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MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

REFLEXÕES NIETZSCHEANAS SOBRE A DISSOLUÇÃO DO MUNDO GREGO
Adilson Florentino

DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
Ana Carolina da Costa e Fonseca

F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO DA VERDADE
Arthur Arruda Leal Ferreira

LAZER E ANIMAÇÃO CULTURAL: PENSANDO A FORMAÇÃO PROFISSSIONAL A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA
Carlos Augusto Santana Pereira

SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO DE UM DEUS
Cláudia Cerqueira do Rosario
TRÁGICO E ANGÚSTIA DO AMOR: REFLEXÕES SOBRE A HORA DO LOBO, DE INGMAR BERGMAN
Dax Moraes

TÍTULO DO ARTIGO:“SÓCRATES ERA AFINAL UM GREGO ?”
Flávio L. T. S. Boaventura

O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM NIETZSCHE
Flávio de Oliveira Silva
POR UMA EDUCAÇÃO LEVE - AO MODO DE ZARATUSTRA,
O “DANÇARINO-DESTRUIDOR”
Gilcilene Dias da Costa

ARTE ALÉM DA MORAL E ALTERIDADE NO UNO
Gustavo Gadelha

A SABEDORIA TRÁGICA DIONISÍACA
Ivan Maia de Mello

HERÁCLITO ENTRE HEGEL E NIETZSCHE
Jorge Moraes

MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA
Leila Navarro de Santana
LA RECEPCIÓN VATTIMIANA DE NIETZSCHE: HACIA UN FILOSOFAR SIN SUJETO.
Luis Uribe Miranda
ZARATUSTRA, MESTRE DA VIRTUDE DADIVOSA
Luiz Celso Pinho
A EDUCAÇÃO EM NIETZSCHE: CHEGA-A-SER O QUE TU ÉS
Maria Eugênia Carvalho de la Roca
SOBRE A EDUCAÇÃO EM SI DE NIETZSCHE
Marinete Araújo da Silva
ESPEJOS Y MÁSCARAS. LOS PELIGROS DE UN ARTE DE ARTISTAS
Paula Fleisner
RECONDUZIR NIETZSCHE A KANT? SOBRE O DESINTERESSE DO BELO
Pedro Duarte de Andrade
NIILIISMO E HISTÓRIA: O LOUCO E APÓSTOLO
Pedro Hussak van Velthen Ramos
UMA BRISURA: DERRIDA ÀS MARGENS DE NIETZSCHE
Rafael Haddock-Lobo
A DISTINÇÃO ENTRE SÓCRATES E PLATÃO NA FILOSOFIA DE NIETZSCHE
Rafael Rodrigues Pereira
O SENTIDO DA AGONÍSTICA PARA A VIDA OU A DISPUTA DE NIETZSCHE
Renato Nunes Bittencourt
CONHECER PARA ESQUECER. A IDENTIDADE E OS CAMINHOS PARA A MEMÓRIA:
PERSPECTIVAS NETZSCHIANAS SOBRE A IDENTIDADE E O ESQUECIMENTO COMO ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DA MEMÓRIA NO LOCUS SOCIAL
Ricardo Medeiros Pimenta
NIETZSCHE-RENAISSANCE, DESCONSTRUÇÃO, PENSAMENTO FRACO
Rosário Rossano Pecoraro
A ORIGEM DO CONHECIMENTO EM NIETZSCHE
Sofia Helena Gollnick Ferreira
A EDUCAÇÃO MODERNA COMO BARBARIZAÇÃO DO TIPO HOMEM
Vagner da Silva
DO ESVAZIAMENTO ONTOLÓGICO DE DEUS À DISSOLUÇÃO DO CRISTIANISMO ENQUANTO MORALIDADE: A SENTENÇA NIETZSCHEANA “DEUS ESTÁ MORTO”
Valéria Cristina Lopes Wilke
APOLO Y DIONISOS: TEOLOGÍA DE LA VOLUNTAD DE PODER
Virginia Mabel Cano
 

EXPEDIENTE
A revista MORPHEUS é uma publicação do Laboratório de Linguagens e Mídias, do Centro de Ciências Humanas da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e objetiva disseminar a produção científica acadêmica, optando pela interdisciplinaridade e pela multiculturalidade, tanto na abordagem como com relação aos objetos.


Editores
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Título: Niiliismo e História: o Louco e Apóstolo

Autor: Pedro Hussak van Velthen Ramos

Doutorando em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGF-UFRJ).

E-mail: phussak@uol.com.br

Resumo :

O presente trabalho visa a esclarecer o fenômeno do niilismo a partir da análise comparada de dois textos fundamentais do pensamento ocidental: o parágrafo 125 de A Gaia Ciência de Friedrich Nietzsche e a passagem dos Atos dos Apóstolos em que se narra a viagem de São Paulo à Atenas. A hipótese principal é que o texto de Nietzsche, que relata a passagem de um homem louco por um mercado anunciando a morte de Deus, pode ser lido como uma paródia do texto bíblico. Neste último, São Paulo prega inicialmente em um mercado de Atenas, realizando, assim, o encontro da fé cristã com o lógos grego. Nesta perspectiva, a proximidade dos dois textos vai muito além de uma mera semelhança estilística literária, pois ambos revelam momentos decisivos da história do ocidente: por um lado, a afirmação do Cristianismo como um destino histórico do ocidente; por outro, a crise deste projeto histórico e o advento daquilo que Nietzsche chama de niilismo passivo .

