Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 02, 2003 - ISSN 1676-2924

UMA ABORDAGEM SÓCIO-CONSTRUTIVISTA PARA AS METÁFORAS

Mauricio Brito de Carvalho
Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO
Ph.D. em Lingüística, Universidade de Salford.
macbrito@centroin.com.br

Resumo:Traçamos o percurso dos estudos sobre a metáfora, desde a antigüidade até nossos dias, mostrando como essa noção foi estudada de muitos pontos de vista distintos. Argumentamos a favor de uma proposta sócio-construtivista, que considere a língua em uso. Apresentamos detalhes dessa proposta, com os tipos de precupações que devem nortear o estudo de metáforas a partir da língua em interação. Mencionamos algumas investigações práticas da metáfora, onde os investigadores procuram intervir, a fim de resolver situações problema.

Abstract: We show the development of metaphorical concepts from antiquity to modern times, showing how metaphors were studied from various perspectives to date. We argue in favour of a socio-constructivist approach, which takes language in use under consideration. We present theoretical details of this proposal, showing the kinds of notions which should be addressed by analysts who take such a stand in their investigation. We show some applications of metaphor studies to real data in use, where investigators try to intervene in order to solve certain problematic issues.

Palavras-chave: metáforas, sócio-construtivismo, lingüística aplicada


Introdução.

O estudo das metáforas tem sido motivo de atenção dos estudiosos da linguagem desde a antigüidade clássica, sendo famosas as propostas de Aristóteles em sua Poética e em sua Retórica, do Século IV AC, que até os dias de hoje merecem nossa atenção (cf. Ortony, 1993: 3). Recentemente, dois estudos alavancaram de forma exponencial o interesse pelas metáforas: uma coleção de artigos organizada por Ortony em 1979 e reeditada e ampliada, em uma segunda edição, em 1993 e, principalmente, o livro de Lakoff & Johnson (1980).

Lakoff & Johnson (1980) tornaram-se um grande divisor de águas nos estudos das metáforas, desde a publicação de seu livro. Estes autores argumentam a favor da ubiqüidade da noção da metáfora, não somente na linguagem mas também no pensamento humano. O conceito destes autores de metáforas conceituais passou a fazer parte da preocupação de um grande número de investigadores, entre eles psicólogos, que procuraram comprovar a existência daquele construto teórico (a metáfora conceitual), subjacente à nossa própria forma de pensar e de encarar o mundo (vide, por exemplo, as diversas propostas de Gibbs, entre as quais destacamos a de 1999 e a de 2002).

Releva notar que a coletânea de artigos intitulada Metaphor and Thought, organizada por Ortony, permitiu a publicação (em sua segunda edição de 1993) da contribuição de vinte e sete diferentes analistas de várias áreas do conhecimento (psicólogos, lingüistas, filósofos, cientistas sociais, cognitivistas), apresentando diferentes enfoques sobre a noção de metáfora (noções essas, por vezes incompatíveis entre si).

A publicação de trabalhos sobre metáforas alcançou números incrivelmente elevados nos últimos anos (contando-se aos milhares), tanto assim que Booth (1979: 47, apud. Gibbs, 1999) observa, jocosamente, ser o interesse pelas metáforas tão grande nos últimos anos que ele prevê, para o ano de 2039, que "haverá mais estudantes de metáforas do que pessoas!".

Registre-se também a existência, a partir de 1986, de uma publicação especializada na área, Metaphor and Symbolic Activity, e até mesmo a publicação de um livro dedicado especificamente a referências bibliográficas sobre o assunto, METAPHOR IIA Classified Bibliography of Publications from 1985-1990 (Van Noppen & Hols, 1990), com mais de três mil e quinhentas referências bibliográficas.

Várias correntes teóricas vêm se dedicando ultimamente ao estudo de metáforas em uso, isto é, investigações que procuram estudar diversas situações nas quais as identificações de metáforas podem resultar em possíveis intervenções do analista que venham facilitar a identificação desses construtos da linguagem (e sua conseqüente utilização de forma mais produtiva). Situações concretas diversas, como o ensino-aprendizagem em sala de aula (cf. Cameron, 1999a), estudos de línguas estrangeiras (cf. Cortazzi & Jin, 1999; Low, 1999), os estudos de ciências (cf. Cameron, 2002a), a interação médico-paciente e o discurso da doença (cf. Cameron, 2002d), são alguns exemplos de análises que se beneficiaram do estudo das metáforas, procurando intervir positivamente de alguma forma ou de outra.

