Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 02, 2003 - ISSN 1676-2924

DEMOCRACIA RACIAL, ESCRAVIDÃO E CRISTIANISMO1

Selma Passos Cardoso
Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona / U. P. C. – España
Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo

Resumo: O texto tem como objetivo discutir o papel que a escravidão desempenhou na mentalidade colonial baiana, e sua correspondência na busca da construção nacional. É elaborado através do estudo da literatura baiana do século XVII-XVIII, e sua comparação com o pensamento de alguns historiadores brasileiros do século XIX e XX.

Abstract: The main point of this text is to discuss how the slavery had influenced the mentality of the colonial Bahia people and its effect in the national development. It was elaborated through out the study of the bahian literature of the XVII-XVIII century and its relation with the way of thinking of some brazilian historians of the XIX and XX century.

Palavras-chave: democracia racial - escravidão - história do Brasil


O ESPETÁCULO URBANO

Na cidade de Salvador dos séculos XVII e XVIII, vivia uma população de cerca de 30.000 habitantes 2, formada por distintas raças, entre brancos, índios, negros e mestiços. Fazendo um esforço de imaginação, é possível vê-los desfilar pelos espaços públicos do mercado, das praças e terreiros. É nas ruas onde podemos contemplar o espetáculo da cidade colonial, que por esta época se apresentava em decadência. Muitos são os elementos que ela reúne e que contribui para formar um ambiente desalentador, como por exemplo, o grande número de excluídos. Para a população da cidade da Bahia, o surto de praga, fome e seca implicou o aumento da pobreza; a miséria urbana era manifesta. Neste período, a percentagem de escravos negros nas ruas da cidade já era elevada e alguns viajantes chegaram a afirmar que eles correspondiam a noventa por cento da população. Um depoimento de 1717 nos dá a idéia de que a população urbana de Salvador era predominantemente negra3.

Falar do espaço das ruas é também falar dos homens que a freqüentam e, nesse tempo, os personagens que por elas circulavam eram, em sua maioria, negros escravos, trabalhadores brancos e algumas mulheres consideradas, por isso, prostitutas. Através do estudo das Atas da Câmara sabemos que os homens pobres que circulavam pelas ruas de Salvador eram numerosos. Entre os mendigos podemos encontrar homens brancos, negros, índios e mulatos. Entretanto, contrário ao que se poderia pensar, a pobreza não igualava aos homens, as diferenças de raça se mantinham, ainda que reunidos pela mendicidade.

De que maneira a pobreza conformaria o cenário desta cidade? Em contraste com o universo de imagens exuberantes, freqüentado pelos ricos, ou quase ricos, estava a população de excluídos que viviam em ambiente propício à hostilidade e à violência urbana. Depois da guerra com os holandeses, cresce a desordem nas ruas de Salvador. Segundo nos confirma documentos de época, há um aumento no número de delitos praticados por negros e mulatos que, armados, percorriam as ruas da cidade e seus arredores, espalhando medo entre seus moradores.

Com o tempo, esta condição de marginalidade criada pelo sistema geraria a grande massa de miseráveis da população baiana que vagava pela cidade e Recôncavo sem residência fixa, controle ou normas4. Constituída de doutores, sacerdotes, artistas, artesãos, pobres, escravos, meio escravos, ela era tão variada como mestiça. Heterogêneos e socialmente desajustados, os moradores da Bahia colonial eram vistos como:

Lúbricos, fúteis, arrogantes, bazófios, covardes, ignorantes e carolas. Polidos e corteses de modos mas tão susceptíveis em matéria de honra, tão ciumentos no capítulo das mulheres e tão ridículos acerca de sua grandeza, que se tornavam muito difícil, sinão impossível de tê-los como amigos.5

A característica de mestiça não lhe proporcionou convivência pacífica, desprovida de conflitos raciais. Ainda que alguns escrevam o contrário, o Brasil colonial nunca chegou a ser uma democracia racial.

DEMOCRACIA RACIAL

Para alguns historiadores como Thales de Azevedo, Gilberto Freyre, Francisco Adolph Varnhagen e Sergio Buarque de Holanda, a mescla de raças e de culturas que ocorreu no Brasil foi um processo "quase" tranqüilo devido ao fato de os portugueses serem um povo quase sem preconceitos. Ao manter relações sexuais com suas escravas negras, os senhores de engenho estavam dando exemplo de democracia racial.6 Para S. B. de Holanda, foi a carência de orgulho racial dos portugueses que possibilitou o processo de mestiçagem em terras brasileiras, "a capacidade de amoldar-se a todos os meios com dano, muitas vezes, de suas próprias características raciais, deu ao português melhores aptidões de colonizador que os outros povos."7 Para T. de Azevedo, os conflitos étnicos que ocorreram em Salvador são provenientes de antagonismos econômicos e não de preconceito racial.8 Na tentativa de demonstrar que o Brasil foi uma democracia racial, onde não existiu o ódio e a intolerância, os discursos dos historiadores são truncados e profundamente contraditórios, denotando uma idealização do processo cultural brasileiro.

