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MORPHEUS

Ano 02 - número 04 - 2004

 

Informação e

Sociedade

INFORMAÇÃO - ESSE OBSCURO OBJETO DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
Lena Vania Ribeiro Pinheiro

MODESTA PROPOSTA: A MÁQUINA DE TURING COMO FUNDAMENTO TEÓRICO DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
Luís Carlos Silva Eiras

Teorias da Cultura

LEITURA E JOGOS NOS PROCESSOS EDUCATIVOS E SUA INFLUÊNCIANA CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA SOCIAL: A EXPERIÊNCIA DA BIBLIOTECA E BRINQUEDOTECA DO MORRO DOS PRAZERES
Maria Eugênia de la Roca Tavares
PROUST E OS LIMITES DA MEMÓRIA: A ARTE COMO SALVAÇÃO
Miguel Angel da Barrenechea

Práticas Educativas, Comunicação e Tecnologias

ASPIRAR, RESPIRAR, DESEJAR: CORAÇÕES DE ESTUDANTES
Sandra Albernaz de Medeiros
CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEITURA NA CULTURA DAS MÍDIAS
Aldo Pontes

Resenhas

MEMÓRIA E PATRIMÔNIO - ENTRE A AUDÁCIA E A MODERNIDADE...
Márcia Elisa Lopes Silveira Rendeiro

Ponto de Vista

CUANDO EL "EXTRAÑO" ES EL OTRO
Anelice Ribetto

ASPIRAR, RESPIRAR, DESEJAR: CORAÇÕES DE ESTUDANTES
Sandra Albernaz de Medeiros

RESUMO

Neste artigo, procuramos dirigir nossa escuta para os alunos do curso de Pedagogia da Unirio. Nossa intenção tem sido a de buscar melhor conhecê-los e, nesse trabalho, enfocamos seus projetos de futuro. Foram recolhidos depoimentos que demonstram propósitos envolvendo uma vasta gama de perspectivas, tais como casar-se ou mesmo especializar-se profissionalmente. A maior parte desses alunos exercem a função de professores da rede pública ou privada no Município e no Estado do Rio de Janeiro. Partimos do conceito de "nível de aspiração", desenvolvido por Kurt Lewin e fomos movidos pelo desejo de entrar em contato com nossos alunos tentando romper as barreiras impostas pelas paredes das salas de aula, tanto quanto dos papéis que se exerce como professor e aluno.

Palavras-chave: projetos de vida, aspirações, estudantes

ABSTRACT

In this article we drive our attention to the Unirio’s Education students. Our intention is to better know them and aiming at that we focus here their projets of life. We have obtained multiple testimonies that demonstrate multiple perspectives, from becoming married to going on studying to specialize in their profession. Most of them work as teachers at the county or in the state of Rio de Janeiro public or private school networks. We started with Kurt Lewin’s concept of "level of aspiration" and we were moved by the desire of establishing contact with our students out of classrooms walls and out of the roles of teachers or students.

Keywords: projets of life, aspirations, students


Introdução

"... quero tentar entender o que se passa no mundo."

Neste artigo, procuraremos refletir sobre um conhecimento que, em geral, fica nos bastidores do cenário que é a vida de estudantes e professores na universidade. Este cenário é composto de um universo de existências e de pensares que se reúnem num espaço extremamente móvel, no qual platéia e palco, assistentes e atores mudam infinitamente de posição experimentando estas duas condições. Nem sempre as pessoas que compõem este universo maleável têm clareza desta situação e, por vezes, esquecem-se que, este ir e vir de papéis, o de serem agora, seja o de atores seja o de platéia, já foram vividos no passado, e assim o serão no futuro. Tal conhecimento refere-se ao universo que povoa corações e mentes, ou seja, histórias que ali se entrecruzam e que, também, estão sendo forjadas ou esculpidas no ambiente universitário. Neste caso, iremos falar e refletir sobre os projetos de futuro de um grupo de alunos do curso de Pedagogia da Unirio.