O estudo das metáforas e a pesquisa em lingüística aplicada

Das inúmeras abordagens ao estudo de metáforas que se preocuparam com a identificação das metáforas em uso pelos falantes da língua, destacamos o trabalho influente de Lynne Cameron, da Universidade de Leeds, que vem desenvolvendo pesquisa pioneira em colaboração com investigadores de várias universidades européias e americanas .

Esta seção irá apresentar uma visão geral de algumas preocupações centrais que devem estar presentes em trabalhos que procuram identificar metáforas, com subseqüente aplicação prática dessa identificação em diversos campos do conhecimento, sobretudo (mas não somente) acadêmico. No que se segue, basearemos nossas observações em Cameron (1999a), onde a autora tenta traçar um perfil dos estudos de metáforas no mundo contemporâneo.

A existência de tantos estudos sobre metáforas na literatura especializada faz com que haja uma enorme variedade de orientações teóricas subjacentes a essas inúmeras abordagens, o que dificulta bastante o entendimento do campo para qualquer iniciante que queira se inteirar do que vem sendo feito na área. Urge, portanto, que se tenha uma visão mais clara dos aspectos relevantes que nos permitam operacionalizar o conceito de metáfora para uso em pesquisa de uma natureza aplicada.

A preocupação dos lingüistas aplicados é com o uso da linguagem em situações reais, principalmente aquelas que apresentam algum tipo de problema ou dificuldade. Procuram entender e avaliar os processos subjacentes ao uso da linguagem (principalmente metafórica), a fim de poderem possivelmente intervir de forma útil e construtiva juntos ao público investigado, no sentido de ajudar a solucionar alguma dificuldade existente.

Como já observamos acima, as metáforas têm sido estudadas há literalmente séculos. É forçoso constatar, no entanto, que, apesar de estudadas há tanto tempo, uma das únicas unanimidades nesse estudo é uma definição geral, por vezes vaga, de metáforas, parecida com a seguinte: "metáfora é uma expressão lingüística nova, onde uma ou mais palavras para um conceito são usadas fora de seu significado normal convencional para expressar um conceito semelhante".

Assim, dizemos, por exemplo, Ele é um leão, querendo dizer que fazemos uma espécie de ponte conceitual entre as qualidades do termo leão e a pessoa mencionada na oração, o pronome pessoal Ele; entendemos, portanto, pelo uso de metáfora Ele é um leão, algo parecido como Ele é um homem corajoso como um leão.

Cameron (1999a) observa que, infelizmente, a unanimidade de entendimento por parte dos analistas de metáforas pára aí: com uma definição genérica e uma exemplicação do tipo A é B.

Uma corrente bem recente dos estudos da metáfora, no entanto, acredita que muito teremos a ganhar, se nos ativermos a considerações da metáfora em uso, em situações reais de fala. Esses analistas (dos quais Cameron, na Universidade de Leeds, é uma das expoentes contemporâneas) partem de uma abordagem sócio-construtivista que leva em consideração o uso da língua e procura moldar suas propostas, a partir da identificação das metáforas empregadas em situações reais de fala / escrita.

A decisão de pesquisar a língua em uso tem duas implicações meta-teóricas bastante importantes para a teoria, segundo Cameron:

  1. a teoria das metáforas em lingüística aplicada terá que dar conta do aspecto lingüístico enquanto mesclado com o social e com o cognitivo (e não com cada um em separado, que daria uma visão falsa da realidade e produziria uma teoria inadequada porque parcial);
  2. a necessidade de impor restrições aos aparatos teóricos usados na pesquisa, adequando-os à exigência de serem compatíveis com o conhecimento do que seja o processamento da metáfora.

Essas implicações meta-teóricas fazem com que seja necessário criar teorias da metáfora que levem em conta os diversos fatores de processamento e entendimento da língua em uso.

