| Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 02, 2003 - ISSN 1676-2924 |
SENTIDOS DA HISTÓRIA E HISTÓRIA DOS SENTIDOS DA CIÊNCIA DA
INFORMAÇÃO:
um esboço arqueológico
Resumo:
O artigo pretende contribuir para uma análise arqueológica foucaultiana da Ciência da Informação. Estranha a ausência de análises de história social da disciplina em foco e relaciona essa ausência aos compromissos operacionais desse saber, que parecem dificultar a des-naturalização tanto de si e de seu objeto, quanto de suas condições de constituição histórica. Busca situar principalmente suas superfícies institucionais de emergência, a construção de seu objeto e algumas de suas instâncias de delimitação e regulamentação. Em sua conclusão, não descarta as possibilidades epistemológicas desse saber, mas chama a atenção para o necessário esforço neste sentido, em momento político-ideológico especialmente desafiador para a área de informação.Abstract:
This article intents to contribute to towards foucaultian archeological analysis of Information Science. The absence of social history analyses of the subject in question is strange and its relates this absence to the operational obligations of this knowledge, which seem to make the de-naturalization not only of it self and its object but also of its historical constitutional conditions difficult. It attempts mainly to situate its institutional emergency surfaces, the construction of its object and some of its delimitation and regulamentation instances. In conclusion, it doesn't discard the epistemological possibilities of this knowledge, but calls attention to an efforts necessary in this sense at an especially challenging political-ideological moment in the field of information.
Palavras-chave: ciência da informação - arqueologia; ciência da informação -
epistemologia; documentação - história.
O histórico [...] é definido
não como fatos e datas, como evolução e cronologia, mas
como significância, ou seja, como trama de sentidos, pelos
modos como eles são produzidos.
(Orlandi, 1996, p. 76-77)
Nenhuma ciência goza do privilégio
de uma imaculada concepção
(RICOUER, 1977)
1. Introdução
Durante pesquisa sobre os quadros traçados pela Ciência da Informação para a informação na contemporaneidade, necessitamos situá-la historicamente. Quando pensamos em introduzir esta temática em nossas reflexões, não tínhamos em mente uma listagem de fatos justapostos em ordem cronológica a título de uma história da Ciência da Informação. Pensávamos em, sucintamente, abordar as condições gerais de seu aparecimento e de sua reivindicação de disciplina científica. Buscávamos uma possível leitura de seus sentidos na história, já que para nós e para a metodologia que utilizamos na pesquisa a Análise do Discurso de linha francesa história é sentido, interpretação. A arqueologia de nosso objeto implicava a genealogia de seus sentidos.
Como tratava-se de auxílio interpretativo, procuramos em textos historiográficos da área análises das condições históricas de sua constituição. E nisso residiu nossa grande dificuldade: os textos encontrados uns clássicos desta historiografia e outros não abordam os temas tratados de forma muito diversa daquela que procurávamos. As efemérides em CI e seu contexto histórico imediato e apenas ele eram listados cronologicamente como auto-evidentes, evolucionários e, no mais das vezes, naturalizados.
Não tínhamos a intenção de iniciar nesse tema nosso trabalho interpretativo, mas nos demos conta de que os textos lidos, mais do que fontes de dados e análises para nossa pesquisa, terminaram por surgir como monumentos dessa própria história, constituindo seus efeitos, seus sintomas, sua colocação em marcha. As argumentações e conceitos apresentados concretizam funcionamentos, relações de forças e mitologias oriundas dos processos históricos dos quais pensamos que eles iriam tratar. Falam, sim, desses processos, só que de outra maneira. Só nos restava tentar extrair daí os "sentidos fundadores" de que necessitávamos.2 Interpretação, passível de ser outra...
Não pretendemos tratar aqui do feixe complexo de relações institucionais, processos econômicos e sociais etc. que cercaram a formação da CI como disciplina, que por si só justificaria uma grande pesquisa específica. Iremos apontar ao menos as relações entre a construção de seu objeto e sua configuração, via suas superfícies institucionais de emergência e algumas de suas instâncias de delimitação e regulamentação, aspectos da arqueologia foucaultiana. (Foucault, 1987, p. 47 e 51) Entremeamos estas análises com algumas considerações sobre seus sentidos históricos.