Kurt Lewin (1), autor um tanto esquecido no campo das ciências humanas, propôs a noção de "nível de aspiração", o que nos permitiria saber um pouco mais a respeito das pessoas com quem vivemos e trabalhamos. Isto quer dizer que o conhecimento sobre os projetos que as pessoas formulam podem nos revelar o quanto elas são capazes de lidar com a frustração, como se encontra sua auto-estima ou como resolvem os problemas e dificuldades que a realidade lhes oferece. Assim, se ouvirmos que alguém estaria projetando ser rei ou rainha da Inglaterra, poderíamos imaginar que esta situação poderia vir a se concretizar, mas esta possibilidade seria remota e não muito difícil de antecipar seu resultado: frustração na certa. Por outro lado, um projeto de futuro restrito ou que não oferecesse à pessoa um mínimo de desafios, poderia nos levar a pensar num comportamento de muita prudência ou mesmo de grande desvalia.

Ficamos curiosos com o sentido do termo aspirar. Fomos, então, ao Aurélio (2) e encontramos as seguintes idéias: "atrair (o ar) aos pulmões, respirar, inspirar". Para aspiração encontramos: "ato de aspirar, absorção; desejo intenso de alcançar um objetivo, um alvo, um fim". (p. 182) Pensamos, nesta medida, que nossas aspirações, no sentido de termos projetos, nos conduz a duas idéias importantes: à de respirar, ato primeiro e essencial à vida e à de desejar, querer com intensidade alguma coisa tendo em vista um objetivo que imaginamos, seja ele conhecido por nós ou não. Desejar e respirar estão, portanto, intrinsecamente ligados e entendemos que um não existe sem o outro, já que o ato vital de trazer o ar aos pulmões é, também, estar voltado para o futuro e, com isso, temos presente em todos os instantes da vida, nos nossos corpos e mentes, o desejar.

Sendo assim, penetrar no vasto terreno dos projetos e aspirações de nossos alunos representa um ato de buscar saber como eles vivem seus desejos e, com isso, conhecê-los num espaço mais amplo, rompendo com os limites das paredes das salas de aula, das preocupações de avaliações, notas e conceitos, deixando de lado os papéis e as roupagens de aluno e professor. Esta via, nos remete, também, à nós próprios, nossas próprias aspirações onde as deixamos se as cultivamos, se mudamos nossos rumos, se lançamos mão de véus e de proteções, se continuamos a jogar oxigênio em nossos pulmões. Tais questões nos parecem bastante pertinentes nos dias atuais nos quais muitos projetos parecem se reduzir a um viver imediato, prisioneiro das grades que cercam nossas casas, assustados que estamos com a presença de armas, de violência, de desamparo nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. Outros projetos são visivelmente voltados para a sobrevivência, terrível imagem com a qual nos defrontamos no dia a dia destas mesmas ruas e praças. No entanto, esta maneira de olhar para nosso espaço social e psicológico não nos diz suficientemente à respeito dele. Entendemos que sonhos, projetos e desejos se entrelaçam, à despeito de condições de vida as mais difíceis.

No Jornal do Brasil do dia 29 de maio, lemos uma notícia, no mínimo, impressionante. A reportagem intitula-se "os ratos da praia" e procura retratar a vida de um grupo de cinco jovens que moram dentro de um bueiro, na praia do Leblon. Eles tem entre 12 e 18 anos, fugiram de suas casas e formam uma "família" que encontrou seu espaço. Têm, também, suas normas para viver (afirmam que não roubam, engraxam sapatos e tomam conta de carros), "fumam só maconha" e "não usam drogas". E tem seus sonhos. Uma das moças diz: "Quero trabalhar em casa de família e voltar a estudar. Parei porque não tinha colégio para ir" ou, então, "quero ser artista". Uma das jovens tem três filhos que são, atualmente, cuidados pela avó e diz: "Não trouxe meus filhos porque não quero essa vida para eles." Sonhos, projetos, ideais, todos os temos porque eles nos dão um rumo, delineiam um caminho, acalentam nossas esperanças. E o que seria de nós sem esperanças?

Entendemos que o espaço delimitado pelas quatro paredes da sala de aula, onde reencontramos carteiras vazias ou cheias de alunos, no decorrer dos diferentes horários de aula, oferece-nos um universo pleno de estórias e histórias, (pouco) conhecidas e (muitas) desconhecidas. Ali estão, silenciosas na maioria das vezes, uma multidão de idéias e de experiências que passeiam anônimas, muitas delas acabando por retirar-se sem deixar marcas, outras pedindo ajuda (como mais tarde iremos verificar), outras tantas, poética ou dramaticamente, inscritas nas vidas de nossos alunos.