Acreditamos não ser excessivo afirmar que algumas destas interpretações históricas estão ofuscadas por convicções que segregam e alienam homens em categorias de bons e maus, segundo sua correspondência em classes sociais, critérios tão familiares ao período aqui estudado. Estes mesmos critérios seriam defendidos por escritores e historiadores do século XIX e XX, ajudando a desencadear entre a população brasileira o desejo de "branqueamento" de sua gente.9

Fazemos votos para que chegue um dia em que as cores de tal modo se combinem que venham a desaparecer totalmente no nosso povo as características da origem africana, e por conseguinte a acusação da procedência de uma geração, cujos troncos no Brasil vieram conduzidos em ferros do continente fronteiro, e sofreram os grilhões de escravidão, embora talvez com mais suavidade do que em nenhum outro país da América, começando pelos Estados Unidos do Norte, onde o anátema acompanha não só a condição e a cor como a todas as suas gradações.10

A que se refere o autor por "características de origem africana"? Entre as possíveis interpretações podemos destacar a cor da pele morena herdada da mistura de raças, característica que trouxe profundas tensões à estrutura hierárquica que se configurou no instante da constituição cultural baiana. Segundo Varnhagem, as "características de origem africana" manchavam a população brasileira porque denunciava, de maneira evidente, a culpa do Brasil no sistema escravista, que o historiador caracteriza como vergonhoso. O aumento de homens brancos entre a população mitigaria o horror da escravidão em terras brasileiras e borraria a imagem desagradável e feia do homem negro. Mas, e ainda segundo o autor, restaria o consolo ou o desejo de fazer crer que o sistema brasileiro foi menos cruel.

A historiografia brasileira vem tentando demonstrar que, de todo o território americano colonizado, foi no Brasil onde teve lugar a "democracia racial". Que, de todos os países americanos, a colonização brasileira foi menos cruel e opressora. Conforme o pensamento dos colonos brasileiros do século XVII e XVIII, ela tenta demonstrar que a introdução forçada da África na América proporcionou aos negros a ocasião de estar em contato com a civilização verdadeira.11 O Cristianismo lhes havia brindado com a oportunidade de ser melhores pessoas, mas também lhes proporcionou a liberdade. Paradoxo?

E o certo é que passando à América, ainda que em cativeiro, não só melhoravam de sorte como se melhoravam socialmente, em contato com gente mais polida, e com a civilização do cristianismo. Assim a raça africana tem na América produzido mais homens prestimosos, e até notáveis, do que no Continente donde é oriunda.12

Aqui, somente é possível entender o significado da palavra "sorte" como rasgo de superioridade e arrogância de toda uma cultura, postura familiar ao catolicismo e a sua evangelização. Estas são idéias de homens que escreveram a história brasileira no século XIX-XX, forma de pensamento muito próximo dos dias atuais. Considerando sua importância na formação da mentalidade deste país, propomos regressar um pouco no tempo e repassar alguns nomes da literatura baiana, traçando um paralelo entre o pensamento colonial e a época do nascimento do pensamento antiescravista, na tentativa de assinalar sua continuidade. E estas são idéias que nasceram com a construção da mentalidade brasileira e que também fizeram parte do pensamento do século XVII e XVIII.

ESCRAVIDÃO E CRISTIANISMO

A presença africana no seio da sociedade brasileira causou, desde o período colonial, certo desconforto entre seus intelectuais que não souberam, ou não puderam pensar o negro escravo como um personagem convergente de forças, mas esquivo, conflitante e corruptor.13 A escravidão foi um tema desconcertante inclusive para os historiadores que defendiam uma postura de condenação a essa mesma instituição. O negro era um personagem ilícito que não cabia na construção de uma América edênica, sua imagem foi avaliada como elemento desarticulado da concepção de construção de um mundo perfeito. Entretanto, a escravidão pedia definição, justificativa, razão de ser. Na obra de Nino Marques Pereira, este tema é colocado de maneira muito clara: a escravidão se justifica pela superioridade do catolicismo.

É também sua divina Misericórdia, que muitos destes gentios sejam trazidos às terras dos católicos, para os ensinarem e doutrinarem, e lhes tirarem os ritos gentílicos, que lá tinham aprendido com seus pais. […] Também é certo que por direito especial de uma Bula do Summo Pontífice se permitiu que eles fossem cativos, com o pretexto de serem trazidos à nossa Santa Fé católica, tirando-se-lhes todos os ritos, e superstições gentílicas, e ensinando-se-lhes a doutrina cristã: o que se não poderia fazer, se sobre esses não tivessem domínio.14

Nos argumentos desenvolvidos na literatura aqui estudada, está imbuída a idéia de progresso que contemplava o conceito de história da época, e sua necessária compreensão para o entendimento do Homem. Em Antônio Vieira também podemos ver esboçados os mesmos argumentos justificativos para a escravidão.15 Entretanto, essa literatura também esboça o desconforto intelectual do homem ante um tema que, na idade da razão e da crença no progresso e na moral cristã, já não se sustentava.16 A escravidão americana, apesar de justificar um suposto desenvolvimento econômico, levava intrínseca a marca da crueldade humana – eram homens transformando homens em animais – uma crueldade tanto mais difícil de se ajustar quando institucionalizada. Esse foi o preço necessário a se pagar pela construção de um Novo Mundo?

