| Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 03, 2003 - ISSN 1676-2924 |
ESPAÇO E AFETIVIDADE: RECONSTRUINDO MEMÓRIAS DE IMIGRANTES POMERANOS ATRAVÉS DOS SEUS LOCAIS DE SOCIABILIDADE*.
Evandro Assis de Oliveira
Bacharel em História e mestrando em Memória Social e Documento pela Universidade do Rio
de Janeiro (UNIRIO)
Resumo: Este artigo refere-se à transformação e fragmentação dos espaços de sociabilidade dos descendentes de imigrantes pomeranos que colonizaram o município de Santa Maria de Jetibá no Espírito Santo no século XIX. Ao ter como centro de análise a memória social, nosso estudo procura analisar a organização e representação que os descendentes constroem acerca das instituições principais da cultura pomerana, que são: a Land (propriedade rural e ética camponesa), as escolas e as igrejas. Utilizamos em nossa pesquisa a metodologia da História Oral, assim como também analisamos fontes escritas (material iconográfico e informes regionais). Pressupomos que, através de estratégias cotidianas no uso da memória social, este grupo procura expressar a sua identidade social.
Abstract: This paper refers at the transformation and fragmentation in the pomeranos descendants of immigrants sociability spaces. These immigrants colonized the town of Santa Maria de Jetibá in the state of Espírito Santo in XIX century. Tends as analysis center the social memory, our study tries to analyze the organization and representations that descendants building about the principal institutions of culture pomerana, that it are: Land (rural property and communal ethic), the schools and the churches. We used as methodology in our research the Oral History, how we also analyzed sources writings (photographic material and regional informative). We presuppose that, through strategy of the social memory, this group search to express your social identity.
Palavras-chave: Espaço Sociabilidade - Identidade.
Introdução
O que objetivamos apresentar neste texto são os resultados preliminares da pesquisa que estamos desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Documento. A principal contribuição desse estudo de caso é ressaltar a importância das reminiscências culturais na organização do espaço idealizado e vivido por uma comunidade de descendentes de imigrantes pomeranos no estado do Espírito Santo.
Nosso tema de estudo é a memória social dos descendentes de imigrantes pomeranos do município de Santa Maria de Jetibá no Espírito Santo. Este município, localizado a 80 quilômetros de Vitória na micro-região centro serrana, é habitado por descendentes de imigrantes europeus que chegaram ao Brasil nos séculos XIX e XX.
Os imigrantes pomeranos eram da Pomerânia Oriental, região costeira do Mar Báltico no norte europeu, que foi extinta após o término da Segunda Guerra Mundial. Ao aportarem no Espírito Santo, a partir de 1846, os imigrantes foram classificados como prussianos por terem embarcado nos portos da Prússia.
As antigas colônias de Santa Isabel e Santa Leopoldina, com predominância de descendentes de imigrantes alemães, transformaram-se nos municípios de Domingos Martins, Santa Leopoldina e Santa Maria de Jetibá. Também há a presença de imigrantes alemães no município de Santa Teresa, predominantemente colonizado por italianos, nos distritos de Alto Santa Maria e Vinte e Cinco de Julho.
Dentre esses municípios, escolhemos Santa Maria de Jetibá por congregar o maior número de membros da cultura pomerana. Sua população residente é de 28.750 habitantes, conforme dados de 2000, fornecidos pelo IBGE. A auto-atribuição feita por membros do grupo estudado é anunciada em placas de boas vindas com a seguinte frase: "Santa Maria de Jetibá a cidade mais pomerana do Espírito Santo". Isso evidencia que a identidade dos moradores expressa na cidade, faz com que ela se torne um espaço em que os traços étnicos dominantes são fortalecidos. Ainda assim, há também descendentes de outras etnias (holandeses, suíços, belgas e etc) convivendo na mesma área micro-regional.
O movimento de emancipação política, iniciado em 1986, permitiu que em 6 de maio de 1988 fosse criado o município de Santa Maria de Jetibá. A cidade destaca-se por sua produção rural e as inúmeras manifestações folclóricas representativas da cultura pomerana. Além de atrair turistas de várias regiões do país e até da própria Alemanha, as manifestações folclóricas visam reacender o sentimento daqueles que um dia deixaram a cidade por melhores oportunidades de emprego retornando anualmente nas comemorações.
