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MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

REFLEXÕES NIETZSCHEANAS SOBRE A DISSOLUÇÃO DO MUNDO GREGO
Adilson Florentino

DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
Ana Carolina da Costa e Fonseca

F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO DA VERDADE
Arthur Arruda Leal Ferreira

LAZER E ANIMAÇÃO CULTURAL: PENSANDO A FORMAÇÃO PROFISSSIONAL A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA
Carlos Augusto Santana Pereira

SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO DE UM DEUS
Cláudia Cerqueira do Rosario
TRÁGICO E ANGÚSTIA DO AMOR: REFLEXÕES SOBRE A HORA DO LOBO, DE INGMAR BERGMAN
Dax Moraes

TÍTULO DO ARTIGO:“SÓCRATES ERA AFINAL UM GREGO ?”
Flávio L. T. S. Boaventura

O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM NIETZSCHE
Flávio de Oliveira Silva
POR UMA EDUCAÇÃO LEVE - AO MODO DE ZARATUSTRA,
O “DANÇARINO-DESTRUIDOR”
Gilcilene Dias da Costa

ARTE ALÉM DA MORAL E ALTERIDADE NO UNO
Gustavo Gadelha

A SABEDORIA TRÁGICA DIONISÍACA
Ivan Maia de Mello

HERÁCLITO ENTRE HEGEL E NIETZSCHE
Jorge Moraes

MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA
Leila Navarro de Santana
LA RECEPCIÓN VATTIMIANA DE NIETZSCHE: HACIA UN FILOSOFAR SIN SUJETO.
Luis Uirbe Miranda
ZARATUSTRA, MESTRE DA VIRTUDE DADIVOSA
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A EDUCAÇÃO EM NIETZSCHE: CHEGA-A-SER O QUE TU ÉS
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SOBRE A EDUCAÇÃO EM SI DE NIETZSCHE
Marinete Araújo da Silva
ESPEJOS Y MÁSCARAS. LOS PELIGROS DE UN ARTE DE ARTISTAS
Paula Fleisner
RECONDUZIR NIETZSCHE A KANT? SOBRE O DESINTERESSE DO BELO
Pedro Duarte de Andrade
NIILIISMO E HISTÓRIA: O LOUCO E APÓSTOLO
Pedro Hussak van Velthen Ramos
UMA BRISURA: DERRIDA ÀS MARGENS DE NIETZSCHE
Rafael Haddock-Lobo
A DISTINÇÃO ENTRE SÓCRATES E PLATÃO NA FILOSOFIA DE NIETZSCHE
Rafael Rodrigues Pereira
O SENTIDO DA AGONÍSTICA PARA A VIDA OU A DISPUTA DE NIETZSCHE
Renato Nunes Bittencourt
CONHECER PARA ESQUECER. A IDENTIDADE E OS CAMINHOS PARA A MEMÓRIA:
PERSPECTIVAS NETZSCHIANAS SOBRE A IDENTIDADE E O ESQUECIMENTO COMO ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DA MEMÓRIA NO LOCUS SOCIAL
Ricardo Medeiros Pimenta
NIETZSCHE-RENAISSANCE, DESCONSTRUÇÃO, PENSAMENTO FRACO
Rosário Rossano Pecoraro
A ORIGEM DO CONHECIMENTO EM NIETZSCHE
Sofia Helena Gollnick Ferreira
A EDUCAÇÃO MODERNA COMO BARBARIZAÇÃO DO TIPO HOMEM
Vagner da Silva
DO ESVAZIAMENTO ONTOLÓGICO DE DEUS À DISSOLUÇÃO DO CRISTIANISMO ENQUANTO MORALIDADE: A SENTENÇA NIETZSCHEANA “DEUS ESTÁ MORTO”
Valéria Cristina Lopes Wilke
APOLO Y DIONISOS: TEOLOGÍA DE LA VOLUNTAD DE PODER
Virginia Mabel Cano
 

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A revista MORPHEUS é uma publicação do Laboratório de Linguagens e Mídias, do Centro de Ciências Humanas da
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O SENTIDO DA AGONÍSTICA PARA A VIDA OU A DISPUTA DE NIETZSCHE

Renato Nunes Bittencourt (mestrando em Filosofia pelo PPGF do IFCS/UFRJ)