A primeira dessas exigências (de que a teoria das metáforas não pode separar o cognitivo do social), implica em que toda e qualquer consideração teórica que procure propor uma abordagem puramente cognitiva, ou puramente sócio-cultural não conseguirá fornecer uma visão satisfatória da linguagem. Isso, naturalmente, condena ao obrigatório fracasso (ao menos para os propósitos aplicados que estamos aqui propondo como importantes) uma série de propostas teóricas correntemente em estudo. Uma clareza de propósitos quanto a esse aspecto da análise pretendida será bem valiosa para o analista que pretende oferecer uma visão integrada das metáforas.

Todas essas considerações acima, que nos remetem à necessidade imperiosa de pesquisarmos a língua em uso, mostram que a interação entre o cognitivo e o social nos permite efetivamente abordar a linguagem sob uma ótica que nos revele toda a sua riqueza de formulações sócio-históricas.

Esta exigência prática que estamos impondo à teoria (de uma pesquisa da língua em uso) implica em que a operacionalização das metáforas para a lingüística aplicada tem de levar em consideração três aspectos imprescindíveis: os recursos lingüísticos e cognitivos dos falantes / ouvintes (em verdade, emissores e receptores, já que estamos nos referindo tanto à língua escrita como falada), os objetivos interacionais dos enunciados sendo analisados e as exigências de processamento metafórico, em cada um dos estágios do desenvolvimento da teoria e da pesquisa a que estamos nos propondo implementar.

Uma conseqüência inevitável dessa decisão é que os usuários da língua terão de ser levados em consideração, o que quer dizer que abordagens analíticas, como aquelas tradicionalmente originadas na filosofia (que levam em conta uma lógica formal abstrata), têm de ser abandonadas. É importante notar que as teorias de processamento de metáforas levam em conta fatores de processamento temporais, contextuais e neurológicos em suas propostas.

Um fato interessante de se observar é que algumas pesquisas recentes (Vosniadou, 1989, por exemplo) mostraram que, ao contrário do que se poderia pensar intuitivamente, não é o caso que o processamento da linguagem literal se dá mais rapidamente do que aquele da linguagem metafórica.

A teoria de processamento de metáforas em uso, sendo proposta por Cameron, também leva em consideração propostas de outras áreas do conhecimento (como o processamento visual (Marr, 1982), a linguagem (Jackendoff, 1994), a consciência (Dennett, 1991) - e o raciocínio analógico (Vosniadou, 1989)), abordagens essas que vêem esses diversos processamentos mentais como sendo melhor explicados se considerarmos sua ocorrência em etapas distintas (ao invés de os considerarmos ocorrendo em um único nível indivisível). Quanto a isso, devemos notar também as propostas de Gentner (1989) e de Palmer (1989) sobre raciocínio analógico, já que há muitas inegáveis semelhanças entre o processamento analógico e o processamento de metáforas, na medida em que essas últimas se utilizam de um aparato provavelmente muito parecido com aquele necessário para o primeiro (isto é, para o processamento analógico). Cumpre observar que tanto o processamento das metáforas como o das metonímias tem de levar em conta dois domínios distintos do conhecimento que são mentalmente relacionados.

Cameron propõe três etapas distintas no processamento metafórico: um nível de análise teórica, um nível de análise de processamento e um nível neurológico de análise (esse terceiro nível em fase ainda inicial de estudos).

O nível de análise teórica é onde acontece a subcategorização da metáfora e, portanto, é o nível onde tem de acontecer a sua identificação. Tal identificação não é tarefa óbvia, que aconteça de forma natural e incontroversa: nesse nível há a necessidade de análises teoricamente adequadas e elegantes que sejam coerentes com a lógica sendo utilizada.

O nível de processamento lida com o processamento em tempo real por parte das pessoas ocupadas em suas tarefas de produção ou interpretação dos dados lingüísticos. A esse nível são explicados como os conceitos são ativados quando os itens lexicais são compreendidos em uma metáfora, como uma metáfora é interpretada, como as metáforas organizam nossas estruturas conceituais para esse tipo de construto. Cameron propõe que uma perspectiva da linguagem em uso focalize esse processamento em termos de seu contexto discursivo, com a consideração do efeito da interação social no processamento sendo efetuado.

