A ORIGEM DO CONHECIMENTO EM NIETZSCHE
Sofia Helena Gollnick Ferreira
Mestranda do PPGF da UFRJ
Bacharel em Filosofia pela UFSC
mailto:sofiahelena@hotmail.com
Resumo: O presente artigo tem como objetivo
analisar a questão da origem ( Ursprung ) do conhecimento
( Erkenntnis ) na filosofia de Friederich Nietzsche. Para
tal, tem como fio-condutor as teses do aforismo 110 apresentadas
pelo filósofo na Gaia Ciência . Tratar do problema da
origem do conhecimento apresenta-se como essencial para que
possamos apontar o valor dos conceitos de ‘verdade',
‘conhecimento' e ‘vida'. E para que estejamos aptos a responder a
questão fundamental subjacente ao presente aforismo é à grande
parte da filosofia de Nietzsche: s ão a ‘verdade' e o
‘conhecimento' meios para uma vida “melhor” ou é a vida meio para
a conquista da ‘verdade' e do ‘conhecimento'?
Palavras-chave: Nietzsche; Conhecimento; A
Gaia Ciência.
Abstract: The present article aims at analyzing
the question of the origin ( Ursprung ) of knowledge (
Erkenntnis ) in Friederich Nietzsche's philosophy. For
such, has as its guide the aphorism 110 presented by the
philosopher in The Gay Science . It is essential to deal
with the problem of the origin of knowledge if we want to pinpoint
the value of the concepts of ‘truth', ‘knowledge', and ‘life'. And
only after that can we answer the fundamental question that
underlines both the present aphorism and part of Nietzsche's
philosophy, that is, are ‘truth' and ‘knowledge' means for a
‘better' life or is life a mean towards the acquisition of ‘truth'
and ‘knowledge'?
Key-words: Nietzsche, Knowledge, The Gay
Science.
A ORIGEM DO CONHECIMENTO EM NIETZSCHE:
Introdução :
É devido à importância das relações entre
‘verdade', ‘conhecimento' e ‘vida' que nasce na Gaia Ciência
a necessidade de se tratar da origem do conhecimento. Entre
tais relações, a mais intrigante é a seguinte: são a ‘verdade' e o
‘conhecimento' meios para uma vida “melhor” ou é a vida meio para
a conquista da ‘verdade' e do ‘conhecimento'?
É essa questão que nos interessa nesse aforismo e
é nela que nos concentraremos durante todo o texto. Entretanto,
querendo tratar das outras discussões também apresentadas no
aforismo 110, uma vez que essas introduzem aquela questão
principal, analisaremos o método empregado por Nietzsche ao tratar
desses conceitos (I); estudaremos a definição de conhecimento (II)
e um caso apresentado por ele no aforismo (III). Feito isso,
trataremos propriamente do conhecimento como um meio de dignidade
para a vida (IV), da vida como meio de conhecimento (V) e da
possibilidade de incorporação da verdade (VI).
Essa investigação se justifica ao vermos que
sempre reaparece para Nietzsche essa questão da subordinação da
vontade de verdade à vida ou o seu oposto. Pode tal vontade, “em
vez de servir à vida”, querer tornar-se senhora dessa, “mesmo
tendo como resultado a destruição da vida?” Através de uma
perspectiva, justificamos nossa vontade de verdade e de
conhecimento como impulsos de preservação da espécie, através da
outra, tal verdade “se solta, e até se volta contra a vida”
(Safranski, Nietzsche: Biografia de uma Tragédia ).
Compreender e analisar tais perspectivas será nosso objetivo aqui.
(I) O Método Genealógico
Nietzsche nos diz que a verdadeira filosofia, a
que ele quer e como ele a compreende, tem a consciência contra si.