A Festa do Colono, criada para homenagear o produtor rural, é organizada pela Prefeitura, entidades locais e comunidades, ocorrendo anualmente em torno do dia 25 de julho "Dia do Colono". Outras festas populares também representam a cultura camponesa, entre elas: Fundação da Igreja Luterana, Festas Juninas, Festas Religiosas Luteranas: Oitava de Natal, Oitava de Páscoa, Oitava de Pentecostes, Ascensão do Senhor e Dia da Reforma.
Os ritos de prosperidade que estas festas encenam, visam homenagear, sobretudo as colheitas e a religiosidade. O agricultor é sempre exaltado mostrando a sua produção de alimentos, o apego ao trabalho e à terra.
Mesmo após anos de fixação no Brasil, o cotidiano destes descendentes é marcado pela forte presença de uma memória coletiva. A identidade étnica e social do grupo, preservada pelos descendentes, recria uma cultura que dialoga constantemente com um passado comum. A memória ancestral está inserida no presente, funde-se e se transforma com as necessidades de adaptação às mudanças culturais.
Portanto, a percepção de uma memória coletiva presente nos espaços de sociabilidade dos descendentes pomeranos de Santa Maria de Jetibá apontaria, sob nova perspectiva, a riqueza do sincretismo e pluralismo da cultura capixaba. Após inúmeras transformações históricas ocorridas na comunidade, a atual identidade cultural pomerana reconstruiu o regionalismo alemão e o modo de vida camponês.
Os locais de sociabilidade
Em nossas pesquisas, estudamos principalmente as comunidades de São Sebastião e Caramuru que se localizam nas áreas rurais próximas à sede do município de Santa Maria de Jetibá. Procuramos perceber nas entrevistas que realizamos com os colonos, algumas memórias que expressassem o modo de vida camponês e suas transformações através das gerações de descendentes pomeranos. Nas casas dos colonos, encontramos uma grande quantidade de material iconográfico (fotografias, quadros com dizeres bíblicos em alemão e certificados de procedência da família ou confirmação religiosa luterana) que ajuda a manter as relações com o passado comum.
O conjunto das propriedades rurais de uma comunidade é denominado pelos descendentes pomeranos como colônia. Os instrumentos de trabalho, os animais e a casa pertencem à Land (propriedade rural de uma família) e são dominados por uma maneira de vida e organização do trabalho própria que estrutura a realidade cotidiana e pode ser denominada de ética camponesa.
Por outro lado, o termo colônia serve para separar a área rural da cidade e também para mencionar as comunidades dos parentes que vivem em outros municípios do estado que tiveram imigração pomerana. Esses municípios são: Santa Leopoldina, Laranja da Terra e Vila Pavão que não foram selecionados em nossa pesquisa. Hoje, cada pequena vila de propriedades das famílias do município de Santa Maria de Jetibá, contribui para abastecer grandes mercados consumidores da região sudeste.
O desenvolvimento das comunidades possibilitou a construção e consolidação de uma memória própria. Esta foi a alternativa encontrada pelos descendentes de imigrantes pomeranos para se estabelecerem no Espírito Santo. O trabalho familiar, incorporado ao mito do colono pioneiro e desbravador, é um dos símbolos mais importantes nas comemorações. As empreitadas e mutirões para a manutenção das estradas e construção de casas e igrejas, além de outros problemas encontrados no início da colonização, ajudaram a fortalecer essa solidariedade.
O depoimento do Sr. Ernesto Bull nos mostra que, no início da colonização, o trabalho em conjunto, denominado por eles de mutirão, foi de fundamental importância para o estabelecimento e sobrevivência dos seus pais e irmãos:
Eles ajudaram de boa vontade...os vizinhos. As casas eram feitas de estuque e barro e eles ajudaram a fazer as paredes, eles vieram de longe, até os negociantes mandaram ajuda. A roçar, capinar...todos os vizinhos nos ajudaram....e as coisas não eram tão caras...os negociantes venderam mais barato.