Em seu Sermão do Rosário dirigido à população negra – Vieira só escreveria dois – nada encontramos manifestado contra a escravidão. Entretanto, o jesuíta era consciente do dano que os portugueses haviam causado aos nativos brasileiros. Já no século XVII, a desigualdade e a injustiça que sofreram os escravos não podiam ser entendidas por uma religião que predicava a unificação do mundo e, portanto, a igualdade sob uma mesma civilidade cristã. Para Vieira, como para muitos homens da Igreja, o cativeiro dos negros somente podia justificar-se à medida que fosse considerado como um estado temporal. Se, para estes homens, não era possível a liberdade em vida, estava claro que a liberdade lhes seria concedida depois da morte. Desta maneira tão contundente, a escravidão será justificada, e assim, legitimada pela cristianização da América, mas essa sentença não resolve a tensão existente entre escravidão e cristianismo.

A posição da Igreja em relação ao cativeiro foi sempre ambígua desde épocas do cristianismo primitivo; a contradição existente nessa relação não é exclusividade do pensamento do século XVII e XVIII. Por outro lado, a escravidão foi sempre considerada, desde os tempos antigos, uma instituição em conformidade com a noção de civilidade, e nunca como um problema. A princípio, e justificada pela Bíblia, a Igreja primitiva validou a escravidão, chegando com o tempo a justifica-la, fazendo uso dela. Para a mentalidade do mundo antigo, a submissão do cativeiro obedecia à hierarquia natural. No Velho Testamento, a escravidão é exemplo de renúncia e humildade religiosa. O apóstolo São Paulo, falando em nome da correção e dos abusos da sociedade, diz que cada homem deve permanecer e aceitar suas condições sociais. A condição de escravo lhe é outorgada por Deus e somente Ele pode libertá-lo.17 O cristianismo faz a todos os homens iguais? De fato Vieira acreditou nesta proposição. Mas na escravidão americana teremos estabelecida a relação entre raça branca e pureza racial:

Porque todos vieram adorar a Cristo, e todos se fizeram Cristãos. E entre cristãos e cristãos não há diferença de nobreza, nem diferença de cor. Não há diferença de nobreza, porque todos são filhos de Deus; nem há diferença de cor, porque todos são brancos. Essa é a virtude de água do Batismo. Um Etíope se lava nas águas do Zaire fica limpo, mas não fica branco: porém na água do Batismo sim, uma coisa e outra: Asperges me hyssopo, et mundabor: ei-lo aí limpo; Lavabis me, et super nivem dealbabor: ei-lo aí branco.18

Havia a escravidão física e a escravidão espiritual. A partir desta distinção teórica a Igreja estabelece que somente lhe cabe as questões de ordem espiritual; ela estava preocupada somente com a salvação do homem e sua relação com Deus. A igualdade entre os homens somente estava garantida depois da morte. As questões que abordavam a legitimidade da escravidão eram de ordem terrena, portanto fugiam ao alcance religioso. Desta maneira a Igreja definiu seu papel dentro deste sistema que, aparentemente lhe era contraditório. Na tentativa de conciliar religião e política, a Igreja moderna validou a presença dos negros em sua comunidade religiosa, exigindo a aplicação dos sacramentos e advogando um tratamento mais humano para os escravos. Mas, no âmbito do terreno, a escravidão encontraria sua explicação na ordem espiritual uma vez que ela constituía um sofrimento causado por seus pecados e necessário para alcançar a liberdade. Isso sim, perante Deus todos os homens possuíam os mesmos direitos: livres em um mundo espiritual.

A IMÁGEM ILÍCITA

A princípio, o problema que os povos americanos levantaram para a Europa foi a sua classificação dentro da hierarquia religiosa, uma vez que para a história eles nunca haviam existido. Não possuíam religião e tampouco constavam na Bíblia, portanto não podiam ser classificados como ímpios, como foram os judeus e os mulçumanos.19 A Igreja os consideravam, em sua inocência primitiva, como símbolo da evangelização em terras americanas. Foram defendidos da escravidão. Na colonização, os religiosos dedicaram grandes esforços ao estudo da cultura indígena e de sua sociedade. Era necessário que os missionários obtivessem maior aproximação e entendimento com os nativos, para alcançar eficácia em sua conversão religiosa. Esta postura ante um universo desconhecido lhes ajudou a compreender a cultura e a religião dos "selvagens". Ainda que essa posição da Igreja não seja considerada aqui como manifestação de tolerância, podemos interpretar a tentativa de incorporar a sociedade indígena à cultura cristã como um gesto de aproximação. O mesmo não aconteceu com relação aos costumes religiosos dos africanos que, durante muitos séculos, competiram por espaço e dignidade com o cristianismo. As manifestações religiosas dos índios foram diabolizadas pela Igreja, mas nenhum foi tão combatido, e durante mais tempo, quanto os ritos africanos. Presentes tanto na cidade de Salvador quanto na zona do Recôncavo baiano, as práticas religiosas africanas sempre estiveram relacionadas com o culto ao Diabo.

