Lena Vania Ribeiro Pinheiro
IBICT/Coordenação de Ensino e Pesquisa, Doutora em
Comunicação e Cultura, UFRJ/ECO
RESUMO
Discussão teórica e conceitual de informação, objeto de estudo da
Ciência da Informação, nas suas diferentes abordagens, sobretudo as cognitivista,
econômica, gerencial e política. São enfatizadas as relações e distinções entre
dado, informação e conhecimento, bem como os contextos e aplicações de informação e
suas características de transversalidade e interdisciplinaridade. A informação
integrada aos conceitos da área e os seus múltiplos atributos são analisados segundo os
teóricos e horizontes epistemológicos da Ciência da Informação.
Palavras-chave: Ciência da Informação,
Informação, Conceitos e teorias de informação
ABSTRACT
Theoretical and conceptual discussion of information entity of
studies of Infomation Science - in its different approaches, mainly Cognitive,
Economicist, Managerial and Political. Emphasis is given to relations and differences
among data, information and knowledge, as well as to the contexts and applications of
information and its characteristics of transversality and interdisciplinarity. Information
integrated to the concepts of the Area and its multiple attributes are analyzed
accordingly to the theoretical and epistemological horizons of Information Science.
Keywords: Information Science, Information, Concepts
and theories of information
Informação e Ciência da Informação
Informação é tradicionalmente relacionada a documentos impressos e a
bibliotecas, quando de fato a informação de que trata a Ciência da Informação, tanto
pode estar num diálogo entre cientistas, em comunicação informal, numa inovação para
indústria, em patente, numa fotografia ou objeto, no registro magnético de uma base de
dados ou em biblioteca virtual ou repositório, na Internet.
Todos os campos do conhecimento alimentam-se de informação, mas
poucos são aqueles que a tomam por objeto de estudo e este é o caso da Ciência da
Informação. Por outro lado, esta informação de que trata a Ciência da Informação
movimenta-se num território multifacetado, tanto podendo ser informação numa
determinada área quanto sob determinada abordagem.
No primeiro caso, a informação depende do contexto (científico,
tecnológico, industrial, artístico, cultural, entre outros) e corresponde às
aplicações, assim chamadas na literatura norte-americana, ou transversalidade, qualidade
da informação de perpassar todas as áreas. Ou informação especializada, em Medicina,
por exemplo, num setor como o industrial, ou servindo aos habitantes de uma cidade, de um
bairro ou de um indivíduo participante de algum movimento social.
Esta característica é distinta da interdisciplinaridade, de caráter
epistemológico e que pode ser traduzida, sinteticamente, como "diálogo de
disciplinas" (Japiassu,) ou a apropriação mútua de metodologias, princípios,
teorias, conceitos e construtos entre duas ou mais disciplinas. No segundo caso, os
enfoques vão desde o cognitivista, que relaciona informação a conhecimento,
administrativo ou gerencial, no qual a informação para tomada de decisão; econômico,
quando informação é mercadoria ("commodity") e adquire valor agregado e serve
para a ação, numa visão mais política e social, na formação da cidadania.
A informação como objeto da Ciência da informação não é uma
certeza para Wersig e Nevelling, (1975), na medida em que é "um possível
objeto..." e o termo, marcado por ambigüidade, "é o mais extremo caso de
polissemia na comunicação técnica da informação e documentação". Esses
teóricos identificam pelo menos seis abordagens no conjunto de disciplinas, cada uma
justificada e caracterizada dentro da "estrutura geral de relações entre os seres
humanos e o mundo": abordagem estrutural (orientada à matéria); abordagem do
conhecimento; abordagem da mensagem; abordagem do significado (orientada à
característica da mensagem); abordagem do efeito (orientada ao receptor); e abordagem do
processo.
Wersig e Nevelling (1975) observam que, se não podemos evitar o termo
informação, conforme propõe Fairthorne, "temos que deixar claro, a todo instante,
o que significa".
