LEITURA E JOGOS NOS
PROCESSOS EDUCATIVOS E SUA INFLUÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA SOCIAL: A EXPERIÊNCIA
DA BIBLIOTECA E DA BRINQUEDOTECA DO MORRO DOS PRAZERES
Maria Eugênia Tavares
Mestre em Memória Social pela Unirio - Prof. da
Universidade Estácio de Sá(Graduação em Pedagogia) e d oCEAT(Educação Infantil) -
Tutora da Cátedra de Fundamentos da Educação I, PAIEF/UNIRIO
RESUMO
Neste artigo buscamos analisar as conseqüências
sociais do Projeto de Implementação de uma Biblioteca e Brinquedoteca no Morro dos
Prazeres, Santa Teresa, Rio de Janeiro. O objetivo é esclarecer a influência das
atividades lúdicas e culturais, desenvolvidas nesses espaços, na construção da
memória e na identidade dos integrantes da comunidade crianças, jovens e adultos
que participaram da experiência bem como estas influenciam as representações
comunitárias, na alteração do espaço subjetivo e simbólico dos
moradores do Morro dos Prazeres.
Palavras-chave: Biblioteca. Brinquedoteca. Memória. Morro
dos Prazeres.
ABSTRACT
This paper aims to analyze the social consequences
of a project involving the implementation of a library and a toy library at Morro dos
Prazeres, Santa Teresa, Rio de Janeiro, with a focus on the role of social practices in
memory construction. The influence of cultural and recreational activities on the
construction of the memory and identity of the participants of such
activities children, young people and adults will be assesses. Physical and
geographical changes will also be taken into account, and the impact of these
changes on the subjective and symbolic space of the residents of Morro dos
Prazeres will be analyzed.
Keywords: Library. Toy library. Memory. Morro
dos Prazeres.
Neste trabalho, apresento as questões principais
levantadas na minha dissertação de mestrado, em Memória Social (UNIRIO, 2003),
"Biblioteca e Brinquedoteca do Morro dos Prazeres: Um projeto lúdico-educativo na
construção da memória", onde procurei justamente esclarecer os impactos na
construção da memória e na identidade de crianças, jovens e adultos, promovidos pelas
atividades lúdicas e culturais desenvolvidas na biblioteca e na brinquedoteca.
Essas atividades lúdicas e culturais tornaram-se
propostas singulares de políticas educativas, formuladas por docentes do ensino
particular junto com representantes de uma comunidade do Rio de Janeiro. Trata-se de uma
ação social conjunta docentes do CEAT e dirigentes comunitários - que visa
canalizar as iniciativas comunitárias, em prol do lazer e da formação dos moradores do
Morro dos Prazeres.
Este projeto, enquanto objeto de reflexão, não
surge apenas de um interesse teórico ou uma preocupação exclusivamente especulativa.
Ele nasceu, devido à minha participação como professora no CEAT (Centro Educacional
Anísio Teixeira), localizado em Santa Teresa. Escola particular na qual leciono há mais
de uma década, trabalhando principalmente com crianças da educação infantil, em que o
jogo, a brincadeira e a leitura são considerados meios formativos relevantes, no
cotidiano escolar. Porém, o surgimento deste projeto de implementar uma Biblioteca e
Brinquedoteca no Morro dos Prazeres nasce de uma ação social conjunta entre, nós,
professores do CEAT e os moradores do Morro dos Prazeres.
Quero frisar alguns detalhes desta história que
permitirão, posteriormente, avaliar com mais clareza os rumos desta reflexão. O CEAT
funciona justamente num castelo que há pouco foi comprado por todos nós
funcionários e professores. É uma escola particular, porém gerida desde 1984 pelos
próprios professores e funcionários, que não tem o lucro como alvo principal. Estando
num castelo, cercado pelas belezas de Santa Teresa, pelas suas ruas, seus cenários, não
fica necessariamente "encastelada". Ou seja, não é possível esquecer a
realidade social que nos circunda, rodeados por várias favelas, pela ação crescente do
tráfico, pela precarização progressiva da vida dos moradores. Assim, ficamos em contato
estreito com os vizinhos da favela do Morro dos Prazeres, que solicitaram nossa
participação em ações educativas, em anos anteriores, especificamente num projeto de
alfabetização de adultos.
