impulsos humanos,
ao invés de submetê-los ao controle de um impulso mais forte e
utilizá-los em favor do próprio homem.
O conflito, elemento de
fundamental importância no pensamento de Nietzsche, não apenas
como formador do caráter, mas também como medida de nossa própria
força e resistência, é anulado pela democracia, que admitindo a
igualdade entre todos extingue a necessidade do conflito, ou
conduz para o extremo oposto, a guerra entre povos e nações. Não
podemos imaginar a guerra entre povos e nações sem imaginarmos
condições de igualdade entre estes povos, pois um povo mais fraco
não ousaria lutar com um mais forte. Todavia esta guerra entre
povos, que precisam conquistar uns aos outros, para Nietzsche é
sinal de barbárie, pois para ele, só precisa conquistar o outro,
aquele que não pode conquistar a si próprio, só precisa exercer
controle sobre o outro, aquele que é fraco demais para exercer
poder sobre si mesmo. Esta vontade de conflito deve sempre ser
direcionada para o interior do homem, para o conflito entre
instintos, pois, sem o conflito entre os instintos, perde-se a
noção de sua própria força, e esta, sem exercitar-se, acaba também
por decair.
A guerra educa para a liberdade. Pois o que é
liberdade! O fato de se ter a vontade de se responsabilizar por si
próprio. O fato de se suster a distância que nos distingue. O fato
de se tornar indiferente à fadiga, à rigidez, à privação, mesmo à
vida. O fato de se estar preparado para sacrificar os homens pela
coisa sua, sem deixar de contar a si mesmo neste sacrifício.
Liberdade significa: os instintos viris, alegres na guerra e na
vitória se apoderam dos outros instintos - por exemplo, o instinto
de ‘felicidade’. O homem que se tornou livre, e muito mais ainda o
espírito que se tornou livre pisa sobre o modo de ser desprezível
do bem-estar, com o qual sonham o comerciante, o cristão, a vaca,
a mulher, o inglês e outros democratas. O homem livre é guerreiro.
- A partir de que critério se mensura a liberdade dos indivíduos,
assim como dos povos? A partir da resistência que precisa ser
superada, a partir do esforço que custa para permanecer em cima.
Teria de se procurar o tipo mais elevado de homem livre lá, onde
constantemente se supera a mais elevada resistência: cinco passos
além da tirania, colado no umbral do risco da servidão. (...). Os
povos que tiveram um certo valor, que foram valorosos, nunca o
foram sob instituições liberais: o grande perigo fazia algo com
eles, que merece veneração; o perigo que nos ensina pela primeira
vez a conhecer nossos recursos, nossas virtudes, nosso valor e
nossas armas, nosso espírito - que nos obriga a sermos fortes...
Primeiro princípio: temos de precisar ser fortes: senão nunca nos
tornamos fortes.
Percebe-se pela passagem acima, o quanto Nietzsche
valoriza o conflito, como uma possibilidade de fazer aflorar todas
as grandes virtudes do homem, e até mesmo, de possibilitar que a
anarquia dos impulsos encontre um impulso mais forte que os
coordene e os dirija. Todavia é importante ressaltar que ao
valorizar o conflito, Nietzsche não se refere à guerra entre
povos, ou qualquer tipo de violência externa, pelas quais
Nietzsche sempre nutriu profundo desprezo, como ele mesmo afirma
em seus fragmentos finais:
Eu trago a guerra. Não entre provo e povo; não
tenho palavras para exprimir meu desprezo pela política de
interesses, digna de maldição, das dinastias européias, que, da
incitação ao egoísmo (Selbstsucht), à auto-presunção dos povos uns
contra os outros, faz um princípio e quase um dever. Não entre
estamentos sociais. Pois não temos estamentos superiores,
conseqüentemente também não inferiores (...). eu trago a guerra
entre todos os absurdos acasos de povo, estamentos, raça,
profissão, educação, formação: uma guerra como entre ascensão e
ocaso, entre vontade de vida e ânsia de vingança contra a vida,
entre honestidade e pérfida mendacidade...