Palavras-chave : Filosofia contemporânea - Nietzsche – Niilismo

Title: Nihilism and History: the Madman and the Apostle

Abstract

The present works aims at casting a light at the phenomenon of nihilism from the compared analysis of two fundamental texts of Western thinking: paragraph 125 of The Gay Science by Nietzsche and the passage in the Acts of the Apostles which discloses the journey of Saint Paul to Athens. The main hypothesis is that Nietzsche writing, which describes the passage of a madman through a marketplace announcing the death of God, can be read as a parody of the biblical text. In the latter, Saint Paul initially preaches at an Athenian marketplace, promoting, thus, the meeting of the Christian faith with the Greek lógos . Under this perspective, the closeness of the two texts goes way beyond a mere literary stylistic similarity, as both texts reveal decisive moments in Western History: on one hand, the affirmation of Christianity as a Western historical destiny; on the other hand, the crisis of this historical project and the advent of what Nietzsche refers to as passive nihilism

 

 

NIILIISMO E HISTÓRIA: O LOUCO E APÓSTOLO

Pedro Hussak van Velthen Ramos

Doutorando PPGF-UFRJ

Em uma anotação póstuma, Nietzsche define assim o que ele compreende por niilismo:

O que significa niilismo? – que os valores mais altos se desvalorizam . Falta a finalidade; falta a resposta ao “por quê?” 1)

 

O niilismo, a desvalorização dos valores mais elevados historicamente constituídos, não é um fato isolado que ocorre eventualmente em uma cultura, mas sim a dinâmica essencial da história. Assim, a história se perfaz como declínio .

No entanto, de maneira diferente do que pensa o senso comum, a decadência , o movimento da história, não deve ser pensada como algo puramente negativo, mas como o processo que permite que a história se faça como criação . O próprio caráter “violento” de toda quebra de valores possui um caráter altamente necessário, pois é ele que possibilita ao homem “desvelar” mundo para si a fim de que se abram novas possibilidades de ser. É neste sentido que Nietzsche recusa o excesso de memória em Da Utilidade e da Desvantagem da História para a Vida 2) , pois a tendência a ficar “preso” ao passado estrangula e mumifica a vida, não é possível “voltar atrás” e desfazer o que foi feito. Uma vida “saudável” é aquela que compreende que todo o horizonte de realização é sempre o futuro. Se não houvesse este processo de negação do anterior em direção a novas possibilidades, a rigor, não haveria história, pois o tempo ficaria preso e amarrado e a cultura seria monolítica e monocromática. Esta tendência da cultura a se eternizar e lançar seus tentáculos sobre a vida pode perfeitamente mumificá-la e paralisá-la, não permitindo que ela siga sua dinâmica mais própria.

Nesta perspectiva, o uso que Nietzsche faz da palavra niilismo é ambíguo à medida que ela designa tanto o declínio, quanto o próprio processo de criação de ideais e valores que, como tais, aparecem para substituir os antigos. A criação dos ideais responde à necessidade de o homem encontrar segurança. Quando estes ideais não conseguem mais responder aos problemas vitais, eles se desvalorizam e aparece uma outra dimensão do niilismo que é uma época histórica intermediária entre o declínio e a criação de novos ideais e valores. Nestas épocas, o homem se vê em meio a uma confusão de valores – o que parecia ser o correto, agora parece ser errado. O homem se encontra desorientado, não encontra mais uma perspectiva para o seu agir. Nestas épocas, o homem erra por um nada infinito, por um vazio de sentido que lhe causa desespero e angústia existencial.

Mas como entender concretamente o niilismo como movimento essencial da história? Para tentar esclarecer este fenômeno, este artigo realizará uma análise do aforismo 125 de A Gaia Ciência que traz o primeiro anúncio da morte de Deus, feito por um homem louco que, com uma lanterna, atravessa a praça do mercado gritando “procuro Deus, procuro Deus” e é alvo de risos e zombarias daqueles presentes na praça. A hipótese do presente trabalho é que o texto de Nietzsche pode ser lida como uma paródia do relato bíblico da viagem de São Paulo à Atenas. Pretende-se mostrar que esta paródia não deve ser entendida como uma simples questão estilístico-literária, mas revela dois momentos decisivos da cultura ocidental em que a história se essencializa.

Eis o texto de A Gaia Ciência :

O homem louco – Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou em um navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-lhes o olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra de seu sol? Par aonde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existe ainda ‘em cima' e ‘embaixo'? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará deste sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos que inventar? A grandeza deste ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa deste ato, a uma história mais elevada que toda história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles o cometeram !” – Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas, e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam deo . Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?” 3) .

O texto relata um homem louco que, com uma lanterna, passa gritando à procura de Deus pelo mercado e é alvo das zombarias daqueles que lá se encontram. Sem dúvida, faz-se referência ao cínico Diógenes que, em plena luz do dia, de modo provocativo com os cidadãos da Pólis , passou pelas ruas de Atenas gritando: “procuro um homem!”. Como chovia, os cidadãos, tomados de compaixão, quiseram ajudar àquele que era tomado como um louco. De acordo com Diógenes Laércio, Platão, sublinhando o orgulho e a altivez do cínico, teria dito: Se vocês têm realmente piedade dele, é melhor ir embora.” 4)

Se o cínico procurava um homem de verdade na Atenas do séc. V, o louco do texto, com a sua lanterna, faz na realidade o anúncio terrível da morte de Deus. Cabe notar o patetismo da cena, pois este anúncio não é nem de longe mostrado como algo tranqüilo e calmo, mas, ao contrário, de forma conflituosa e tumultuada. As possíveis conseqüências deste ato são apontadas como terríveis e incontroláveis, apesar de a morte de Deus ser apontada como um destino histórico inexorável do qual não há como fugir e que deve ser enfrentado em toda sua plenitude como a determinação histórica do homem dos séculos vindouros.