Houve um momento crucial que marcou a minha
trajetória, e a trajetória de diversos professores do CEAT. Isso aconteceu quando, em
fevereiro de 1999, uma nova diretoria da Sociedade de Amigos do Morro dos Prazeres, SAMP,
encabeçada por Flávio Minervino, nos procurou para idealizarmos juntos um projeto de
implementação de uma biblioteca e uma brinquedoteca para fomentar a educação e a
cultura, onde a brincadeira e a leitura se tornassem acessíveis aos moradores dos
Prazeres, que funcionaria no próprio prédio da Associação.
Neste instante, houve uma importante guinada, que eu
costumo sintetizar com a frase corriqueira, mas precisa: "juntou a fome com a vontade
de comer". Eles pretendiam ter um lugar educativo e para brincar, principalmente para
as crianças e jovens. Nós, professores, há algum tempo acalentávamos a idéia de
participar na realização de um projeto comunitário que contribuísse na formação dos
moradores da favela. Nós não tentamos uma missão "salvadora",
"missionária", mas contemplamos a possibilidade de participar, numa área com
sérios problemas sociais tráfico, violência, miséria, analfabetismo, inserção
de jovens na prostituição desde cedo etc. -, para ajudar na educação desses cidadãos,
muitas vezes esquecidos pelas autoridades formais, para favorecer o reconhecimento dos
seus direitos, na luta pela sua inserção numa sociedade que os marginaliza.
Porém, na nossa tentativa não existia nenhum tipo
de tutoria ou pretensão vertical, de impor desde cima um projeto elaborado nos gabinetes
acadêmicos, mas propiciar um encontro entre forças sociais diversas. Neste
sentido, as palavras de um dos moradores dos Prazeres foram esclarecedoras: "era um
movimento de ida e volta entre o CEAT e a SAMP: às vezes os professores iam à SAMP,
outras éramos nós que íamos ao CEAT". Dessas idas e vindas um alvo comum surgiu:
criar uma Biblioteca e Brinquedoteca para estimular atividades lúdicas e educativas na
comunidade.
Houve longas negociações, discussões, encontros e
desencontros. Como assinala Velho (1999, p. 21), aconteceu uma permanente
"negociação da realidade": cada grupo com seus valores, com seus ideais,
porém com o sonho comum de viabilizar a Biblioteca e a Brinquedoteca.
É importante lembrar que o espaço onde se
desenvolveriam essas atividades passou por mudanças. Já que antes da eleição da nova
diretoria o prédio da SAMP estava completamente vazio. Conforme testemunho dos moradores,
era um lugar que "estava todo quebrado, deserto".
A partir de março de 1999, inicialmente, foi
implementada uma creche, depois se concretizou a biblioteca, e finalmente começou a
funcionar a brinquedoteca. Estas transformações espaciais foram significativas para
diversos moradores da comunidade. Houve uma transição em que um lugar que, há pouco
tempo, era julgado deserto, perigoso, passou a ser valorizado como sede de atividades de
interesse social, de novos valores para os Prazeres.
Esse percurso, que vai desde a idealização até a
implementação da biblioteca e da brinquedoteca, foi muito rico e estimulou profundamente
as minhas reflexões. Eu era participante de um projeto, com vínculos claros com a
educação, muito próximo da minha prática, porém com um componente social que me abriu
as portas para um novo campo discursivo de reflexão. Era possível extrair conclusões,
mesmo envolvida diretamente e participando do projeto, sobre as incidências da biblioteca
e da brinquedoteca na memória e na identidade daqueles que participaram na idealização
e na implementação do projeto. Como aponta Linhares (2000, p. 44), neste caso, minha
preocupação teórica esteve essencialmente ligada à paixão suscitada pelo sonho de uma
ação social. Ela lembra as palavras de Max Scheler, das quais me aproprio para retratar
minha atitude: "antes que o conhecedor vem o amante".
Desde o início, partilhei os ideais do projeto,
quis o projeto, agi na idealização e participei como professora. Porém, após o
sentimento surge a vontade de conhecer. Neste sentido, se explica a articulação dos dois
instrumentos metodológicos com que trabalhei nesta dissertação: projeto e observador
participante.
O projeto é um instrumental metodológico que
permite refletir sobre determinadas ações sociais, para esclarecer os seus efeitos na
memória e na identidade de uma comunidade determinada. É um esquema explicativo claro
que permite sistematizar as ações. Esta ferramenta interpretativa permite organizar
momentos de memória, que seguem uma ordem cronológica: antes, durante e depois. Ou seja,
possibilita pensar como esse projeto é arquitetado, como posteriormente é implementado
e finalmente quais as conseqüências na comunidade estudada. No caso específico
focalizado, permitiu refletir como se desenrolaram as atividades lúdico-educativas, na
Biblioteca e Brinquedoteca do Morro dos Prazeres.