Pensamos contribuir como primeiro passo para o que resta por fazer para a completa análise arqueológica foucaultina e para pensarmos o solo epistêmico da área que veta ou autoriza teorias. Não analisamos os modos de formação dos conceitos na CI, traço importante para análise das formações discursivas em Foucault. Seria interessante seguir suas especificações para tanto: as regras de seu aparecimento; suas formas de sucessão: a organização hierárquica do campo enunciativo segundo seriação (lei geral / aplicação particular; premissa / inferências; hipóteses / verificação; fato observado / teoria explicativa; descrição / classificação; certo / provável etc.); suas formas de coexistência: coexistência entre enunciados da mesma disciplina ou disciplinas afins; suas formas de intervenção: como trabalha seus enunciados (utilização de linguagem natural ou formalizada; formas de sistematizar proposições preexistentes; técnicas de conversão de enunciados qualitativos em quantitativos etc.) (FOUCAULT, 1987)
2. A documentação e a invenção da informação
Se preservar e transmitir cultura (saberes) são atividades sem as quais não se poderia pensar o homem enquanto tal, após o surgimento do capitalismo, especialmente em sua face industrial, essas atividades adquirem uma nova dimensão. A necessidade da gestão institucional dos saberes - intervenção institucional sobre seu "fluxo normal" - confere um novo significado a um termo mais antigo: informação. Ao mesmo tempo em que se fortalece a divisão social dos saberes - separação entre produtores e consumidores de cultura -, fracionando-se a sociedade e as instituições em inúmeras atividades específicas, a informação passa a ser o cimento para reunir o que se fracionara. (cf. Fernandes, 1993)
Grande parte dos autores lidos situa os antecedentes da constituição da CI nos esforços bibliográficos de organização de registros ou de seu acesso (Shera; Cleveland, 1977, Buckland; Liu, 1995 e Pinheiro, 1997). Esta atividade apontava para uma certa fissura com o objeto das tradicionais atividades bibliotecárias, pois não envolvia diretamente a organização de acervos, mas de temáticas consideradas de interesse. Também se constitui fundação histórica da separação básica que, a nosso ver, possibilita a construção da noção de informação: o isolamento dos "conteúdos" de seus suportes físicos.
Marx demonstrou a historicidade do fazer teórico, em sua análise da construção da noção de trabalho em geral, que se constitui apenas quando e onde o trabalho se desliga da terra, de um senhor e das condições materiais de sua produção, podendo ser vendido. Trabalho teórico é trabalho simbólico inserido na história.
Isso significa que não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época [... Mas o objeto] não preexiste a si mesmo, retido por algum obstáculo aos primeiros contornos da luz, mas existe sob as condições positivas de um feixe complexo de relações. (Foucault, 1987, p. 51)
Rayward utiliza concepções foucaultiana para traçar histórica e discursivamente a emergência dos objetos e da própria CI:
O que hoje casualmente nos referimos como "gestão" e "informação" são, como "Ciência da Informação", construtos recentes. Como tal, eles obrigam o historiador a compreender que houve um rompimento com o passado e que algo novo foi tornado possível, que uma concatenação de novas circunstâncias e processos, tanto disciplinares quanto mais amplamente sociais, criaram as condições para a emergência de novos modos de conceptualização de aspectos da realidade e de pensar e falar sobre eles. Tomando emprestada uma noção de Foucault, podemos dizer que uma formação discursiva ocorreu, alcançando o limiar de positividade. Implicitamente reconhecemos que algo como isto aconteceu quando usamos tais expressões como parte da linguagem corrente comum, como "revolução da informação", "sociedade da informação" e "revolução gerencial". (RAYWARD, 1999, p. 11)
No caso da Documentação, podemos falar de um nascimento europeu: na Europa Ocidental do final do séc.19 desenvolve-se uma iniciativa sistemática de cunho internacionalista buscando trabalhar especificamente com a produção acadêmica mundial: a criação em Bruxelas, em 1892, do Instituto Internacional de Bibliografia.3 Num novo "enxugamento" rumo à circunscrição da "informação" como objeto, começam a ser nomeadas as atividades técnicas sobre material acadêmico como "Documentação", livrando tais atividades da prisão do formato livro.
Nos EUA, as primeiras atividades em Documentação se dão pré Segunda Guerra via centros de pesquisa privados, ainda sem maior participação do Estado. Estas atividades se concretizam na adequação do tratamento da informação às tecnologias emergentes de reprodução e armazenamento da informação registrada, sendo desenvolvidas principalmente pelos membros do American Documentation Institute (ADI) criado em 1937. O ADI forma-se, inicialmente, apenas com membros institucionais ligados, principalmente, a empresas de tecnologia da informação. Na década de 1960, quando readquire expressão após período analisado a seguir, o presidente do ADI é proeminente funcionário da IBM. (Shera; Cleveland, 1977)
Gomes (1972) ao abordar as atividades em Documentação nos EUA, neste período, comenta:
A competição, característica dos países de economia capitalista, era fator direto na política de funcionamento dos serviços de informação [...] informação somente aos membros das organizações. [...] Não visavam difundir informação para o desenvolvimento científico e tecnológico em geral, mas atender necessidades específicas de determinado laboratório ou indústria. (Gomes, 1972, p. 6)
Buckland (1996) afirma que os setores de seguros, engenharia e indústria bélica foram os principais focos de desenvolvimento da Documentação pré-Segunda Guerra nos EUA.