O conflito nasce, em princípio, pelo fato de que os homens que se encontravam no mercado, que já não acreditavam em Deus, zombarem e fazerem pouco caso da busca do louco. Ora, o louco é exatamente aquele que fala aquilo que os “normais” não compreendem. Os gregos antigos atribuíam à loucura a fonte da sabedoria por acreditarem que o louco é aquele que tem um contato direto com os deuses 5) . No entanto, apesar do riso e da zombaria, o louco insiste e afirma que exatamente aqueles que já não acreditam mais em Deus foram exatamente os seus assassinos. “– Nós o matamos – vocês e eu.”. Os homens do mercado ainda não têm consciência do ato que cometeram, nem muito menos estão à altura da magnanimidade deste ato. Sim, porque a morte de Deus não implica simplesmente a queda do sentimento religioso e a afirmação do racionalismo, mas a queda de todos os valores mais altos da cultura ocidental, o que significa que “Deus”, nesta compreensão, abarca também o que o ocidente tomou como sendo a Verdade, a Justiça, o Bem, a Moral, o Belo, e porque não, a própria razão ... .

Morte de Deus significa que a cultura entra em crise. Os valores estão decadentes, não há mais ideais capazes de oferecer uma meta, um horizonte para a humanidade; não há mais princípios norteadores e o homem só vê diante de si crescer a sombra do nada: “Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra de seu sol?”. A Terra agora não tem mais o Sol que, desde Platão, é tomado como o Bem, aquilo que orienta e determina a vida da Pólis – a morte de Deus é também a morte da ética e da política. Com a decadência, o homem se vê desorientado, agora já não há mais uma meta uma finalidade, e a tendência destrutiva no homem tem um terreno fértil para aparecer, pois ele não sabe mais o que fazer, nenhuma ação é realmente importante. Tudo se equivale, o homem se vê afogado no tédio e “vaga como que através de um nada infinito”.

No entanto, o louco não é um melancólico e nostálgico que fica lastimando a perda dos “valores antigos”. Ao contrário, sua mensagem traz a idéia de que é preciso assumir plenamente o âmbito da morte de Deus na medida em que é um destino histórico do ocidente o qual é necessário viver em todas as suas possibilidades mais próprias. Diferente dos homens do mercado, é preciso levar o niilismo a sério , pois só o assumindo em todas suas possibilidades mais próprias é possível esgotá-lo. Somente esgotando todas as possibilidades do niilismo, é que se faz possível uma transvalorização de todos os valores , ou seja, compreender a vida a partir de seu movimento de auto-exposição a partir de si mesmo a fim de compreender a própria vida como condição de possibilidade de criação de toda e qualquer sorte de ideais. Se a humanidade adotou como princípios supremos o Bem, a Verdade, a Justiça, a Lei, etc., uma transvalorização significa ver a vida, em seu movimento de auto-realização, como a fonte a partir da qual emergem todos estes princípios.

Não se deve temer a confusão e a desorientação que advêm da morte de Deus. De fato, este é um momento de crise, mas se compreendermos o niilismo como o movimento essencial da história, compreenderemos também que as crises históricas não são eventos “circunstanciais” que podem ser resolvidas pela “boa vontade” dos homens, mas o instante, a hora em que a historia se essencializa, todo momento de crise é o memento em que a história se abre para as suas possibilidades futuras. A palavra krísis em grego significa o momento decisivo 6) , a hora da decisão, a hora em que um indivíduo ou um povo escolhe as suas possibilidades mais próprias. A crise é o momento em que tudo aquilo que estava sedimentado e cristalizado pode ganhar a força de uma esperança que se renova. Porque viver é superar-se a si mesmo e ganhar novas possibilidades e horizontes para que um povo ou um indivíduo encontre a autenticidade de seu ser, isto é, se diferencie no seu processo de auto-identificação 7) .

Também no século XVI o homem europeu viveu em crise. A crença nos dogmas cristãos já não era uma crença verdadeira, o cristianismo já não dava as respostas vitais para aqueles homens, mas já não havia novas respostas às quais o homem pudesse se agarrar. Este terreno foi fértil para que a ciência moderna pudesse aparecer e aqueles livros de Copérnico, Galileu, Kepler, Bruno, não só trouxessem novas teorias, acerca do sistema solar, por exemplo, como também estas idéias fundaram uma nova crença, a fé na razão , que abriu um novo horizonte histórico chamado modernidade . Hoje, vivemos a crise deste projeto moderno, e o homem louco anuncia tudo isto com sua formulação de que Deus está morto, apontando para o fato de que agora o homem caminha como em um nada infinito. Os homens do mercado, os assassinos de Deus, rumam em direção a este nada. Porque ainda não compreendem o anúncio do louco, eles zombam e caçoam daquele que passa com a lanterna gritando que Deus está morto. Mas este acontecimento, que aos homens, parece algo distante e que não lhes concerne, na verdade já ocorreu , e todos aqueles que homens estão, de uma forma ou de outra, abarcados por esta determinação histórica. No entanto, é preciso ainda tempo para que os homens do mercado se coloquem à altura do ato que cometeram, pois apesar de serem os assassinos, ele ainda não sabem que Deus está, as igrejas hoje, das quais o homem louco é expulso, não são outra coisa senão os túmulos e mausoléus de Deus.

As grandes transformações históricas não acontecem de chofre, mas precisam de um tempo de maturação para que possam ocorrer. Assim, também se sucedeu na passagem disto que historicamente se chama a idade antiga para o período medieval. Por este motivo, é que não é de modo desinteressado que Nietzsche faz constar o declínio dos valores ocidentais em uma praça de mercado, pois foi também em uma praça, em Atenas, que São Paulo fez o anúncio da Boa Nova para os gregos. A viagem de São Paulo à Atenas talvez seja o evento mais importante para o desenvolvimento da história ocidental nos 2000 anos subseqüentes, pois marca o encontro dos mistérios da fé cristã, ainda efetivamente marcada pela condição judaica do cristianismo, com o esclarecimento que a cultura grega trouxe com a invenção do lógos . São Paulo é, em certo sentido, a síntese de toda cultura cristão, pois além da condição judaica, da helenização intelectual, ele, por seu nascimento, ainda traz um terceiro elemento decisivo para a formação do ocidente, a condição jurídica romana.