Com relação à metodologia do observador
participante. Como eu disse, desde o início participei na elaboração e na
implementação do projeto; de forma intensa, entusiasta, fui envolvida pelo projeto,
interagi com a comunidade que devia observar. Assim, poderia tornar-me totalmente parcial
e "cega", como adverte Cicourel (1975, p. 91), um autor importante para o
esclarecimento do método de observação participante. Mas, eu tentei sempre realizar
"saídas de campo" para observar realmente; para ter a distância necessária
para registrar como a memória e a identidade dos moradores dos Prazeres estava sendo
influenciada. Tornei-me consciente de minha subjetividade, de minha torcida e cumplicidade
para que se realizasse o projeto. Mas o fundamental na minha proposta científica era
registrar as mudanças na memória desses moradores. Para tanto, percorri alguns caminhos.
Inicialmente, adotei entrevistas dirigidas fazendo uso de um roteiro prévio. Depois,
após refletir sobre essa estratégia, achei que seria necessário implementar métodos
que seguissem uma dinâmica mais espontânea, para retratar os momentos de memória, os
pequenos gestos das crianças, jovens e adultos, as falas improvisadas, as manifestações
emocionais, as alegrias e tristezas;, enfim, o inefável que não cabia num roteiro de
entrevista. Adotei, então, o caderno de campo, registrei os relatos informais
e também as falas espontâneas, dos membros da comunidade.
A pesquisa se articulou seguindo os passos
fundamentais do projeto. Assim, analiso sucessivamente a Idealização, a Implementação
e as Conseqüências do Projeto na memória dos moradores do Morro dos Prazeres.
Na primeira parte da pesquisa ligada à
Idealização do Projeto, analiso conceitos fundamentais para a compreensão da dinâmica
do projeto, seguindo a ótica de Velho que foi o autor que mais subsidiou estas
reflexões. Também reflito sobre a dinâmica do espaço, já que justamente está em foco
um lugar desvalorizado pela comunidade, que ao ser alterado fisicamente, tem impacto nas
representações dessa comunidade. Emprego considerações de Halbwachs, que é um dos
iniciadores da problemática da memória e também da memória e do espaço; porém ele
aprofunda mais a dimensão física ou geográfica do espaço no seu impacto na memória.
Eu privilegio Guattari, que é um autor que decodifica o espaço na sua dimensão
subjetiva, representativa ou relacional, ajudando a pensar, como os espaços são
representados, significados pela comunidade. Finalmente, eu tento esclarecer as
peripécias específicas da idealização deste projeto, nos passos que seguiu a
comunidade, após o encontro com os professores do CEAT.
No segundo momento da pesquisa, analiso o processo
de Implementação da Biblioteca e da Brinquedoteca. Estudo alguns teóricos que
esclareceram a natureza do jogo, da brincadeira e da leitura e suas influências nas
diversas comunidades e indivíduos. Depois, focalizo as bibliotecas e brinquedotecas
comunitárias, abordando a teorização sobre as mesmas para esclarecer o funcionamento
específico, singular, daquela do Morro dos Prazeres. Ela nasce justamente de uma ação
social comunitária, de um projeto não para a comunidade, mas elaborado no seio da
própria comunidade.
Posteriormente, analiso as conseqüências dessas
atividades lúdicas e educativas, desenvolvidas na Biblioteca e na Brinquedoteca, na
memória e na identidade de crianças e adultos do Morro dos Prazeres. Neste momento
conclusivo da pesquisa, retomo todos os fios reflexivos possibilitados
pela análise da experiência e pelos depoimentos dos moradores que evidenciaram
essas influências na sua memória e identidade. Ficou claro que a
reutilização do espaço da SAMP, a atribuição de novos significados, criados a partir
da Biblioteca e Brinquedoteca, influenciou a construção da memória dos moradores.