E-mail: renunbitt@yahoo.com.br

Resumo: Esta comunicação aborda a influência do espírito de competitividade grega – a agonística – ao longo da obra de Nietzsche, não apenas em seus escritos helenísticos, mas também nas suas obras de maturidade. Pretende-se analisar a importância que o filósofo alemão concede para esta disposição, cuja máxima expressão teria sido alcançada através das obras de Homero, Hesíodo e Heráclito. A agonística preconiza a constante superação de forças entre os homens, tendo como meta o desenvolvimento de obras que possibilitassem a afirmação da excelência humana e a superação de uma visão de mundo pessimista, decadente, em prol da afirmação da beleza e da glória, tornando-se, consequentemente, um dos grandes temas da filosofia de Nietzsche: a criação de valores afirmativos da vida através da interação de forças que garantem a vitória contra a inércia e a fraqueza dos instintos vitais.

Palavras-chave: Competitividade; Criatividade; Helenismo.

Abstract: This paper broaches the greek competitiveness spirit's influence – the agonistic – along Nietzsche's work, not only on his helenistic writings, but also on his maturity works. It is intended to analyse the importance that the german philosopher gives to this disposition, whose greatest expression would have been reached through, Homer, Hesiod and Heraclitus. The agonistic professes the constant strengh overcoming among the men, intending to achieve the development of works that makes possible the affirmation of human excellency and the overcoming of a pessimistic, decadent world view, on the behalf of the beauty and glory affirmation, becoming, consequently, one of the considerable Nietzsche's philosophy theme: the creation of life's affirmative values through of the interaction of powers that ensure the victory against the inertia and the weakness of the vital instincts.

Keyboards: Competitiveness; Creativity; Helenism.


O SENTIDO DA AGONÍSTICA PARA A VIDA OU A DISPUTA DE NIETZSCHE

 

Renato Nunes Bittencourt (Mestrando em Filosofia – UFRJ)

Uma das maiores evidências que comprovam a intensidade da filosofia de Nietzsche reside na importância que este concede ao longo de sua obra ao espírito de competição, a agonística, que teria alcançado na Grécia Antiga um patamar insuperável, se imortalizando através das narrativas épicas de Homero, da poesia cosmogônica de Hesíodo e da filosofia de Heráclito de Éfeso. De modo que, a partir da influência que adquiriu através do estudo das obras desses três grandes gênios da cultura grega, Nietzsche desenvolverá a sua própria perspectiva de disputa, espírito de competição e rivalidade.

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Nietzsche considera que a poesia épica de Homero seria a expressão maior do espírito apolíneo 1) , cuja sabedoria ordena uma prática de vida marcada pelo apaziguamento do ânimo individual, justificando-se como uma das tentativas do homem grego superar o desgosto motivado por uma espécie de pessimismo prático, decorrente da conhecimento do caráter sombrio da existência, cuja maior representação reside na Titanomaquia. 2) Para vencer o sentimento de horror diante da vida, Nietzsche considera que a cultura apolínea teria elevado as experiências oníricas ao nível correlato da realidade, valorizando a harmonia e a serenidade proporcionadas pela contemplação do belo. 3) Consequentemente, nesse mundo apolíneo, até mesmo as guerras entre os homens são majestosamente adornadas com o luminoso véu ilusório 4) da beleza, que torna suportável e aprazível para a existência quaisquer eventos que motivassem no indivíduo o sentimento de tristeza ou desgosto, decorrentes da impotência em se superar um poder absolutamente maior do que o dos homens.

Tal vitória sobre os aspectos tenebrosos da existência teria se consolidado a partir da “educação homérica”, pautada na exaltação da virilidade, da coragem e do amor pela glória, pois, de acordo com essa concepção, uma vida tediosa, desprovida do brilho e da satisfação originadas pela superação das adversidades nas lutas, não pode ser digna de ser vivida. Esta importância ao espírito de competição era um modo de se perpetuar o desenvolvimento da existência saudável do povo grego, cujos homens, adeptos de um gênero de vida guerreira cujo élan estava presente nas disposições de espírito, não poderiam jamais renegar. 5) No entanto, deve-se ressaltar que, apesar do extremo poder de destruição presente na conduta do guerreiro homérico, suas disposições eram absolutamente distintas das práticas monstruosas efetivadas pelo titanismo, pois, aonde o herói apolíneo impunha sua excelência, a sua meta principal consistia na vontade de civilizar o mundo bárbaro, através da expansão do ideal olímpico. Esses guerreiros não pretendiam ocasionar o terrível aniquilamento dos seres e o retorno do universo ao estado de caos primordial, mas proporcionar a exaltação dos valores vitais do ser humano, de modo que excelência e os atos de heroísmo pudessem ser enaltecidos ao longo das eras.