Como se vê, a idéia de guerra em Nietzsche é uma
guerra de espírito, uma guerra para o domínio dos impulsos e
ascensão a algo superior ao próprio homem, uma guerra contra tudo
o que é degenerado na vida. A educação democrática enfraquece esta
guerra no interior do homem, pois com sua idéia de paz, que mais
se assemelha ao descanso dos inválidos e incapazes, faz acreditar
que todos são iguais, logo, não há necessidade de conflitos. Para
Nietzsche.
Opondo posteriormente a idéia moderna de liberdade,
à sua própria idéia de liberdade, o filósofo alemão afirma que “se
vive em função do hoje, se vive muito rapidamente - se vive de
maneira muito irresponsável: isto justamente denomina-se como
‘liberdade’”. E este “(...) conceito moderno de liberdade é mais
uma prova de degradação dos instintos.”. A moderna educação
democrática não é como a antiga educação grega, aquela da skholé.
“O termo skholé, cuja etimologia permanece obscura, significa
propriamente a ‘parada’, o ‘repouso’, e, conseqüentemente, o
‘ócio’, essa pausa que permite ao homem não estar mais submetido à
urgência da vida quotidiana, e sim levar tempo (prende son temps).
[Um] segundo sentido do termo será a ocupação do homem ocioso, não
a ociosidade vazia, mas a plenitude de uma reflexão estudiosa.
(...). Entre todas as atividades da existência, apenas a skholé é
seu próprio fim para si mesma, na medida em que permite ao
pensamento do homem, afastado das coerções da vida e da sociedade,
exercer-se na sua plena liberdade. Aristóteles irá ainda mais
longe que Platão ao ver na skholé por excelência a atividade
eterna de Deus cujo pensamento é ‘pensamento do pensamento’”.
A
bárbara educação moderna é por excelência a educação da pressa e
da velocidade. É necessário adestrar o educando em um cada vez
maior número de conteúdos, adaptando-o às necessidades da
sociedade. A fragmentação de conteúdos é um dos elementos desta
aceleração da educação moderna.
Esta fragmentação do
conhecimento moderno na educação, atende a exigências específicas:
a idéia de usar o homem como uma peça em uma grande máquina, a
idéia utilitarista de medir os homens, não por sua grandiosidade
de espírito, o que para Nietzsche se traduz na capacidade de
suportar o que há de mais duro e terrível na vida, sem se deixar
deformar, mas sim, medir os homens por seu grau de utilidade
dentro do rebanho. A moderna educação democrática, ao igualar
todos os homens, busca justamente torná-los utilizáveis dentro da
sociedade, submetê-los às necessidades do Estado e da economia,
barbarizá-los. Para tal, nada mais útil que uma educação
fragmentária e fragmentadora, que educa para a adaptação às
pequenas e mesquinhas necessidades da vida quotidiana, que cria
novas peças de labirinto, bloqueando a passagem para qualquer
caminho de reflexão acerca do próprio homem, e de sua condição.
Diante deste panorama, é humanamente impossível tornar-se o que se
é. A este respeito Nietzsche escreveu por fim:
A educação: um sistema de meios visando a arruinar
as exceções em favor da regra. A instrução: um sistema de meios
visando a elevar o gosto contra a exceção, em proveito dos
medíocres. Visto assim, isto parece duro; mas, de um ponto de
vista econômico, é completamente racional. Pelo menos para o longo
período em que uma cultura se mantém ainda com sacrifício, onde
toda exceção representa um dispêndio de força [algo que desvia,
seduz, torna doente, isola]. Uma cultura da exceção, da
experimentação, do risco, do matiz - uma cultura de estufa para as
plantas excepcionais não tem direito à existência senão quando há
muitas forças para que mesmo o dispêndio se torne ‘econômico’
Não pensemos todavia que o pensamento de Nietzsche
sobre a educação limita-se à crítica. O autor tem suas próprias
idéias acerca da educação, algumas até já mostradas ao longo do
texto.