Se as atividades acadêmico-científicas jamais se constituíram em atividades inteiramente autônomas dos poderes políticos e econômicos, suas instituições, seus pesquisadores e produtos foram crescentemente convocados a participar dos processos tecnológicos de acumulação industrial e do esforço bélico. A necessidade de disponibilização do conhecimento social, para os setores envolvidos historicamente fornece as condições para o surgimento de novo campo de atuação e reflexão, assim como a constituição de seu objeto, previamente autonomizado de seus suportes físicos e encarado como bem econômico-político.
Mas esse mesmo movimento histórico parece apagar seus rastros: as condições para a constituição dessa nova área não parecem poder ser pensadas por ela. Há na sua historiografia elaborada por seus próprios teóricos um grande apagamento do industrialismo e/ou capitalismo como sua condição histórica, compensado por uma larga naturalização, tanto de si quanto de seu objeto. Observamos como quase invariavelmente os historiadores da CI, ao falarem das condições para seu aparecimento e crescimento, terminam por listar, não fatores histórico-sociais de fundo, mas outros de seus 'co-efeitos': "interesse no problema da informação por parte do mundo científico; interesse do governo federal [dos EUA]; desenvolvimento tecnológico acentuado; crescimento do número de pessoas ligadas à criação e ao uso de informação científica e tecnológica" etc. (cf. Shera; Cleveland, 1977, p. 258) ou ainda "crescimento de equipes científicas; aumento no número de cientistas e pesquisadores; aceleração de pesquisas e de conhecimento; desenvolvimentos tecnológicos; esforço de guerra." (Pinheiro, 1999, p. 254) No Brasil, análise histórica não dominante na área pode ser encontrada em González de Gómez (2000) e em Mostafa et al. (1992) em sua crítica à naturalização de processos sócio-históricos, ao funcionalismo e ao behaviorismo dominantes na CI.
O advento da participação do Estado a superfície institucional histórica de emergência da CI, como veremos a seguir se inicia durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, na Europa Ocidental, nos EUA e na URSS as atividades de Documentação marcam uma transformação na dominância de sentidos de legitimidade ligados à informação: de humanista culturalista âmbito da Biblioteconomia em sua abordagem da informação como bem social de livre acesso público (cf. Harder, 2000) para estratégico-político e econômico-administrativo âmbito dos centros de documentação em sua abordagem da informação como bem privado ou estratégico.
Apesar disso, a Documentação na FID era encarada, como o foi posteriormente pela UNESCO, em seu sentido mais cooperativo, ligado à concepção do conhecimento como bem da humanidade, visando o intercâmbio bibliográfico internacional. Nos encontros promovidos nas tentativas de concretização de tais propostas na década de 40, os EUA enviavam representantes do Departamento de Estado (!) e apenas como observadores. Esse distanciamento só se transforma após 1950, quando a ADI, além de começar a aceitar membros individuais em seus quadros, passa a representar os EUA na FID. (Shera; Cleveland, 1977)
3. Estado, geopolítica e Ciência da Informação
Nos EUA, a criação de novas tecnologias para tratamento e recuperação da informação foi largamente acelerada em agências de inteligência governamentais durante a Segunda Guerra Mundial (como o Office of Strategic Service), sendo essas tecnologias e métodos transpostos para serviços de documentação científica e tecnológica no pós-guerra, como os cartões perfurados para a recuperação da informação por assunto. (Shera e Cleveland, 1977, p. 254)
Tanto para o Estado norte-americano quanto para o soviético neste, primeiro com a industrialização leninista e posteriormente na guerra fria stalinista as atividades ligadas à informação passam a ser encaradas como assunto estratégico de Estado.
Podemos dizer que a Documentação nos EUA sofre dois impulsos importantes, ligados a questões geopolíticas: o tratamento de informações estratégicas durante a guerra e o lançamento do Sputnik soviético em plena guerra fria. No pós-guerra americano encontramos as primeiras referências aos valores políticos e estratégicos da informação. O tema passou a ter importância no âmbito governamental, levando à criação de agências civis e militares, com o apoio do Congresso, do ADI, empresas (IBM, GE, Eastman Kodak etc.) e instituições universitárias. Com o choque do Sputnik, os EUA se lançam a uma corrida frenética a programas de educação científica e exploração espacial, passando o governo a encarar a informação científica e tecnológica como ponto focal de esforço. (Shera; Cleveland, 1977, BOWLES, 1999, HAYES, 1999 e outros)
Na própria Conferência Internacional de Informação Científica de Washington (1958), considerada o evento fundador da CI, foi explicitado o caráter político-estratégico da informação, ressaltando-se a importância "do aparato e processos de informação científica e tecnológica em função do lançamento do Sputnik, em 1957". (Herner, 1984)4 Segundo Saravecic5, as três maiores agências de fomento para as atividades de Documentação nos EUA Departamento de Defesa, National Science Foundation e National Institute of Health ditavam os padrões da CI norte-americana. Hayes (1999, p. 224) chega a situar as questões estratégicas e geopolíticas como motor dos avanços técnicos no tratamento e recuperação da informação nos EUA: à necessidade de tratar a massa documentária recolhida no 'espólio' de guerra alemão se somavam as demandas da comunidade de inteligência (CIA, National Security Agency - NSA, setores de inteligência das forças armadas). Já outros autores, como Bowles (1999), enfatizam o peso da 'reconversão informacional' do pós-guerra, com o boom das publicações e conseqüente 'gargalo' da informação científica e tecnológica.