O encontro de São Paulo com os atenienses, narrado nos “Atos dos Apóstolos”, é o início da difusão do cristianismo no Ocidente. São Paulo é um dos grandes responsáveis por esta difusão entre os povos nas viagens em que pregou a palavra que anunciava o Cristo crucificado. O cristianismo, diferentemente dos judeus, o povo escolhido, é universalizante por considerar que todos são filhos de Deus e, portanto, a palavra de Deus deveria ser levada a todos os povos a fim de que eles pudessem se converter ao cristianismo e não apenas a um povo 8) . Por isso, o Apóstolo viajou para todos os centros importantes do mundo antigo a fim de evangelizar e fazer o anúncio da Boa Nova para todos os povos antigos.

Pela proximidade do texto dos “Atos dos Apóstolos” com o texto de A Gaia Ciência , é possível especular que Nietzsche tenha feito uma paródia que, como veremos, é totalmente justificada pelo sentido que o pensador alemão quer dar para o que ele entende como a Morte de Deus. Eis o texto que relata a viagem de São Paulo à Atenas:

Enquanto esperava Silas e Timóteo, em Atenas, Paulo ficou revoltado ao ver aquela cidade entregue à idolatria. Por isso, discutia na sinagoga com os judeus e com os que adoravam Deus. E todos os dias discutia em praça pública com os que lá se encontravam. Também alguns filósofos epicureus e estóicos começaram a conversar com ele. Alguns diziam, “Que estará querendo dizer este tagarela?” Outros diziam: “Parece ser um pegador de divindades estrangeiras”. Isso, porque Paulo, no anúncio, falava de “Jesus” e da “Ressurreição”. Tomando Paulo consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: “Podemos saber qual é a nova doutrina que estás expondo? De fato, as coisas que dizes soam estranhas para nós. Queremos saber o que significam”. Com efeito, todos os atenienses e os estrangeiros residentes passavam o tempo a contar e a ouvir as últimas novidades.

De pé, no meio do Areópago, Paulo tomou a palavra: “Atenienses, em tudo eu vejo que sois extremamente religiosos. Com efeito, observando, ao passar, as vossas imagens sagradas, encontrei até um altar com esta inscrição: ‘A um deus desconhecido'. Pois bem, aquilo que adorais sem conhecer, eu vos anuncio. O deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mão humana. Também não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa; pois é ele que dá a todos vida, respiração e tudo mais. De um só homem ele fez toda a espécie humana, para habitar sobe toda a face da terra, tendo estabelecido o ritmo dos tempos e os limites de sua habitação. Assim fez, para que buscassem a Deus, e, talvez às apalpadelas, o encontrassem a ele que na realidade não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas:

‘Também nós somos a sua linhagem'.

Sendo, pois, a linhagem de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, prata ou pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem. Mas Deus, sem levar em conta os tempos da ignorância, agora faz saber à humanidade que todos, em todo lugar, devem converter-se. Pois ele estabeleceu um dia para julgar o mundo com justiça, pelo homem a quem designou. Mostrou a todos que ele é digno de fé, ressuscitando-o dos mortos”.

Quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, alguns caçoavam. Outros diziam: “Nós te ouviremos falar disso também outra vez”. Assim, Paulo saiu do meio dele. Alguns, porém, aderiram a ele e abraçaram a fé, entre os quais Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Damaris e outros com eles. 9)

Os Atos dos Apóstolos narram as inúmeras viagens de Paulo e sua pregação em todos os povos. A passagem supracitada narra a viagem feita por ele à Atenas, cidade que não lhe agradou por estar “entregue à idolatria”. A singularidade da viagem de Paulo à Atenas é o fato de que esta cidade fora o grande centro artístico e cultural da civilização grega, portanto um povo que tinha um enorme orgulho de sua herança intelectual. O apóstolo faz um discurso evangelizador, explicando os fundamentos da fé cristã, mas, durante sua pregação, tal qual os homens do mercado do texto nietzschiano, aqueles escutavam o discurso zombam e desconfiam daquele que falava em um Deus estrangeiro que é crucificado, morto e ressuscitado depois de três dias. De fato, um Deus que se fazia homem a fim de assumir o sofrimento de toda humanidade não podia significar muita coisa para um povo acostumado com deuses imortais, guerreiros, cujos homens não passavam de joguetes em suas mãos. O politeísmo grego lançava mão de deuses estéticos , e não morais, que tinham a mesma forma do homem, com todos os seus defeitos e paixões. O grego justificava sua existência pensando que se um Deus imortal possuía as mesmas vicissitudes humanas, então a própria vida tal como ele é merece ser vivida. 10)

O santo, malgrado as dificuldades, persistia em sua pregação e, todos os dias, ia à praça pública para afirmar seus princípios, e, apesar da recepção fria e zombeteira, os atenienses ainda guardavam um grande amor pelo discurso e pela oratória, além de uma grande curiosidade por novas idéias, daí a curiosidade em saber o que “estará querendo dizer aquele tagarela”. Os homens cultos de então, os filósofos epicuristas e estóicos – legítimos representantes do legado filosófico grego –, levaram-no para o Areópago, o tribunal dos sábios e magistrados gregos, pois eles queriam entender a nova doutrina que estava sendo anunciada que, em princípio, parecia estranha em sem nexo. É interessante notar que o relato das viagens e pregações de São Paulo está recheada de incidentes e peripécias como ameaças, prisões e banimentos, ao passo que, entre os gregos, aconteceu de ele ser levado exatamente para o local mais importante da vida grega, onde ele poderia se explicar.