Essa oposição se faz através dos imperativos morais, religiosos e
estéticos que dizem “não” ao método de investigação; faz-se
através da tirania do sentimento de valor sobre os conceitos e
sobre as transformações que esses sofreram. Dizemos, muitas vezes,
estar no ponto mais alto de atingir a “humanização” e, no entanto,
fazemos oposição à história da nossa própria origem (talvez por
medo de que essa seja vergonhosa). Não é de se estranhar que o
homem tenha que ser quase não-humano para na direção oposta querer
ver, buscar e descobrir?
O que Nietzsche quer nos dizer é que, para ele, o
investigar a origem e o processo de transformações do ser humano e
dos conceitos com os quais ele lida, é a verdadeira filosofia. No
entanto, negamos essa possibilidade, recusamos esse método. Não
deveríamos, contrariamente, “como homens do conhecimento ser
gratos a tais resolutas inversões das perspectivas e valorações
costumeiras”? (GM, III:12). Uma vez que esses objetos
(conhecimento, consciência, ciência, moral, verdade, etc...) que
nos interessam são por demais complexos e se dão através de
múltiplas condições não serão eles melhor compreendidos através de
mais de uma única maneira de olhá-los? Sim “ver assim diferente,
querer ver assim diferente, é uma grande disciplina e preparação
do intelecto para a sua futura objetividade” (GM, III:12).
O ser humano, a vida humana, qualquer criatura
viva vem a existir e preservar-se, a desenvolver-se e florescer
através do estabelecimento de relações com o mundo e a chave para
compreendê-los é atentar para essas relações que fizeram. São por
isso necessárias ao filósofo as virtudes da agilidade de
pensamento e da abrangência de visão. É ao jogar com as diversas
perspectivas, reflexos de olhares diferentes sob os conceitos e
suas relações, que se evita ficar preso em qualquer uma delas. É
próprio do verdadeiro filósofo a agilidade de como biólogo,
psicólogo físico, médico, teólogo, cientista, artista, homem
comum, olhar para as coisas e colocar todas essas perspectivas
lado-a-lado, contrapondo-as, confrontando-as, tentando priorizar
uma delas quando necessário, para depois, novamente, jogá-las umas
contra as outras e talvez re-priorizar. É necessária ao verdadeiro
filósofo aquela visão abrangente que lhe permite olhar para algo
de cima, de baixo, de frente, de trás, por dentro, por fora, sob
toda e qualquer perspectiva possível, prevendo seus frutos,
cavando suas raízes. Por que essa aversão à genealogia, se
pergunta Nietzsche, nos cabe acolher toda perspectiva, “condição
básica de toda a vida” (ABM: P).
A tarefa da filosofia é assim, interpretar e
avaliar todas essas possibilidades. O perspectivismo é “a
faculdade de ter seu pró e seu contra sob seu controle e deles
poder dispor: de modo a saber utilizar em prol do conhecimento a
diversidade de perspectivas e interpretações afetivas” (GM,
III:12). Tal método é a negação de qualquer “sujeito puro do
conhecimento, isento de vontade, alheio à dor e ao tempo”, é a
impossibilidade de “um olho que não pode absolutamente ser
imaginado, um olho voltado para nenhuma direção, no qual as forças
ativas e interpretativas, as que fazem com que ver seja ver-algo,
devem estar imobilizadas, ausentes;” (GM, III:12). Esse método de
Nietzsche não é apenas perspectivista, mas experimentalista como
veremos depois (até que ponto a verdade e o conhecimento aceitam
ser incorporados?), além disso, ele aceita que o tratar de um
conceito/problema nunca pode ser algo completo e final, não pode
querer dar a última palavra, possui sempre um caráter provisório e
apresenta uma abertura que permite novas interpretações.