Porém, eu me persuado que a maior parte destas modas lhas ensina o Demônio: porque é ele grande poeta, contrapontista, músico e tocador de viola e sabem inventar modas profanas para as ensinar aqueles que não temem a Deus.20

Deus e o Diabo. Essa dicotomia não demorou a fazer parte das interpretações relacionadas à América que com o passar do tempo foi consolidando-se. Aumentou a mestiçagem e com ela a classificação de estranho a todo que fosse exterior à cultura branca. Não resultou difícil para a mentalidade cristã relacionar este novo mundo mestiço, formado de canibais, escravos e feiticeiros, com a imagem do Diabo. Gregório de Matos também utiliza essa mesma qualificação depreciativa para definir a cultura baiana do século XVII. Demoníaca foi a imagem dos negros, e demoníacas também foram suas manifestações culturais e religiosas. A presença de sua cultura entre os brancos causava mal estar e medo. Nuno Marques Perreira nos descreve sua repulsa ao ouvir a música dos ritos africanos:

Perguntou-se como havia eu passado a noite? Ao que lhe respondi: Bem de agasalho, porém desvelado; porque não pude dormir toda à noite. Aqui acudiu ele logo, preguntando-me que causa tivera? Respondi-lhe que fora procedida do estrondo dos tabaques, pandeiros, canzás, botijas e castanhetas; com tão horrendos alaridos, que se me representou a confusão do Inferno.21

Não foi suficiente caracterizar a população vencida como diferente, foi, sobretudo, o povo mais inculto, pobre e vil que jamais existiu. A cultura dos primitivos habitantes do Brasil foi absolutamente depreciada, em seu lugar surgiu outra cultura, que, por mestiça, seria igual à bárbara. Através da obra de Gregório de Matos podemos vislumbrar a formação dessa nova cultura mestiça baiana, seu desconcerto ao se contemplar no espelho que foi o espaço urbano de Salvador. A rejeição do poeta ao ambiente decadente e mestiço da cidade da Bahia representa a rejeição da elite baiana do século XVII, que por então desejava ser européia: aristocrática, branca e cristã.

O colonialismo europeu criou em terras americanas a idéia de superioridade da raça branca e de sua cultura, situando-se, ela mesma, no centro de um processo cultural medrado pelo cristianismo. Por outro lado, a idéia de superioridade branca justificará o colonialismo e as atrocidades praticadas no Novo Mundo. O papel da Igreja foi fundamental, uma vez que cristianizar o Novo Mundo significava educar uma população de selvagens, e, portanto, inferior.

Todo este vastíssimo corpo que temos mostrado, estava possuído e habitado de inculta gentilidade, dividida em inumeráveis nações, algumas menos feras, mas todas bárbaras: não tinham culto de religião, idolatravam a gula, e serviam ao apetite, sem regime de lei ou de razão […].22

Na unificação religiosa estava implícita a superioridade de uma cultura sobre outra e, em sua assimilação, a idéia incontestável de progresso. A América esteve por muito tempo privada da luz do Evangelho e do conhecimento de Cristo, portanto, da possibilidade de evolução. Em alguns dos textos da literatura baiana do século XVII e XVIII, como os de Rocha Pita e Nuno Marques Pereira, é explícita a intenção em divulgar para o mundo as riquezas do Brasil:

As grandezas e excelências, ó leitor discreto, da Região do Brasil, tão célebre depois de descoberta, como aniquilada enquanto oculta, exponho ao público juízo e atenção do Mundo, onde as suas riquezas têm chegado mais, que as suas notícias, posto que algumas andem por vários autores introduzidas em diversos assuntos […].23

Examinando a história da América colonial podemos verificar que o negro sempre foi considerado, tanto pelos historiadores como por seus contemporâneos, como um personagem ameaçador.24 Sua natureza era perniciosa, sua imagem temível, de caráter violento, sanguinário. Além disso, os negros sempre foram considerados por natureza preguiçosos.25 Não é necessário dizer que o adjetivo adquire maior valor depreciativo quando se refere à pessoa humana: sujo, impuro etc.

Por outro princípio não parece ser muito acêrto em política, o tolerar que pelas ruas, e terreiros da cidade façam multidões de negros de um e outro sexo, os seu batuques bárbaros a toque de muitos e horrorosos atabaques, dançando desonestamente e cantando canções gentílicas, falando línguas diversas, e isto com alaridos tão horrorosos e dissonantes que causam medo e estranheza, ainda aos mais afoitos, na ponderação de conseqüências que dali podem provir, atendendo ao já referido número de escravos que há na Bahia, corporação temível e digna de bastante atenção, a não intervir a rivalidade que há entre crioulos, e os que o não são; assim como entre as diversas nações de que se compõe a escravatura vinda da África.26

Em Salvador colonial, estava concentrado na cidade baixa, na região do porto, grande número de negros que trabalhava no transporte de mercadorias até a cidade alta. Todo o deslocamento de cargas pesadas, serviço de transporte e urbano era realizado pelos escravos. Não nos resulta difícil imaginar uma multidão de homens negros subindo e descendo as escarpadas ladeiras da cidade, conduzindo grandes pesos ao ombro, construindo praças e monumentos. Essas imagens foram descritas por alguns viajantes que estiveram na Bahia com certo aturdimento:

As ruas enchem-se apenas de figuras hediondas de negros e negras escravos, que a indolência e a avareza, muito mais que a necessidade, transplantaram das costas da África para servir à magnificência dos ricos e contribuir para o ócio dos pobres, que para eles transferem seu trabalho.27