Projetar-se para o futuro significa, no nosso entender, lançar-se para adiante. Nele realizamos um esboço para tomarmos as rédeas de nossas vidas, para delas nos tornarmos proprietários e dela nos apropriarmos. Isto se revela nos depoimentos dos alunos, seja calçando um caminho para o que é mais conhecido (e que não é tanto assim) que é o de ter filhos, seja o de garantir o sustento através de um trabalho e de um salário, seja o de viver junto ao seu amor.

Discutindo o presente, pensando no futuro

"... quero alguém que fique do meu lado, ande de mãos dadas e me dê beijo na boca!!"

"... o futuro muda a cada instante nas nossas ações presentes."

Esta reflexão iniciou-se durante as aulas de Psicologia Social, oferecido aos alunos do curso de Pedagogia da Unirio. Decidimos discutir a violência à qual estamos submetidos no momento, após termos tomado conhecimento, horrorizados, do ocorrido a uma jovem estudante de uma universidade desta cidade, baleada durante um tiroteio que se seguiu à invasão deste estabelecimento. Perguntávamo-nos, mais uma vez, o porquê de tamanho barbarismo e falamos do sentimento de abandono vivido pelos moradores de nossa cidade. Conversávamos, então, sobre fatores históricos, econômicos, políticos, psicológicos e filosóficos que entrelaçados abriram espaços que deixaram de ser objeto da atenção e cuidado do poder público. Pensamos, também, sobre as diferenças sutis entre a violência, considerada como comportamento não simbolizado, que vai do pensamento ao ato (o "acting-out") produto, dentre outros, das des-razões de um mundo político e econômico voltado exclusivamente para o lucro e onde os valores que eram conhecidos e transmitidos de geração a geração, dissolvem-se no ar como bolhas de sabão. A impunidade banalizou-se, os "podres poderes", cantado por Caetano, mostram-se, despudoradamente, todos os dias nos jornais. Sentimo-nos desamparados frente às transformações sofridas pelo mundo que conhecíamos: papéis sociais que não mais se cumprem (o de pai, por exemplo), a família nuclear em transformação, a clonagem animal caminhando a passos largos no sentido de que sejam gerados seres humanos em laboratório. O que era considerado como papel da natureza, começa a deixar de sê-lo. Há quem diga que vivemos uma "mutação antropológica" nunca antes vivida pelos seres humanos (3). Vivemos uma espécie de orfandade sem tutores, perdemos referências, perdemos de vista as verdades que nos eram ditas, a ilusão de segurança que nos ofereciam, como nos guias turísticos onde os lugares mais bonitos e as trilhas indicadas já foram percorridas e, as paisagens, já contempladas por tantos outros olhos. Com isto, o futuro passou a ser ele mesmo: esboço maleável de possibilidades e de incertezas

Consideramos as condições em que vivemos, também, como o resultado infeliz de políticas sociais injustas, do desemprego crônico, da péssima distribuição de renda no Brasil. Se é que há modelos, eles se apresentam sob a forma de imagens que valorizam a potência de uma materialidade concretizada sob a forma de bens de consumo, signos que nos levam a arriscar dizer que vivemos códigos do tipo "diga-me o que possuis e dir-te-ei que valor tens". Acuados diante de tantas perdas, vivendo tantas dissoluções, encontramo-nos num momento social e histórico para pensarmos e discutirmos um mundo melhor e, não o melhor dos mundos (4). Estamos, portanto, frente a um instigante desafio, quem sabe o de reencantar o mundo, o de aspirar mais profundamente para injetar mais oxigênio nos nossos corpos, o de inventar novos caminhos que não tenham tanta preocupação em nos levar a algum lugar, mas que nos permita habitar/pensar o mundo.