(III) Para definir o Conhecimento
Entremos no aforismo 110 propriamente. Nietzsche
começa, de chofre, com uma tese de impacto. Sua estratégia
argumentativa não é provar de forma lógica que o que diz é
verdadeiro, mas, provocar-nos, mostrando como aquilo em que
acreditamos se sustenta em bases não-confiáveis. Ele problematiza
algo que nos parece óbvio, fazendo-nos suspeitar de nossas crenças
mais singelas. “O intelecto nada produziu senão erros” . Essa
sentença nos atinge, primeiramente, enquanto indivíduos que se
orgulham de sua capacidade intelectual, e depois, enquanto membros
de uma humanidade que se gaba de seus grandes sistemas
conceituais, discursos e filosofias. Nada além de erros, “artigos
de fé”, nos diz Nietzsche. Seis pequenas crenças fundamentam nosso
conhecer e nenhuma delas têm residência segura o suficiente para
que continue objeto de credibilidade depois de um pouco de
reflexão.
“Que existam coisas duráveis, que existam coisas
iguais que existam coisas, matérias, corpos; que uma coisa é
aquilo que parece, que nosso querer é livre, que o que é bom para
mim é bom em si.” Analisemos esses nossos erros fundamentais:
somos nós que precisamos colocar fenômenos em termos de coisas e
conceitos, para que possamos lidar com eles. Mas a natureza, nos
diz Nietzsche (VM #1, pg.48), não conhece tais formas. Só ao
desconsiderarmos o individual e o efetivo, conseguimos catalogar
(o que não pode propriamente ser catalogado) e compreender o que
nos cerca. Assim, dizer que ´isso´ permanece o mesmo durante um
espaço de tempo, que ´isso´ é igual a ´aquilo´, que ´isso´ é uma
coisa ou um conceito, que ´isso´ é o que parece ser, é um erro,
são muitos erros, aliás. É uma tentativa do aparelho cognitivo
humano de tentar abarcar o mundo fadada ao fracasso. O problema é
que, se não fizesse isso, não haveria também qualquer tipo de
conhecimento, nem mesmo esse, baseado em erros. E o conhecimento é
necessário. É necessário que se conserve a espécie. Entretanto,
acreditar que nossos “artigos de fé” são verdades não é uma
necessidade, o ser condição para a vida não lhes garante
veracidade.
Que “o nosso querer seja livre” e “que o que é
bom para mim é bom em si” também são erros a serem desvelados.
Nietzsche nos alerta para a impossibilidade de qualquer coisa em
si. O que seria um bom em si? A saúde da alma, como nos diziam os
antigos? Do corpo, como diríamos nós? A saúde de cada homem é algo
diferente. “Depende do seu objetivo, do seu horizonte, de suas
forças, de seus impulsos, seus erros e sobretudo, dos ideais e
fantasias de sua alma, determinar o que significa saúde também
para seu corpo” (GC:120).
Entretanto, é indispensável dizer que quem com
esses erros fundamentais se “deparou, ou os recebeu como herança,
foi mais feliz na luta por si e por sua prole”. Tais artigos de fé
são necessários para a conservação da espécie. Como nós estamos
aqui e somos o ‘melhor' da espécie, herdamos essas crenças
enquanto verdades, porém, não podemos nos esquecer que “a vida não
é argumento”. Quero dizer que, esses artigos de fé são
necessários, “mas isto não significa que eles estejam provados. A
vida não é argumento; entre as condições para a vida poderia estar
o erro” (GC:121).
Assim, vimos que o conhecimento tem origem nos
erros fundamentais elaborados pelo intelecto. Mas qual a origem
desses erros? Nossos erros fundamentais nascem de um processo de
transformação de um estímulo nervoso em imagem, e de tal imagem em
um conceito. O conhecimento é, então, também resultado de um
processo de impulsos, ou seja, daquele “conceituar” ou
“coisificar”, agregando fenômenos em algo abstrato e fechado, que
não é. Produzimos conhecimento “igualando o não-igual” e
abandonando as “diferenças individuais”. E “tudo o que destaca o
homem do animal depende”, justamente, dessa “aptidão de liquefazer
a metáfora intuitiva (imgem) em um esquema (conceito)” (VM: 1).
