| Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 02, 2003 - ISSN 1676-2924 |
Resumo: A dimensão estética ganha espaço no cotidiano. Paradoxalmente, a imagem corporal sempre foi motivo de desconfianças, no que diz respeito à construção do conhecimento humano.Tomando a estética como uma alavanca metodológica, este texto discute a possibilidade de expressão da subjetividade através da imagem. A partir de um recorte do cotidiano, representado na figura de uma jovem, reflete aspectos da visibilidade que remetem a conseqüências sociais, como a inclusão e exclusão.
Abstract: The aesthetic dimension is very important nowadays. Paradoxically the human body` s images presents questions and doubts in studies about the human meanings. Makes use of aesthetic referential as an analitical tool, this paper discusses the possibility of subjectivity expression taking the human body´ s form and appearence. Through the image of an young woman, debates aspects of visibility that characterize social inclusion and exclusion.
Palavras-chave: jovem - imagem - exclusãoA imagem se faz presente nas relações de cada um, que é ao mesmo tempo ator e espectador. Cada um é testemunha. O que podemos dizer sobre o jovem, o homem, a mulher, a partir de sua imagem? Um olhar para o cotidiano pode ser nosso exercício e desafio: o que se oculta e se revela?
Uma menina... Batom, brinco, faixa no cabelo enrolado. Apetrechos femininos, na bolsa a tiracolo, misturam-se com restos de balas e alguns trocados. Pés descalços ou saltos altos apontam o caminho da rua. São mulheres, ainda meninas. A vaidade no asfalto pode ser arma certeira na guerra pela sobrevivência. O vai e vem dos pequenos quadris, em corpos quase sempre mal tratados. Assim desfilam as "flores do asfalto" pela cidade. Perambulam pelas ruas, um destino meio vago. Filhas, que às vezes são também mães, brancas ou negras, altas ou baixas, roliças ou magrelas, roubam a atenção de quem passa.
Que sentidos têm essas imagens ?
Meninas e meninos que perambulam pelas ruas, onde o batom ou o boné podem ser uma marca em busca de "ser". Confundem-se, atropelam-se, aglomeram-se em praças, nas marquises à noite para dormir. Encravados na história de uma cultura, pequenos corpos que circulam dia e noite, anônimos, desafiando carros, brincam com a vida e a morte, insistindo em permanecerem vivos.
Cidade maravilhosa, cheias de encantos mil. Mosaico de um país, de uma realidade, ou figurinhas fáceis em qualquer lugar? São jovens e crianças perdidas, sem a magia de Peter Pan. Possuem um corpo, talvez a única ilusão de propriedade.
Não é a cena de um filme. É a imagem de um dia a dia! A menina que troca o alimento pelo batom, o menino que descolore o cabelo e vai à luta. A menina, de pele morena, cabelos encaracolados, no batom um toque do consumo numa exaltação a um signo, símbolo da feminilidade na sociedade atual. "A lógica implacável da mercadoria", como diria Baudrillard, referindo-se ao objeto tão almejado, que adquire um valor simbólico na sociedade de consumo, quase um talismã, capaz de levar à menina a uma aproximação de possíveis imagens - sonhos, dos desejos de transformação de menina-moça em mulher. Os lábios pintados; uma aparência que se dirige ao outro? Uma forma de se tornar mais visível?
Para o olho adequadamente treinado, a beleza, a significação total do mundo como um todo, se irradia a partir de cada ponto singular (SIMMEL apud FRISBY,1992). Assim Simmel se remete não só aos prazeres do ato de observar de maneira contemplativa, mas também mostra como a partir da observação é possível captar significações.