Petrarca também classificava os escravos como figuras hediondas que ninguém desejava contemplar, de quem todos queriam distanciar-se. Com sua presença esta "suja canalha"28 transformava as ruas da cidade em ambiente pestilento, uma imagem desagradável aos olhos. A rua é o lugar da promiscuidade por excelência, o lugar do vulgar. Tratando-se de Salvador colonial, as ruas eram freqüentadas em sua maioria por negros, uma "multidão" de "figuras hediondas". Aos olhos dos homens brancos, os negros escravos contribuíam para formar na cidade um ambiente infernal. Quando armado de facas e adagas, o homem escravizado poderia ser um inimigo em potencial:

Os portugueses e brasileiros deles (os escravos) se servem para vingar as injúrias recebidas e fazer assassinar os inimigos. Estes desgraçados são fidelíssimos em executar as promessas; prontamente e sem escrúpulo de espécie algum, a cometem todos os crimes deles exigidos. Detestável política esta da concessão de armar aos escravos. Como é que eles não as utilizavam contra os cruéis amos, sobre quem tinham imensa maioria, acostumados a ver em torno de si a mais absoluta impunidade? 29

Ainda que a presença dos negros escravos fosse reconhecida como uma importante e necessária contribuição para o desenvolvimento da economia americana, ela sempre foi considerada como corruptora dos bons costumes na nova sociedade que o homem branco desejava formar na América30; e na Bahia não foi diferente. Através dos relatos escritos pelos cronistas e viajantes sobre Salvador podemos contemplar a atmosfera de tensão e medo proporcionado pela escravidão: os homens brancos se sentiam em constante ameaça vivendo lado a lado com um inimigo em potencial. O Brasil, que outrora possuía um clima saudável, de repente se ver infestado e devastado pela presença do continente africano em seu território. Como já dissemos, esse modo de entender a influência da escravidão no processo de construção do país, não é exclusiva dos escritores da época colonial, ela vigorou inclusive entre nossos historiadores brasileiros, Varnhagen é apenas um deles.31

Os negros inspiravam medo devido a sua diferença física. Negro significa "totalmente escuro"; também é atribuído ao "indivíduo cuja pele é de cor negra". Mas, em sentido figurado, é sinônimo de "melancólico, funesto, lutuoso", ou ainda "sujo, encardido". Pode também significar "perverso, nefando", ou ainda "maldito, sinistro". No Brasil, além disso, negro era sinônimo de escravo fosse ele índio ou africano. Como derivação do status de escravo, a palavra negro passaria também a significar tudo o que era negativo ou degradante.

Um Branco muito encolhido, / um mulato muito ousado,
Um branco todo coitado, / um canaz todo atrevido:
O saber muito abatido, / a ignorância, e ignorante/
mui ufano, e mui farfante/ sem pena, ou contradição:
milagres do Brasil são.
32
Por nada, e menos de nada, / pois por negro cueiro
Mui negro e mui lamareiro/ se faz sua camarada:
O preto é porra tisnada/ mas sobre ser porra dura,
É porra dura, que atura, / o branco mais lindo e belo
É porra de caramelo, / desfaz-se na cozedura.33

A variedade de significações da palavra "negro" é influenciada pela acentuada presença dos negros africanos na formação cultural do país e pelo desprezo com que sua imagem foi concebida. Essa forma depreciativa de ver o negro determinará critérios de valores estéticos relacionados com a cor da pele onde a beleza está associada à tez pálida, ainda que muitas vezes possamos encontrar, na obra de Gregório de Matos, conceitos opostos. Tanta formosura em pele tão escura, ao poeta lhe parecia contradizer a própria beleza.

Seres formosa, Teresa, / sendo trigueira, me espanta,
Pois tendo beleza tanta, / é sobre isso milagrosa:
Como não será espantosa, / se o adágio me assegura,
Que, quem quiser formosura, / a há de ir na alvura ver,
E vóis sois linda mulher/ contra o adágio da alvura.
Mas o nosso adágio mente, / e eu lhe acho a repugnância,
De que a beleza é substância, / e a alvura é acidente:
Se na esfera tão luzente/ dessa cara prazenteira
O sol como por vidreira/ se duplica retratado,
Sendo vós sol duplicado, / que importa seres trigueira.34

No século XVII, conforme vemos crescer o número de escravos negros introduzidos no país, cresce a preocupação das autoridades oficiais por proteger-se. Os negros assustavam com sua presença, causando na cidade de Salvador uma tensão constante. Qualquer manifestação de revolta era entendida como "fenômeno de criminalidade multitudinária"35, sua presença era marginada, estava situada do outro lado das normas. Foi freqüentemente associada a atos violentos ocorridos nas estradas, ou em horários noturnos nas ruas mau iluminadas, atormentando a cidade. Sempre relacionada a alvoroços, armados de facas, adagas e tochas, estes homens são descritos como seres sem piedade, que viviam na fronteira da clandestinidade. Está claro que fisicamente os negros eram repudiados pelos homens brancos que os consideravam estanhos, grotescos e feios. Além disso, para muitos homens brancos, os negros corrompiam os bons costumes da colônia "por seus hábitos indecorosos, seu pouco pudor e sua audácia tenaz"36. Para muitos, seus costumes selvagens estavam profundamente arraigados, difícil de modificar-se, poucos eram os que se convertiam ao Cristianismo. A "diferença" tem sido um fator determinante e até justificante em todo o processo de exclusão, e a colonização brasileira não foi uma exceção. Enquanto o Brasil estivesse submetido a um sistema de dominação opressora como o sistema colonial, a cidade dificilmente conquistaria um ambiente de tranqüilidade pública.