Um dos grandes temas da “Ilíada” de Homero reside no antagonismo figadal existente entre Aquiles e Heitor, rivalidade que atinge o ápice quando o segundo mata Pátroclo, jovem grego caro muito estimado por Aquiles. Após um ansiado duelo entre os dois heróis, Aquiles, tomado de cólera, extermina Heitor, chegando, inclusive, a ultrajar o corpo deste. No entanto, o espírito de disputa se manifesta antes desse confronto decisivo através do discurso de Tétis, que vaticina sabiamente a Aquiles que, a partir do momento que o grande rival Heitor fosse morto por suas mãos, em breve ele também o seria. 6) Tal fatalidade pode ser explicada pelo respeito ao próprio sentido da disputa, pois, uma vez sendo destruído o grande oponente de Aquiles, o único homem capaz de se igualar a ele em feitos, não fazia mais sentido que o célebre herói continuasse existindo.

Tal situação decorre da inexorabilidade da regra da agonística: uma vez cessada qualquer possibilidade de disputa, motivada pelo fato de um grande rival ter sido extinto, o vencedor deve encontrar um novo antagonista, de elevado nível técnico. Se porventura não existir essa possibilidade, o guerreiro deve ser afastado das disputas imediatamente, o que ocorre com Aquiles, através de seu aniquilamento. 7)

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Conduzindo adiante o espírito da disputa, Hesíodo demonstra a importância da competitividade entre os homens, de modo que eles anseiem sempre pela superação de suas forças e a manifestação da excelência de suas obras, através da “boa Éris”, pois

Ela conduz até mesmo o homem sem capacidades para o trabalho, e um que carece de posses observa o outro, que é rico, e então se apressa a semear e plantar do mesmo modo que este, e a ordenar bem a casa; O vizinho inveja ao vizinho, apressado atrás de riqueza; boa luta para os homens esta é; o oleiro ao oleiro cobiça, o carpinteiro ao carpinteiro, o mendigo inveja o mendigo e o aedo inveja o aedo. 8)

Hesíodo demonstra que essa predisposição para a competitividade não se estende apenas nas lutas, mas também nos esportes, na política, nas artes liberais e no labor, onde cada um buscava ultrapassar um adversário à altura de si e possibilitar a continuidade da vontade de competição, afirmando assim a capacidade de superar a “má Éris”, que representa os impulsos titanescos de aniquilamento. 9) A partir dessa nobre rivalidade que promove a interação de forças humanas, a luta e os impulsos de conservação do ser humano deixam de constituir um traço exclusivamente destrutivo, granjeando o sentido de disputa, e, consequentemente, de prazer e superação. Nietzsche, investigando os valores da agonística, reconhecia como característica essencial do homem da Grécia Olímpica a disposição para as atividades bélicas, e o modo mais viável de se moderar os seus impulsos de violência e de morte seria a canalização do instinto de disputa para o plano das artes, da política e dos esportes, nas quais todos os gregos teriam a oportunidade de expandir suas forças vitais, que, uma vez liberadas para a criação de obras valorosas, permitiriam o engrandecimento e o renome de suas instituições. Desse modo, Nietzsche considera que o objetivo da educação agônica era o bem do todo, da sociedade enquanto coletividade. Cada grego deveria desenvolver suas forças até o estágio em que isto constituísse o máximo de benefícios para a sociedade, acarretando o mínimo de danos. 10)

Nietzsche demonstra a sua perspectiva acerca da nobreza de espírito ao considerar que o sentimento que deve brotar da disputa entre dois rivais valorosos não deve ser o ódio ou a vingança, mas a amizade e o amor, pois a existência de um antagonista de brio fornece para o homem guerreiro o seu sentido de ser, pela possibilidade de se praticar os exercícios que evidenciam a sua excelência e renovação das forças vitais. O afeto de afinidade de um homem valoroso pelo seu antagonista se manifesta através do código aristocrático que preconiza o respeito fidedigno entre os rivais, de modo que o vilipêndio contra a honra do agonista é sinônimo de descortesia. Tal fato decorre da consciência de que seria a partir destas interações de forças, dos choques de potências, que o agonista poderá superar os seus limites corporais e ser glorificado pela coletividade.