Conseqüentemente, tendo como mito fundador a colonização, as trajetórias das famílias pomeranas foram preservadas nos locais de convivência e afetividade coletiva. Ainda hoje, eles evidenciam as diferenças étnicas e procuram manter distinta a memória dos antepassados e a cultura de suas regiões de procedência. O simbolismo que os espaços habitados possuem mostram claramente o objetivo de reconstruir uma memória coletiva que procura recriar o regionalismo.
Os locais de sociabilidade são locais de convivência social. Na comunidade pomerana que estudamos, podemos identificar em certos locais a intensa presença de lembranças vividas coletivamente. Escolhemos três instituições para estudarmos: a Land, a Igreja Luterana e as escolas paroquiais, elas se tornaram locais importantes e carregados de simbolismo cultural devido às recordações daqueles que lá viveram e desenvolveram as suas atividades diárias. A importância desses espaços está na realização de importantes ritos periódicos e trocas intersubjetivas diárias.
O lar, por exemplo, contêm valores que foram agregados por até cinco gerações, e que são transmitidos e transformados em identidade. Para a manutenção da vida diária a casa pomerana (Haus) é a célula da pequena propriedade familiar (Land), fundamental para a reestruturação e organização social das famílias pomeranas durante os primeiros anos de estabelecimento na região.
A Igreja Luterana foi fundamental para a estruturação da fé e da cultura pomerana, sendo o local sagrado para a expressão da religiosidade luterana da maioria dos descendentes pomeranos. Através do ensino confirmatório na igreja, as crianças sedimentaram a cultura germânica que foi sendo revivida e ampliada pelas comunidades que se formavam. Posteriormente, a reformulação das escolas paroquiais após a implantação das escolas públicas em 1942, redefiniu e ampliou a função dessa igreja na integração das novas gerações com a sociedade nacional.
O espaço religioso, espaço sagrado, é o local em que a ética camponesa entra em contato com a moral religiosa luterana. A importância do pastor é fundamental, ele ajuda na resolução dos conflitos domésticos e aqueles que envolvem os colonos da comunidade. A maioria dos conflitos é relacionada ao comércio, às relações matrimoniais e à herança da terra. Esses temas são trabalhados pelo pastor visando uma resolução interna antes das instâncias jurídicas formais.
Por outro lado, as colheitas estão relacionadas ao calendário anual que é organizado de acordo com as estações do ano. A festa em comemoração à colheita relaciona o espaço religioso com o cotidiano e o passado camponês.
A transmissão da oralidade e da religiosidade luterana permite a construção de uma identidade que se estrutura nas características étnicas. O sangue para os descendentes é um símbolo de pureza étnica e social. As relações de parentesco são pautadas pelas escolhas matrimoniais, os conjugues devem obedecer à ética camponesa. O modo de vida dos descendentes de imigrantes pomeranos, suas relações sociais no cotidiano, o trabalho e a religiosidade são a expressão da ética camponesa.
Desta forma, tempo e o espaço são os principais referenciais para a análise das memórias coletivas dos descendentes que entrevistamos durante o trabalho de campo. Quando e onde uma família se fixou na comunidade, assim como onde foi construída a primeira igreja são referências que estiveram presentes nos depoimentos e expressaram a identidade que liga os membros do grupo.
Tomemos como exemplo a família do Sr. Ernesto Bull, agricultor de 79 anos e morador do distrito de São Sebastião localizado a 5,5 quilômetros da sede do município de Santa Maria de Jetibá. A casa construída pelo seu pai na propriedade que herdou, tem a seguinte estrutura: a base é de madeira de lei, geralmente ipê, e as portas e janelas de chorana, todo esse material foi extraído das matas da região.
Os cômodos são divididos da seguinte forma: quarto dos avós, quarto dos pais e outros dois quartos para os filhos. A nova casa de alvenaria, construída no mesmo terreno da anterior, têm uma sala, uma cozinha, dois quartos e varanda. Ao lado direito desta casa, há um paiol de ferramentas e insumos agrícolas que também são guardados embaixo do assoalho da casa velha, que tem uma altura de aproximadamente um metro. Neste paiol, há também um moinho de pedra. Com o uso da eletrificação rural, o moinho que antes era movido à água ainda é utilizado para moer o milho necessário para fazer o pão (Brot) e alimentar os animais domésticos que servirão de alimento para a família.
