PROUST E OS LIMITES
DA MEMÓRIA: A ARTE COMO SALVAÇÃO1
Miguel Angel de Barrenechea
Doutor em Filosofia. Professor Adjunto do Mestrado em
Memória Social e do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da UNIRIO.
RESUMO
Pretendo refletir sobre a Recherche, de
Proust, partindo da análise deleuziana, em Proust et les signes. Segundo esse
enfoque, a Recherche, na sua totalidade, pode ser considerada muito mais do que um
esforço da memória para recuperar um passado já definitivamente perdido, ou uma
especulação sobre o tempo, mas uma genuína busca da verdade, um aprendizado.
Aprendizado que leva a desvendar diversos tipos de signos, até chegar aos signos mais
puros e essenciais da arte, que exprimem a verdade do mundo. Para Proust, além de
todas as decepções que provoca a vida mundana e amorosa, e as outras frustrações da
existência, aparece a arte como a "salvação", como uma "missão"
que, no meu entender, alcança um sentido quase religioso, propondo uma espécie de
escatologia imanente. É importante indagar se essa valorização exclusiva da
arte, não leva a uma profunda rejeição da vida, nas suas outras manifestações não
artísticas.
Palavras-chave: Proust Recherche
tempo memória passado signos - arte
ABSTRACT
I would like to ponder about Prousts Recherche,
having as a starting point Deleuzes analysis in Proust et les signes.
According to this approach, Recherche, in its totality, can be considered much more
than a memory effort in order to recover a definitely lost past, or speculation about
time, but a genuine search for truth, a learning process. Such a learning process leads us
into discovering various kinds os signs, until we are able to get to the purest and most
essential signs of art, which express the truth about the world. For Proust,
besides all deceptions which are caused by a worldly and love life, as well as other
frustrations of existence, art appears as the "salvation", as a
"mission" which, to muy mind, reaches na almost religious meaning,
proposing a kin of everlasting scatology. It is important to enquire whether this
exclusive focus on art does not lead us into a profound rejection of life, in its other
non-artistic manifestations.
keywords: Proust Recherche
time - memory past signs - art
Tempo e crise na literatura contemporânea.
Aos quinze anos, aos dez e seis
anos, tinha acabado; eu estava no tempo, na fuga e no finito. O presente tinha
desaparecido; já não houve para mim mais do que um passado e um amanhã sentido já como
passado. Procuro desde essa época, todos os dias, aferrar-me a algo estável, procuro com
desespero voltar a encontrar um presente, instalá-lo, ampliá-lo. Um mundo novo, um mundo
sempre novo, um mundo de sempre, jovem para sempre, isso é o paraíso. A velocidade não
é simplesmente infernal, é o próprio inferno, é a aceleração na queda. Houve um
presente, existiu o tempo, já não mais existe nem presente nem tempo; a progressão
geométrica na queda nos lançou ao nada (IONESCO, Diário).
Quis começar esta reflexão sobre Proust, aludindo
a um outro autor que também refletiu sobre o drama da contingência, da temporalidade, da
precariedade de estarmos no fluir do tempo: um tempo que passa, que se esvai, que se
perde. O autor romeno, como Proust, manifesta uma preocupação vital que é própria de
nossa época: enfrentar a contingência, num universo já sem deuses ou
"desdivinizado", que parece carecer de fundamento, sentido e finalidade. Este
clima espiritual que espreita a modernidade e a contemporaneidade pode ser caracterizado
como niilista. Essa situação geral de instabilidade, com a bancarrota de crenças
e valores milenares do Ocidente, pode ser resumida com a expressão nietzschiana da
"morte de Deus"3.
Estamos na vertigem do tempo e das horas, vítimas
de um perpétuo esfacelamento em que instante após instante tudo desmorona: as nossas
vivências se perdem; do mesmo modo, todos os acontecimentos externos são
devorados num contínuo passar. No decorrer do tempo, tudo é deformado. Como assinala
Beckett, no seu trabalho sobre o autor da Recherche:
As criaturas de Proust são [...]
vítimas desta circunstância e condição predominante: o Tempo. [...] Não há como
fugir das horas e dos dias. Nem de amanhã nem de ontem. Não há como fugir de ontem
porque ontem nos deformou, ou foi por nós deformado. [...] Sobreveio uma deformação
[...] Não estamos somente cansados por causa de ontem, somos outros, não mais o que
éramos, antes da calamidade de ontem (2003, p. 9-11).
Assim, a temporalidade, na literatura
contemporânea, aparece como uma questão fundamental. Nela, Proust ocupa um lugar de
privilégio. Ele teve uma grande sensibilidade para refletir sobre a condição do homem
de sua época, que ainda é a nossa. O tempo ocupa um lugar central na sua obra. O autor
tentou incansavelmente refletir sobre aquilo que passa, se esgota, se corrói, se perde.
Na Recherche, o narrador descreve um mundo efêmero e evanescente. Ele tenta
descobrir se há algo, alguma instância, alguma vivência que não seja degradada e
destruída, após o decurso temporal.
A Recherche como busca da verdade.
Para esclarecer a perspectiva de Proust, vou
focalizar principalmente o último livro da Recherche: O tempo recuperado.
Terei como subsídio principal a análise deleuziana, em Proust e os signos, a qual
tentarei apresentar esquematicamente, porém sem me prender completamente a ela.