No seu discurso, São Paulo faz referência ao fato de os gregos serem um povo extremamente religioso, e a um altar, que ele reparara quando olhava as imagens sagradas dos atenienses, onde estava escrito A um Deus desconhecido . Ele aponta que este Deus que eles adoravam sem conhecer era o Deus judaico-cristão, um Deus único que a tudo e a todos tinha criado, e não vários deuses como no panteão grego. Os gregos deveriam aceitar o Deus desconhecido que eles cultuavam e se converter à nova doutrina anunciada por ele naquele tribunal.

Os atenienses, com todo seu legado cultural-artístico-filosófico, não podiam levar a sério um discurso como aquele, mas apesar de eles caçoarem daquele anúncio e não se sentirem tocados por aquele discurso. No entanto, o fato é que l'âge d'or dos atenienses, como dos gregos em geral, há muito chegara ao fim, a antiga pólis , bem como todo o seu mundo intelectual e artístico, não eram nem sombra do que fora no sécs. VI e V a.C., o mundo grego havia ruído. Havia um terreno propício para que o discurso de São Paulo ganhasse força, pois o grego do séc. I encontrava-se em crise .

O grego de séc. I experimentava ainda o legado de um mundo que tinha sido grandioso, mas sua cultura já não o determinava de maneira viva. Pelo fato de contar com um passado brilhante e grandioso, ele podia ainda revelar-se snob diante de um discurso que não compreendia, mas, no fundo, estava ávido por novos ideais que lhe dessem uma renovada fé na vida. A reação do grego ao apóstolo foi a mesma que os homens da praça do mercado tiveram em relação ao louco que procurava Deus. É necessário tempo para que o homem se conta da situação em que ele próprio já está vivendo. Como bem aponta Ortega y Gasset em Em Torno a Galileu , a situação do homem grego daquela época, que na realidade não distava da situação do romano ou do judeu, era o desespero 11) . Isto significava que este homem se achava desorientado, isto é, não sabia como dar uma meta, uma finalidade par ao seu existir. O homem da época de Cristo encontrava-se em uma crise sem precedentes e precisava de novas respostas que lhe dessem segurança – “Precisamos de alguma verdade!”. No entanto, era necessário ainda tempo para que este desespero pudesse aflorar e a resposta cristã caísse como uma luva para aplacar a crise vivida pelo homem na época de Cristo.

São Paulo sabia do poder de seu discurso, por isto nunca desistiu da pregação da Boa Nova mesmo nas situações mais difíceis e constrangedoras. A afirmação histórica do cristianismo no ocidente deve muito ao grande esforço de conversão feito por São Paulo na medida em que a doutrina cristã deveria ser levada não apenas ao povo hebreu, o povo escolhido, mas a todos os povos: “Deus, sem levar em conta os tempos da ignorância, agora faz saber à humanidade que todos, em todo lugar, devem converter-se.”

No entanto, a força do discurso de São Paulo provinha, segundo Nietzsche em O Anticristo , não da pregação da mensagem originária do Cristo, mas por uma falsificação desta. No seu principal livro sobre o cristianismo, longe de uma depreciação da figura histórica do Nazareno, Nietzsche defende, ao contrário, que o único verdadeiro cristão morreu na cruz. Na interpretação de Nietzsche, Cristo teria morrido exatamente porque se rebelava contra a severa moral judaica. Como é sabido, o povo hebreu existe graças a uma aliança com Deus, e toda sua relação natural acontece a partir desta relação contratual primária com Deus. Esta aliança contratual implica na aceitação de uma condição severíssima que é a lei , um programa de afazeres para o homem. Pois bem, esta lei criou toda uma casta de sacerdotes que, na medida em que têm um acesso privilegiado aos desígnios de Deus, podiam exercer um poder sobre a comunidade. Nietzsche defende que mesmo o judaísmo em seus primórdios possuía uma concepção naturalista de Deus, mas o estabelecimento da lei como um poderoso instrumento nas mãos do sacerdote natural, estabeleceu que, através da vontade de Deus, havia “uma ordem moral no mundo” 12) . Por causa desta ordem, é possível punir ou recompensar quem está ou não de acordo com os desígnios divinos. Ora, neste mundo de pecado e expiação, apenas o sacerdote pode redimir, pode perdoar, foi assim que os sacerdotes ganharam um enorme poder – o poder sobre todos aqueles que sofrem.

O Anticristo mostra que Cristo e sua doutrina do amor era contra exatamente a idéia de que deveria haver uma casta superior de “escolhidos” que poderia ter um acesso privilegiado à lei e, portanto, se investir no direito de punir e gratificar. Daí a compreensão nietzschiana de um Cristo inocente à la Dostoeiwiski 13) : “o reino dos céus é das criancinhas”. Deus é amor, o reino dos céus não é mais de alguns escolhidos, mas de todos , a doutrina do amor é universalizante. Não se encontrará Deus como uma recompensa – o que em certo sentido elimina a idéia de pecado, culpa, redenção, etc. –, mas um processo de interiorização em que se descobre um amor universal a tudo e a todos: “O ‘reino dos céus' não é o que se espera; não existe nem ontem nem depois de amanhã, não virá em ‘mil anos', é uma experiência do coração; está em toda parte e em parte alguma...” 14) , o reino dos céus está dentro de nós. A interiorização se refere a um estado afetivo que se caracteriza por um sentimento de alegria e bem-estar íntimo, o que implica que o mencionado “Reino dos Céus” não precisa se encontrar em uma dimensão supra-sensível como, posteriormente, a igreja impôs para a massa de fiéis que deveriam aceitar passivamente a idéia de um “Paraíso” além do mundo em que vivemos. Este estado de espírito é o amor que, uma vez despertado no nos homens, acarretaria em uma série de atos benéficos para um desenvolvimento saudável da vida. Cristo é aquele que é capaz de manter o coração “puro” e “bom” diante do poder daqueles que pensam poder “julgar” os homens. Enquanto inocência e pura gratuidade, a existência não faz distinções e todo homem enquanto homem participa desta dimensão originária, e não apenas os escolhidos que agem de acordo com as “leis divinas”.