É importante ressaltar que, os gregos, tendo em vista a renovação constante do círculo da disputa, não eram favoráveis a hegemonia de um vencedor sobre os demais concorrentes por uma grande extensão de tempo, pois esta situação retira dos competidores vencidos as disposições para uma nova disputa. Nietzsche elucida essa tendência agônica, apresentando o interessante caso do valoroso Hermodoro, banido da comunidade dos efésios por pretender se sobressair em relação a seus pares durante uma batalha. 11) Para evitar tais contratempos, os gregos instituíram o ostracismo 12), na qual a pessoa pública que porventura viesse a se perpetuar no poder ou em uma posição importante na sua sociedade, deveria ser afastada de seu cargo, de modo que outros homens viessem a ocupar o seu lugar, garantindo assim o movimento de forças antagônicas no desenvolvimento da pólis. Dessa forma, se impossibilitava a cristalização do poder nas mãos de um tirano, pois a manutenção da saúde política de uma comunidade depende do conflito de idéias entre grupos opostos, para que o governante sempre seja pressionado a realizar uma administração proba dos recursos públicos, de modo a beneficiar o desenvolvimento da comunidade. 13)

Na “Disputa de Homero”, Nietzsche, ao analisar a questão das práticas desportivas 14) da Hélade, nos remete a uma situação interessante: entre os gregos, foi criado um prêmio especial, uma espécie de antepassado do que denominamos atualmente por hors concour . Esse mérito se caracterizava por considerar que um homem, por demonstrar tanta excelência na prática de seu ofício, não poderia competir com os demais concorrentes, devendo receber, no entanto, um prêmio a parte nos torneios, para que as suas qualidades inquestionáveis fossem exaltadas, simultaneamente ao fato de que outros competidores pudessem demonstrar suas habilidades, sem que permanecessem à sombra da imponência do grande vencedor. No entanto, o afastamento das disputas e competições geralmente motivava situações terríveis, como até mesmo o declínio da honra do herói 15), pois este não escoava mais o seu vigor físico, potencialmente fatal, na realização de obras produtivas.

Nietzsche considera que os gregos viam-se obrigados a afastar o grande vitorioso das competições por acreditarem que o fator principal que torna uma competição agradável e estimulante tanto para os participantes quanto para o público espectador consistia no grau de dificuldade que se apresenta na trajetória do campeão rumo a grande conquista. Torneios nos quais se conhece de antemão um provável vencedor, ou que determinado competidor conquista todas as etapas de um campeonato, mitigam o estímulo de superação de forças dos que empenham em alcançar a heróica consagração. Portanto, para que exista um certame de grande qualidade, é necessário que os competidores estejam nivelados por cima, de modo que o potencial de cada um seja demonstrado no mais alto grau de qualidade nas competitivas e estimulantes atividades esportivas.

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Heráclito considerava que a essência do universo seria constituída por um constante conflito de forças, e que as transformações da realidade, inseridas no grande devir cósmico, decorreriam necessariamente dessa característica primordial, intrinsecamente presente em todo o universo, conforme comprova sua célebre sentença, de que “o combate ( polémos ) é de todas as coisas pai, de todas rei, e a uns revelou deuses, a outros, homens; de uns fez escravos, de outros, homens livres.” 16) Nietzsche, fascinado com a questão da agonística grega, interpreta o sentido da disputa em Heráclito de um modo muito perspicaz: detecta a transformação do espírito da luta, presente no plano das ações cotidianas, para a dimensão universal, tornando-se assim um princípio cosmogônico. As disputas entre os homens nos seus diversos ramos de atividades seriam o reflexo mais fulgurante desse conflito cósmico primordial, que possibilita a transformação contínua de todas as coisas através do devir. Nietzsche afirma que

Na realidade, em cada instante, a luz e a sombra, o doce e o amargo estão juntos e ligados um ao outro como dois lutadores, dos quais ora a um, ora a outro cabe a supremacia. O mel é, segundo Heráclito, simultaneamente amargo e doce, e o próprio mundo é um jarro cheio de mistura que tem de agitar-se constantemente. Todo o devir nasce do conflito dos contrários; as qualidades definidas que nos parecem duradouras só exprimem a supremacia momentânea de um dos lutadores, mas não põem termo à guerra: a luta persiste pela eternidade afora. Tudo acontece de acordo com essa luta, e é esta luta que manifesta a justiça eterna. 17)