Concordo com Deleuze quando afirma que o essencial
da Recherche não reside no esforço da memória para recuperar o passado ou apenas
numa reflexão sobre o tempo, mas trata-se essencialmente de uma procura da verdade, que
se diferencia claramente da especulação filosófica:
O essencial na Recherche
não está na madalena nem nas lousas. Por um lado, a Recherche não é
simplesmente um esforço da lembrança, uma exploração da memória: procura deve ser
entendido no seu sentido preciso, como na expressão "procura da verdade"
(DELEUZE, 1972, p. 11).
Conforme a interpretação deleuziana, Proust, na Recherche,
enfatizou a função "reveladora" da arte, que se contrapõe à filosofia, como
modo de acesso à realidade. Enquanto a filosofia procede com uma suposta "boa
vontade de saber", com um pretenso "desinteresse" teórico, a arte, por sua
vez, tenta ser uma forma mais orgânica e espontânea de compreensão do mundo, já que
não opera nem abstrata nem arbitrariamente. Na arte, somos compelidos por questões que
nos atormentam, que nos interrogam vitalmente. As descobertas se produzem pela violência
dos fatos, não por um método cognoscitivo pré-estabelecido. A arte não se antepõe às
questões da existência; nela, "a inteligência sempre vem depois": "Só
procuramos a verdade quando determinados a fazê-lo em função de uma situação
concreta, quando sofremos uma espécie de violência que nos obriga a essa busca. Quem
procura a verdade? O ciumento sob a pressão das mentiras do amado. Sempre se produz a
violência de um signo que nos obriga a procurar, que nos arrebata a paz" (PROUST,
1980, p. 23).
A filosofia é uma tentativa de resolver problemas
artificialmente delimitados com um método prévio. O teórico define um campo de
reflexão, se antepõe às situações concretas da vida. Ao contrário, a arte sempre
surge por uma pressão, por uma urgência que obriga o artista a dar respostas a questões
viscerais da sua vida. Assim, as verdades da arte não têm simplesmente uma validade
lógica ou formal, como na filosofia ou nas ciências, mas surgem de um imperativo vital,
de uma necessidade existencial. Essas verdades nascem de zonas obscuras, daquilo que nos
desvela, que incomoda nossas vidas. Diante de signos diversos, temos que desvendá-los
para poder viver, para encontrar um sentido para a existência.
Aqui aparece a idéia essencial da interpretação
deleuziana da obra de Proust. A Recheche é um mapa de signos, um hieróglifo
que deve ser resolvido minuciosamente. Nela, há um sistema de sinais de diversa
hierarquia e modalidade. Machado, em Deleuze e a filosofia, esclarece esta leitura
deleuziana: "Os signos constituem tanto a unidade como a pluralidade da Recherche.
[...] Tudo é signo. [...] os signos são bastante heterogêneos. O sistema que constitui
a obra de Proust é pluralista no sentido em que os signos não são do mesmo tipo, do
mesmo gênero [...]" (1990, p. 166).
Nesse grupo diverso de signos, há um processo de aprendizado.
É preciso decodificar, de forma gradativa, o sentido, a essência que está por
trás de cada grupo de signos. Assim, a Recherche pode ser considerada, à luz da
leitura deleuziana, como uma dupla dialética, de caraterísticas platônicas
ascendente e descendente -, que parte dos signos mais obscuros, mais materiais os
mundanos, amorosos - até chegar aos signos verdadeiros e puros da arte, passando antes
pelos sensíveis. Depois, acontece a dinâmica inversa, se produz uma dialética
descendente, quando os signos da arte vão paulatinamente iluminando os outros.
Assim, a Recherche, na sua totalidade, pode
ser entendida como um processo interpretativo, como uma tarefa de constante decifração.
Os signos são hieróglifos; será mister acometer um trabalho exaustivo, uma empresa de
egiptólogos para decodificar esses signos. Deleuze afirma:
Não há logos, só há
hieróglifos. Pensar é pois interpretar, é traduzir. As essências são ao mesmo
tempo a coisa a traduzir e a própria tradução, o signo e o sentido. [...] o hieróglifo
cujo duplo símbolo é o acaso do encontro e a necessidade do pensamento: "fortuito e
inevitável" ( 1972, p. 185).
O deciframento dos diversos tipos de signos leva a
percorrer caminhos diferenciados. Há uma gradação interpretativa. É preciso avançar
passo a passo, seguindo não uma cadeia lógica explicativa, mas um processo de
experiências fortuitas e inevitáveis que nos ajudam na caminhada do nosso
aprendizado. Deleuze detecta quatro tipo de signos: mundanos, amorosos, sensíveis e
artísticos.
O primeiros signos são os mundanos.
Através deles, Proust descreve minuciosamente a sociedade: relatando os encontros da
aristocracia e da alta burguesia da sua época. Eles denunciam os pomposos eventos sociais
onde tudo é pose, aparência, frivolidade, impostura. Estes signos são os mais
superficiais, carentes de sentido: são vazios e falsos. Só nos provocam uma excitação
nervosa, não nos conduzem a nenhuma verdade. Eles constituem um tempo que perdemos.
Na Recherche, estes signos aparecem continuamente. O narrador relata
minuciosamente as inúmeras peripécias de uma vida social teatral, exagerada, mas oca e
periférica, desprovido totalmente de significado.