Hoje eles falam de "nossa biblioteca", o que é uma marca de identidade e de
memória. Mesmo que eles, inicialmente, tivessem uma atitude de estranhamento, de não
reconhecimento desse espaço, ou que não entendessem que um lugar com livros pudesse ser
vivencial, próprio. Como por exemplo, quando me perguntavam: "Tia,
quando vai começar a escola". Os livros só podiam ser coisa de escola: algo chato e
obrigatório. Atualmente, a partir dos jogos e brincaderias, mudou a memória
dos moradores: muitos depoimentos falam da sua importância na vida comunitária. Já
que eles descobriram o prazer de ler, mudaram costumes e a partir das brincadeiras,
criaram-se novas formas de diálogo e encontro, como podemos constatar nos seus relatos:
" antes não tinha paciência de pegar e ler, no meio do caminho largava o livro,
hoje já li uns 5 ou 6 livros", "a gente aprendeu a falar, a discutir em
conjunto", "agora tudo é discutido em grupo", "graças a esses jogos
aprendi a brincar com meu filho" .
As ponderações anteriores, me levam a constatar
que um projeto comunitário, gerado a partir da parceria de professores de uma escola
particular junto com agentes comunitários, pode tornar-se uma forma singular de política
educacional com impactos na memória e na formação de crianças e adultos do Morro dos
Prazeres. Este projeto também foi importante como ficou evidenciado, por exemplo,
em um Curso de Capacitação para Profissionais de Creche na formação de docentes
da própria comunidade e para a própria comunidade.
Finalmente, retomo a problemática da memória
social, foco deste trabalho. A memória não se esgota no vivido, no já capitalizado pela
comunidade, mas visa ao futuro, a novos projetos. Mesmo que o projeto não tenha sido
realizado conforme todos os passos planejados: que a biblioteca e a brinquedoteca
funcionassem de forma continuada, sem impasses, como os que aconteceram na comunidade
as marcas na memória são notórias. Como o projeto é continuamente
reelaborado, conforme assinala Velho (1999, p. 104), do antigo projeto já
nasceram novos projetos, novas ações. Isto é, essa memória comunitária não diz
apenas sobre o que já foi e que ficou confinado ao passado, mas, como disse Linhares,
ajuda a vislumbrar o futuro. Concluirei com suas palavras: "Bem sabemos que rememorar
se assemelha a uma escavação em que o cotidiano reaparece descrito, em que cada
lembrança torna-se cúmplice de novas lembranças, que vão autorizando um exercício de
tirar o presente do engessamento em tarefas que o sufocam, realizando um pacto criador em
que a emancipação da força do passado ajuda a vislumbrar outros tipos de futuro".
(1999, 181).
Referências
ALMEIDA JUNIOR, O. F. de. B. Bibliotecas
públicas e bibliotecas alternativas. Londrina. UEL, 1997.
AMADO, J. & FERREIRA, M. M. (Org.).
Apresentação. In: Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vargas, 1996.
BOSI, E. Memória e sociedade: lembrança de
velhos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1999.
BOUTINET, J. Antropologia do projeto. Lisboa:
Instituto Piaget, 1996.
BROUGÈRE, G. Brinquedo e cultura. São
Paulo: Cortez, 1997.
CHARTIER, R. A história cultural. São
Paulo: Difel, 1990.
_____________. A ordem dos livros. Brasília:
Edunb, 1994.
CICOUREL, A. et al. Desvendando máscaras sociais.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.
FENTRESS, J. & WICKHAM, C. Memória social: novas
perspectivas sobre o passado. Lisboa: Teorema 1992.
GUATTARI, F. Caosmose: novo paradigma
estético. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
HALBWACHS, M. A memória coletiva. São
Paulo: Vértice, 1990.
HUIZINGA, J. Homo Ludens. São Paulo:
Perspectiva, 1980.
KISHIMOTO, T. M. (Org.). Jogo, brinquedo,
brincadeira e educação. São Paulo: Cortez, 1996.
LE GOFF, J. Memória e história. São Paulo:
Unicamp, 1996.
LINHARES, C. (Org.). Políticas do conhecimento: velhos
contos, novas contas. Niterói: Intertexto, 1999.
PERROTTI, E. Confinamento cultural infância e
leitura. São Paulo: Summus, 1986.
ROCHER, G. Sociologia geral: a ação social.
6ª ed. Lisboa: Presença, 1999.
SCHUTZ, A. Fenomenologia e relações sociais.
Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
SEBE BOM MEIHY, J. C. Manual de história oral.
São Paulo: Loyola, 2000.
VELHO, G. Projeto e metamorfose: Antropologia
das sociedades complexas. 2. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
VIGOTSKY, L. A formação social da mente. São
Paulo: Martins Fontes, 1998.
_____________. Pensamento e linguagem. São
Paulo: Martins Fontes, 1989. |