Os anos de 1960, nos EUA, marcam o início da implantação de vários sistemas de informação de âmbito nacional por agências governamentais devotadas à informação científica e tecnológica (NASA, Energia Atômica, Saúde Mental e Medicina) ou serviços especializados (Science Information Exchange, National Referral Center e Committee on Scientifc and Technical Information). Em 1962, existiam 250 projetos de CI apoiados pelo governo dos EUA. (Shera; Cleveland, 1977)
No âmbito internacional, podemos constatar a mesma abordagem geopolítica da informação. Vários debates promovidos em 1972 pelo Advanced Study Institute in Information Science da OTAN aliança bélica ocidental , têm importante papel na promoção da reflexão da área sobre si mesma. (Shera; Cleveland, 1977 e Belkin, 1975)
Mas, indo em outra direção, vemos, de meados ao final da década de 60, a UNESCO, juntamente com órgão internacional voltado para a informação científica, discutir as bases de um sistema Mundial de Informação Científica para "cooperação voluntária internacional", o UNISIST, com marcas da discursividade da informação para o desenvolvimento adjetivado como científico, tecnológico, econômico, social e cultural e da concepção do conhecimento como bem da humanidade, visando seu uso na superação dos "desequilíbrios internacionais" (cf. Pinheiro1997, p. 78, baseada em pesquisa de Hagar E. Gomes), insistindo nos princípios da FID.
A URSS vinha investindo pesadamente em Documentação bem antes dos EUA. Segundo Richards (1996), o Comitê Central do Partido Comunista da URSS teve significativo papel na construção de um complexo sistema de importação e tratamento da informação de periódicos científicos do Ocidente para suprir seus próprios cientistas e tecnólogos. Em 1952, foi fundado o VINITI (Instituto para a Informação Científica) para efetivar tais serviços. Porém, segundo a autora, esse órgão havia sido concebido bem antes da morte de Stalin: desde 1946 existia serviço de informação com a finalidade central de manter os cientistas soviéticos atualizados no que faziam os norte-americanos em pesquisa atômica e projeto de foguetes. No período stalinista, apenas certos grupos estritamente controlados tinham acesso a este material. Nos anos 70, o VINITI chegou a empregar mais de 25.000 funcionários.
Parte das ilusões que cercam a CI e seu objeto se concretizam em comentário feito por Richards: "O VINITI teve mais o papel de agência de controle da informação do que disseminação, o que provavelmente determinou sua forte e contínua manutenção pelo governo." (Richards, 1996, p. 87) Além de podermos verificar mais semelhanças que diferenças nos papéis do Estado das duas potências no controle da informação em plena guerra fria e corrida armamentista , constatamos nesta afirmativa a crença numa antinomia disseminação X controle, não considerando que as escolhas de temas, fontes, aspectos, formas de tratamento e de disseminação, são sempre controle/gestão de informação.
4. E a Biblioteconomia?
Retornando à cisão promovida pelas atividades de Documentação no seio das práticas informacionais e no corolário ideológico-discursivo tradicional da Biblioteconomia, encontramos revelador texto de Buckland (1996), no qual procura analisar o "retardo" dos EUA, com relação à Europa, na adoção e disseminação das práticas da Documentação entre o final do séc. 19 e o pós Segunda Guerra. Entre outras questões, ele se pergunta por que, apesar de todas as inovações na tecnologia de informação produzidas nos EUA entre 1900 e 1939, a Biblioteconomia e seu ensino foram refratários aos novos métodos e objetivos. Em sua explicação, o autor termina por revelar a origem do cisma entre bibliotecários e documentalistas americanos, que ultrapassa o corporativismo ou a rejeição das novas tecnologias de informação por parte dos primeiros (BOWLES, 1999), apontado por grande parte dos autores sobre o tema como sua causa.