Assim, informação, por ser objeto de estudo da Ciência da
Informação, permeia os conceitos e definições da área. E, embora informação não
possa ser definida nem medida, o fenômeno mais amplo que este campo do conhecimento pode
tratar é a geração, transferência ou comunicação e uso da informação, aspectos
contidos na definição de Ciência da Informação. Por outro lado, deve ser explicitado
que, embora haja relação profunda entre conhecimento e informação, os dois termos são
distintos, portanto, não são sinônimos e, na literatura, esta é uma questão
recorrente.
A proposta do presente artigo é discutir teórica e conceitualmente as
diferentes abordagens de informação, problematizar os seus múltiplos atributos,
confrontando distintas correntes de pensamento, em texto sintetizado de um capítulo da
tese de Pinheiro (1997), com breves complementações e atualizações.
Conceitos e definições de Ciência da Informação em torno de
atributos da informação
Em seu artigo Informática, Foskett (1973) se opõe aos que reduzem
as questões intelectuais à pergunta e resposta e à coisificação da informação em
bem de consumo, e cita a afirmativa de Glass (1970) sobre ciência, educação e
sociedade: "Dados e fatos por si só não constituem conhecimento, no sentido de
compreensão. A informação é necessária, mas observações devem se adequar aos
conceitos e esquemas conceituais, ou paradigmas... O estudo de uma ciência deve penetrar
além de seus dados e leis e abranger também seus métodos de indagação e seu processo
histórico".
O conceito de informação científica aparece com muita freqüência e
precisa ser compreendido nos seus diferentes matizes. Para Mikhailov, Chernyi e
Giliarevski (1969), por exemplo, não é "... tal qual atributo de uma respectiva
ciência ou disciplina..." e sim aquela "... usada, no caso, para significar a
informação lógica obtida no processo de cognição que adequadamente reflete leis do
mundo material e atividades espirituais de experiência humana e é utilizada na prática
sócio-histórica". A estrutura e as principais propriedades da informação
científica são abordadas pelos mesmos autores, em 1975, num artigo publicado no Brasil,
em 1980, e fruto do Comitê de Estudos sobre Pesquisa da Base Teórica de Informação, da
FID, do qual Mikhailov era presidente.
Ao analisar a relevância de Mikhailov para a Ciência da Informação,
Roberts (1976) faz a ressalva de que embora não se possa ignorar a sua influência de
"proeminente autoridade" na definição da área, quando associa o fenômeno
informação unicamente à sociedade humana, Mikhailov o restringe à comunidade
científica e sua definição exclui "estudos de processos de comunicação dentro de
grupos não-científicos..." No entanto, é oportuno lembrar o significado mais amplo
de científico para a cultura russa.
Nos Estados Unidos, um artigo emblemático sobre a "Ciência da
Informação e o fenômeno da informação" é elaborado por Belkin e Robertson,
(1976), do qual se origina a famosa definição de "informação é o que é
capaz de transformar estruturas", aprofundada no tópico 3 deste trabalho.
Em sua revisão, o já citado Roberts (1976) inclui trabalhos de
Yovits, um em colaboração com Whitemore (1969), e critica as idéias desses dois autores
porque "a introdução da tomada de decisão na definição não somente restringe os
horizontes sociais da Ciência da Informação, mas também cria problemas adicionais de
definição e medida". O nosso entendimento é o mesmo, pois esse enfoque canaliza o
conceito somente para tomada de decisão, fator mais relacionado a sistemas de
informação gerencial, gestão da informação e inteligência competitiva, a última sem
dúvida uma disciplina da Ciência da Informação, mais nova e hoje florescente, entre
outras vertentes da área.