Já os signos amorosos possuem um maior grau de
profundidade. Eles aparecem nas mentiras da pessoa amada. Não são vazios, mas enganosos.
O amado sempre emite signos contraditórios, para ocultar as suas mentiras. Deleuze
assinala que há duas leis que regem os signos amorosos, na ótica proustiana. Uma lei
subjetiva e outra objetiva. A lei subjetiva do amor determina que toda relação está
marcada por ciúmes constantes. O amado nos engana continuamente para ocultar algo
indizível e insuportável que está na origem do amor. Essas mentiras, que geram mal
entendidos e dores incessantes, provém da lei objetiva ou verdade do amor. A paixão
amorosa tende essencialmente a restituir uma harmonia perdida, a nossa fusão originária,
na qual a unidade dos sexos nos seria devolvida. Retornaríamos a nossa condição de hermafrodita
originário. Mas, nos encontros heterossexuais, nunca atingimos esse outro
arquetípico, que conjugaria o desejo dos dois sexos, num único ser. Por isso, aquele
que amamos, para ocultar essa procura oculta, desesperada e impossível, que é
homossexual, nos engana continuamente, mente. Esses signos nos produzem dor, nos instigam
a pensar.
No infinito do nossos amores está o
Hermafrodita original, mas o Hermafrodita não é o ser capaz de fecundar-se a si mesmo,
pois em vez de reunir os sexos os separa; é a fonte da qual surgem continuamente as duas
séries homossexuais divergentes, a de Sodoma e a de Gomorra. É o que contém a clave da
profecia de Sansão: "Os dois sexos morrerão separados. (DELEUZE, 1972, p. 19).
Os signos sensíveis, por sua vez, que ocupam um
lugar de privilégio no aprendizado proustiano, surgem quando a memória involuntária
associa duas sensações diferentes, distantes no tempo e no espaço, mas que possuem uma
qualidade comum.
Finalmente, os signos da arte são aqueles que
desvendam a verdade essencial da vida, aqueles que apontam para o sentido permanente do
mundo, superando a fugacidade do tempo, a erosão destruidora dos instantes: eles
constituem o tempo recuperado. A seguir, dedicarei especial atenção à análise dos
últimos tipos de signos sensíveis e artísticos -, que têm um papel essencial na
compreensão proustiana da vida e da arte.
Signos sensíveis e artísticos: a memória e o
avanço no aprendizado
Os signos mundanos e os amorosos, como apontei, são
os mais opacos, os que possuem menor conteúdo, menos sentido. Ao contrário, os signos
sensíveis tornam-se uma primeira forma de recuperar o tempo. Eles surgem pela ação da memória
involuntária, quando se associam sensações diferentes, em diversos tempos e
espaços, aparecendo uma qualidade pura, uma característica essencial e comum a
ambas sensações. A memória involuntária permite aceder a um tempo virtual,
ontológico: "o em si do passado". O significado essencial das coisas só
aparece, na sua pureza, quando nos deparamos com a lembrança involuntária, para além da
percepção ou da memória voluntária. Diz Deleuze:
Este Combray
não é o da percepção, nem o da memória voluntária, Combray aparece tal como não
poderia ser vivido; isto é, não em realidade, mas na sua verdade; não em suas
relações contingentes e exteriores, mas em sua diferença interiorizada, em sua
essência. Combray surge em um passado puro, coexistente com os dois presentes, mas
longe de suas possibilidades de apreensão, longe do alcance da memória voluntária atual
e da percepção consciente antiga. "Um pouco de tempo em estado puro". Isto é,
não é uma simples semelhança entre um presente que é atual e um passado que foi
presente; nem sequer é uma identidade entre os dois momentos; senão, muito mais, o ser
em si do passado, mais profundo que todo passado que foi e que todo presente que é.
(1972, p. 73-4).
Eis a convicção central da Recherche: a
memória involuntária nos oferece a possibilidade de recuperar o tempo, de
conhecer o essencial das coisas, numa instância atemporal que permite superar o atual, o
presente e chegar ao virtual, ao ser em si do passado.
Esta interpretação outorga um caráter ontológico
à qualidade detectada pela memória involuntária, ao associar duas percepções
distantes no tempo. Ela nos coloca diante do ser em si das coisas: o Combray essencial,
verdadeiro, longe da percepção vivida e da memória voluntária atual. Através da
memória involuntária emerge algo extraordinário: uma essência pura, Combray fora do
tempo, como é em si.
É necessário refletir sobre esta tese que atribui
a possibilidade de atingir a essência das coisas a partir da memória involuntária. É
importante analisar a experiência que leva Proust a acreditar nessa possibilidade de
aceder ao essencial. Isto se produz graças à reminiscência; a associação de duas
sensações pela memória involuntária nos transporta além do presente, a um passado
puro. Isso provoca uma imensa alegria. Essa experiência é descrita numa passagem
fundamental da Recherche quando Marcel pisa umas lousas desiguais, e consegue
recordar e vivenciar uma emoção do passado, sentindo uma felicidade extraordinária,
única: "Mas no momento em que, recuperando-me, coloquei o pé em uma das lousas, um
pouco mais baixa que a anterior, todo o meu desalento, desapareceu diante da mesma
felicidade que, em diversas épocas de minha vida senti [...]" (PROUST, 1980, p.
212).