Quão frágil é um conhecimento baseado em conceitos, “resíduos de
metáforas”, as quais também não passam de “ilusão da transposição
artificial de um estímulo nervoso em imagens” (VM: 1)? É o que há
de mais frágil, pois tem como matéria conceitos, que o ser humano
fabrica a partir de si próprio. Provavelmente por isso Nietzsche
escreveu que o pensador é aquele que “sabe como ver as coisas de
modo mais simples do que são” (GC: 189).
Tais foram os resultados da realização de uma
investigação do método genealógico sobre o conceito de
conhecimento. Mas, vamos mais além: por que precisamos conhecer?
Por que o instinto de conhecimento é algo presente e necessário?
Não por mais do que isto “algo estranho deve ser remetido
a algo conhecido” (GC: 355). Não é do conhecer que
precisamos, mas do conhecido, não é vontade de saber, mas medo do
não saber . Se a necessidade, muitas vezes, mais do que
“causa do surgimento de algo”, é “efeito daquilo que surgiu” (GC:
205), não é por natureza que temos sede de conhecimento, mas o
sentimento de segurança frente a uma situação, um estado de
coisas, em que se ‘conhece', nos faz querer conhecer. É a agonia
do “estranho, inabitual, duvidoso” que nos incomoda e não o
não-conhecer em si.
(III) Os Eleatas e o Conhecimento
Talvez, neste ponto do aforismo, Nietzsche
acredite estar tudo muito abstrato. E resolva apresentar um caso,
algo que nos seja familiar na história da filosofia, e que nos dê
de volta um pouco do conforto que suas provocações nos tiram. O
conhecimento sempre se apresentou no seguinte dualismo: a favor ou
contra à vida. Nos momentos em que viver e conhecer se alinharam,
fomos felizes e “ quando viver e conhecer pareciam entrar em
contradição ”, também estivemos bem. Pois “ nunca houve sérias
lutas; a negação e a dúvida eram consideradas loucura ”.
O exemplo dado é dos eleatas, e, sendo Parmênides
o maior expoente desta escola, leremos as considerações de
Nietzsche a partir da filosofia daquele. Eles foram “pensadores da
exceção” pois “estabeleceram e se ativeram aos opostos dos erros
naturais”: enquanto nós encontramos repouso no nomear e conceituar
o múltiplo, eles radicalizaram ainda mais e encontraram conforto
na negação de qualquer diversidade, postulando que só o ser é. O
ser é indivisível, idêntico, coeso, contínuo, homogêneo, íntegro,
“igual a si mesmo em todas as suas partes, encontra-se de maneira
idêntica em seus limites” (Fragmentos do Caminho da Verdade
de Parmênides).
A pergunta que não demora a vir, nem para nós,
muito menos para Nietzsche é: qual a utilidade de um conhecimento
desse para o homem, em sua vida mesma? Do que serviria ao homem
essa “ intuição imutável, impessoal e universal ”, essa “
impessoalidade e duração sem mudança ”? Esse, sendo o Um, ser
também o Todo? Serviu para muito: a crença na imobilidade do ser
foi o bálsamo para a coceira da dúvida dos eleatas. Mais
impossível (e desesperador) para Parmênides era que, acreditando
no devir, o ser e o não-ser (“ duas proposições opostas,
aplicáveis à vida, ambas compatíveis com erros fundamentais ”)
pudesse existir.
Acreditando que o mundo de diversidades que lhes
cercava era ilusório, eles puderam continuar a viver negando,
teoricamente, aquilo que os sentidos lhes mostravam (mas sem
esquecer de desviar dos buracos). Assim, “ criam que o seu
conhecimento era igualmente o princípio da vida ” pois esse era
condição para ela. O conhecimento serviu aqui como um meio de
possibilidade da vida.
(IV) O Conhecimento como meio
O conhecimento poderia ser justificado como
condição necessária para a sobrevivência da espécie,
subordinando-se, assim, à vida. A tensão entre o valor-da-verdade
e o valor-da-vida se intensifica quando percebemos que certos
conhecimentos trazem mais bem-estar, segurança e felicidade que
outros. Isso nos faz pensar até que ponto um conhecimento precisa
ser realmente “verdadeiro” para nele crermos. Se é o melhor para a
vida, por que não? É o critério para a escolha entre duas
proposições opostas, ambas ´verdadeiras´, enquanto derivadas de um
erro fundamental: qual é mais útil?