Tomando como parâmetro as condições européias da época, Reis Filho considera a população das cidades brasileiras, e especificamente a de Salvador do século XVII, formada por grupos bastante reduzidos; desta maneira poderíamos concluir que a nenhuma manifestação deste período caberia o adjetivo de "multitudinário". Para Thales de Azevedo, a população da cidade de Salvador não era fixa, de acordo com as estações do ano a cidade poderia aglutinar mais ou menos gente, caracterizada por uma baixa excessiva em épocas de moer açúcar nos engenhos. Isso implica que não poderíamos classificar o coletivo da cidade como centro urbano, e, portanto, a impossibilidade de considerar Salvador como metrópole.

Se a Salvador do século XVII foi uma cidade quase deserta, "desprovida de homens"37, para muitos viajantes a população de negros correspondeu ao dobro da população branca.38 Entendemos "ao dobro" como significando "grande quantidade"; porém, a multidão a que muitos cronistas do século XVII se referem, é aquela de mendigos e escravos que, por pertencer a uma classe de excluídos, configuram-se, nos discursos históricos, como personagens encobertos? Como poderíamos entender o conceito de "multidão" quando ele está associado ao de excluídos? Não será que, por serem excluídos, não chegaram a estar representados na historiografia como cidadãos?

A DICOTOMIA AFRICANA

No que se refere ao homem, o que prevaleceu na sociedade brasileira colonial foi, sem dúvida, a incompreensão e a desigualdade social, dois fortes pilares que fundaram esta nação e que persistem até os dias atuais. No século XVII, Antônio Vieira escreveu diversas denúncias sobre as condições de escravidão a que viviam submetidos os índios no Brasil colonial.

Já se depois de chegados olharmos para estes miseráveis, e para os que se clamam seus senhores: o que se vive nos dois estados de Job, é o que aqui representa a fortuna, pondo juntas a felicidade e a miséria no mesmo teatro. Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando; os escravos perecendo a fome; os senhores nadando em prata e ouro; os escravos carregados em ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os em pé apontando para o açoite, como estátua da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás, como imagem vilíssima da servidão e espetáculos da extrema miséria. Oh Deus! Quantas graças devemos à Fé que nos destes, […] para que à vista destas desigualdades reconheçamos com tudo vossa justiça e providência! […] Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os esquenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel? 39

Através de suas palavras o jesuíta expressava incompreensão ante um sistema contraposto ao espírito de compaixão cristã que ele predicava. Vieira, que acreditava na igualdade dos homens perante Deus, parecia ser incapaz de compreender o sistema escravista.40 Entretanto, quando o jesuíta se refere à escravidão dos negros, seu discurso é contraditório, sua posição ambígua. Quando parece combater a escravidão, Vieira em uma prédica se referindo à rebelião ocorrida no Pará em 1662, defende a posse de escravos:

Não é minha intenção que não tenha escravos: pelo contrário, tenho procurado nesta Corte, como é notório e se pode ver em minha proposta, que se fizesse, como se há feito, uma junta com os maiores letrados para tratar este ponto, e para que se declarasse […] as causas do cativeiro lícito.41

Em carta escrita aos governantes do Estado do Pará, Vieira incentiva a importação de negros escravos de Angola para substituir a mão de obra indígena.42 O jesuíta via no trato de escravos negros, a possibilidade de proteger os indígenas do trabalho forçado. A escravidão africana solucionava o problema da mão de obra na economia brasileira, eximindo os índios do cativeiro, personagem tão caro ao trabalho evangelizador dos jesuítas. Ainda que, de maneira impetuosa, Antônio Vieira deixasse registrado em diversos documentos sua posição contra o cativeiro sofrido pelos negros e índios, seu gesto não chegou a alcançar uma atuação profunda e concreta no sistema escravista, tampouco na mentalidade da época, ele acreditou na legitimidade do sistema. A escravidão era castigo de Deus pelos pecados dos homens, e somente através dela os negros seriam redimidos.

Em 1691 o juiz da corte e o secretário do rei, Roque Monteiro Paim, escreve a Vieira uma carta onde lhe relata a preocupação do governo da Bahia com o aumento do poder adquirido pelos quilombos43, e a insegurança que o fato representava às cidades. Paim solicita a opinião de Vieira sobre a possibilidade de enviar ao Quilombo dos Palmares um religioso de nacionalidade italiana, na tentativa de negociar a liberdade dos quilombolas em troca de abandonarem a luta armada. Vieira responde com uma negativa esclarecedora. As razões enumeradas são as seguintes: a) a impossibilidade de um homem branco estabelecer acordo com os africanos devido à dificuldade da língua e a desconfiança existente entre as raças; b) a desconfiança que os negros escravos sentiam por qualquer pessoa que falasse em nome do governo; c) porque sendo os negros tão violentos e traidores, a missão era demasiado perigosa; d) porque, ainda que eles abandonassem a guerra, os quilombos continuariam sendo um lugar de abrigo para futuros fugitivos; e) finalmente a última razão,