Mas os problemas básicos da informação não são novos, tanto que
Brookes (1980) afirma que existem muito antes, e retrocede à teoria de Platão, através
da Epistemologia ou da Teoria do Conhecimento, na qual identifica, no conceito de
informação, "dificuldades peculiares para os cientistas teóricos.." e mesmo
para o senso comum, porque informação é uma entidade que pervaga todas as atividades
humanas. O problema maior está em observar isoladamente os fenômenos de informação
"..com o tipo de detalhamento que a investigação científica tradicionalmente
demanda". A questão crucial é superar a separação de efeitos objetivos de efeitos
subjetivos porque, diferentemente das ciências naturais, "nas ciências sociais não
podemos presumir que o comportamento humano não seja afetado pela observação ou pelas
reações inconscientes do observador em relação ao comportamento daquele que ele
observa". As ciências sociais enfrentam esse problema, mas não corajosamente (
Brookes, 1981).
Especificamente sobre a questão, Farradane (1980) refere-se ao
conhecimento, quando selecionado e traduzido por seu gerador numa linguagem
(informação), afetada por restrições de linguagem e qualquer distorção originada da
compreensão imperfeita de seu gerador, tal como a noção de ruído, de Shannon. São
necessários, em todos os estágios da Ciência da Informação, estudos experimentais que
identifiquem medidas confiáveis e meios de controle de erros e distorções.
No início dos anos de 1990, na Conferência sobre Perspectivas
Históricas, Empíricas e Teóricas da Ciência da Informação, realizada em Tampere, na
Finlândia, em 1991, cujos anais foram publicados em 1992, trabalhos apresentados
abordaram informação, uns pela sua natural inclusão em estudos teóricos e
epistemológicos da área, entre os quais os de Brier, Frohman, Miksa, Hayes e Davenport,
os dois últimos tratados no próximo tópico.
O tema central do artigo de Brier (1992) é a idéia da unidade da
Ciência da Informação, na perspectiva da Filosofia da Ciência e o autor enfatiza ser
fundamental saber, "deliberada e sistematicamente" qual o significado de
conceitos como conhecimento, informação, inteligência e especialidade. Alguns
pressupostos norteiam o seu pensamento como, por exemplo, o significado de informação,
compreendido somente num "...contexto sócio-cultural e na perspectiva
histórica" e considerando a linguagem, porque é o comportamento social humano que
determina o significado de seu conceito.
A análise do discurso da Biblioteconomia e Ciência da Informação é
realizada por Frohmann, (1992), considerando "informação como 'commodity', pessoas
como consumidores de informação identificáveis, dentro de condições de economia de
mercado".
O estudo apresentado por Francis Miksa (1992) trata de dois paradigmas
da Biblioteconomia e Ciência da Informação: primeiro o da biblioteca como instituição
social; o segundo, do movimento da informação como um sistema de comunicação humana,
este último de interesse direto para este trabalho.
Informação: conceitos e definições no tempo e espaço
Um início de questão pode ser a etimologia da palavra informação,
do latim formatio, "de representar, apresentar, criar uma idéia ou
noção" ou "dar forma, ou aparência, pôr em forma, formar" alguma coisa
(Zeman, 1970). Interpretamos que, no primeiro caso, é uma definição aberta e, no
segundo, fechada, o que atende às diferentes aplicações da área.
Na verdade, cada campo tem seus conceitos, de acordo com a compreensão
e concepção de informação na área, daí a miríade de definições; não por acaso
Heinz von Foerster a rotula "camaleão intelectual" ( apud Bougnoux, 1995).
Um livro que contém alguns conceitos básicos é o de McGarry (1984),
no qual é apresentada uma série de definições, em diferentes áreas, de autores como
Shera, McLuhan, George Miller, McKay, Belkin, Shannon e Weaver, e Becker, de onde são por
ele extraídos atributos, alguns abordados neste artigo.Tal como outros teóricos, uma das
distinções que McGarry estabelece é entre dado e informação, sendo o primeiro a
"matéria prima a partir da qual se pode estruturar informação" e a segunda,
"mais complexa e estruturada do que dado".
Na literatura da área temos observado, freqüentemente, a utilização
do termo conhecimento como sinônimo de informação, o que não deveria ocorrer, pois,
como foi ressaltado no início deste artigo, o primeiro é objeto de estudo de outros
campos, embora haja relação entre ambos.