Buckland, vociferando contra o "conservadorismo" da Graduate Library School da Universidade de Chicago o centro intelectual da Biblioteconomia americana na época que se recusava a aderir às idéias de Dewey6, Otlet e Briet para este autor, precursores da concepção de gestão da informação , demonstra que a questão central era mais profunda. O autor ilustra sua crítica com dados que demonstram as áreas de interesse do curso de Chicago imprensa antiga, leitura e bibliotecas públicas e as compara com os focos principais do interesse da Documentação inovações tecnológicas e design de serviços voltados para as necessidades da ciência, P&D e indústria.
Bowles (1999) ao tratar do que intitula "guerra da informação" entre bibliotecários e documentalistas, qualifica os primeiros de "humanistas antiquados" (p. 156) e estabelece reveladoras oposições representativas da disputa: biblioteca X centro de informação; estética e humanidades X ciência e tecnologia (p. 161); passivo (atendendo necessidades "genéricas" e "inferiores" de "adultos, crianças" e "pesquisadores da área de humanas") X ativo (atendendo à "elite": "setores governamentais e industriais modernos") (p. 162)
Vemos que o grande corte promovido pela demarcação de territórios e abordagens da área posteriormente chamada de CI foi com as práticas e discursividades do humanismo culturalista de uma Biblioteconomia centrada no público veleidades para a cultura capitalista norte-americana que se aprofundava e espraiava sobre novas áreas da vida social. Concluímos que a verdadeira luta se travava entre a visão culturalista-humanista e a visão tecnológico-econômico-gerencial no trabalho com a informação registrada.
Esta luta durou até o final dos anos de 1940: 1948/49 marca o início do ensino de disciplinas de Documentação em escolas de Biblioteconomia nos EUA (Shera; Cleveland, 1977, p. 255). No início da década de 1950, as novas perspectivas começam a produzir efeitos aparentes na literatura norte-americana de Biblioteconomia, premida, segundo o autor, pelo "esforço de guerra, pelo advento de novas tecnologias e por novas tarefas ligadas aos interesses nacionais durante a Guerra Fria", incluída aí a Big Science sustentada pelo governo. Nesse período, várias escolas de Biblioteconomia se estabeleceram em Institutos técnicos e iniciou-se uma lenta mudança, que se estendeu pelos anos de 1960, estando os litígios dissipados nos anos de 1970. (cf. Buckland, 1996, p. 71 e 73)
5. As disciplinas se instauram construindo seus objetos...
Retomemos a informação, não mais como possibilidade histórica de construção de uma positividade sobre a qual atuar, mas em algumas das formas históricas em que a CI vem conceituando-a. Como nos mostra Foucault em grande parte de sua obra, as disciplinas se constituem junto com a invenção de seus objetos. A indissociabilidade dos dois aspectos deste processo nos leva agora a buscar, ainda que brevemente, flagrá-los no mesmo movimento.7
Para González de Gómez8 (1999), como construção discursiva, a informação foi originada nos campos econômico-produtivo e estratégico-militar de Estado como vimos aqui em torno da década de 1930. O esforço teórico sobre essa nova positividade informação e seu entorno florescem a partir da década de 1940: 1947, com a Cibernética de Wienner; 1948, com a Teoria da Informação de Shannon e Weaver; e 1951, com a Teoria Geral dos Sistemas, de Bertalanffy. No final da década de 1950, via eventos internacionais significativos na área, começa a ser utilizada a expressão Ciência da Informação para designar a área do conhecimento que trata da informação científica, título que se firma internacionalmente em meados da década de 1960.9
No início dos anos de 1960 começa a busca de fundamentação teórica para a nova área. As primeiras tentativas de uma autodefinição foram formuladas em encontros históricos, no Georgia Institute of Technology (1961 e 1962):
Ciência que investiga as propriedades e comportamento da informação, as forças que governam o fluxo de informação e os meios de processamento da informação para otimização da acessibilidade e do uso. O processo inclui a origem, disseminação, coleta, organização, estocagem, recuperação, interpretação e uso da informação. O campo é derivado de, ou relacionado a matemática, lingüística, psicologia, tecnologia computacional, pesquisa de operações, artes gráficas, comunicação, ciências biblioteconômicas, administração e alguns outros campos. (apud Shera; Cleveland, 1997, p.265)
Tomemos também outras definições clássicas na área.
Ciência da Informação é a disciplina que investiga as propriedades e comportamento da informação, as forças que regem o fluxo da informação, a fim de alcançar acessibilidade e utilização ótimos. (Borko, 1968)10
Ciência da Informação é uma disciplina orientada a problema relacionado com a efetiva transferência da informação desejada, do gerador humano para o usuário humano, e a única noção comum a todos os conceitos é o de mudança de estruturas. (Belkin; Robertson, 1976)
11O objeto da Ciência da Informação é o estudo do comportamento, propriedades e efeitos da informação em todas as suas facetas, e o estudo de uma variedade de processos de comunicação que afetam e são afetados pelos seres humanos (Saracevic apud Neves, 1992)
Para Wersig e Neveling (1975)12, a Ciência da Informação, junto a outras disciplinas que se concentram em processos de informação, visam a redução da incerteza. Em 1970, a informação e suas operações passam a ser abordadas como fenômeno (Otten; Debons, 1970)13 e não como construto, completa seu processo de fundação como ciência, mitologizando seu objeto como parte do real-concreto.