Nietzsche, portanto, atenta para o caráter cósmico da disputa, pois esta não mais se restringe ao plano das ações cotidianas, contingentes e particulares, mas expressa a essência do universo, a força primordial que proporciona a renovação da vida de todos os seres, através do perpétuo jogo de criação e destruição. Se os homens se caracterizam por medirem suas forças através de jogos e competições para que prevaleça o melhor, simplesmente estariam, talvez de modo inconsciente, representando o princípio erístico do universo. Tal intuição leva Nietzsche a afirmar que

Só um grego era capaz de fazer dessa representação o fundamento de uma cosmodicéia; é a boa Éris de Hesíodo, transfigurada em princípio cósmico, é a idéia de competição dos gregos singulares e da cidade grega, transferida dos ginásios e das palestras dos agons artísticos, da luta dos partidos políticos e das cidades, para o mais universal, de maneira que a engrenagem das coisas nela gira. 18)

Desse modo, torna-se justamente interessante entre os grandes agonistas a presença de Heráclito, pois este teria realizado a síntese entre o código de bravura homérica, que instiga o herói à vencer suas fraquezas através das disposições guerreiras, e a “boa Éris” de Hesíodo, que estende esse sentimento de rivalidade ao comum dos homens, possibilitando a superação dos limites e o respeito à dignidade do trabalho como modo de se enaltecer a justiça. Portanto, Nietzsche considera que Heráclito teria percebido o caráter de relação imanente que existiria entre o microcosmos (relacionado com as modalidades de disputa entre os homens) e o macrocosmos (o eterno conflito universal entre os contrários, propulsora do constante movimento do mundo, o devir), que a visão trágica do célebre Efésio desvelou de modo tão surpreendente.

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Creio que um tema desta importância poderia ser desenvolvido de modo muito mais diligente; no entanto, este escrito talvez possa ser analisado como uma espécie de introdução à questão do sentimento de disputa e competitividade entre os gregos, através de uma leitura nietzschiana.

Podemos afirmar que a interpretação concedida por Nietzsche à agonística grega elucida de modo considerável essa disposição de ânimo, que se assemelha assim a um tônico, capaz de preparar o homem grego para as dificuldades da existência, através da concepção de que o mundo é marcado por uma competição inextinguível, e que, para que se produzam obras valorosas, de renome, torna-se essencial que o ser humano tenha o vigor necessário para vencer as suas mais terríveis adversidades cotidianas. E essa nobre força se desenvolve através da superação dos limites, motivada pela afirmação de uma agonística saudável, que preconiza o respeito ao oponente, aquele que possibilita a nossa própria afirmação, uma vez que, com o rival, instauramos uma nobre relação de forças. Desse modo, tal situação Homero, Hesíodo e Heráclito souberam representar, afirmando através de suas obras a beleza de um mundo povoado por homens de valor e regido por uma justiça cósmica que promove a harmonia através da interação entre os contrários. Em suma, os três gênios da agonística grega encontraram no helenista Nietzsche a voz moderna do sentimento de disputa, que o filósofo alemão soube expressar e honrar de modo tão grandioso em seus escritos.

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NOTAS

1) Impulso natural de caráter ético-estético que preconiza estritamente a prática de uma conduta diante da existência pautada na moderação, no equilíbrio e na harmonia, como modo de se respeitar os limites da individualidade, valorizando ainda a graciosidade da beleza e da luz. Cf. NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia , § 1.

2) Na mitologia grega, a terrível luta entre os Titãs (representando o tenebroso impulso de Caos) e os deuses olímpicos (que expressam o princípio de ordenação e beleza do Cosmos). A vitória nessa guerra coube aos deuses olímpicos, iniciando-se assim uma nova era, tendo como principal fruto a criação de um universo belo, harmonioso, plenamente capaz de refletir como um espelho o brilho da grei de Zeus. Cf. HESÍODO. Teogonia , vs. 617-721.

3) Cf. NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia , § 1.

4) A ilusão apolínea representa o anseio de se transfigurar a dor e a contradição da existência, em uma miríade de reflexos belos e aprazíveis para a existência. Desse modo, a natureza podia se contemplar e, assim, atingir um supremo gozo pela vida.

5) Inclusive, Homero, para enaltecer a excelência de seus heróis, concede-lhes na sua narrativa o momento de destaque pessoal, a “aristia”, para que a singularidade dos feitos grandiosos do homem valoroso fosse evidenciada, para que toda a Hélade pudesse atestar a magnitude de seus empreendimentos guerreiros.