Para estudarmos as distintas visões de informação, outro ponto de
partida pode ser a Teoria matemática da comunicação ou Teoria da informação, de
Shannon e Weaver (1949) que, com maior ou menor intensidade, está presente nas
formulações teóricas sobre informação. Embora haja questionamentos sobre se sua
influência trouxe, por si só, contribuição para a Ciência da Informação, uma das
apontadas foi ter dado autonomia, ou melhor, tê-la libertado do suporte, maneira
tradicional de se pensar a informação,
É oportuno esclarecer que, diferentemente da Ciência da Informação,
a teoria da informação não se refere a significado, até porque seu principal criador,
Shannon, engenheiro da Bell Company, estava preocupado com a solução de problemas de
otimização do custo da transmissão de sinais. Mas o seu sistema de comunicação (fonte
de informação, mensagem, transmissor, sinal, sinal recebido, receptor, mensagem e
destino) e alguns conceitos como ruído são úteis para a Ciência da Informação e a
influenciaram.
De certa forma, o sistema de recuperação da informação e as medidas
adotadas na área têm relação com estas noções, pois a revocação corresponderia ao
ruído, incerteza e volume de informação maior, embora não pontual, inversamente à
precisão.
A partir da teoria da informação e da cibernética, o debate mundial
sobre informação na ciência contemporânea ficou mais intenso e entre as muitas
abordagens existentes, algumas são aqui mencionadas, pela sua importância.
A primeira nos leva a compreender a informação como termo filosófico
e não somente matemático pois, segundo Zeman (1970), "não está apenas ligada à
quantidade, mas também à qualidade que, aliás, tem conexão com ela" portanto,
"não é apenas uma medida da organização, é também a organização em si, ligada
ao princípio da ordem, ao organizado - considerado como resultado - e ao organizante -
considerado como processo" e está associada a espaço, tempo e movimento e não
existe fora do tempo, fora do processo. (Zeman,1970).
Outro trabalho importante, para o debate dos conceitos de informação,
é o de Goldman (1970) sobre o conceito de "consciência possível" na
comunicação, fundamentado no marxismo, na distinção entre consciência real e
consciência possível, em relação à consciência de classe.
Especificamente na Ciência da Informação, muitos pesquisadores têm
estudado informação e podemos considerar entre estes, um dos principais, Tefko Saracevic
(1970), por sua significativa contribuição teórica à construção do conceito de
relevância, fundamental na comunicação entre indivíduos e destes com os sistemas de
informação. Relevância é usada "no contexto de sistemas de informação, em
particular, e nos processos de comunicação em geral", nos quais a informação
"tem muitas propriedades associadas, e relevância é uma das mais importantes."
Todavia, se considerarmos que o objetivo de todo e qualquer sistema, rede ou centro de
informação ou serviço é alcançar relevância nas informações oferecidas aos seus
usuários, este é um problema crucial da Ciência da Informação, mesmo sabendo que a
relevância será sempre relativa, ou melhor, a relevância possível.
Relevância está associada ao fornecimento de informação a tempo,
regularmente, de forma efetiva e eficiente, capaz de eliminar informação não relevante
pois "se não é relevante, não é informação" e (Saracevic,1970) a traduz
como "uma medida de contato efetivo entre a fonte e o destinatário" e um dos
seus enfoques é o de distribuições relacionadas à relevância, ou melhor, a
Bibliometria.
O autor encerra o seu trabalho afirmando que os estudos de relevância
têm por objetivo evitar a não-relevância, torná-la suportável, uma vez que não pode
ser eliminada e que, embora a tecnologia da informação venha avançando cada vez mais,
infelizmente os sistemas de informação alcançam cada vez menos comunicação
(Saracevic,1970), problema que mais de vinte anos depois, com a Internet, se agravou.
Cuadra (1966) é um dos primeiros a ressaltar não haver
"...concordância clara sobre o significado da palavra informação, particularmente
se implica no ato criativo do intelecto ou uma 'commodity' que pode ser incorporada a um
documento, transportada e intercambiada."