Essa felicidade é semelhante à provocada pelo
aroma e pelo sabor da madalena numa outra passagem paradigmática do livro
que, a partir de um aroma e um sabor atual, transportou o narrador a outra época, e lhe
permite reviver uma emoção muito intensa da sua infância, de forma exatamente igual a
como a experimentou outrora . Esta lembrança elimina as preocupações de Marcel com o
presente e com o futuro. Nesse momento, ele se sente um "ser extratemporal",
vive o milagre de "recuperar os dias antigos, o tempo perdido, diante do qual os
esforços da minha memória e de minha inteligência fracassavam sempre" (Ibidem,
p. 218).
A analogia entre sensações permite aceder a um
instante atemporal, graças à ação da memória involuntária. Mas, o caráter subjetivo
desta experiência parece ser ultrapassado, na interpretação proustiana, já que, a
partir de um fenômeno psicológico reminiscência se extraem
conclusões de caráter ontológico: a possibilidade de atingir o ser em si do
passado.
É preciso repensar a legitimidade deste
procedimento. Inicialmente, parece, para além da sua formulação literária,
questionável filosoficamente: é possível atribuir um caráter ontológico a uma
analogia entre sensações, registrada pela memória involuntária? Julgo que Proust,
preso de um entusiasmo literário autobiográfico, não se preocupa por demonstrar
as suas intuições. O conhecimento essencial das coisas não pode provir de um fenômeno
tão singular e subjetivo, como a vivência de sensações análogas, distantes no tempo e
no espaço. O relato dessas experiências pessoais não tem validade para
torná-las universais. Seria necessário demonstrar que esse fenômeno tão
peculiar e irrepetível desvenda a estrutura permanente das coisas. Mas, Proust restringe
a sua análise apenas a descrever e postular a capacidade que tem a memória
involuntária, através das analogias, de aceder ao âmago da realidade.
Depois da alegria extraordinária que a analogia lhe
proporcionou, com seu "retorno" ao passado, Marcel se pergunta: "Nada
mais que um momento do passado? Talvez muito mais; algo que, comum ao passado e ao
presente, é muito mais essencial que os dois" (Ibidem, p. 218-219). Esta
pergunta, esta conjetura, é logo convertida em certeza. Proust transforma o "talvez
muito mais" em uma evidência central do seu aprendizado. Posteriormente, ele
conclui que, sempre que se depara com uma analogia, é possível recuperar o tempo no seu
estado puro, virtual:
Um pouco de tempo em estado
puro. O ser que renasceu em mi quando, com tal sensação de felicidade, percebi o ruído
comum [aqui Marcel alude a outra analogia, a dois sons semelhantes, ouvidos em diferentes
momentos] à colher que bate no prato e ao martelo que golpeia a roda [...] esse ser se
nutre com a essência das coisas, só nela encontra sua subsistência, suas delícias,
esmorece na observação do presente onde os sentidos não podem levá-lo, na
consideração de um passado que a inteligência disseca, na espera de um futuro que a
vontade constrói [...] (Ibidem, p.219).
Essa experiência nós permite ouvir de novo, da
mesma forma, aquilo já ouvido em outro tempo. Nela, se manifesta a essência atemporal
das coisas, que sem ser atual é real, sem ser abstrata é ideal. Assim, nos instalamos em
outro tempo: Voltamos a ser como éramos outrora:
Fica também fielmente unido àquilo que
nós éramos então, e já não pode ser revisto mais do que pela sensibilidade, pela
pessoa que éramos outrora: se eu volto a pegar na biblioteca, embora seja só no
pensamento, François le Champi, imediatamente se levanta em mi uma criança que
ocupa o meu lugar, que é a única que tem o direito a ler esse título: François
Le.Champi, e que o lê como o leu outrora [...] com os mesmos sonhos que tinha então
sobre os países e sobre a vida, com a mesma angústia do futuro. Se eu volto a ver uma
coisa de outro tempo, surge um jovem (Ibidem, p. 234).
Essa descrição só se justifica retoricamente: a
criança que outrora fomos, não volta, o jovem que fomos, não volta. Não
há tal retorno, apenas nossa memória preserva uma lembrança da criança, do
jovem que fomos, partindo deste adulto que somos. Isso transforma tudo. A
experiência é completamente diferente: quando, no processo de reminiscência, provocado
pela memória involuntária, uma sensação atual se comunica com a sensação análoga
que tivemos aos sete anos, percebemos algo totalmente diverso.
Este adulto que degusta esta madalena é
transportado e percebe aquela madalena na casa da sua infância: seu sabor é o
mesmo. Ele sente uma profunda alegria, talvez chore por esta coincidência. Não obstante,
a distância com a "madalena perdida", com a "criança perdida" é
enorme. Essa criança de outrora talvez nem reparasse muito na madalena, suas
preocupações provavelmente estivessem voltadas para algum jogo, para a escola, ou para
outras imagens. Um universo de vivências separa a criança do adulto de hoje: essa
criança é um arcano para nós, sua experiência é um arcano. Devemos questionar
a afirmação de Proust: essa criança não ocupa nosso lugar, nem metafórica nem
idealmente: é outra coisa, é nossa lembrança.
A tese proustiana deve ser repensada: o passado e o
presente, na reminiscência, provocada por uma analogia, liberariam uma essência
atemporal que abriria as portas à realidade das coisas, tal como são em si mesmas.