Nosso ponto singular é aqui a menina morena, menina-moça mais menina que mulher..., um corpo, um rosto, onde é possível observar sua forma, as marcas de sua beleza ou horror, suas maneiras e gestos. Onde é possível observar sua aparência na sua corporeidade, assim como as implicações que dela advém. Implicações que se fazem presentes a partir da externalidade do corpo, que contém em si uma continuidade da individualidade maleável e elástica que se evidencia e se faz percebida pelo outro, suscitando reações, sentimentos, emoções. A menina de rosto moreno, que "não é um invólucro exterior àquele que fala, que pensa ou que sente" (GUATARRI,1996), mas traços específicos que delimitam um campo, que é lugar de ressonância da subjetividade. Subjetividade que seria vazia se os rostos não formassem lugares que selecionam o mental ou sentido. "O rosto é um verdadeiro porta-voz" (GUATARRI,1996). O rosto é representativo de um corpo que intermedia a realidade do mundo e nossa realidade imaginária; ele faz parte da existência, é produto dela interna e externamente. Existência que se manifesta nos modos e estilos de vida, onde interatuam os fatores econômicos, políticos, culturais, bem como os pequenos fatos da existência cotidiana.
O que se visualiza não é desprovido de conseqüência para nossa relação com o mundo, mas isso exige uma mudança de perspectiva (MAFFESOLI,1996),no sentido de estender para além de formas tradicionais de produção de conhecimento, a busca das respostas. Esta mudança de perspectiva se apóia principalmente numa reflexão estética elaborada sobre a noção de forma proposta por Simmel (SIMMEL apud MAFFESOLI,1996), que a concebe como um a priori, que ordena as situações e as particularidades observáveis. A forma relaciona motivações e maneiras de ser, que não são exclusivamente racionais nem exclusivamente sensíveis.
Ao estarmos atentos à forma podemos entendê-la não como uma externalidade vazia de sentido, mas como resultado de um princípio de organização que nos remete a um sentido. Daí a observação de Simmel que a atitude "do artista se baseia no pressuposto de que o significado profundo das coisas se revela adequadamente nas suas aparências..." (SIMMEL apud MAFFESOLI,1996, pg.247)
O sentido existente na forma estabelece uma ponte com a profundidade, como faces dinâmicas de uma mesma organização, com ligações e reciprocidades. A imagem, a aparência, é uma forma de manifestação de vida, e está implicada com o sentido. Estes sentidos podem ser tão diversos quanto são os sujeitos, podem ser uma contestação aos sentidos existentes, ou ainda uma adesão a comunicações ou manifestações feitas por outros sujeitos, mas estarão, a nosso ver, sempre remetidos às singularidades destes sujeitos e aos momentos vivenciados. Entendemos que o que se mostra não é separado do que chamamos de interior e de profundidade, fazendo ambos parte do sujeito. Assim a forma, a externalidade do corpo não é neutra, não é vazia, e interpretar esta forma pode ser um caminho para o conhecimento.
Visibilidades
No contato com o outro, no andar pela cidade, o ser reconhecido e ser aceito, se impõe. Nos grandes centros, circula-se entre milhares de pessoas, num fluxo intenso, o rápido ir e vir de gente que se mistura, os carros, o movimento dinâmico da cidade. Ver e ser visto, num contato por vezes imediato, tornam-se fundamentais e significativos, talvez os únicos recursos possíveis para estabelecer identificações e relacionamentos. Tornar-se visível no espaço urbano é fugir do anonimato da multidão, é uma possibilidade de participação social, de se fazer reconhecido. O aumento do número de pessoas nas últimas décadas, gerou novos modelos de aproximação nos espaços de circulação, tornando mais fortes a necessidade de um contato através do visível. A visibilidade facilita as aproximações que foram se disseminando, decorrentes de mudanças que exigiram um controle sobre os comportamentos e emoções, banindo da civilização a proximidade. O ritmo frenético das grandes cidades evoca uma nova forma de comunicação, de mais fácil leitura, onde o sentido da visão se faz presente no olhar e perceber, fazendo da visibilidade uma possibilidade de transmitir e captar. Assim aquele que é visto, aquele que se mostra, se implica com sua aparência, porque é através dela que será visto e percebido pelo outro.
Nossa menina moça, "seu cabelo não nega - mulata...", como na música de Lamartine Babo. Mulata, mestiça, ilustre desconhecida e ao mesmo tempo um ícone nacional, um símbolo de identidade, cruzada no sangue, sincrética na cultura. Um traço, uma cor, que marca a história de um povo, onde a particularidade da miscigenação é considerada uma especificidade nacional. Reflexo da mistura no plano racial e cultural, imagem de mutações culturais, sociais e políticas.