Nietzsche diz que “a filosofia se divorciou da
ciência ao indagar com qual conhecimento da vida e do mundo o
homem vive mais feliz” (HDH:7). A filosofia preferiu
instrumentalizar o conhecimento na sua busca pela felicidade, a
ciência não. Se pelo menos a filosofia o tivesse feito em vista da
impossibilidade do conhecimento, mas não, o fez visando a
segurança. Na ciência o conhecimento tem valor instrumental em um
segundo momento, mas é buscado, primeiramente, por seu valor
intrínseco. A filosofia, ao contrário, assim como a arte, quer
“dar à vida e à ação a maior profundidade e significação possível”
(HDH:6), mesmo que isso signifique sacrificar a ´verdade´.
Mas será que a filosofia não estaria certa em
fazer isso? Se todo o conhecimento que ´arquitetamos´tem como base
aqueles erros fundamentais, qual o problema em priorizar as
verdades que melhor nos servem, que melhor servem à espécie? Não é
uma questão de certo ou errado, mas de faze-lo sem assumir, ou
melhor, sem ter consciência de que o faz. O conhecimento é
condição para a vida e não nos damos conta disso. Nosso
conhecimento moral, por exemplo, tem como base axiomas que a
física já provou errados: que ´isso´seja uma coisa. Mas que
espécie sobreviveria a um mundo sem moral?
O conhecimento e a moral foram ´falsamente´
construídos, sim senhor Nietzsche. Mas sobreviveria a nossa
espécie humana à simples consciência de que esses construtos são
falsos? Somos já fortes o suficiente para impor a verdade às
coisas? Não precisamos acreditar que ela está aí por si só? Não
sabemos. E o medo (novamente) nos faz preferir ficar com a
segurança do ´conhecimento´. E tudo “volta ao mesmo estado
vantajoso de antes”. E a invenção do conhecimento se mostra como
“o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal'”
(ver Safranski, Nietzsche:Biografia de uma Tragédia ).
A filosofia tem assim, “a intenção inconsciente
de atribuir a ele (conhecimento) a mais alta utilidade, (...) a
importância do conhecimento para a vida deve parecer a maior
possível” (HDH:6). Não foi justamente isso que os gregos fizeram?
Atribuíram só a virtude maior valor, sendo o conhecimento meio
para ela, e esse era o maior elogio que se poderia ter feito.
Entretanto, ocorre “algo novo na história, quando o conhecimento
quer ser mais do que um meio” (GC:123).
(V) A Vida como meio de Conhecimento
Que tal inverter tudo, por motivos lúdicos, para
ver melhor, pelo conhecimento mesmo, por uma questão de
perspectiva? O conhecimento teve seu valor instrumentalizado
perante a vida. Mas não pode também a vida ser instrumentalizada
frente ao conhecimento? Sim! Primeiro, dentro dos limites da vida
individual mesma: o conhecer enquanto atividade intelectual que
dignifica o homem, traz valor à vida. “ Não somente utilidade e
prazer, mas todo gênero de impulsos tomou partido na luta pelas
“verdades”; a luta intelectual tornou-se ocupação, atrativo,
dever, profissão, dignidade ”. O pensador, o filósofo, o homem do
conhecimento dedica sua existência ao ‘conhecer', compreender,
catalogar, conceituar, categorizar, dar forma ao caos, e pode
morrer sabendo que sua vida teve um sentido: dar continuidade ao
processo do saber.
É aqui que o conhecimento irrompe os limites da
vida individual, tornando-se maior que ela, fazendo dela seu
instrumento, sua arma na vitória. “Não, a vida não me desiludiu! A
cada ano que passa eu a sinto mais verdadeira, mais desejável e
misteriosa – desde aquele dia que veio a mim o grande liberador, o
pensamento de que a vida poderia ser uma experiência de quem busca
conhecer – e não um dever, uma fatalidade, uma trapaça! (...)