Através da memória involuntária seria resgatado o ser-em-si do passado, na sua pureza e
imaterialidade: acederíamos a um tempo virtual.
A experiência da analogia, de caráter psicológico
sensação furtiva que desaparece sem que saibamos as causas da alegria que nos
provoca nos permitiria, na ótica de Proust, tirar conclusões de caráter
ontológico. Este processo, como já disse anteriormente, parece questionável. Que
garantia lhe podemos outorgar a uma experiência furtiva, da qual desconhecemos as
origens, a sua dinâmica? A sua subjetividade e transitoriedade determina sua
parcialidade, sua opacidade.
Finalmente, avançando ainda mais no aprendizado
proposto na Recherche, a arte poderia registrar, de forma permanente,
através da inteligência pura, as imagens captadas pela memória involuntária. Assim, a
arte, seria um passo além das analogias, ao superar a fugacidade da memória
involuntária. A arte, movida pela inteligência pura, espelha o ser em si das
coisas. O genuíno artista desvendará, nas suas obras, a realidade das coisas, como elas
são, além da sua aparição temporal. Proust considera que a atividade artística
permite ir além da memória involuntária, na tentativa de conhecer a essência das
coisas, de penetrar o âmago da realidade. A arte é o corolário do aprendizado do
narrador da Recherche: nos signos da arte acedemos ao tempo recuperado, superamos a
limitação, a precariedade, a inconsistência de todas as outras instâncias da vida.
Para sintetizar o itinerário de Proust na Recherche,
e aprofundar o papel da memória e da arte no aprendizado, vejamos esquematicamente as
diversas experiências que conduzem aos signos artísticos, que permitem desvendar a
"verdadeira" realidade.
- Combray da experiência vivida - Atual Percepção sensível.
- Combray lembrado voluntariamente - Passado Memória
voluntária: lembrança
- Combray lembrado involuntariamente - Virtual - Memória
involuntária.: analogia atemporal.
- Combray da arte - Essencial
Inteligência Pura: Idéia.
Proust afirma, no exemplo analisado, que o Combray
da obra de arte é o Combray verdadeiro, essencial, liberado da imperfeição do tempo
e da matéria. Esta tese de caráter idealista é, ainda, discutível.
Somente acreditando que o ideal é o real, podemos afirmar que o Combray desmaterializado
e fora do tempo é o essencial. Ao contrário, se adotamos uma perspectiva realista
obtemos a equação inversa: não existem motivos para negar que o Combray da percepção
sensível, contingente e temporal, não seja o Combray real.
Em resumo, Proust considera que somente na arte
encontramos a "verdadeira vida: "A vida tal qual foi descoberta e esclarecida, a
única vida, portanto, realmente vivida é a literatura; essa vida que, em certo sentido,
habita a cada instante em todos os homens tanto como no artista" (Ibidem, p. 246).
Literatura, tempo e corporalidade, na Recherche.
Marcel chegou à grande revelação do seu
aprendizado, ao cume da sua indagação: a arte é a verdadeira vida. Está eufórico pela
sua descoberta: sua missão é retratar o "verdadeiro mundo" através da
literatura. Ele achou sua vocação. Mas, imediatamente, sua alegria desaparece
diante do "espetáculo" que encontra no Salão dos Guermantes. Trata-se da
ocasião em que reencontra antigos amigos, numa grande festa. Ali, ele sente-se perplexo
diante de seres que, outrora conhecidos, aparecem irreconhecíveis. Esta experiência
acaba com sua alegria anterior, agora só padece angústia e perplexidade. O tempo, como
um hábil ourives, realizou as mas profundas mudanças: manifestou-se nos corpos,
deteriorando-os. O corpo é um mapa onde se escreve pateticamente a decadência e a
destruição impostas pelo passar do tempo.
Marcel relata minuciosamente uma espécie de
"necrológica" dos seus amigos, que são apenas "mortos não
consumados". Ele descreve pacientemente os rostos devastados, a beleza aniquilada, as
rugas e deformidades que o tempo impus. Os seres não são mais do que fantoches, bonecos
que expressam decadência e deterioro:
Bonecos, sim, mas bonecos que, para
identificá-los com aqueles que tínhamos conhecido, teríamos que ler em vários planos
ao mesmo tempo, situados por trás deles e que lhes outorgava profundidade e obrigavam a
um trabalho mental diante daqueles fantoches, pois, teríamos que mirá-los,
simultaneamente com os olhos e com a memória. Bonecos submersos nas cores imateriais dos
anos, bonecos que exteriorizavam o Tempo, o Tempo que habitualmente não é visível e
que, para manifestar-se, busca corpos e, ali onde os encontra, os captura para projetar
neles sua lanterna mágica (Ibidem, p. 279).
A festa dos Guermantes representa muito mais do que
uma volta ao passado, já definitivamente perdido, mas uma visão ótica dos anos na
perspectiva destrutiva do tempo. Os amigos são irreconhecíveis, seus rostos são máscaras,
desenhadas cruelmente. Tudo parece uma antecipação da corrupção e da morte. A vida, no
fluxo temporal, não é mais do que uma caminhada acelerada para o túmulo: "Então,
a vida se nos apresenta como um conto de fadas no qual vemos, da passagem de um ato para o
outro, como o bebê se transforma em adolescente e o homem maduro se projeta para o
túmulo" (Ibidem, p. 281).