6) Eis as palavras de Tétis a seu filho Aquiles: “Curta existência terás, caro filho, a assim resolveste/pois logo após o trespasso de Heitor, quer o fado que morras”. [Cf. HOMERO. Ilíada , Canto XVIII, vs.95-96] Além disso, no Canto XIX, a sina fatal de Aquiles novamente é revelada, através de seu cavalo Xanto, inspirado pela deusa Hera. “Hoje, impetuoso Pelida, serás por nós salvo mais uma vez/ mas já tens próximo o dia em que deves morrer, não nos culpes/ que nisso a culpa será de um deus forte e da moira impiedosa.” [Cf. HOMERO. Ilíada , Canto XIX, vs. 408-410]

7) Evento que, por sinal, não é narrado na obra de Homero, mas que podemos utilizar perfeitamente neste escrito, posto que o destino fatal de Aquiles é conhecido por grande parte dos que se interessam pelas narrativas que constituem a mitologia grega.

8) HESÍODO. Os Trabalhos e os Dias . vs. 20-26.

9) HESÍODO. Os Trabalhos e os Dias , v. 14.

10) Cf. NIETZSCHE, Friedrich. A Disputa de Homero , In: Cinco Prefácios para cinco livros não escritos , p.82.

11) Hermodoro foi um herói pretendeu superar a todos os seus pares na batalha, desrespeitando a tática bélica do exército do qual fazia parte. Heráclito, revoltado contra o destino do herói, no fragmento DK 121, faz a célebre sentença, invectivando contra os seus conterrâneos: “ ‘É justo que todos os efésios adultos sejam mortos os menores abandonem a cidade, eles que baniram Hermodoro, seu melhor homem, dizendo: ‘Nenhum de nós será o melhor, mas se alguém o for, então que seja na alhures e entre outros'”.

12) NIETZSCHE, Friedrich. A Disputa de Homero , In: Cinco Prefácios para cinco livros não escritos , p. 81.

13) Nietzsche, demonstrando a influência dessa concepção agonística, elucida, no Crepúsculo dos Ídolos , “Moral como antinatureza”, §3 (1888), o fundamento da disputa política, ao afirmar que “quase todos os partidos compreendem que os interesses de sua autoconservação apontam para a necessidade dos partidos opositores não perderem suas forças; o mesmo vale para o grande político.”

14) No âmbito das artes e dos esportes, entre os gregos, é importante lembrar que foram criados os Jogos Olímpicos especialmente para que se pudesse celebrar a paz nas guerras mortais (“má Éris”), em prol da transposição desse instinto prejudicial para a vida em uma esfera de competição saudável, na qual os guerreiros poderiam liberar os seus impulsos potencialmente destrutivos em exercícios e manifestações excepcionais de forças (“boa Éris”).

15) Como no curioso caso de Miltíades: devido aos seus feitos grandiosos na batalha de Maratona, ele foi isolado do convívio de seus companheiros, em um pico solitário. Por não conseguir lidar com a privação das disputas e da possibilidade de extravasar suas energias, ele sofreu de distúrbios que motivaram uma série de atribulações em sua vida. Cf. NIETZSCHE., Friedrich. A Disputa de Homero , In: Cinco Prefácios para cinco livros não escritos , p. 84-85.

16) Cf. HERÁCLITO de Éfeso. Fragmento 53 DK

17) NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na Idade Trágica dos gregos , § 5.

18) NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na Idade Trágica dos gregos , § 5.

Referências bibliográficas

HERÁCLITO. Fragmentos . In vol. Os Pré-Socráticos , col. Os Pensadores. Trad. de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

HESÍODO. Teogonia . Trad. de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2003.

_________. Os Trabalhos e os Dias . Trad. de Mary de Camargo Neves Lafer. São Paulo: Iluminuras, 1990.

HOMERO. Ilíada . Trad. de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

_________. Odisséia . Trad. de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich. Cinco Prefácios para cinco livros não escritos . Trad. de Pedro Sussekind. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.

___________________. Crepúsculo dos Ídolos ou como filosofar com o martelo . Trad. de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

___________________. A Filosofia na Idade Trágica dos gregos . Trad. de Maria Inês Madeira de Andrade. Rio de Janeiro: Elfos, 1995.

___________________. O nascimento da Tragédia ou helenismo e pessimismo . Trad. de J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.