5. A Educação do Amanhã.
Poderíamos apontar os caminhos para uma educação
futura, partindo de algumas perguntas propostas por Nietzsche em
Humano, Demasiado Humano.
Uma educação que já não crê em milagres deve
prestar atenção a três coisas: primeiro, quanta energia é
herdada?; segundo, de que modo uma nova energia pode ainda ser
inflamada?; terceiro, como adaptar o indivíduo às exigências
extremamente variadas da cultura, sem que elas o incomodem e
destruam sua singularidade? - em suma, como integrar o indivíduo
ao contraponto de cultura privada e pública, como pode ele ser
simultaneamente a melodia e seu acompanhamento?
Partindo das perguntas propostas pelo autor,
principalmente da última, buscaremos compreender melhor o
pensamento de Nietzsche e algumas de suas propostas para aquela
que ele acreditava ser uma educação do amanhã, “uma educação que
já não crê em milagres”, uma educação que prepararia o homem para
viver entre suas necessidades pessoais e os interesses coletivos
sem, contudo, tornar-se um animal de rebanho. Uma educação capaz
de conduzir o homem à sua auto-superação, a educação formadora do
além-do-homem.
Para Nietzsche educar não é uma tarefa simples,
pois “raramente mudamos um indivíduo; e, conseguindo fazê-lo,
talvez tenhamos conseguido algo mais, sem o perceber: nós fomos
mudados por ele!”. Por isso mesmo o filósofo via esta como uma
tarefa na qual se deve investir todas as forças. Pois a falta de
uma educação rígida e exigente no período adequado da vida é algo
difícil de ser remediado posteriormente.
Para Nietzsche educar
é uma tarefa para agora, uma tarefa que requer dureza e
disciplina. É importante salientar que esta dureza e disciplina
das quais fala o filósofo, estão ligadas à necessidade do espírito
preparar-se para as dificuldades da vida. Elas referem-se à
preparação do espírito, não se referem a qualquer tipo de rigidez
ou dureza física. Para que se tenha uma idéia mais acertada acerca
deste “modelo pedagógico” proposto por Nietzsche, recorremos
novamente às palavras do filósofo:
Àqueles seres humanos que ainda me importam, a
esses eu desejo sofrimento, abandono, enfermidade, maus-tratos,
humilhação - desejo que não lhes fiquem ignotos o profundo
auto-desprezo, a tortura da desconfiança em relação a eles, a
miséria do superado: não tenho compaixão por eles, pois lhes
desejo a única coisa que, hoje, pode provar se alguém tem ou não
tem valor - que ele agüente... Não conheci ainda nenhum idealista,
mas muito mentiroso - -
Apesar da dureza das palavras, elas são uma boa
mostra para percebermos a hierarquia de valores de Nietzsche,
hierarquia de valores que deve ser formada por uma educação para a
cultura, uma educação que prepare o homem para as coisas mais
duras da vida, e o ensinem a agüentar toda essa dureza sem,
contudo, perder a alegria da vida. É apenas essa dureza, a
verdadeira disciplina da guerra, do confronto do homem contra seus
impulsos mais bárbaros, que poderá criar uma nova educação, para
novos e superiores homens, não uma educação bárbara, que
enfraquece os instintos e torna o homem um animal de rebanho, ou
que liberta seus impulsos mais bárbaros.
Para Nietzsche essa
“nova educação deveria impedir que os homens cedessem a uma
propensão exclusiva e se tornassem órgãos, em relação à tendência
natural da divisão do trabalho. Trata-se de criar seres soberanos
capazes de abarcar o conjunto com um golpe de olho e assistir como
espectadores ao jogo da vida, parceiros tanto aqui como ali, sem
estar muito violentamente engajados.”