A importância da distinção de pelo menos esses dois níveis de processamento, o nível teórico e o nível de processamento em tempo real constitui-se em ferramenta indispensável na avaliação crítica de teorias da metáfora existentes; a validação dessa ou daquela teoria dependerá, naturalmente, do grau de adequação da teoria aos dados de que dispomos sobre como se dá o processamento.

Cameron (1999: 7) nos dá um resumo (Esquema 1) dos níveis de processamento metafórico sendo proposto por sua teoria sócio-cognitiva:

Esquema 1: Níveis de análise e de representação da linguagem metafórica

NÍVEL 1: O NÍVEL DA TEORIA

Preocupações

NÍVEL 2: O NÍVEL DO PROCESSAMENTO

Preocupações

NÍVEL 3 O NÍVEL NEUROLÓGICO

Preocupação

....................................................................................................................................................

A operacionalização do estudo de metáforas exige que o analista adeque sua teoria constantemente, dependendo do tipo de dados em uso que ele está precisando descrever. É também de suma importância que fique sempre bastante claro a que nível está sendo feito o trabalho de descrição de dados.

Segundo Cameron, a pesquisa de metáforas terá muito a lucrar, se levar em consideração a linguagem, o pensamento e a interação (essa última, como estamos enfatizando, se considerarmos estudos da linguagem metafórica em situações reais de uso lingüístico).

É curioso notar que os estudos de Aristóteles, no quarto século AC oferecem uma visão de metáfora contextualizada, na medida em que inserida na arte da retórica e, portanto, de seu uso para persuadir ao público / o ouvinte. Crescentemente, no entanto, a metáfora foi estudada por lógicos que abandonaram seu estudo contextualizado. Até mesmo lingüistas contemporâneos (como John Searle), como observa Cameron (1999), chegaram a dispensar o estudo das metáforas a um segundo plano, argumentando que tais estudos deveriam partir da compreensão da linguagem literal.

O caráter cognitivo da metáfora

Convém enfatizar que a metáfora é um fenômeno mental que tem um forte caráter cognitivo, como conseguiram estabelecer de uma vez por todas as propostas de Lakoff e Johnson em seu livro de 1980, no que se tornou conhecido como "o impacto cognitivo dos anos ‘80".

É importante atentarmos para a ambigüidade do uso do termo cognitivo, quer seja usado por proponentes ligados à Psicologia Cognitiva (Gibbs), à Lingüística Cognitiva (Lakoff), ou à Teoria da Relevância (Sperber & Wilson)

Recentes avanços da psicologia cognitiva e dos estudos de processamento da linguagem tornaram interessante os estudos de metáforas que levem em conta uma ênfase simultânea, não somente em seus aspectos cognitivos mas também nos aspectos lingüísticos e de processamento do fenômeno metafórico.

Modernamente há estudos das metáforas que levam em conta outros aspectos além do mero processamento cognitivo, como é o caso do trabalho que vem sendo desenvolvido na Califórnia por Raymond Gibbs (por exemplo, Gibbs, 1999: 29-47), embora Cameron nos advirta para o fato de que esse trabalho ainda mantém um pouco das limitações inerentes a um trabalho experimental de laboratório (que deve ser complementado por dados de metáforas em uso).

A tradição da psicologia contemporânea em parte limitou seus estudos, por tratar o cérebro/mente como um espelho do computador (isto é, um esquema de paradigma de Processamento de Informação puro e simples). Cameron observa que foi feito um avanço quando se substituiu o modelo do computador analógico por um modelo de computador que usa processamento paralelo (isto é, dois ou mais processadores funcionando simultaneamente). Isto é, houve um salto de qualidade quando se substituiu o modelo de PI (processamento de informação) pelo modelo de PP (processamento paralelo). Esse último é um modelo conexionista, no qual a informação é representada pela ativação de redes de ligações entre os nódulos (provavelmente à semelhança das redes neurais). Cameron insiste em que, embora o modelo de PP seja uma metáfora superior ao modelo de PI puro e simples, ele não deixa de ser simplesmente uma metáfora (isto é, um modelo que tenta reproduzir o que acontece no cérebro, em termos do processamento, baseado na forma como se está pensando que o cérebro/ mente funciona, em analogia a um computador); como tal, não consegue dar conta de forma plenamente satisfatória do processamento humano (em seus diversos aspectos, cognitivo, lingüístico, de reconhecimento, de compreensão, em que algo é processado em termos de algo diferente, porque metafórico).