[…] fortíssima e total, porque sendo rebeldes e cativos, estão e perseveram em pecado contínuo e atual, de que não podem ser absoltos, nem receber a graça de Deus, sem se constituírem ao serviço e obediência de seus senhores, o que de nenhum modo hão de fazer .44

Vieira foi contundente, não havia possibilidade de negociação com os negros fugitivos porque o reconhecimento dos quilombos como Estado independente constituía uma ameaça ao sistema escravista. A rebelião dos quilombolas era pecado que não admitia absolvição. Segundo Vieira só havia um meio eficiente de acabar definitivamente com os conflitos: conceder a liberdade a todos os escravos que se encontravam fugitivos nos quilombos, dando à Igreja o direito de doutriná-los.45   Mas, com a consciência de seu tempo, o jesuíta afirma que essa última solução significaria a total destruição do Brasil porque colocaria em perigo sua estabilidade econômica. Ainda que os quilombolas abandonassem a prática de hostilizar as cidades e os engenhos, sua liberdade seria motivação para que outros escravos fugissem aos quilombos. A solução efetiva seria o castigo exemplar: a destruição dos quilombos e a condenação dos responsáveis.

Antônio Vieira poderia, como homem do século XVII, apoiar a libertação dos escravos? E, se assim fosse, não seria ele um insurreto do sistema? Como homem de seu tempo, seus pensamentos não poderiam deixar de retratar o pensamento da época. Sua defesa da economia brasileira como dependente do sistema escravista faz parte do pensamento do século XVII que entendia a colonização da América intrinsecamente ligada ao tráfico de negros.46 A posição defendida por Vieira foi de condenação ao tratamento inumano ao qual índios e negros eram submetidos, mas resultou difícil para o jesuíta adotar uma postura antiescravista porque o processo de colonização estava intrinsecamente ligado ao trabalho escravo; o final da escravidão implicaria o fracasso do colonialismo português.

O pensamento antiescravista é inexistente na literatura aqui estudada, seja em textos religiosos ou pagãos. As novas idéias que nasciam na Europa do século XVII em favor da igualdade do homem não chegaram a ser defendidas em Portugal. A um país estreitamente ligado ao colonialismo e profundamente dependendo da mão-de-obra servil, não lhe era permitido pensar livremente.

Vieira não somente esteve recolhido entre dois mundos distintos como Portugal e Brasil, mas, também, pertenceu a uma época que não chegou a entender de fato. Nos textos do jesuíta podemos ver evidenciada a conflitante posição da Igreja Católica, que possuía como dogma um projeto universalista frente à discussão da escravidão humana. Sem saber ou sem poder combater a escravidão, acreditamos que Antônio Vieira, assim como tantos outros na história da colonização, conseguiu deixar registrado o horror, a indignação, e mais que isso, a tensão que o sistema escravista produzia no âmago de uma sociedade que dizia almejar a construção de um mundo universal. Vieira condenou os horrores vividos pelos escravos nas mãos de seus senhores e, através da prédica, tentou consolá-los em seu sofrimento. Entretanto, seus gestos jamais chegaram a se configurar como ação concreta.

Para a mentalidade do sistema colonialista a escravidão era necessária ao desenvolvimento de seu sistema econômico. Alguns homens como Maurício Nassau, em Pernambuco, tentou trabalhar com mão-de-obra livre, mas, segundo ele, foi impossível porque não havia homens brancos para trabalhar nos engenhos de açúcar na quantidade necessária que exigia este ofício:

[…] não é possível realizar alguma coisa no Brasil sem escravos […] os quais não podem ser dispensados sob quaisquer considerações, sejam elas quais forem: se alguém achar que isso não está certo será por um escrúpulo fútil.47

CONCLUSÃO

Não há dúvida, houve uma dicotomia com respeito à presença do continente africano no Brasil colonial. Mas, o que dizer do Brasil republicano e democrático? Para alguns historiadores brasileiros, a desgraça do país estava centrada na escravidão porque ela representou um obstáculo a seu progresso econômico e ao florescimento do trabalho livre. Varnhagen foi um dos que escreveu sobre o papel desconcertante que o passado representou no pensamento moderno de construção da nação brasileira: o Brasil não queria ser mestiço. A memória reavivada através da herança africana deixada na cultura brasileira será, para alguns, um obstáculo à sua emancipação. Assim como a Bahia colonial, o Brasil do século XIX e XX ainda se espelhava na Europa branca e cristã, que trazia consigo a idéia de progresso e civilidade. Somente a Europa teria sido capaz de integrar a América ao mundo, no contexto de verdadeira civilização.

A Bahia atual, a "Bahia da alegria", anuncia orgulho de ser negra e celebra sua alma africana com exultação. Entretanto, as marcas da escravidão – "o legado da nossa miséria" 48– ainda não foi, por ela, colocada em questão, ao menos não de forma exaustiva. Nada contra a Bahia da alegria, "terra da felicidade". Mas, no discurso atual, que de certa forma reivindica para esta pequena nação o retrato otimista de democracia racial, estaria representado o imaginário social dos descendentes dos expatriados africanos? O identificaria como seu?