A educação tem um caráter
de reciprocidade, pois para Nietzsche quando mudamos alguém,
acabamos também sendo mudados por este alguém. Desta forma a
educação é um processo de interação entre partes distintas, não
uma mera imposição de instâncias superiores à instâncias
inferiores, pois o filósofo não acreditava na existência de
instâncias superiores de pessoas, mas apenas na possibilidade de
haver pessoas superiores e inferiores. Superioridade e
inferioridade estas, que só poderiam ser definidas a partir da
capacidade individual de suportar o que há de mais terrível na
existência sem ressentir-se contra ela. Eis a necessidade do
conflito e da disciplina do conflito, elas são a forma de se medir
a capacidade de resistência dos homens.
A possibilidade de
educar alguém para que através da cultura este possa tornar-se
superior ao que é, é uma preocupação constante nas obras de
Nietzsche. Esta educação daquele que para o filósofo seria o
além-do-homem, não pode ser a educação tecnicista, utilitarista e
democrática moderna, tem que ser uma educação especial, uma
educação para formar espíritos mais fortes, e que por isso, não
deve prescindir da dureza e do rigor da formação do espírito, para
que este espírito torne-se o que ele é, para que este espírito
ignore o chamamento da massa e não se torne um animal de rebanho,
não se torne um bárbaro moderno, e sim um indivíduo repleto de
singularidade, capaz não apenas controlar seus impulsos, contendo
as eclosões da barbárie, mas que os possa usar em seu
favor.
Repetindo o mote socrático de conhecer-se a si mesmo
para poder tornar-se o que se é, o autor se pergunta: “Mas como
nos encontrar a nós mesmos? Como o homem pode se conhecer?”. Após
estas perguntas que servem como um roteiro de busca da sua própria
individualidade, o autor oferece um caminho:
Que a jovem alma se volte retrospectivamente para
sua vida e faça a seguinte pergunta: ‘O que verdadeiramente amaste
até agora, que coisas te atraíram, pelo que tu te sentiste
dominado e ao mesmo tempo totalmente cumulado? Faz passar
novamente sob teus olhos a série inteira destes objetos venerados,
e talvez eles te revelem, por sua natureza e por sua sucessão, uma
lei, a lei fundamental do teu verdadeiro eu.
Conclusão.
Eis o caminho ofertado pelo filósofo para que
através de uma educação para a cultura o homem conheça a si
próprio, torne-se o que é, e vá além de si próprio,
supere-se.
Por fim gostaríamos de indicar aqui o último grande
elemento de uma pedagogia nietzscheana: “Contribuição ao “sistema
educacional”: - Na Alemanha falta aos homens superiores um grande
meio de educação: a risada dos homens superiores; estes não riem
na Alemanha.”.
Apesar da dureza de suas palavras, o bom-humor,
e a alegria são constantes na obra de Nietzsche, logo, não
poderiam deixar de estar presentes em seu “pensamento
educacional”. Todavia, o autor não poderia, vendo o total
adoecimento do homem europeu, continuar a filosofia que ele
identificou como a responsável pelo enfraquecimento do homem. Por
isso, se por um lado a filosofia de Nietzsche é a filosofia da
ruptura, por outro, mostra possibilidades diversas para elevar o
homem. Mas apenas aqueles que se afastarem das necessidades da
massa poderão conhecer este caminho... Que os mais forte se
propensos apareçam!
A despeito de Nietzsche não ser um teórico
da educação par excellence a aplicação do seu pensamento à
educação mostra-se como um caminho fértil, desde que se leia
Nietzsche profundamente, e se não destituído, ao menos afastado
dos preconceitos morais, científicos e políticos da
modernidade.
O pensamento de Nietzsche torna-se mais agudo
justamente quando analisa as práticas e discursos que tornaram
século XX um dos mais bárbaros na história da humanidade, e que já
inserem o “jovem” século XXI nesta história de guerra e violência,
em suma, na história humana da barbárie.
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