Em Heidegger (5) encontramos idéias muito sugestivas sobre o que seria, a seu ver, o pensar. Ele entende o pensar como inseparável do habitar referindo-se à "habitação" como o "traço fundamental da condição humana" (p. 174), já que somos habitantes. "Ser homem quer dizer: estar sobre a terra como mortal, isto é: habitar." (p.173) Habitar, neste sentido não quer dizer que ocupemos uma residência. Construir não é apenas um meio para obtermos uma habitação, construir constitui-se mesmo no habitar. Tal reflexão refere-se à relação que estabelecemos com nosso espaço, ou melhor, no espaço pensado e por nós habitado. Nosso filósofo ilustra sua argumentação falando do camponês que vive na Floresta Negra e que cuida da terra e constrói sua casa como sua habitação, quer dizer que ele a faz para aí encontrar proteção, segurança e paz. Para tanto, delas cuida, delas não tira lucro, delas não se torna proprietário. Cada detalhe de sua casa é pensado e cuidado pelo e para seu habitante.

Tendo algumas dessas idéias como elementos de conversação em sala de aula, e considerando que o momento no qual vivemos requer pensarmos sobre o habitar em nosso mundo, propusemos aos alunos que frequentam a disciplina Psicologia Social, que descressem, num depoimento escrito, seus projetos para o futuro. Obtivemos 45 documentos. Sua leitura nos conduziu a este texto, um dos possíveis passos para conhecermos o espaço de nossa universidade e os seres que aí passam algum tempo de suas vidas. Não sabemos, ainda, se eles aí habitam.

Conversando silenciosamente.

"Tentar transformar meus alunos em pessoas mais carinhosas, com perspectiva de uma vida melhor para o futuro"

"... não sei se vou/quero ter filhos, não sei, não sei, não sei..."

Numa primeira leitura destas falas silenciosas tivemos a impressão de singeleza e de autenticidade. Percebemos a presença, não dita, de uma certa satisfação dos nossos alunos de poder expor seus desejos e aspirações. Muitos desejam casar, ter filhos, continuar a estudar, ter seu trabalho, morar, ter sua casa. Terminar a faculdade, receber o diploma tão aspirado, construir uma casa a seu próprio gosto – habitar: tais projetos mostram-se como uma constante nos depoimentos. Os filhos estão muito presentes através do desejo de ajudá-los a "conseguirem seus objetivos", de "formar uma família muito feliz, com filhos saudáveis e alegres", "ir à luta", "ter um casal de gêmeos", "criar minhas filhas da forma mais tranqüila possível". Seus projetos não se mostram inadequados ou fora de propósito. São projetos de vida que envolvem escolhas que se assemelham, mas que se distinguem pela intensidade, delicadeza, angústia ou tristeza. Lemos todos estes depoimentos e pudemos sentir como cada um fala de si, seja através de uma apresentação sob forma de bilhete a nós dirigido ("Peço que não leia o que escrevi perante a turma."), como uma pergunta feita a si próprio ("Quais os meus projetos para o futuro?"), seja como afirmação peremptória ("Meu futuro"), como esboços ("Planos para o futuro") ou como uma meta a ser alcançada ("Projeto para o futuro"). Chamou, em especial, nossa atenção o seguinte título: "O que eu quero ser quando crescer?", o que nos fez pensar na hipótese de um ato falho vindo de alguém que espera ainda muito da vida. Imaginamos uma outra possibilidade: até onde esta pessoa estaria brincando consigo mesma, tratando-se como uma criança?

Constatamos, em praticamente todos os depoimentos, o propósito de terminar a faculdade. Muitos referem-se a uma etapa para que sejam alcançados novos objetivos ("Com a conclusão deste curso, vou buscar uma posição melhor na empresa..."), ter sucesso profissional na área de Pedagogia, estar mais ligado à área educacional ("A minha maior vontade é começar logo a trabalhar no espaço escolar..."). Outros identificam com clareza o que desejam profissionalmente ("... quero trabalhar com crianças hiperativas...") ou têm em seus horizontes concepções que envolvem a vida social ("...que o meu trabalho seja uma fonte de realizações sociais..."), entendendo que nele seja proporcionado "o diálogo e com ele trocas de experiências". Ao lado destes que têm mais clareza sobre o que querem, há os que manifestam muitas dúvidas ("...pois não sei exatamente o que fazer...").