O tempo, além de destruir os corpos, também
modifica as pessoas. Tudo está transformado: as convicções, os amores, os ódios, as
ideologias e o prestígio social. Até as rígidas normas da alta sociedade mudaram, até
os lugares que pareciam inalteráveis, hoje são ocupados por outros que, no passado,
estavam segregados da alta sociedade; os excluídos de ontem são admirados agora. O
Salão dos Guermantes não é mais "o mesmo", já não é mais aquele
"conjunto coerente", no qual as hierarquias estavam rigorosamente definidas. A
mobilidade social é outro dos efeitos irreversíveis do tempo, que deteriora até aquilo
que parecia mais consistente e estável.
O tempo que impõe cruelmente a decadência e a
destruição se torna nítido numa imagem lúgubre e paradigmática, no salão dos
Guermantes. Para Marcel, esse salão se assemelha a um cemitério: "[...] o salão da
princesa de Guermantes estava iluminado, esquecido e florido como um tranqüilo
cemitério" (Ibidem, p.308).
O narrador, diante de um espetáculo tão sórdido,
dirige agora o olhar para si mesmo: ele também envelheceu. Nos signos dos outros, nas
suas insinuações, no desconhecimento daqueles que antes o conheciam, ele se reconhece,
paradoxal e dolorosamente, como irreconhecível. Também foi "sitiado"
pelo tempo. Por isso, sua imensa alegria anterior após ter descoberto, finalmente, a
sua vocação se transforma amargamente, ao reconhecer a ameaça letal que constitui o
tempo. Seu corpo, em qualquer momento, pode "traí-lo", em qualquer instante
pode interromper a sua obra.
Eis outra das características platônicas da
concepção proustiana. O corpo é o sintoma mais claro da nossa contingência e, por
conseguinte, da nossa precariedade. Esse corpo, alheio à natureza mais elevada da
inteligência, vinculada às essências, nos ameaça com sua imperfeição, sua
vulnerabilidade. Proust retoma, neste ponto, de alguma forma, a tese do
"corpo-cárcere" ou "corpo-inimigo", já presente nos órficos e
pitagóricos, recriada claramente por Platão4. O corpo, além de ser uma
prisão, torna-se uma ameaça para o espírito.
E ter um corpo é a
grande ameaça para o espírito, a vida humana e pensante, da que não devemos dizer
precisamente que é um milagroso aperfeiçoamento da vida animal e física, senão, ao
contrário, uma imperfeição, ainda mais rudimentar do que a existência comum dos
protozoários em políperos, como o corpo da baleia etc. na organização espiritual. O
corpo tranca o espírito numa fortaleza; logo a fortaleza fica sitiada por todas as partes
e o espírito, finalmente, tem que se render" (Ibidem, p. 407).
O tempo impõe sua marca nos nossos corpos, nos
degrada, nos deteriora. Finalmente, nos vence, nos suprime, nos aniquila. Assim, o
corporal não é mais do que um sintoma da imperfeição da nossa natureza que ameaça o
nosso espírito. Proust, a diferença de Platão, não acredita no mundo inteligível,
onde teríamos uma existência perfeita, a salvo do tempo, na plenitude da eternidade.
Para ele, só existe esta vida, o imanente, na qual o tempo destrói tudo. Porém, Proust
considera ainda que existe a possibilidade de salvarmos do deterioro e do fracasso final.
Ele postula uma missão imanente como saída para todas as frustrações e decepções da
vida: a arte. A verdadeira finalidade do mundo.
Considerações finais: a literatura como
absoluto.
"Construiria o meu livro,
não me atrevo a dizer, ambiciosamente como uma catedral, mas simplesmente como um vestido
[...] Francisca, ao contrário, adivinhava minha felicidade e respeitava o meu
trabalho". (PROUST, Recherche)
"Durante trinta anos estive preso a uma neurose
que me levou a considerar a literatura algo absoluto e desconhecer a realidade. O absoluto
partiu. Ficam as tarefas, inumeráveis, onde a literatura não tem nenhum lugar de
privilégio" (SARTRE, "Sartre por Sartre").
As duas referências anteriores mostram a
diferente atitude de dois grandes escritores, para os quais a literatura teve uma
importância vital. Porém, o vínculo deles com as letras descreve uma equação inversa.
Este paralelismo pode ser traçado na comparação de Les mots e a Recherche,
obras diferentes em extensão e intenção, mas que têm a característica comum de serem
autobiográficas e ilustrar a diferente relação que cada autor teve com a literatura.
Sartre parte de uma atitude inicial que o levou a
considerar a literatura algo quase religioso. Muito tempo depois, ele mudou e lhe outorgou
um lugar sem privilégio entre as outras tarefas. Proust, por sua vez, depois de uma
existência que ele julgaria como "mundana", no final de sua vida chega à
convicção da suprema importância da literatura: "a verdade do mundo".
Sartre, desde criança, recebeu uma formação na
qual a literatura tinha um significado primordial, em que a ficção possuía mais
importância que a realidade. Numerosos motivos, desde pequeno, o levaram a esgrimir a
literatura como sua utópica salvação, considerando-a sua causa, seu projeto, sua
missão. A percepção da inconsistência da realidade o impulsionaram a refletir, com
fúria iconoclasta e niilista, sobre o absurdo da existência, sobre a sua total falta de
sentido. Ele pretendeu revelar e denunciar este absurdo, através de um livro.