Também para a CI soviética informação "é o dado de valor para a tomada de decisão". (Yovits, 1971)14 A busca de um conceito conveniente ou adequado demonstra o embricamento entre a constituição da área e a construção de seu objeto. Para alguns autores soviéticos isto é expresso:
o conceito de informação deve ser balizado pelos objetivos da Informática (nome soviético da CI), para eles, uma ciência social dirigida a uma meta, qual seja, a transferência mais efetiva da informação [científica] desejada do humano gerador para o humano usuário. (Belkin, 1975, p. 57)
Note-se que a significativa insistência da relação entre a informação e o "homem", "humanidade" parece ligar as práticas informacionais à espécie humana em geral, completando o processo naturalização/des-historização que já apontamos na historiografia da área. Parece mesmo que o homem apareceu mais recentemente na CI ocidental: Saracevic lista as questões dominantes nas diversas fases da CI recuperação da informação; contextos da informação, como os usuários e as situações de interação; e, mais recentemente, reconhecimento da informação como relacionada aos processos de comunicação humana. (Saracevic, op. cit. apud Pinheiro, 1997)
Consideramos mesmo que esse "esforço" em introduzir o "homem, "indivíduos" ou mesmo "pessoas" nas reflexões teóricas da CI mal encobrem, ou, ao contrário, revelam, a forte tendência de reificação dos processos histórico-sociais da comunicação, da informação, da ciência em geral e de seu próprio saber em particular. Isto fica mais patente quando encontramos as marcas discursivas da completa identidade entre o objeto estudado, sua ciência e o próprio real: "Shera (1971) também sugere que a Ciência da Informação é um aspecto do processo comunicacional.' (Shera; Cleveland, 1977, p. 262)
Novamente vemos como os próprios determinantes históricos de sua constituição parecem atrapalhar ou mesmo impedir que a CI se debruce sobre eles analiticamente. A indiferenciação entre seu objeto e o seu saber dificulta a inserção de suas reflexões no âmbito da sociedade, apesar das repetidas afirmações de que a CI é uma Ciência Social, insistência que só tem paralelo com a sua dificuldade de pensar os processos histórico-sociais envolvidos nas práticas informacionais. Isto termina por gerar uma série de circularidades no desenho de seu objeto. Esse fato é apontado por Belkin para as iniciativas conceituais dos autores soviéticos. Saracevic também termina por reconhecê-lo, porém nenhum dos dois analisa essas tautologias fundadoras como constitutivas.
González de Gómez (2000) assim aborda a relação entre as origens da CI e suas questões teóricas:
Desde suas primeiras manifestações, apresentava-se [...] a Ciência da Informação como conjunto de saberes agregados por questões antes que por teorias. Se sob o princípio da neutralidade assumiria como causa de sua emergência a mudança de escala da produção dos conhecimentos, provocando a elevação dos custos de tratamento, operacionalização, transmissão e aproveitamento dos grandes estoques de registros do conhecimento, outras premissas implícitas remetiam à intensificação das relações entre ciência, o Estado e a indústria, conjugadas pelas políticas do pós-guerra de segurança e desenvolvimento. Neste horizonte de formação, a Ciência da Informação tenderá a incluir, em seus programas de pesquisa e na definição do domínio de construção de seu objeto, traços e demandas da sociedade industrial [...]. (González de Gómez, 2000. Grifos da autora.)
Em 1991, foi promovido importante encontro internacional de CI visando aprofundar e clarificar seu objeto de pesquisa, nas perspectivas histórica, empírica e teórica. Nesse encontro novos caminhos reflexivos foram apresentados como contraponto aos atualmente dominantes, como a crítica da visão positivista e naturalizada de informação que domina a área. (Buckland; Liu, 1995) Alguns expositores apontaram o caráter discursivo do objeto da CI. Frohmann criticou a tendência da CI a nivelar todas as práticas estudadas para estabilizar seus objetos, numa "estratégia discursiva universalizante e totalizante". E aponta que a CI dominantemente vem abordando a "informação como commodity, pessoas como consumidores de informações identificáveis, dentro de condições de economia de mercado". (Frohmann, 1991)15
6. Uma ciência operacional?
Vimos apresentado as tendências que lograram hegemonizar a área, não sem lutas, como mostramos. Mas, como em qualquer campo, os sentidos não são homogêneos e não cessam de movimentar-se. Vislumbra-se outra teia...