 

REFERÊNCIAS

1Esse texto tem origem inicial em minha tese de doutorado, A cidade de Salvador através da literatura do século XVII-XIII.
2PITA, Sebastião da Rocha, (1660-1738), História da América Portuguesa, Belo Horizonte: Itatiaia, 1976.
3FREZIER (1717), In: TAUNAY, Afonso de E., Na Bahia Colonial 1610 - 1764, In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, (pp. 244 - 255), Rio de Janeiro, 1924, p. 343-4.
4VILHENA, Luís dos Santos (1744 – 1814), A Bahia no Século XVIII, Salvador: Itapuã, 1969, vol., III, p. 926.
5Francisco Coreál (1685). Apud EPUCS, Evolução física de Salvador, p. 14.
6FREYRE, Gilberto, Casa Grande e Senzala, 31ª ed., Rio de Janeiro: Record, 1996.
7Vd. HOLANDA, Sérgio Buarque de, Raízes do Brasil, Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.
8AZEVEDO, Thales de, Povoamento da Cidade do Salvador, 2ª ed., São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955, p.221.
9Teoria da miscigenação elaborada por Francisco Adolfo de Varnhagen. Para maiores detalhes vd. REIS, José Carlos, As identidades do Brasil: de Varnhagen a FCH, Rio de Janeiro: FGV, 2002.
10VARNHAGEN, Francisco Adolfo de (1816 – 1878), Florilégio da Poesia Brasileira, 2ª ed., Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1946, Tomo I, p.223.
11Sobre este tema vd. DAVIS, David Brion, O problema da escravidão na cultura ocidental, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
12VARNHAGEN, op. cit., Tomo I, p.224.
13PRADO JR., Caio, Formação do Brasil contemporâneo, São Paulo: Brasiliense, 1996, p.5.
14PEREIRA, Nuno Marques (1652–1728), Compêndio Narrativo do Peregrino da América, 02 vols., Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1939, p. 124.
15VIEIRA, 27º Sermão do Rosário, tomo IV, vol. XII, p.331.
16Vd. DAVIS, op. cit.
17SAN PABLO, Epístola a los Corintios, 7, 17-24. Vd. também Epístola dos Efesios, 6, 5-9; Epístola dos Colosenses, 3, 22-25; Epístola a Tito, 2, 9-10; 1ª Epístola a Timoteo, 6, 1-2.
18VIEIRA, Sermão da Epifania, (1662), vol. II, p. 15.
19Vd. ELLOTT, J. H., El Viejo mundo y el nuevo: (1492 – 1650), Madrid: Alianza, 1997.
20PEREIRA, op. cit., p.216.
21PEREIRA, op. cit., p.121.
22PITA, op. cit, p.36.
23PITA, op. cit., em: Prólogo.
24DAVIS, op. cit.
25Preguiçoso é um adjetivo freqüentemente utilizado para definir o povo baiano. Em se tratando de uma população majoritariamente negra, não poderíamos identificar, aqui, resquícios da mentalidade colonial?
26VILHENA op. cit, p. 134.
27Frezier, Relation du voyage…, (1714), vol.2, p.532. Apud ARAÚJO, Emanuel, O teatro dos vícios, p.94.
28Apud JA GUREVIC, Aron, El mercader, In: LE GOFF, El hombre medieval, Madrid: Alianza, 1999, p. 284.
29La Barbinais (1717), In: TAUNAY, op. cit., p.365.
30DAVIS, op. cit, p.
31VARNHAGEN, op. cit., Tomo I, p.225.
32MATOS E GUERRA, Gregório de (1633-1696), Obras Poéticas, 02 vols., Rio de Janeiro: Record, 1992, p.600.
33Ibidem, p.633. Vd. ainda p. 372 e 562.
34Ibidem, p.616.
35Vd. FREITAS, Décio, Palmares. A Guerra dos Escravos, Porto Alegre: Movimento, 1973.
36VARNHAGEN, op. cit., Tomo I, p. 225.
37REIS FILHO, Nestor Goulart, Contribuição ao Estudo da Evolução Urbana do Brasil 1500 - 1720, São Paulo: Pioneira / EDUSP, 1968, p. 96.
38Vd. SIMAS, Américo, Evolução Física de Salvador, vol. II. Alguns viajantes que estiveram na Bahia fizeram observações sobre o grande número de negros presentes na população brasileira. Para DAMPIER (1699), a população negra de Salvador era maior que a população branca. Frezier, em 1714, dirá que noventa por cento da população de Salvador era constituída de negros. "Era enorme a importação de escravos, entrando por ano na Bahia cerca de 25.000. Na cidade de Salvador viviam mais de 15.000 cativos".
39VIEIRA, 27º Sermão do Rosário, p. 330.
40Idem, Sermão da Epifania, (1662), vol. II, p. 44.
41Idem, p. 43.
42Idem, Cartas (1661), vol., I, p.579-582.
43A guerra contra os holandeses possibilitou a fuga de um grande número de escravos contribuindo para o aumento da população nos quilombos.
44Ibidem, p. 451.
45Ibidem, p. 452.
46É célebre a frase de Vieira "O Brasil tem corpo na América e alma na África". Vd. tb. Davis, op. cit.
47Apud BOXER, C. R., Os holandeses no Brasil, p. 117.
48Assis, Machado, Memórias póstumas de Bras Cubas, p.382.