No entanto, o apóstolo, um judeu que inicialmente perseguia os cristãos, mas que acabou se convertendo depois de uma revelação, retoma toda compreensão do moralismo judaico e se firma como um dos maiores “mestres da finalidade da existência” ao interpretar a crucificação como a idéia de que Deus enviara seu filho para a redenção dos pecados dos homens. Paulo viabilizou, no âmbito do cristianismo, a criação de um código moral transcendente a fim de ordenar ao homem uma série de deveres ascéticos, além do respeito e da submissão a mandamentos. Os fiéis, por sua vez, são ameaçados da descarga da cólera divina, caso façam imprecações e realizem ações que lesem as normas religiosas instituídas. O apóstolo realiza o seu projeto exatamente em uma interpretação do ato cristão por excelência – a crucificação. Diante da imolação de Cristo, os homens deveriam temer a justiça de Deus “Pois ele estabeleceu um dia para julgar o mundo com justiça, pelo homem a quem designou. Mostrou a todos que ele é digno de fé, ressuscitando-o dos mortos”. Por conta disso, Nietzsche considera que Paulo transformou o sentido da Boa Nova de Jesus, que queria libertar os homens através do amor, a fim de, pelo estabelecimento da justiça divina, acumular uma série de afetos de tristeza, ódio e temor da punição transcendente. Esta apropriação seria, portanto, nas palavras de Nietzsche, um Dysangelium , uma “Má Nova” 15) .

Nietzsche usa, de modo recorrente, o personagem identificado por ele como “O Crucificado” ao qual ele opõe a figura de Dionísio 16) . Aqui o filósofo se volta, sobretudo, contra a interpretação de Paulo e não uma depreciação da mensagem originária de Cristo. O problema é que praticamente toda teologia posterior deram importância demasiada à paixão de Cristo como o ato que garante a absolvição dos pecados do mundo. Os cristãos, impotentes diante da magnanimidade do ato de Cristo, deveriam, pois, adotar uma postura de renúncia das suas forças vitais, adotando uma atitude entorpecida diante da dor, cultivando a esperança , isto é, a espera de um futuro melhor após a morte com a purificação de seus pecados.

Igreja se valeu desta imagem impressionante, a crucificação, para criar o seu rebanho. Praticamente toda arte ocidental desde o Românico até o Barroco do séc. XVIII teve como representação pictórica o Cristo Crucificado. Diferente do Deus judaico, que é um deus abstrato, o Cristianismo, através do mistério da Santíssima Trindade, conseguiu criar aquilo que Hegel chamou de “Universal Concreto” 17) . Cabe a pergunta: Qual interpretação do Cristo venceu no ocidente: o Cristo amoroso e inocente , tal como Nietzsche o interpreta; ou o Cristo apaixonado e judicioso de São Paulo? A história da arte revela que a crucificação foi colocada como o principal momento na trajetória. Cabe perguntar, o porquê deste privilégio. Por que não o nascimento? Por que não a sua pregação e sua mensagem? Por que não um Cristo entendido com um rei dos homens? Por que não um Cristo ressuscitado?

Principalmente, cabe perguntar: por que não um Cristo ressuscitado? Um Cristo que, após viver o ciclo da Paixão e morrer na cruz, que renasce gloriosamente, superando, assim, a dicotomia entre vida e morte, celebrando o movimento próprio da vida de destruição e renascimento. Porque a morte, experimentada de modo criativo, significa a abertura para novas possibilidades e a renovação de uma nova perspectiva de vida. Assim, ao invés de imaginarmos um “Dionísio contra o Crucificado”, seria possível imaginar “Dionísio amigo de Cristo” já que o deus Dionísio propõe a superação da individualidade em prol de uma interação, através de um movimento extático, com as forças da natureza depois, sob os auspícios do deus Apolo, retornar à individualidade. Este movimento é narrado em um dos mitos acerca do nascimento da divindade, o Dionísio Zagreus . Filho de Zeus e Perséfone, despedaçado, e devorado vivo pelos Titãs, mas que renasce, pelo fato de seu coração ter sido salvo por Atena. 18)

Após terminar seu discurso no Areópago, a recepção continuou fria e todos foram embora, apenas alguns poucos aderiam à nova doutrina entre ele uma mulher chamada Damaris e o areopagita Dionísio (!).

Os momentos descritos em ambos textos, o bíblico e o de A Gaia Ciência , são momentos em que se revela a decadência de dos mundos e a abertura de possibilidade de realização histórica. Aqueles que viviam estes momentos, mas sem saber ainda não tinham a capacidade de se tornar contemporâneos de si mesmos e compreender a transformação histórica pela qual estavam passando. Transformação sempre revolucionaria, mas nunca em uma ruptura radical, pois é preciso tempo para que seja possível assumir plenamente a tarefa que cada destino histórico impõe.

A palavra de São Paulo, a crucificação e ressurreição de um Deus, não encontrou inicialmente eco entre os atenienses, o que não tira a força que seu discurso ganhará mais tarde. Na verdade, a viagem de São Paulo à Atenas pode ser entendido como um dos eventos mais marcantes da cultura ocidental – o encontro da perspectiva cristã efetivamente marcada por sua condição judaica e o esclarecimento do lógos grego.