Vê-se lentamente aprofundar-se alguma reação às marcas da CI como saber somente operacional de gestão de processos, da mesma forma que alguns setores da Ciência da Informação consideram como seu objeto o conjunto das práticas de informação na sociedade, e não apenas no âmbito científico e tecnológico. Aponta-se, não para uma tentativa retórica de inclusão do social nas práticas informacionais, e sim um reconhecimento do caráter inelutavelmente histórico e discursivo de seus temas.
Frohmann (1995) afirma que
a fixação [da área de informação] em questões instrumentais, com foco sobre a maximização técnica e gerencial da eficiência de fluxos informativos [...] leva seus estudos a] obscurecer as questões ligadas às relações entre informação e poder. O foco sobre problemas instrumentais e questões epistemológicas restritas ao estabelecimento e policiamento de fronteiras entre disciplinas desvia a atenção de questões de como o poder é exercido em e através de relações sociais mediadas por informação, como o domínio sobre a informação é alcançado e mantido por grupos específicos e como formas específicas de dominação especialmente aquelas de raça, classe, sexo e gênero estão implicadas no exercício do poder sobre a informação. (Frohmann, 1995, p.3)
O fortalecimento dessa tendência envolve uma retomada, ainda que em nível diferenciado, de alguns dos sentidos da velha querela Biblioteconomia/Documentação, agora transpostos para debaixo do grande guarda-chuva disciplinar em que vem se transformando a CI. Antes, lutas da fissão, hoje, lutas da fusão.
Porém, diante das exigências de maior aprofundamento teórico, maior refinamento conceitual, historicização dos jogos informacionais, reconhecimento do caráter discursivo dos objetos e práticas da área etc., alguns autores como Saracevic e Wersig desqualificam essas questões com a alegação de que as disciplinas científicas pós-modernas ou originárias da Sociedade da Informação prescindiriam do atendimento de tais exigências. Pinheiro (1997) defende essa posição:
A Ciência da Informação se inscreve entre os novos campos do conhecimento da sociedade da informação, caracterizados por também novas exigências teóricas. [...]
Mesmo os teóricos da área reconhecem a ausência de um sólido terreno teórico, essência do estágio científico de qualquer área, na visão tradicionalista. Este parece ser um problema não exclusivo da Ciência da Informação, mas de campos do conhecimento mais recentes, surgidos no limiar dos anos 50 e 60 e que marcam a era da sociedade da informação.[...]
As críticas que lhe são feitas como disciplina científica, de fragilidade conceitual e teórica dos resultados de aplicações de leis, parecem responder a exigências naturalistas e positivistas anacrônicas e inadequadas à sua natureza. (Pinheiro, 1997, p. 1, 6 e 256)
16Se por vezes a CI aparece como resultado da Sociedade da Informação, outras vezes é apresentada como promotora da mesma: [A Ciência da Informação tem tido] uma participação ativa e deliberada na evolução da sociedade da informação. (Saracevic, 1992)17 Essa estranha "dialética" histórico-sociológica vem perpassando os discursos da CI, demonstrando um embricamento não apenas entre a sua constituição como disciplina e a construção de seu objeto, mas também entre este conjunto e o traçado (projeto?, justificativa?) de uma forma de contemporaneidade, nosso objeto central no estudo que justificou a presente análise.18
7. Conclusão: Ciência da Informação, epistemologicamente viável?
As áreas de conhecimento/atuação já tradicionais da Biblioteconomia, assim como da Arquivologia, sofreram impactos significativos das novas demandas de gestão eficiente do crescente acúmulo de massas de conhecimento registrado gerado pelo processo de racionalização capitalista e pelas estruturas estatais que lhe correspondem. Tais impactos, como vimos, se fazem sentir na Biblioteconomia com as concepções de Documentação e, posteriormente, com a criação de nova área disciplinar, a Ciência da Informação, o mesmo ocorrendo na área de Arquivologia, na forma da concepção de Gestão ou Administração de Documentos. Jardim (cf. 1987) ressalta o fato de que nessa última, a nova concepção não decorreu de uma demanda interna das próprias instituições arquivísticas, mas externa, principalmente a partir de iniciativas estatais com relação à administração pública. O mesmo ocorreu com os tradicionais objetos da Biblioteconomia, que passam a ser abordados nas novas concepções, inicialmente via iniciativa privada, no caso da origem da Documentação nos EUA, e via Estado, no caso da origem da Ciência da Informação internacionalmente.
Note-se que estes desdobramentos nos campos de atuação informacional deram-se pela via da ruptura com as tradições das disciplinas em foco, e não via uma "evolução" histórica linear dos conhecimentos arquivísticos ou biblioteconômicos, como considera boa parte da literatura da área.