De acordo com Cameron, a ênfase muito forte que foi dada à pesquisa das metáforas em termos de cognição, fez com que menos pesquisadores se interessassem em pesquisar aspectos lingüísticos do processamento metafórico e parece importante que as pesquisas retomem essa ênfase no discursivo, na língua em uso. É importante estudar a metáfora levando em consideração também a forma da linguagem em seus vários níveis, palavra, oração, discurso.

O fato de que a forma (externa, paupável, concreta) da língua deva ser considerada em uso, nas diversas situações diárias, implica em que a língua deve ser examinada em vários tipos de interação dos falantes. É importante criarmos construtos teóricos para o estudo das metáforas que levem em conta esse aspecto sócio-cultural e cognitivo. Há algumas promissoras propostas nessa direção (cf., por exemplo, as propostas de Cameron (1996) e de Edwards (1997)).

A parte central da proposta de Cameron (1999) é a operacionalização de como trabalhar os conceitos principais de metáfora na linguagem em uso. Para tal, ela parte de uma clássica definição de metáforas de Burke (1945): "Metáfora é um meio para se compreender algo em termos de algo diferente" [do original: Metaphor is a device for seeing something in terms of something else]. É importante rotular os componentes da metáfora: o primeiro algo (da definição de Burke compreender algo) é rotulado como o Tópico e Veículo é o rótulo dado ao algo diferente (da definição de Burke em termos de algo diferente). A discussão de Cameron enfoca três aspectos: a natureza dessas duas noções, Tópico e Veículo, a possível anomalia entre essas duas noções e, finalmente, a noção de compreender em termos de, ou seja, a resolução da anomalia entre o Tópico e o Veículo no processo de entendimento da metáfora. Para facilitar a exposição, esses três aspectos são examinados como possíveis respostas a três questões:

Questão 1: Que tipos de coisas são o Tópico e o Veículo em uma metáfora?

Questão 2: Que grau / espécie de diferença é necessária entre o Tópico e o Veículo

para a identificação de metáforas?

Questão 3: Como o Tópico é ‘compreendido em termos do’ Veículo?

Consideremos, então, cada um desses aspectos a seu turno.

Questão 1: Que tipos de coisas são o Tópico e o Veículo em uma metáfora?

O fato de Tópicos e Veículos ocorrerem tradicionalmente na forma metafórica A é B (isto é, Ele é um leão, como exemplificado acima), faz com que a maioria das pessoas pense que essa é a forma padrão na qual as metáforas ocorrem na maioria das vezes, ou seja, metáforas compostas de dois substantivos. Isso não é necessariamente verdade e somente uma investigação empírica poderá determinar qual a forma mais comum de ocorrerem metáforas.

A nível teórico, é imprescindível que desenvolvamos análises para o português do tipo que Steen (1999) criou para o inglês, onde ele faz considerações cruciais no sentido de chegar a uma lista de possíveis construções metafóricas. Além de oferecer uma lista provisória de construções possíveis onde ocorrem metáforas no inglês, Steen enfatiza a importância da pesquisa de grandes bases da dados (estudos de corpora), para um levantamento mais confiável da verdadeira ocorrência das metáforas em uso.