No fundo da casa velha, numa continuação da cozinha, existe a casa do pão (Back Haus) onde se encontra o forno (Back ofen) e os utensílios utilizados no fabrico do pão. Esse espaço é utilizado predominantemente pelas mulheres. No início das entrevistas, as mulheres dificilmente chegavam à varanda em que estávamos, eventualmente apareciam com um olhar desconfiado. Só após a segunda entrevista é que uma delas apareceu para nos contar como é feito o pão pomerano (Brot). Essa atitude se deve ao respeito da autoridade paterna, um dos conceitos morais da ética pomerana.
A esposa do Sr. Ernesto Bull, Srª. Ieda Jacob Bull, nos contou que faz o pão para o sustento da família há 57 anos. Os ingredientes utilizados no Brot são: o fubá, o inhame chinês a batata doce e o aipim. Primeiro pega-se o resto de pão azedo, que é utilizado como fermento, e o acrescenta aos demais ingredientes, a mistura é assada por uma hora e meia no forno. Essa prática foi aprendida com a mãe que explicou para as filhas.
Esse hábito de fazer o Brot, assim como outros costumes ancestrais dos descendentes pomeranos são transmitidos em casa como parte do processo de socialização. Os costumes alimentares se transformaram em mais de cem anos de permanência no Brasil. Foi necessária uma adaptação à flora e ao clima da região para a sobrevivência das primeiras famílias que chegaram.
Por outro lado, os costumes matrimoniais pouco se transformaram. O casamento endogâmico ainda é uma prática bastante comum. O ritual do casamento é, antes de tudo, marcado pela avaliação familiar da aptidão moral e da forma de trabalho dos noivos. Depois de marcado o casamento e realizado o ritual na igreja, a cerimônia se completa com uma festa de três dias realizada pelos familiares, neste momento os principais destaques são o anunciador da festa (uma espécie de palhaço) e o ritual do quebra louças.
Atualmente, a participação dos jovens nas comunidades aumentou, seus laços de sociabilidade com outras pessoas de outros grupos sociais se intensificaram, e eles vêm problematizando a importância do casamento exogâmico e dos rituais realizados nas comemorações. A mudança de religião é um fator importante na transformação dos costumes matrimoniais, quando a mulher pomerana casa com um homem de outra denominação religiosa ela se converte à religião do marido.
Atualmente, algumas mulheres assumem a liderança econômica da família e participam mais ativamente das decisões da Igreja, da escola e dos sindicatos rurais. Em tempo de colheita de café, as mulheres participam do trabalho na lavoura e, diariamente, o trato com a casa, os filhos e os animais domésticos (aves, porcos e gado) é de responsabilidade feminina. O cotidiano masculino é dominado pelos assuntos relacionados ao trabalho na Land e à comercialização das mercadorias produzidas pela comunidade; são de domínio feminino os assuntos religiosos.
A permanência dos membros da família (filhos e netos) em casa depende dos critérios de herança da terra, que é feita de acordo com o número de membros da família. O filho mais novo fica responsável pela proteção dos pais o maior tempo possível, os irmãos mais velhos ganham suas próprias propriedades assim que se casam e a mulher não tem direito à terra, somente ao dote que são os insumos, ferramentas e animais.
Porém, a divisão do trabalho mantém características que sofreram poucas transformações para aqueles que permaneceram no campo. A transformação mais sensível foi a mecanização das atividades agropecuária e da olericultura, tais implementos aumentaram a produtividade das colônias gerando renda e mudando hábitos e costumes.
A pequena propriedade das famílias pomeranas está sofrendo uma desestruturação cultural devido à gradativa proletarização dos jovens. Essa é uma questão de suma importância para o debate sobre as estratégias da memória coletiva e construção de novas identidades. Como e onde alguns traços do passado permanecem ligados à vida prática, e outros, são esquecidos ou reconstruídos com outros fins?