Um livro afirma o personagem
de A náusea -. Naturalmente no início seria só um trabalho tedioso e cansativo;
não me impediria existir nem sentir que existo. Mas chegaria o momento em que o livro
estaria escrito, estaria atrás de mi e penso que um pouco de clareza iluminaria o meu
passado. Então, talvez eu pudesse, através dele, relembrar a minha vida sem repugnância
(1967, p. 197).
Esse era o projeto de Roquentin-Sartre: a literatura
poderia lhe oferecer o prestígio, a salvação. Não obstante, aos cinqüenta anos, o
autor revelou, em Les mots, sua renúncia ao "absoluto", o retorno às
tarefas cotidianas, ao prosaico mundo imanente, no qual não há atividades privilegiadas
nem "salvadoras". A idéia de absoluto era uma mistificação que perdeu o
sentido. O autor lembra que outrora a literatura era, para ele, "algo
religioso": "Era militante e quis salvar-me com as obras; místico, tentei
desvendar o silêncio do ser através de um ruído presente nas palavras e,
principalmente, confundi as coisas com seus nomes: isso era crer". (1968, p. 161)
Se tentássemos estabelecer um paralelo entre o
itinerário de Sartre e o de Proust, é possível afirmar que o último percorreu um
caminho inverso ao do autor de Les Mots. Lembremos, sinteticamente, o percurso do
narrador da Recherche. Ele esteve entregue durante muitos anos à vida mundana,
perdendo seu tempo com a banalidade da vida social, com os amores, com tarefas
supérfluas e, ao mesmo tempo, dolorosas. No final da sua vida, constata que a arte é sua
missão, o único sentido da existência. Ele lembra, então, todas as decepções do
mundo: amores, amigos, vida social. Durante muitos anos, viveu extraviado, desviado do seu
rumo, ao ocupar-se da vida mundana. Por isso, não aproveitou para plasmar mediante a
literatura a essência das coisas, ele perdeu o tempo. Ele se reprocha essa
atitude, dizendo: "Quando jovem eu tinha facilidade, e a Bergotte lhe pareceram
perfeitas minhas páginas de estudante. Mas, em vez de trabalhar, vivi na
preguiça, na dissipação dos prazeres, na doença, nos cuidados, nas manias, e agora
começava a minha obra nas vésperas da morte, sem saber nada do meu ofício"
(Ibidem, p. 413).
Marcel não quer continuar perdendo o tempo; sua
vida, até esse instante, foi uma distração, um divertimento, no sentido
pascaliano. Então, tornou-se um imperativo irrevogável cumprir com sua "obrigação
com as letras". Assim, não freqüentará mais os salões, não permitirá que os
seus amigos o visitem, não perderá tempo nas conversas. Seu objetivo está traçado:
esclarecer a verdade das coisas: a "verdade que todos suspeitam".
Só na arte ele encontra, finalmente, a salvação;
só os signos artísticos têm valor: "Mas as vezes, no momento em que tudo parece
perdido, chega o sinal que pode salvarmos, temos procurado em todas as portas que não
levam a lugar nenhum, e a única na qual poderíamos entrar e que teríamos procurado em
vão durante cem anos, tropeçamos com ela sem sabê-lo e se abre para nós" (Ibidem,
p. 212).
O final da Recherche mostra o corolário do
aprendizado, da "missão", da vocação de Proust: a literatura é salvadora.
Neste ponto, fica clara a divergência entre Sartre e Proust. Aquele partiu de uma
desconfiança total sobre a realidade, mistificando a literatura. Posteriormente, abandona
essa mistificação para valorizar as diversas tarefas da vida. Para Proust, ao
contrário, inicialmente dedicado a uma vida mundana, no final da vida "sacraliza a
literatura". Tudo no mundo é decepcionante, tudo é destruído pelo tempo; só resta
a literatura a arte em geral -, como faculdade das essências, como forma de
recuperar o tempo perdido. É muito sugestiva a forma como descreve a tarefa de elaborar o
seu livro. Deve realizá-lo: "com contínuos reagrupamentos de forças, como uma
ofensiva, suportá-lo como uma fadiga, aceitá-lo como uma regra, construi-lo como uma
igreja [...]" (Ibidem, p. 404). Nesta frase, vemos o sentido religioso que é
atribuído à gestação do livro: "construi-lo como uma igreja".
Proust, na sua interpretação final do mundo e da
literatura, acaba por opor a arte à vida. A vida não vale nada, só a arte tem sentido.
Assim, Proust não ofereceu alternativas para aqueles que não são artistas. Na sua
perspectiva, ele os condena a permanecer nas sombras, no viver inessencial, no tempo
perdido. Ele denuncia recorrentemente a decepção de todas as experiências da vida, mas estabelece
um credo estético: a arte é a suprema finalidade do mundo. Só os signos artísticos
salvam do tempo perdido; as restantes tarefas nos levam a um viver vazio, banal, sem
sentido.
Por isso, Marcel se recolhe na arte, na sua pureza,
no consolo que lhe brindam as puras essências. Lembremos também que Proust considera o
corpo como o depositário da corrupção; nele, se patenteia o passar do tempo, que acaba
degradando e destruindo tudo. E a velhice é corolário da decadência, que se concretiza
com a irremediável morte. Desta forma, Proust questiona a vida, desvaloriza o corpo. Para
ele, a alegria extraordinária da arte permanece no seu círculo restrito, não se
expande, não desce ao âmbito do inessencial, do mundo, do instante. A arte não
contagia, não fomenta a vida.