Poucos levantamentos têm sido feitos do português a esse respeito (não conhecemos nenhum levantamento exaustivo na literatura especializada) mas mesmo uma análise superficial nos revela que a ocorrência de metáforas em português está longe de se limitar ao tipo clássico A é B. Sem procurarmos abranger todos os tipos possíveis de metáforas, vemos que as metáforas não se limitam aos itens lexicais simples, como fica evidente por exemplos como O rato-de-praia esteve aqui mais uma vez, onde a metáfora é expressa por um substantivo composto. Ou ainda um exemplo de Márcio Moreira Alves, retirado do jornal O Globo: ... o deputado alagoano Givaldo Carimbão (PSB) estava denunciando anomalias na dança de verbas nas diversas rubricas do Orçamento, onde a metáfora é expressa através do expressão adverbial sublinhada. Temos também, retirado do mesmo artigo de jornal, uma instância de metáfora em construção distinta em Pretendia virar o ano escrevendo só sobre o Brasil real e as coisas boas que detecto, onde a metáfora se expressa por uma expressão predicativa em sentido temporal. Claro que nossa exemplificação acima é muito superficial e tem de ser complementada com um levantamento metódico das possíveis ocorrências de metáforas nas diversas construções da língua. Esse é importante trabalho básico que urge ser feito.

Além dos tipos de construções onde Tópicos e Veículos ocorrem (ou, dito diferentemente, os tipos de construções onde ocorrem as metáforas), cumpre também examininar como essas noções (de Tópico e Veículo) superficiais indicam a existência de sistemas conceituais subjacentes. Tradicionalmente, os estudiosos das metáforas consistentemente consideraram os termos Tópico e Veículo como formas superificias de sistemas subjacentes de informação. Cameron observa que há contrastes consideráveis entre teorias de metáforas que consideram esses domínios conceituais abstratos, dependendo de essas teorias partirem do pressuposto de que tais sistemas servem a todos os usuários de uma determinada língua na cultura de uma comunidade de fala específica e uma teoria de metáfora que considere sistemas abstratos de domínios que se aplicam às mentes de usuários individuais da linguagem metáforica. Segundo ela, é importante, na operacionalização das metáforas, deixar claro qual dos dois sistemas abstratos se está pressupondo, ao se fazer uma análise. Uma observação interessante no sistema de metáforas conceituais com o qual trabalham Lakoff & Johnson (1980) é que, segundo eles, as metáforas não somente ligam sistemas conceituais, ao serem processadas, mas, de uma forma intrínseca básica, as metáforas constróem, motivam e restringem tais sistemas conceituais (cf. Gibbs, 1994). Lakoff & Johnson identificam metáforas conceituais pela análise de Tópicos-Veículos em exemplos de metáforas convencionais encontradas na linguagem dos falantes nativos. A partir daí, eles generalizam dos itens encontrados na estrutura superficial para sistemas de pensamento deduzidos. Cameron critica esse procedimento, afirmando que tais análises pecam por estabelecer uma inferência direta indevida entre o uso da linguagem e as teorias sobre sistemas de pensamento.

Uma formulação interessante é a de que os ‘domínios’ nos quais ocorrem os Tópicos e Veículos não parecem se constituir de domínios unificados de itens lexicais subjacentes únicos, mas antes grupos amorfos de todos os tipos e níveis de informação e significados que podem ser ativados ao se processarem os Tópicos e Veículos. Além disso, no processamento em tempo real, esses domínios são restritos e influenciados pelo contexto discursivo e pelo que os falantes trazem para o discurso.

Questão 2: Que grau / espécie de diferença é necessária entre o Tópico e o Veículo para a identificação de metáforas?

Uma das possíveis indicações de que estamos diante de uma metáfora é, segundo a definição de Burke, a ocorrência de um ‘em termos de algo diferente (recorde-se a definição de Burke mencionada acima: "Metáfora é um meio para se compreender algo em termos de algo diferente", minha ênfase, MBC) que implique em algum tipo de contraste. A natureza desse contraste entre o Tópico e o Veículo tem sido considerada como um fator de identificação de metáforas. A literatura especializada rotulou esse contraste de várias formas: tensão, incongruência conceitual, anomalia ou noção contrária à pratica normalmente aceita. Uma possibilidade de análise, ao se tentar estabelecer de forma precisa essa incongruencia conceitual entre o Tópico e o Veículo, é utilizarmos a distinção de Estrutura-Foco (Frame-Focus) de Black (1962). A vantagem de nos utilizarmos dessa noção como uma ferramenta analítica é pelo fato de os limites da Estrutura poderem ser imprecisos na análise do discurso real. Essa característica de imprecisão talvez a torne mais apropriada para a análise da linguagem em uso, ao invés de uma exigência em termos de uma distinção clara, como aquela entre os domínios do Tópico e do Veículo.

