BARRENECHEA, Miguel Angel. Nietzsche e a Liberdade. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras, 2000.
Valéria Cristina Lopes Wilke
Mestre em Filosofia pela UFRJ
Professora - DFCS/UNIRIO
O professor Dr. Miguel Angel de Barrenechea, do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO), publicou Nietzsche e a Liberdade, editada pela 7 Letras, em 2000. De uma maneira fundamentada, muito clara e descomplicada, ele nos apresenta o pensamento de Nietzsche tendo como princípio norteador a elucidação do conceito nietzschiano de liberdade. A clareza da abordagem, que encontramos nessa obra, nos leva também a refletir sobre o próprio fazer filosófico, pois nos indica que é possível tratar com grandeza e profundidade um tema sem ser hermético e sem dificultar a compreensão do leitor.
Nietzsche e a Liberdade é composto por três capítulos. No primeiro, o autor investiga genealogicamente a liberdade moral, na medida em que, ao discutir o aparecimento do conceito normativo de liberdade e o significado de sua inscrição na perspectiva das doutrinas morais, nos apresenta a origem do livrearbítrio e das noções metafísicas construídas para sustentálo. O capítulo seguinte versa sobre a análise filológica do conceito de liberdade. Nele, o autor examina a forma como as doutrinas morais falam da liberdade e as principais noções envolvidas nesse falar, como sujeito, substância e causalidade.
Nessas duas primeiras partes encontramos o posicionamento crítico de Nietzsche diante do conceito normativo de liberdade. Como o próprio Miguel Angel acentua logo no início, "Nietzsche não nega a liberdade; contesta sim sua compreensão moral, que deturpa a dinâmica da conduta humana. A moral, a religião e a metafísica consideram o homem livre, dotado de uma suposta vontade autônoma, no intuito de tornálo imputável pelos seus atos, arrogandose o direito de julgálo e condenálo. Esta tradição normativa emprega conceitos abstratos sujeito, vontade, causalidade etc com a finalidade oculta de controlar as ações do homem... A liberdade junto com a noção de pecado é um instrumento de tortura nas sociedades organizadas sacerdotalmente."
No terceiro capítulo "A liberdade artística" o autor expõe a concepção nietzschiana de liberdade, mostrando o quanto ela se afasta radicalmente da concepção moral e como se aproxima da criação e da arte, uma vez que tal concepção estaria fundamentada na autonomia do homem, criador incessante de valores. De acordo com essa perspectiva positiva, o livrearbítrio humano é criador, ou seja, o ser humano teria a capacidade de fixar continuamente novos valores, desfazendo e refazendo avaliações. Portanto, para além do bem e do mal estabelecidos pela moral e pela religião, tal como um artista, o homem criador estaria no devir de construir e destruir formas, avaliações, valores, estabelecendo novas interpretações, e nessa "arte de viver" ele próprio se constituiria.
Em Nietzsche e a Liberdade o autor apresenta ainda a estrutura da perspectiva trágica ao abordar o paradoxo da noção nietzschiana que faz do ser humano aquele que é livre ao acatar a necessidade, e que aceita, por isso, as forças presentes no jogo dionisíaco da vida.
Nietzsche e a Liberdade deve e pode ser lido tanto por aqueles que estão se iniciando no pensamento de Nietzsche quanto por aqueles que estão mergulhados nesse fascinante universo porque alia, de forma prazerosa, clareza e profundidade.