RESENHA DO LIVRO “O COLAPSO DA
MODERNIZAÇÃO: DA DAERROCADA DO SIALISMO DE CASERNA À CRISE DA
ECONOMIA MUNDIAL” DE ROBERT KURZ.
Nome do autor da resenha: Maro Lara Martins
Formação: Bacharelando em História
Instituição: Universidade Federal de Viçosa – UFV
E-mail: mailto:marolara@ig.com.br
Informações sobre o livro resenhado:
Título: O colapso da modernização
Sub-título: Da derrocada do socialismo de caserna
à crise da economia mundial
Título original em alemão: Der Kollaps der
Modernisierung
Autor: Robert Kurz
Tradução: Karen Elsabe Barbosa
Editora: Paz e Terra
Ano da primeira edição no Brasil: 1992
Número de páginas: 232
CDD: 338.5420904
Referência bibliográfica:
KURZ, Robert. O Colapso da Modernização :
“Da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia
mundial”. Trad: Karen Elsabe Barbosa. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1992.
Modernização recuperadora e crise do sistema
mundial produtor de mercadorias.
“O lugar do modelo oposto está vazio,
porque dentro das forma do sistema produtor de mercadorias não
pode haver nenhuma alternativa.” 1
(Robert Kurz)
A preocupação máxima da carreira teórica de Marx
era o estudo do modo capitalista de produção, as “leis” do seu
desenvolvimento e supressão. Esta parece ser também a preocupação
de Robert Kurz, ensaísta e sociólogo alemão, que em seu livro
O colapso da Modernização 2 , referenda uma análise baseada em
preceitos socio-econômicos. Tendo em vista tamanha investida, este
autor elabora uma projeção do surgimento e consolidação da chamada
modernidade, na tentativa de refletir sobre os antagonismos e a
própria crise do sistema mundial produtor de mercadorias.
Esta obra de Kurz, editada em 1992, pouco após a
queda do muro de Berlim, envolve-se em duas frentes de discussão.
A primeira é o envolvimento em um debate sobre a caracterização do
modelo socialista, na versão aplicada no leste europeu. A partir
de então, outro ponto de reflexão que este livro suscita, nos
remete a dicotomia singularidade ou unidade histórica
. No sentido de lançar uma percepção de que o mundo inteiro
está interconectado historicamente, sendo a constituição global um
único sistema.
As principais características que fundamentaram e
possibilitaram a conformação do sistema produtor de mercadorias,
podem ser definidas assim: surgimento do processo de acumulação
primitiva, uma “nova” concepção de trabalho, a valorização
extremada do dinheiro, a produção de mercadorias voltada para o
mercado, a instalação do princípio da concorrência, a obtenção da
mais-valia e o estatismo. Muito mais do que uma simples discussão
conceitual 3 , a análise de Kurz pauta-se por uma percepção
histórica do processo da modernidade e seus limites.
A história da modernização, nas diferentes partes
do planeta, puderam ser enumeradas, a partir de alguns modelos
básicos: a modernização capitalista baseada na acumulação
primitiva clássica, onde o exemplo da Inglaterra é emblemático; e
as chamadas modernizações recuperadoras: a modernização do
socialismo no oriente, que favoreceu a acumulação primitiva
estatal, e por fim, o processo modernizador do chamado “terceiro
mundo”.
Em todos estes casos, o elemento estatista
desempenhou um papel essencial. O processo de desenvolvimento
capitalista nos países centrais deu-se de forma lenta e gradual, a
disciplinarização política e econômica das massas, não deu-se de
forma abrupta como na periferia do sistema.
Nas modernizações recuperadoras, o estatismo
sobrepôs-se ao monetarismo para possibilitar o processo de
industrialização. O Estado teve o papel central de transformar
produtores diretos em trabalhadores assalariados, seja no
socialismo real seja nas ditaduras periféricas. Além da
disciplinarização da massa de trabalhadores 4 , o Estado transformou-se em uma gigantesca
burocracia, possibilitando a efetiva transformação de toda a
sociedade numa máquina de trabalho abstrato.
Neste tipo de modernização, o processo em que a
produção de mais-valia absoluta foi substituída pela mais-valia
relativa, - tendo como agente central deste processo, o Estado,
que conseguiu cooptar as massas- desenvolveu-se de forma lenta e
tardia, muito mais atrelado a uma ideologia política burguesa que
propunha uma disciplinarização social. A concepção de uma
disciplinarização social de fundo político, ocasionou a paulatina
universalização da forma burguesa do sujeito 5 .
Como vemos, o desenvolvimento do sistema mundial
produtor de mercadorias não foi um processo homogêneo, sendo que,
cada exemplo-modelo elaborado, admite pontos de encontro e
distanciamento.
No entanto, com o processo de globalização e
dispersão do capital por todas as partes do globo terrestre, os
diferentes níveis de desenvolvimento adquirem uma relação de
influência recíproca.
O aparente distanciamento nos posicionamentos do
ocidente capitalista e do oriente socialista são desmascarados, os
conflitos, não dizem respeito a uma concorrência de modelos para a
humanidade, e sim, a diferentes tempos históricos de uma
modernização capitalista.