É interessante notar que é exatamente em função deste próprio intelectualismo que os gregos desconfiam da pregação de São Paulo acerca do Cristo crucificado, não basta oferecer sinais , como era a exigência dos hebreus, mas se fazia necessário apresentar razões para que se explique logicamente a Boa Nova. É neste sentido que se explica o conteúdo da I Espístola aos Coríntios em que o Apóstolo faz um discurso duro contra a razão grega a favor da fé, e faz referência à “loucura da cruz”, ou seja, para o fato de que aos olhos dos “pagãos” a crucificação ser um ato sem razão:

A pregação da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que são salvos, para nós, ela é a força de Deus. Pois está escrito: ‘Destruirei a sabedoria dos sábios e confundirei a inteligência dos inteligentes'. Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o disputador desta era? Aliás, Deus não reduziu à loucura a sabedoria deste mundo? De fato, pela sabedoria de Deus, o mundo não foi capaz de reconhecer a Deus através da sabedoria, mas, pela loucura da pregação, Deus quis salvar os que crêem. Pois tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria. Nós, porém, proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens. 19)

Se os gregos pediam razões, São Paulo afirma que a força do ato de Cristo está exatamente naquilo que ele possui de não racional, ou seja, de não demonstrável: “aliás Deus não reduziu à loucura a sabedoria deste mundo?” e Ao evocar a “loucura da cruz”, São Paulo fala como um apaixonado que defende uma fé cega e sem contestações, chegando mesmo a dizer que “o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens”, e que ela é a força de Deus.

A defesa da fé contra a razão feita por São Paulo dá conta de uma compreensão de um mundo que se compõe apenas de Deus e do homem em que o primeiro revela tudo para o segundo. O homem, nos primórdios do cristianismo, não é sujeito e não conhece Deus porque não pode se fazer sujeito do conhecimento na medida em que na realidade ele é o objeto para quem a verdade é revelada. Como vimos, temos um homem oprimido pela possibilidade de uma punição divina. Para um homem que é um mínimo diante de um superior que não pode conhecer, mundo perde completamente o seu interesse em nome do outro mundo que é acessado apenas pela fé.

A fé não é um desígnio do homem, mas uma graça do próprio Deus que revela a Verdade. Para que seja justificada a fé, usa-se como critério, não um processo de demonstração lógica, mas a autoridade da igreja. Todo discurso dos Sacerdotes é sempre fundamentado por esta autoridade e, assim, podem chegar a um grande número de pessoas que são arrebanhadas como fiéis. No entanto, apesar de a interpretação de Paulo de Tarso ter sido vitoriosa, a idéia da autoridade da igreja não reinou sozinha no âmbito do cristianismo. O que marcará historicamente o cristianismo será o fato de que nele acontece uma síntese entre o judaísmo e o lógos grego. Esta síntese torna o cristianismo a única religião teológica da humanidade. O Deus do judaísmo, por exemplo, é verdadeiro na medida em que, pela aliança, o homem pode confiar nele, já no cristianismo, Deus existe e tem uma realidade que é revelada pela fé, mas que, em princípio, e até certo ponto é possível conhecer racionalmente, é possível conhecer os atributos e propriedades de Deus. Além de um Deus ut revelans , a idéia de Santo Agostinho do Credo ut intelligam vai ser uma norma em todo pensamento cristão. 20)

Ortega y Gasset, também em Em Torno a Galileu , conta uma rápida história do pensamento cristão, mostrando em que sentido um mundo que inicialmente se compunha apenas de Deus e o homem. No entanto, a partir da Patrística, e notadamente Santo Agostinho e Santo Anselmo, o homem começa aos poucos a pensar que o conteúdo da fé e da palavra de Deus tem que ser assimilada e entendida racionalmente. Daí que estes padres se valem dos princípios da razão estabelecidos pelos gregos, a princípio com Platão, para explicar a fé. Este projeto histórico do cristianismo fundamentou toda uma compreensão humanista que implica em um processo de liberdade e responsabilidade. Com Santo Tomás de Aquino e a escolástica, consuma-se plenamente este projeto humanista do cristianismo. Ao conhecer a obra de Aristóteles dos árabes que ocupavam a Península Ibérica, Santo Tomás fez um trabalho monumental no sentido de tentar explicar os parâmetros do cristianismo dentro dos princípios do pensamento aristotélico. Com a escolástica, o cristianismo encontra o seu meio-dia, pois tudo aquilo que desde o início e pretendia parecia agora esclarecido.

No entanto, faz constar Ortega que o pensamento que sucedeu a escolástica, o pensamento dos franciscanos Duns Scoto e Guilherme de Occam, vai negar exatamente a possibilidade de uma compreensão racional de Deus, compreensão esta conquistada a duras penas notadamente pelo tomismo. 21) Este processo se revelou terrível para o homem medieval. Tudo aquilo que havia sido conquistado agora parecia se desmanchar no ar, e o homem voltava a se sentir confuso e perdido, estava anunciava uma nova crise . O niilismo como processo histórico fazia-se mais uma vez presente e novos horizontes precisavam ser abertos, processo este que culminará com o aparecimento, no século XVII, de um novo esquema de explicação do mundo que logo se revelará também uma crença . Este processo é o aparecimento da nuova scienza que lançará mão da ciência, notadamente a física, como modelo explicativo para a realidade. Isto significa uma grande revolução na medida em que as ciências empíricas eram relegadas a um segundo plano no pensamento medieval, pois o mais importante, sem dúvida, não era um saber empírico, mas exatamente o saber acerca de Deus. Se os medievais buscavam uma síntese entre fé e razão, a partir do séc. XVII, a razão se volta contra a fé e passa reinar absoluta a ponto de se estabelecer como uma nova crença.

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1) Was bedeutet Nihilismus? – Daß die obersten Werte sich entwerten . Es fehlt das Ziel; es fehlt die Antwort auf das „Warum?“. Cf. NIETZSCHE, F. Der Wille zur Macht . Op. cit. P. 10. Af. 2. Tradução nossa.