Nossos achados em pesquisa (Freitas, 2001) apontam para um recente e forte aprofundamento da legitimação econômica para as atividades da área, despindo-as abruptamente dos sentidos humanistas, culturalistas e políticos tradicionais. Pensamos que tais sentidos apagados, que ainda se prendiam às redes de sentidos do discurso dos direitos - discurso revolucionário da burguesia em sua tomada do Estado - vêm sendo substituídos pelos discursos diretamente econômicos, característicos da configuração neoconservadora atual.
Também as Ciências Sociais, dentre as quais veio a se inserir a CI, nasceram comprometidas com técnicas de gestão social dos indivíduos.
[...] marcá-los, classificá-los, compará-los, colocá-los em ordem, em colunas, em tabelas, reuni-los e separá-los segundo critérios definidos, a fim de colocá-los no trabalho, a fim de instruí-los, de fazê-los sonhar ou delirar, de protegê-los e de vigiá-los, de levá-los à guerra e de lhes fazer filhos... (Pêcheux, 1997, p.30)
Apesar disso, em suas contradições, as Ciências Sociais puderam desenvolver conhecimentos científicos.
Se a CI, como vemos em nosso esboço arqueológico, se constituiu com uma "missão" operacional de otimização de fluxos, a afirmação de seu caráter científico na concepção empiricista da ciência como busca rigorosa de regularidades em um "real" naturalizado e não necessariamente baseado em trabalho teórico , se num primeiro momento serviu como legitimação institucional para suas atividades acadêmicas, também abriu caminho para verdadeiras reflexões científicas. Esses investimentos19, construídos em seus interstícios, têm rendido algumas boas tentativas teorizantes que, infelizmente, não constituem hoje sua produção majoritária.
Se notamos que o próprio debate epistemológico se dá sob condições históricas determinadas, tememos que cada vez mais sejam reconhecidos e valorizados socialmente apenas aqueles conhecimentos considerados "produtivos" no sentido econômico e não da produção intelectual. O grande risco é a diluição do que hoje chamamos de ciência sempre a ciência possível nos discursos hegemônicos ou dominantes, perdendo toda esperança de "objetivação".
Poderemos promover crítica e teoricamente nossa própria desnaturalização como profissionais e intelectuais, interrogar nossas tradições e instrumentos? Vemos, via discurso dos "novos tempos", "novos paradigmas" etc. (Freitas, 2001), ser traçado um quadro fechado para nosso futuro. As tentativas de desvendar os segredos da última fronteira, até aqui inexpugnável ao controle do capital - o conhecimento tácito, criativo e seus modos de atuação - vêm renovando os compromissos da CI com uma operacionalidade instrumentalizante, via as concepções de gestão do conhecimento, inteligência competitiva etc.
A denúncia feita por Foucault (1996) da elisão no Ocidente contemporâneo da realidade do discurso, apresenta vários desafios não só para as Ciências Sociais em geral, mas para a área informativo-documentária em particular. Ela toca em seu mito instituidor a informação como positividade , que se baseia na tentativa de fixação do jogo dos signos, sendo o discurso anulado, inscrevendo-se na ordem do significante. (Foucault, 1996) Isto implicaria a reconstrução do objeto informação em novas bases. A insistência da área de informação em tratar a informação como "fenômeno", que envolve a ilusão de uma apreensão perceptiva do referente como condição pré-discursiva do discurso, não permite a mesma que vislumbre suas próprias tomadas de posição ou seus diferentes lugares discursivos nas formas de representações imaginárias do referente informação.20 A área só existe sob a ordem do significante? Ou é possível repensá-la teórica e metodologicamente pelo viés discursivo? Uma exigência objetivante básica é o esclarecimento do lugar de enunciação e interpretação de seus sujeitos. Essas perguntas devem poder ter lugar.
Agradeço às Professoras Geni Chaves Fernandes e Hagar Espanha Gomes a gentil apreciação de versão preliminar deste texto, isentando-as das análises e dos possíveis equívocos que possam neste artigo constar.8. Referências
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NOTAS
1
Parte dos resultados da pesquisa de Tese de Doutorado em Ciência da Informação junto à ECA-USP, intitulada Na teia dos sentidos: análise do discurso da Ciência da Informação sobre a atual condição da informação, concluída em 2001. Realizada com bolsa da CAPES.7Neste item, ao trabalharmos com definições e conceitos já clássicos, utilizamos muitas vezes fontes secundárias (apud).desempenhou um papel central no desenvolvimento dos modernos discursos e atuais práticas institucionais da 'Era da Informação'. [...] foi um fator crucial no desenvolvimento de um modelo tecnoburocrático e gerencial de informação. Este modelo não apenas guia muitas das atuais pesquisas e práticas profissionais de Biblioteconomia e Ciência da Informação, mas também fornece as bases para a mercantilização da informação que é essencial para os exercícios contemporâneos do poder sobre a informação, seus usuários e seus usos. (Frohmann, 06.09.99, Home Page, disponível em: http://www.fims.uwo.ca/people/faculty/frohmann.html/)