A miscigenação racial, as segregações e hibridizações entre diversos setores sociais e seus sistemas simbólicos, os fragmentos da abundância e da pobreza estão estampados nas imagens de nossos jovens, negro ou índio, branco, mulato, mestiço, caboclo, rico ou pobre. Suas configurações físicas, suas indumentárias revelam suas inserções sociais, e um somatório de associações que elas suscitam. A imagem da menina não se esgota numa externalidade, mas representa o quanto a cor de sua pele a empurra para o lugar que ocupa hoje. Filha de um racismo à brasileira, que segue as marcas de aparência física e "percebe antes colorações do que raças" (SCHWARCZ,1998), integra status e condição social, impondo condições de vida que reproduzem a exclusão social.
Pobre sim, mas de batom, de bolsa, bijuteria e adornos, tão importantes quanto o alimento. Sinal dos tempos, de uma sociedade hedonista e de consumo, onde os bens materiais existem, não apenas como utilidade, mas têm valores simbólicos e representações, onde a busca do prazer, inclusive de consumir, estão presentes.
A "menina de rua" sabe de seus limites de circulação, nos lugares não só privados mas também públicos, delimitados num primeiro momento, principalmente pelo seu próprio visual, tem clareza do não lugar que ocupa, da exclusão social que lhe está reservada, bem como de sua impossibilidade de ter as inúmeras coisas que necessita e deseja. A menina circula pelas ruas, acompanhada de outras meninas ou meninos semelhantes à ela, os quais tem também acesso vedado a outros espaços em função de suas roupas, de sua higiene, enfim de sua imagem.
Esta situação fica evidenciada no episódio ocorrido em um Shopping Center do Rio de Janeiro, quando os intitulados "sem terra" adentraram pelo shopping. Os corredores iluminados, delineados pelas lojas reluzentes e cheirosas, com vitrines exibindo as mais diversas e atraentes mercadorias em combinações de cores e estilos, ocupados por vendedores e consumidores, combinando com a arquitetura e decoração, tem sua harmonia quebrada pela entrada de um grupo de pessoas que logo chama a atenção de todos pela "diferença" que pode ser identificada logo no primeiro momento, trazendo espanto aos usuários do Shopping e fazendo com que vários comerciantes fechassem suas portas. Esta diferença está estampada na imagem destes indivíduos, nos rostos, nos cabelos, nos gestos. Estes "meros indivíduos", como se refere Figueiredo a essas pessoas que não tem nome que lhe pertença, que "não encontram facilidades na tarefa de constituir o próprio lugar, de edificar a própria morada", naturalmente não portavam um certificado de que não tinham dinheiro ou propriedades, mas estava estampado em suas aparências, em suas roupas, em seus corpos maltratados, em seus sorrisos sem dentes, a sua situação de excluídos. São excluídos nos direitos de cidadão, no poder aquisitivo, são excluídos pela visibilidade de sua pobreza e da sensação que provoca sua imagem no outro.
Não queremos aqui reduzir o problema social e econômico da exclusão como cidadão a uma única dimensão, mas ressaltar como a dimensão da imagem, é um dado de informação, que tem a possibilidade de ser imediatamente captado pelo outro, e muito rapidamente gerar efeitos. A visibilidade leva a novas exclusões e subordinações.Trata-se de constatar como a imagem funciona como um fator de grande comunicabilidade que impulsiona e favorece a exclusão ou inclusão nos grupos ou setores sociais.
A imagem corporal funciona como uma função signo, uma função de reconhecimento, em que a imagem pessoal é associada a uma dimensão cultural, onde as práticas e bens denotam um estilo de vida, num determinado tempo e espaço social. A dimensão estética passa a ocupar uma posição privilegiada para pensar o sujeito dentro de nossa época, e é este referencial estético que é explorado por Maffesoli ao propor uma lógica da identificação que põe em cena as "pessoas" de imagens variáveis, onde o corpo e a aparência são a marca de uma sociedade estética e pluralista.