2) Cf. NIETZSCHE, F. Segunda Consideração Intempestiva : Da Utilidade e desvatagem da história para a vida. Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. 102 p. .

3) Cf. Id . A Gaia Ciência . Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Schwarcz, 2001. 362 p. P. 147. Af. 125.

4) Cf. DIOGÈNE LAËRCE. Vie, Doctrine et Sentences des Philosophes Illustres . Vol II. Trad. Robert Genaille. Paris: Flammarion, 1965. 314 p. P 21

5) COLLI, G. O Nascimento da Filosofia . Trad. Federico Caroti. 3. ed. São Paulo : UNICAMP, 1996. 98 p.

6) NASCENTES, A. Dicionário Etimológico Resumido . Rio de Janeiro: Instituo Nacional do Livro – Ministério da Educação, 1996. Pág. 219.

7) Sobre a idéia de crise, cf. ORTEGA Y GASSET, J. Em Torno a Galileu : Esquema das Crises. Trad. Luiz Felipe A. Esteves. Petrópolis: Vozes, 1989. 191 p.

8) Cf. MARÍAS, J. A Perspectiva Cristã . Trad. Diva Piza. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 131 p. P. 15.

9) BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada . Trad. CNBB. São Paulo/Petrópolis: Ave Maria/ Loyola/ Paulinas/ Vozes/ Paulus/ Santuário/ Salesiana/ Vozes, 2001. P. 1452. At 17, 16-34

10) Cf. NIETZSCHE, F. O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo . Trad. Jacó Guinsburg. 2 ed. São Paulo: Cia das Letras, 2001. 179 p. P. 35-38. Cp. 3.

11) Cf. ORTEGA Y GASSET, J. Em Torno a Galileu : Esquema das Crises. Trad. Luiz Felipe A. Esteves. Petrópolis: Vozes, 1989. 191 p.Pág. 110

12) Cf. NIETZSCHE, F. O Anticristo . Trad. Mario Perniola. Rio de Janeiro: Clássicos Econômicos Newton, 1996. 95 p P. 46. Af. 25

13) Cf. FOGEL, G. o Homem Doente do Homem : a colocação de um problema a partir de F. Nietzsche e F. Dostoevski. In: AZEREDO, V. D (Org.). Encontros Nietzsche . Op. cit.

14) Cf. NIETZSCHE, F. O Anticristo. Op. Cit. P. 57. Af. 34. Das »Reich Gottes« ist nichts, das man erwartet; es hat kein Gestern und kein Übermorgen, es kommt nicht in »taus end Jahren« - es ist eine Erfahrung an einem Herzen; es ist überall da, es ist nirgends da... . In: [Friedrich Nietzsche: Werke und Briefe: 31-40, S. 10. Digitale Bibliothek Band 31: Nietzsche, S. 7878 (vgl. Nietzsche-W Bd. 2, S. 1197) (c) C. Hanser Verlag]

15) Cf. Id. Ib. Op. cit. P. 60. Af. 39.

16) “Fui compreendido? – Dionísio contra o Crucificado. Cf. NIETZSCHE, F. Ecce Homo . Op. cit. P. 117. § 9. “Por que sou um destino”.

17) Neste sentido, são bastante esclarecedoras as palavras de Hegel sobre o sentido do Cristo: “Por certo todos os povos mantiveram para com seus mestres uma veneração agradecida, como para Moisés, Zoroastro ou Maomé. Mas, este aspecto pertence à exterioridade, é algo histórico. Os indivíduos que foram esses mestres, não pertencem propriamente ao conteúdo da doutrina, ao conteúdo absoluto, à eterna verdade existente em si e por si. A pessoa é conteúdo da doutrina. A fé num indivíduo semelhante não é a fé na própria religião. Saber quem foi o mestre é uma coisa abstrata, não é nenhum ensinamento. Mas, na religião cristã isto é diferente; a pessoa de Cristo é propriamente uma determinação da natureza de Deus. Por conseguinte, segundo isto, Cristo não é histórico. Tomado simplesmente como pessoa histórica, como mestre, por exemplo, como nos casos de Pitágoras, de Sócrates ou de Sólon, seria igualmente indiferente, sem interesse no que concerne ao conteúdo. Mas, na religião cristã pertence a esta pessoa, o próprio Cristo, na determinação de ser Filho de Deus, à natureza do próprio Deus”. Cf. HEGEL, G. W. F. Introdução à História da Filosofia . Op. cit. P. 110.

18) Cf. NIETZSCHE, F. O Nascimento da Tragédia . Op. cit. P 69. Cáp. 10.

19) BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada . Op. cit. P. 1489. 1Cor 1, 18 a 15

20) Cf. MARÍAS, J. A Perspectiva Cristã . Op. cit. P. 8

21) “O escotismo obriga o homem a viver num mundo duplo, em que as metades não têm nada a ver entre si: o transmundo divino, ante o qual não têm nada que ver entre si: o transmundo divino, ante o qual não tem meios próprios, e este mundo, frente ao qual possui a vigorosa faculdade que é sua razão. Frente a Deus, o homem está perdido, porque a fé é o irracional. Fica-lhe em troca o mundo.

Mas Guilherme de Occam vai demonstrar que no mundo não existem os universais; que isso a que chamamos “o homem, o cão, a pedra”, não são realidades mas ficções nossas, simples signos nominais, verbais, de que nos valemos para andar entre as coisas que são sempre singulares: este homem, aquela árvore. Mas isto significa – nada menos – que a velha lógica do silogismo, que a razão conceitual não vale para conhecer as realidades.” Cf. ORTEGA Y GASSET. Em Torno a Galileu . Op. cit. Pág. 143-144.