A cadeia de conceitos já mencionada - dado, informação e
conhecimento - é estudada por Hoshovsky e Massey, (1969) que consideram impossível
pensar num desses conceitos sem a compreensão dos outros dois. Dados "denotam fatos
não avaliados para qualquer uso específico. São passíveis de ser avaliados para
validação". Informação é "o dado mais a avaliação para uso futuro
antecipado", enquanto conhecimento, segundo conceito citado de McDonough,
"equivale ao termo informação comumente usado na discussão técnica". Assim,
informação é "...o processo que ocorre, na mente humana, quando um problema e um
dado útil para sua solução estão juntos numa união produtiva." (Hoshovsky e
Massey,1969).
Sobre as funções da informação, Foskett (1970) esclarece que não
cabe saber se a informação é falsa ou verdadeira, e sim se é relevante ou pertinente.
Na sua definição, informação "...exige processamento da mente humana antes de
passar a fazer parte de um modelo ou paradigma passível de conformidade".
A contribuição expressiva de Mikhailov é aqui retomada, cuja
discussão sobre informação é iniciada pelo âmbito da Ciência da Informação, que
não trata de todos os tipos de informação, de informação em geral..Conseqüentemente,
"quanto maior o nível de hierarquia, mais específica a estrutura de informação
científica." (Mikhailov, Chernyi e Gilyarevsky, 1975).
Na explicação sobre informação, Mikhailov e colaboradores (1975)
tomam por base um esquema de classificação dicotômica: científica, não-científica,
semântica, não-semântica e social e não-social. A informação científica e de
natureza ideal (não-material) não pode existir sem algum revestimento material, nem pode
ser separada de seu suporte físico". Esta visão de informação atrelada ao suporte
foi rompida com a Teoria da informação, conforme já mencionamos.
.O objetivo do estudo de Belkin e Robertson (1976), abordado
inicialmente, foi "determinar o fenômeno fundamental de interesse para a Ciência da
Informação" relacionado à estrutura, para os autores uma categoria, mais do que um
conceito, de aplicabilidade universal, no sentido de que todas as coisas têm estrutura. A
noção básica para todos os usos de informação é a idéia de estrutura sendo
modificada e os autores reconhecem a sua amplitude, pois "contém muitas noções
para as quais o termo informação jamais foi usado". Informação pode ser
caracterizada pelo seu espectro: infra-cognitiva (hereditariedade, incerteza e
percepção); cognição individual (formação individual do conceito e comunicação
inter-humana); cognição social (estruturas sócio-conceituais) e meta- cognitiva
(conhecimento formalizado), de acordo com Belkin e Robertson (1976).
Das pesquisas apresentadas na Conferência de Tampere são aqui
analisadas as de Hayes, dos Estados Unidos, e a de Davenport, da Grã Bretanha, com
o propósito também de comparar os enfoques norte-americano e o europeu.
O primeiro trabalho, de Hayes, (1992), parte da seguinte definição de
informação: "...propriedade de dados (isto é, símbolos registrados) os quais
representam (e medem) efeitos de seu processamento". O autor trabalha as relações
entre termos significativos, assim esquematizados: fato (aspectos do fenômeno), dado
(representação), informação (processamento do dado), compreensão (comunicação),
conhecimento (integração e acumulação) e decisão (uso da informação). O ponto
crucial neste processo é a representação, tratada segundo o uso de dados para
representar fatos, para registrá-los e derivar informação (Hayes, 1992).
Conhecimento também tem, segundo o autor, uso excepcionalmente difuso,
mas a diferença entre ser informado e ter conhecimento é que o primeiro, como algo
externo, pode ser recebido, e o segundo, interno, não pode ser recebido e é criado
internamente. As suas conclusões são canalizadas para as relações entre comunicação
e informação, onde são caracterizadas a "comunicação inteligente "e a
"comunicação interativa", por ele explicitadas. (Hayes, 1992).