Em resumo, Proust assumiu na Recherche,
conforme a leitura deleuziana, uma genuína indagação da verdade. Para isso, dirigiu o
seu olhar para o homem da sua época que ainda é a nossa. Esse homem teve que
assumir a imanência,, após a morte de Deus, uma vez que as ilusões do mundo
inteligível já não têm mais sustentação. Por isso, Proust não nos engana com a
promessa de "ultramundos"; ele percebe que o imanente, após perder a
sustentação em um suposto mundo transcendente, parece cair no vácuo, no absurdo e no
sem sentido. Ele não oculta a sua decepção, a manifesta amplamente na Recherche.
Ele é testemunha de uma sociedade, de um mundo que desaba, que se esvai. Ele é um
cronista dos infernos do homem contemporâneo. Mas, não fica simplesmente neste
diagnóstico, ele pretende esboçar uma solução. Solução para ele, não para
nós. A alternativa estética desvalorizando os outros aspectos da vida
torna-se a aceitação da precariedade, a resignação ao vácuo da vida vivida e não
simplesmente narrada. Seria preciso que as essências artísticas na sua cristalina
pureza, na sua total plenitude estética existissem no mundo, mas não existem.
Proust o sabe. Sua alternativa é o recolhimento na arte. A sua vocação, a sua
experiência religiosa, o seu absoluto.
Quero avançar nestas reflexões lembrando um
filósofo que também se debruçou sobre o sentido da arte, sobre o significado da
existência, porém, que chegou a conclusões muito diversas das de Proust. Nietzsche é
um pensador que acredita que a vida pode ser uma festa pese às dores, à precariedade, à
morte. A sua visão trágica mostra que todas as peripécias, negativas e positivas, fazem
parte da fantástica dança da existência. A fórmula do amor fati (amor ao fado)
celebra a totalidade do universo. Nela, o existente é cantado em todas as suas nuanças e
possibilidades. A arte, por sua vez, é uma das manifestações mais elevadas e intensas
do homem, mas não a única, é uma das tantas formas de viver. Acredito que não
devemos "perder o tempo" e viver o tempo que se esvai e não volta
jamais. Celebremos a vida na sua finitude, na sua contingência, na ausência de
instâncias absolutas, de improváveis saídas para mundos melhores ou para o recolhimento
na suposta vida essencial da arte. Quero concluir com um trecho de Assim Falou
Zaratustra, que eleva um canto à totalidade da vida. "Tudo vai, tudo volta, roda
eternamente a roda do ser. Tudo morre e volta a florir. Eternamente se desenrola o ciclo
da existência. Eternamente se edifica a habitação do ser./O ciclo da existência
conserva-se eternamente fiel a si mesmo./A existência recomeça em todos os instantes./O
centro está em toda as partes. A eternidade regressa pelo seu próprio caminho"
(1998, p. 259-260).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECKETT, Samuel. Proust. São Paulo: Cosac
& Naifty, 2003.
DELEUZE, Gilles. Proust y los signos.
Barcelona: Anagrama,1972.
IONESCO, Eugêne. Diario. Madrid: Guadarrama,
1968.
MACHADO, Roberto. Deleuze e a filosofia. RJ:
Graal,1990.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
PROUST, Marcel. En busca del tiempo perdido. 7.
El tiempo recuperado. Madrid: Alianza Editorial, 1980.
SARTRE, Jean Paul. A náusea. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2000.
________________. Las palabras. Buenos
Aires.: Losada,1968.
________________. Sartre por Sartre. Buenos
Aires: Ed. Jorge Alvárez, 1968.
1Esta é uma versão modificada do trabalho "Proust e o tempo
recuperado: memória, arte e escatologia", que apresentei no Seminário Internacional
de Filosofia e Literatura Espaço e Linguagem em Proust e Kafka, em Lisboa, em
julho de 2003, organizado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens da
Universidade Nova de Lisboa, pelo Centro de Estudos Comparatistas da Universidade
de Lisboa e pelo Centro de Estudos Pós-Metafísicos do Rio de Janeiro.
3Nietzsche
tematiza, ao longo da sua obra, a questão da "morte de Deus". Esta fórmula
alude ao esvaziamento, na cultura ocidental, de um fundamento baseado num suposto mundo
inteligível, num além perfeito, eterno e salvador. Ao entrar em crise essa crença,
todos os valores ocidentais mostram sua inconsistência, levando o homem moderno à
sensação de que nada tem sentido nem sustentação: a morte de Deus coloca o homem numa
atmosfera niilista. Assim falou Zaratustra é uma das obras nietzschianas em
que essa fórmula aparece com mais clareza e força expressiva (NIETZSCHE, 1998,
prólogo).
4A tese platônica
do "corpo inimigo" aparece claramente no "Fédon". Cf. PLATÃO. Obras
completas. Madrid: Aguilar, 1966, 66a/67c. Ver também o meu comentário
sobre a tese platônica, no artigo: "Nietzsche e o corpo: para alem do materialismo e
do idealismo". In: LINS, Daniel et alii (Org.). Nietzsche e Deleuze. Que pode o
corpo. RJ: Relume-Dumará, 2002, p. 177-188. |