Os sintomas da crise do capitalismo, evidenciam-se
com o fracasso das modernizações recuperadoras, no socialismo real
e nas demais regiões periféricas, que não conseguem acompanhar o
desenvolvimento dos países centrais, tendo assim, seu projeto de
modernidade abortado.
A concepção de trabalho instaurada com o
surgimento do capitalismo, remete-se a uma perspectiva na qual o
trabalho, além de ser encarado ideologicamente como a-histórico,
adquire um caráter abstrato que traz em si a sua finalidade, ou
seja, a produção de mercadorias para o mercado. A divisão do
trabalho uniu as produções reais num sistema de socialização
direta, enquanto o mercado e o dinheiro são expressão de uma
socialização indireta.
Na modernidade, os produtos não representam aquilo
que são realmente, sua produção é na realidade, fonte de
mais-valia. Sendo que, o dinheiro é a encarnação do trabalho
abstrato, e a concorrência entre as unidades empresariais é pela
realização e apropriação da mais-valia, em ritmos e escalas, cada
vez maiores.
Portanto, somos mônadas - dinheiro – mercadoria,
dentro de um sistema que se auto-reproduz em escala crescente. O
desenvolvimento do sistema mundial produtor de mercadorias
alcançou o ápice dos seus antagonismos. Os sintomas da crise
puderam ser elaboradas por Kurz, tendo como referência central, a
auto-contradição elementar do próprio sistema, a exclusão de um
número cada vez maior de pessoas da esfera do trabalho abstrato. O
desemprego em massa torna-se latente na periferia do sistema, o
apartheid social.
O fracasso da modernização recuperadora, deve-se a
distância entre a produtividade alcançada nestas regiões, da alta
produtividade das áreas centrais, a industrialização tardia não
consegue competir nível global.
No ponto atual de desenvolvimento do capitalismo,
a capacidade de exportação aparece como requisito básico da
concorrência dentro de um mercado mundial, ou seja, a própria
capacidade de exportação requer o nível de produtividade do
mercado mundial real.
Sendo assim, as economias periféricas tendem a
entrar em colapso a qualquer momento, pois criam-se
mônadas-dinheiro-mercadoria sem dinheiro, além do mais, a
acumulação de capital realiza-se pela exploração constante do
trabalho abstrato. Sem a viabilidade desta exploração, nas
palavras de Marx, aberta, direta e brutal, o capital não consegue
reproduzir-se.
Outro ponto chave para entendermos a crise do
capitalismo, diz respeito a exploração de sistemas ecológicos
fechados. Com a busca incessante de uma maior produtividade com o
menor custo possível, as próprias condições naturais do planeta
encontram-se em xeque. A destruição da natureza adquire dimensões
catastróficas, colocando em risco a própria continuidade da
existência de vida neste planeta 6 . Temos assim, a diminuição da capacidade
aquisitiva global, real ou produtiva em virtude da destruição de
recursos naturais e capitais.
A causa da crise, neste sentido é a mesma para
todas as partes do mundo, a diminuição histórica da substância de
trabalho abstrato, em conseqüência da alta produtividade alcançada
pela mediação da concorrência no mercado mundial. As falhas do
estatismo e do monetarismo, fases da modernidade, tornam-se
idênticas porque a forma de reprodução social da modernidade
perdeu completamente sua capacidade de funcionamento e integração.
A crise do sistema encontra seu movimento final da periferia ao
centro do sistema.
No entanto o pessimismo
explosivo de Kurz possibilita encararmos a questão do provável
limite do capitalismo através de uma crítica radical ao sistema
produtor de mercadorias. Uma crítica pautada no cerne do sistema:
o trabalho abstrato. Segundo Kurz, o marxismo do movimento
operário tradicional apresentou uma crítica ao sistema baseado em
um carater eminentemente político. O papel histórico do movimento
operário marxista pautou-se em estabelecer a modernidade econômica
e política no seio de uma sociedade arcaica e atrasada. Cabe-nos
agora, segundo Kurz , a critica fundamental ao trabalho abstrato,
para deslindarmos a racionalidade prática da forma da mercadoria e
inaugurarmos um tipo de racionalidade sensível.
1 KURZ, Robert. O Colapso da Modernização: da
derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial.
Trad. Karen Elsabe Barbosa. 5 ed. São Paulo: Paz e Terra.
1999. p.168
2 Ibid.
3 Evidentemente, não é nossa intenção nos determos
somente nos conceitos, partiremos para uma análise de como Kurz
trabalha com estes conceitos, os relacionando a todo momento.
4 No caso soviético temos o claro exemplo dos
gulags , campos de trabalho forçado, no sentido de
disciplinarização do trabalho, além de uma ideologia na qual a
exaltação do trabalho abstrato assemelha-se a uma religião
secularizada.
5 Neste ponto, Marx também já apontava a “missão
civilizatória do capital”.
6 Kurz não referenda a ideologia dos movimentos
ecológicos burgueses, no entanto reconhece a destruição da
natureza em um sentido mais amplo, interconectado ao capitalismo;
e não como uma volta, como querem os ecologistas, a um arquétipo
do contrato social rousseuniano.