A outra comunicação do referido evento, de Elisabeth Davenport,
(1992) foi selecionada, além das razões já explicitadas, porque trata, numa perspectiva
ampla, da Ciência da Informação e seus objetos, tomando como base "a
representação física de conhecimento". A autora adota o conceito de "ecologia
da informação" para descrever as estruturas e regras que moldam a comunicação nos
níveis micro e macro, sempre baseadas no contexto. Para ela existem muitas
"ecologias de informação", tantas quanto as perspectivas e é importante que
os objetos de estudo sejam estabelecidos em sistemas apropriados. (Davenport,1992).
Encerra o presente trabalho um artigo de Michel Menou, (1995),
decorrente de pesquisa sobre impactos da informação, desenvolvida num projeto
internacional, no IDRC- International Development Reserch Center, do Canadá.
Menou traça, numa tentativa de retratar o uso real da informação, um
quadro com as externalidades e internalidades que interferem no uso da informação. O
autor considera principalmente a base interna de conhecimento, seja intelectual ou
coletiva, que deve ser combinada com os recursos interiores e é influenciada por fatores
como personalidade, cultura, emoção, lógica, inteligência, esta última diferenciada,
de acordo com Brookes (1980 apud Menou).
O processo de transformação e condução da informação, do dado à
informação, do conhecimento ao saber, envolve seis tipos de atividades principais:
aquisição; processamento material ou físico; processamento intelectual; transmissão;
utilização; e assimilação e "todos os processos, fontes e estados interagem
constantemente e são interdependentes. A passagem de informação para conhecimento
corresponde à informação compreendida e assimilada e há necessidade de a comunidade de
Ciência da Informação estudar os atributos do saber nessa passagem de conhecimento para
saber" (Menou,1995).
O autor traçou um mapa das dimensões da estrutura paradigmática:
informal-formal; endógena-exógena; residente-circulante; inconsciente-consciente; antiga
- recente; estável-mutante; e de múltiplos propósitos-propósito único. Para Michel
Menou (1995) todas as dimensões são relevantes em qualquer contexto particular e podem
existir outras para casos particulares, o que o faz concluir pela necessidade de pesquisas
empíricas sobre a questão.
O lugar da informação nas discussões atuais.
Nas décadas de 1960 e 1970, proliferaram estudos teóricos e
empíricos, numa fase em que a Ciência da Informação emergia, a maioria relacionada a
definições e conceitos da área e ao seu objeto de estudo - a informação.
Diferentemente, nos anos 1980 e 1990 essas pesquisas declinaram, o que pode ser
decorrência do reconhecimento da ciência da Informação como campo do conhecimento ou
de certa consolidação conceitual. Nesse período, destacamos Buckland (1998), estudioso
da História da Ciência da Informação que retoma a discussão de documento, no seu
significado e limites, considerando este conceito importante para qualquer definição e
escopo de Ciência da Informação, bem como de sistemas de informação. Na
"reconstrução" do pensamento de Otlet (objetos como documentos) e de Briet
(documento como evidência física) contrapõe a visão ampla do primeiro, às idéias
mais restritas de outros especialistas. Buckland analisa noções próximas a de
documento, como "cultura material", da Antropologia cultural e, na Semiótica,
"objetos como signo". Por outro lado, aponta a multimídia e as tecnologias de
informação como fatores que nos fazem lembrar que nem todo fenômeno da Ciência da
Informação está confinado a textos e seus registros, pois há, além deles,
"eventos, processos, imagens e objetos..."
No Brasil, especialistas também vêm estudando a questão, entre os
quais Gonzalez de Gómez, em artigos como o publicado em 1990, no qual a autora analisa
alguns modelos, enfatizando o cognitivista de Belkin e a sua teoria do "estado
anômalo do conhecimento", identificando as suas vantagens e restrições e apontando
como desafios a "dupla articulação" e a "contextualidade" da
informação.
Conforme podemos depreender, informação, na qualidade de objeto da
Ciência da Informação permanecerá como fenômeno central da História e Epistemologia
da área, nas suas mutações no tempo, espaço e contextos sócio-culturais.
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