A vida como meio de conhecimento – com este princípio no
coração pode-se não apenas viver valentemente, mas até viver e rir
alegremente! (GC:324). O conhecimento e a busca do verdadeiro
passam a não só dignificar a vida do indivíduo, mas da espécie
humana, pois “ finalmente se incluíram como necessidade entre as
necessidades ”.
Tem início a batalha entre o impulso para a
verdade e os erros conservadores da vida pois o conhecimento
enquanto erro foi desmascarado e também o impulso à verdade é
condição da sobrevivência da espécie, i.e., provou ser um poder
conservador da vida. Mas se o próprio conhecimento tornou-se parte
da vida mesma (e enquanto vida, um poder em contínuo crescimento),
não estaremos lutando contra a vida mesma ao tentarmos destronar
esses erros fundamentais? Atacando aquilo que fizemos de nós
mesmos? E que guerra é essa onde impulsos contrários almejam o
mesmo? Não podem unir forças e lutar juntas (ambas as partes
possuem traços incompatíveis, métodos inconciliáveis). E a
derradeira questão sobre as condições da vida é colocada: (...)
até que ponto a verdade suporta ser incorporada? ”.
(VI) A Incorporação da Verdade
Já falamos que o método de Nietzsche aqui não é
só perspectivista, mas também experimentalista. Eis o experimento
que ele quer aplicar à vida: não mais instrumentalizar a verdade.
Não mais tomar como verdadeiro aquilo que não o é. Quem agüenta
isso? “Quanta verdade suporta , quanta verdade ousa
um espírito?” (EH, P:3). Acima dissemos que o medo nos faz
preferir continuar com a segurança do ‘conhecimento'. É exatamente
disso que Nietzsche está nos chamando, não de cegos, mas de
covardes. “Cada conquista, cada passo adiante do conhecimento é
conseqüência da coragem, da dureza consigo, da limpeza
consigo...”(EH, P:3).
Nossa covardia é diretamente proporcional à nossa
incapacidade de incorporar a verdade, à nossa capacidade de
manipular o ‘conhecimento' para tornar a vida confortável,
suportável, passível. Mas, novamente, a vida não é argumento, ser
condição para ela, não é prova de veracidade. “Que se acredite que
algo precise ser, que possa ser julgado, que não exista dúvida em
relação a todos os valores essenciais – isso é condição para
qualquer ser vivo e sua vida. Também que algo tenha que ser
tomado como verdadeiro e necessário, mas não que esse
algo seja verdadeiro” (XII:352, itálicos acrescentados).
O “conhecimento só é possível por causa da crença
no ser” (XII:106). Entretanto, não sabemos que é ‘ser', o que é
ser uma unidade. “Precisa-se saber o que é o ‘ser', para que se
distinga se isto ou aquilo é real. (...) Assim como para que se
saiba o que é a consciência, o que é o conhecimento, e seus
similares” (XII:104-5). É por isso que não coube a Nietzsche aqui,
e nem cabe a ninguém, até esse momento, realizar uma teoria do
conhecimento. Se não conseguimos definir ainda o que é ‘ser´, uma
“crítica da capacidade de conhecer é algo sem sentido”. Como
poderia uma coisa criticar a si mesma, quando pode usar apenas a
si mesma para criticar? Ela não pode nunca definir a si própria!
(XII: 104-105).
Nietzsche sugere um novo fundamento para
basearmos nosso conhecimento: o um significa algo, mas
não é algo. A distância entre isso e nós se dá pela
comodidade. O obstáculo à nossa frente é o medo da dificuldade, do
inesperado do não-familiar. Mas eis o pedido que nos é feito:
Nitimur in vetitum! (Lancemo-nos ao proibido). E “com
este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora
proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade” (EH,
P:3).