ABREU,
Regina; CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio - ensaios contemporâneos.
Rio de Janeiro: DP&A, 2003
MEMÓRIA E PATRIMÔNIO - ENTRE A
AUDÁCIA E A MODERNIDADE...
Márcia Elisa Lopes Silveira Rendeiro
Rio, janeiro de 2004, eis que, por decreto, a Banda
de Ipanema é transformada em Patrimônio Histórico Municipal. Sem o risco de desaparecer
ou cair no esquecimento, o tombamento preserva a memória do carnaval carioca, porém faz
mais do que isso: democratiza a importante discussão sobre Memória e Patrimônio.
O livro organizado por Regina Abreu e Mário Chagas
"Memória e Patrimônio ensaios contemporâneos" aposta na modernidade
desta discussão e aponta novos horizontes de abordagem para pesquisas na área. Contudo,
não é prudente julgar que se trata de uma leitura apenas para pesquisadores, afinal,
presos ao viés dado pelas categorias Memória e Patrimônio, os ensaios surpreendem com
apimentadas e instigantes questões da atualidade como patrimônio genético,
transgênicos, herança cultural e políticas públicas.
Empenhados em conferir relevância à Memória e
Patrimônio no cenário das ciências sociais e humanas, organizadores e autores
descortinam um painel de manifestações culturais extremamente rico e diversificado.
É simpática a iniciativa de começar o livro
apresentando "Kusiwa", a arte gráfica do povo "Wajãpi", "o
primeiro bem cultural indígena registrado no Livro dos Saberes do patrimônio
imaterial". De fato, a escolha desta apresentação só ficará melhor compreendida
no decorrer da leitura dos ensaios, quando as discussões sobre patrimônio imaterial, bem
comum, memória étnica, tradição e o próprio conceito de cultura ganham maior
amplitude.
Se por um lado destacamos que o livro não é apenas
para pesquisadores, por outro ressaltamos que é primordial para a bibliografia dos
mesmos, em especial para aqueles que, no ofício de suas pesquisas, comprometeram-se no
conhecimento de "línguas, festas, rituais, danças, lendas, mitos, músicas,
saberes, técnicas e fazeres diversificados".
Sob a orientação de Regina Abreu e Mário Chagas,
organizadores e autores, cuja contribuição, entre outros, imprimiu ao livro sua
característica maior a contemporaneidade, numa visão audaciosa que une passado,
presente e futuro; Cláudia Cristina de Mesquita Garcia Dias, James Clifford, José
Reginaldo Santos Gonçalves, José Ribamar Bessa Freire, Luiz Fernando Dias Duarte,
Márcia SantAnna, Maria Cecília Londres Fonseca, Maria de Lourdes Parreiras Horta,
Myrian Sepúlveda dos Santos, Ruben George Oliven e Vera Beatriz Siqueira foram felizes na
escolha significativa de seus temas.
Na primeira parte do livro, analisado como categoria
de pensamento, Patrimônio é dissecado com a precisão dos antigos anatomistas,
revelando-se a seu respeito, novas configurações, novas faces e concepções. Com
destaque para a compreensão de "patrimônio intangível" e os "tesouros
humanos vivos" ensaios obrigatórios para quem estuda a cultura brasileira e
preocupa-se em preservá-la.
Mais adiante é a vez de Memória, examinada
atentamente como que por uma lupa, acompanhada por um olhar criterioso e detalhista,
próprio do requinte dos bons pesquisadores. Outrossim, ao lermos os ensaios sobre
Memória, percebemos que no meio acadêmico e fora dele, só os que conhecem mais
profundamente um assunto, conseguem explicá-lo de forma simples, atrativa e clara, tal
como "trata-se, em verdade, de prática social que pode ser identificada nas
famílias, nos grupos religiosos, nos grupos étnicos e profissionais, nos partidos
políticos, nas instituições públicas e privadas e, de modo particular, nos museus. Se
aquilo que preserva é concebido como suporte de informação e como alguma coisa
passível de ser utilizada para transmitir (ou ensinar) algo a alguém, pode-se falar em
documento e memória. Nesse caso, pode-se também falar em política de memória".
Alguma dúvida?
Merecem destaque também, como especialmente
interessantes, os ensaios que abordam a construção ideológica dos museus e o alinhave
político presente em todos eles. Talvez por isso, apontem para a responsabilidade dos
profissionais dessas áreas, formados agora sob novos signos, reflexões e olhares. Com a
esperança renovada de que está cada vez mais próximo o "futuro promissor"
para os profissionais que transitam entre documentação, arquivo, preservação -
memória e patrimônio.
Antropólogos, museólogos, historiadores e
pesquisadores das mais diversas áreas, atentos aos novos ventos e debates no cenário
cultural brasileiro poderão encontrar neste livro a certeza de que a articulação entre
as ciências é capaz de produzir mais e melhor conhecimento, além, é claro, do que
puderem captar nas entrelinhas, o que fatalmente ficará registrado na memória.
Márcia Elisa Lopes Silveira Rendeiro
Fevereiro/2004 |