A exterioridade do corpo evidencia uma subjetividade que denuncia um sujeito complexo.Variações, modificações, conversões são os termos que traduzem essas mudanças e que constituem um modo de abordagem, de pensar o sujeito a partir da saliência da identidade como efeito estético, construindo-se na relação com o outro. A identificação, tal como proposta por Maffesoli, pressupõe o modelo emergente de identidades múltiplas, fluídas, que permitem aos sujeitos uma certa tramitação de valores e aparências, seja para identificar-se a um modelo, seja para proteger-se ou aproximar-se de ideais e valores. Ao apontar para a importância da dimensão da estética na identificação, Maffesoli a compreende como incorporando uma diversidade de emoções e sentimentos, de forma tal que a aparência dos corpos remeteria a uma dupla dinâmica: a estética que diferencia, e a estética que agrupa (LEHMANN,1998).
A possibilidade de se dirigir ao outro, faz uso do corpo num jogo de simbolismo e de imagens. Essas características fazem verdadeiros enquadramentos dos sujeitos e de suas relações, uma vez que pertencer significa ter acesso, ter direitos, compartilhar interesses, lugares comuns, consumir produtos e serviços, mas também ter elementos semelhantes visualmente. A população jovem no Brasil, é marcada por uma profunda heterogeneidade, principalmente no que diz respeito ao acesso à alimentação, educação, tecnologia, serviços etc, mas possui uma imensa capacidade de mobilizar os bens disponíveis e processos sociais e culturais (GUIMARÃES,1998). Assim, vemos que o jovem é capaz de apropriar-se de estilos, que funcionam como mediadores nesta tentativa de inclusão, ou pelo menos de aproximação aos segmentos privilegiados. Estes estilos podem comportar aspectos diversos, podem incluir músicas, danças ou outras práticas jovens, que se tornam visíveis através de suas imagens, ou ainda de um simples corte de cabelo ou boné, demonstrando estar atento ao mundo que vivencia.
Considerações finais:
Começamos com uma imagem: a menina pobre, morena de lábios vermelhos, e através dela procuramos refletir o que nos é dado a perceber, através da imagem do corpo. As aparências estão implicadas com as dinâmicas e mutações, com os sentimentos e emoções, nem sempre éticos, da sociedade contemporânea. Como então podemos nos abster de olhar para toda esta dimensão da imagem e classificá-la de supérflua? Inúmeras vezes cenas rápidas nos apontam para formas de experimentar e vivenciar, de buscar novos modos de relações com o outro, ou entender os que a nós se dirigem.
Inclusões e exclusões se ancoram na visibilidade, isto não quer dizer que não existam outras referências na busca de identificações e pertencimentos, no entanto a dimensão imagética tem se mostrado pregnante, tornando-se assim, condição indispensável na compreensão da experiência subjetiva, tão complexa na sociedade atual
. ReferênciasSimmel apud Frisby D. In Simmel and Since. Essays nos Georg Simmel´s Social Theory.London: Routledge, 1992.
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MAFFESOLI, M . No fundo das aparências. Petrópolis: RJ. Ed. Vozes, 1996.
Simmel apud MAFFESOLI, O paradigma estético (a sociologia como arte) in Jessé Souza e Berthold Oilze. Simmel e a Modernidde Ed.UNB,1998.
SCHWARCZ, L. M.. Nem Preto nem Branco, Muito pelo Contrário Cor e Raça na Intimidade. in. SCHWARCZ, L. M. (org.) História da Vida Privada no Brasil. Vol.4, São Paulo: Cia. das Letras,1998.
FIGUEIREDO, L.C. Modos de subjetivação no Brasil e outros escritos. São Paulo: Editora Escuta, 1995.
LEHMANN, L.M.S. et alii. Estetização do corpo: identificação e pertencimento na contemporaneidade, in: Infância e adolescência na cultura do consumo. CASTRO, L. R. Rio de Janeiro: Ed. Nau,1998.
GUIMARÃES, E. Escolas. Galeras e narcotráfico. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ
,1998.