Como um exemplo de que o grau de diferença entre os domínios do Tópico e do Veículo é, em última análise, uma decisão que depende de uma decisão teórica do analista, vejamos uma exemplificação de Cameron (ibid.), onde, em um contexto de discurso específico, vários diferentes Veículos são usados para se referirem ao mesmo Tópico, cada qual gerando seu diferente grau de incongruência conceitual entre os domínios representados. Vejamos a discussão entre uma professora e seus alunos, em uma aula de ciências, sobre o natureza da lava vulcânica (o Tópico), onde três possíveis Veículos são mencionados:

    1. a lava vulcânica é como manteiga derretida
    2. ... ou melado grudento
    3. A lava derretida é como cera?

Tomados esses dados em um contexto discursivo específico do estudo de ciências, conclui a autora que os exemplos (1) e (2) podem ser considerados como ‘diferentes domínios’ justapostos, classificando-se, então, como símiles metafóricas, ao passo que o exemplo de número (3) apresenta um domínio muito próximo do Tópico e, portanto, provavelmente não metafórico. A analista mantém que os dados em uso freqüentemente produzem situações conflitantes como essa, obrigando o pesquisador a tomar uma série de decisões sobre a natureza da metáfora, na medida em que está é percebida em termos de uma diferença maior ou menor entre domínios contrastantes.

Uma possibilidade nova de análise quanto à diferença entre Tópicos e Veículos é apresentada pelos psicólogos Glucksbert & Keysar (1993) que propõem considerarmos a metáfora como uma afirmação de inclusão-em-classes, com o termo Veículo funcionando como um prototípico exemplo de uma categoria funcionando no papel de termo superior. Um exemplo disso seria Meu emprego é uma prisão, onde o Tópico meu emprego refere-se a um emprego específico, ao passo que o Veículo prisão refere-se a uma categoria.

Questão 3: Como o Tópico é ‘compreendido em termos do’ Veículo?

A escolha de um termo Veículo retirado de um domínio distinto do termo Tópico tem a função de adicionar algo extra ao entendimento do Tópico , provavelmente também ao Veículo, no discurso. O processo de se entender algo em termos de algo distinto é um processo de raciocínio analógico que parece ser uma habilidade básica do ser humano (cf. Vosniadou, 1989). Esse ‘entendimento em termos de’ algo distinto é denominado por Gibbs (1999) "processamento metafórico" (ao passo que ele denomina de "processamento de metáforas", ao processamento de partes da linguagem identificadas como contendo metáforas). A habilidade básica do ser humano (isto é, o processamento metafórico de Gibbs) sempre envolve o processamento ativo entre domínios incongruentes, através do raciocínio analógico que é visto por Vosniadou & Ortony (orgs., 1989) como um processo mental básico subjacente à metáfora e à analogia e que envolve a transferência de relações (e não meramente de características) do Veículo para o Tópico (cf. Gentner, 1989: 233). Uma conseqüência direta dessas observações é que uma teoria adequada para a interpretação de metáforas terá de operar não somente com características ou atributos nos domínios conceituais mas também com as relações ou as ligações explicativas entre eles; além disso, ela precisará estabelecer de forma precisa como tais ligações podem ser transferidas do Veículo para o Tópico.

A premissa central da pesquisa em lingüística aplicada que está explicitamente preocupada com a linguagem em uso, segundo Cameron (ibid.), é que o processamento da linguagem metafórica acontece no contexto do discurso e esse fato tem de ser levado em consideração a partir da própria fundamentação da construção da teoria, bem como do desenvolvimento de construtos analíticos. O processamento da linguagem metafórica ocorre em contexto e se utiliza das expectativas discursivas dos participantes nessa interação. Segue-se naturalmente daí que os aparatos teóricos utilizados para operacionalizar as metáforas também têm de levar esse contexto fundamentalmente em consideração.

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