Para alguns, cursar a faculdade constituiu-se em um processo de "desarrumação". Verdades estão sendo modificadas "...para que eu as construa de novo". Encontramos relatos que falam de crise pessoal ("... encontro-me em crise") ("... o que me parecia certo até uns meses atrás, hoje está incerto."), da emergência de incertezas ("... eu não mais sei o que vai acontecer...") ("... o futuro é incerto...") ou a presença de conflitos ("Vivo o conflito de decidir o que fazer depois que concluir a faculdade..."). Outros têm tantos projetos "... que fica tudo um pouco confuso para escrever".

Apesar ou, talvez por conta desta chamada desarrumação, tivemos a grata surpresa de verificar que, dentre os 45 estudantes, 20 deles referem-se ao desejo de continuar a estudar, seja ingressando em um outro curso de graduação (Psicologia, Filosofia, Serviço Social, História), seja em especializações (Educação Infantil, Informática, Psicopedagogia) ou pós-graduações estrito senso. Há quem diga desejar seguir a carreira acadêmica, prestar concurso para ser professor universitário.

Pareceu-nos bastante significativo que, nesta pequena amostra, quase 45% de nossos estudantes tenham em mente tais projetos. Perguntamo-nos o porque. Lançando um primeiro olhar sobre a atual conjuntura da Escola de Educação verificamos que nosso corpo docente encontra-se com um número significativo de doutores (em torno de 12 deles), alguns deles se doutorando e vários mestres. Portanto, é bastante qualificado e tem se voltado para atividades de pesquisa, envolvendo um número razoável de estudantes. Parece-nos coerente pensar que o aumento significativo da atividade acadêmica e, principalmente de pesquisa, tenha provocado uma espécie de "contaminação" positiva de nossos alunos, em nosso ambiente universitário.

Ativemo-nos a este aspecto de nossas considerações sobre os projetos de futuro de nossos alunos, pois temos em mente um interessante artigo de Antônio Nóvoa (6) onde ele faz referência à crise de identidade dos professores. Tal situação dever-se-ia, dentre outros fatores, à "... uma separação entre o eu pessoal e o eu profissional." Esta separação teria favorecido e intensificado "... o controle sobre os professores, favorecendo o seu processo de proletarização." O conceito de proletarização à que Nóvoa se refere é traduzido como "...actividade técnica de aplicação, com baixo perfil conceptual, organizativo e científico..." (p. 31). Ora, neste contato que pudemos ter com os alunos do curso de Pedagogia, pudemos entrever preocupações que revelam o desejo de conquistarem melhor qualificação e maior aprofundamento de seus conhecimentos. Queremos crer, então, que a qualificação docente é fator importante para que o aluno deseje o mesmo para si.

Vale a pena ressaltar nossa plena concordância com o ponto de vista de Nóvoa quanto à cisão existente entre o eu pessoal e o eu profissional entre professores. Tal fenômeno é de tal forma transparente que, dentre os depoimentos, um aluno nos pergunta: "Porque das pessoas pregarem uma teoria e fazerem outra?" Acreditamos que este aluno busca como projeto compreender tal comportamento, já que esperam de seus professores uma continuidade entre discurso e ação, prática e teoria.

Breves conclusões

Este estudo se propõe a abrir um campo para pensarmos e buscarmos conhecer os alunos da Escola de Educação da Unirio. Obviamente ele não se esgota nestas poucas páginas. Há sempre mais a ser dito, já que entendemos o ser humano como inacabado. Sendo assim, nossa compreensão é a de que o ambiente acadêmico se constitui de novos e inesperados inacabamentos, que por sua vez abrem perspectivas para investigações e reflexões sobre este universo vivo e complexo no qual estamos mergulhados em nosso dia a dia.

Bibliografia

  1. Lewin, K. Teoria de Campo em Ciência Social, São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1965.
  2. Holanda, A B. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986.
  3. Serres, M. Hominescence, Paris, Éditions Le pommier, 2001.
  4. Heidegger, M. Essais et Conférences, Paris, Gallimard, 1958.
  5. Morin, E. & Kern, A. B. Terra Pátria, Porto Alegre, Editora Sulina, 1995.
  6. Nóvoa, A Diz-me como Ensinas, Dir-te-ei quem és e Vice-versa, in A Pesquisa em Educação e as Transformações do Conhecimento, Campinas, Papirus Editora, 2002.