No contexto atual, a globalização tem por característica principal a intensificação das relações sociais e a constante compressão tempo/espaço. As formas de uso e compreensão do espaço tornaram-se multifacetadas:
A globalização tanto divide como une; divide enquanto une e as causas da divisão são idênticas às que promovem a uniformidade do globo. Junto com as dimensões planetárias dos negócios, das finanças, do comércio e do fluxo de informação, é colocado em movimento um processo localizador, de fixação no espaço.
As relações entre global e local, através do tempo e espaço, são hoje intensificadas e se entrelaçam formando uma complexa rede. A tensão entre o global e as culturas particulares provoca a fragmentação e a homogeneização.
As mudanças, impulsionadas pela velocidade da informação, no meio rural se acentuaram com a chegada das antenas parabólicas, cujo sinal invadiu os lares junto com os mass media. Atualmente, as necessidades de consumo e de integração ao mercado permitiram que as novas gerações construíssem novas identidades e a desagregação tornou-se inevitável. Os espaços modernos e planejados sejam eles a sede do município, assim como Vitória (região metropolitana do ES) e outros estados, tornaram-se atrativos. Novas relações formais têm agora o seu experimentar-se, o estar "aqui" vem perdendo o sentido para o estar "lá":
"Próximo" é um espaço dentro do qual a pessoa pode-se sentir chez soi, à vontade, um espaço no qual raramente, se é que alguma vez, a gente se sente perdido, sem saber o que dizer ou fazer. "Longe", por outro lado, é um espaço que se penetra [va] apenas ocasionalmente ou nunca, no qual as coisas que acontecem não podem ser previstas ou compreendidas e diante das quais não se saberia como reagir: um espaço que contém coisas sobre as quais pouco se sabe, das quais pouco se espera e de que não nos sentimos obrigados a cuidar. Encontrar-se num espaço "longínquo" é uma experiência enervante; aventurar-se para "longe" significa estar além do próprio alcance, deslocado, fora do próprio elemento, atraindo problemas e temendo o perigo.
As relações entre os indivíduos e as instituições sociais em todo o planeta tornaram-se mais problemáticas, as comunidades pomeranas não fogem à regra. Qual a representação que os pomeranos têm das suas instituições étnicas? Quais os conflitos e divergências que perpassam a comunidade?
As famílias que preservam o costume de se reunir todos os dias no almoço, após os filhos chegarem da roça, acreditam que essa prática é importante e que algumas coisas não são como antes. A antiga casa pomerana, local de segurança e afetividade, também pode ser representada como um "lugar de memória". Com as necessidades das novas gerações, ela vai sendo recriada para aqueles que permanecem no campo. Os que permanecem, são responsáveis pela manutenção do modo de vida camponês.
Para esses jovens a família ainda é a principal referência cultural, assim como a Land e os valores morais mais importantes para a coesão do grupo. Segundo Halbwachs (1990), os quadros de memória serviriam para nos dar uma noção histórica das nossas lembranças:
As lembranças coletivas viriam aplicar-se sobre lembranças individuais, e nos dariam assim sobre elas uma tomada mais cômoda e mais segura; mas será preciso então que as lembranças individuais estejam lá primeiramente, senão nossa memória funcionaria sem causa.
Apesar do processo de urbanização estar desestruturando a propriedade rural, os descendentes pomeranos mantêm o hábito de socializar o trabalho e a religião em casa, transmitindo os conhecimentos e as lembranças do seu passado comum às novas gerações que ainda permanecem com a família.
No entanto e por outro lado, na escola, instituição socializadora e reprodutora por excelência, se dão alguns conflitos mais claros entre as gerações. As visões de mundo que a criança traz de casa e do ensino confirmatório das igrejas são colocadas em questão a partir do ensino público regular, fato que provoca constantemente a evasão escolar entre os pomeranos.
A visão acerca da educação é bastante peculiar entre os pomeranos. As primeiras gerações, por serem atendidas com o ensino regular precário do Estado brasileiro, desenvolveram escolas particulares que procuravam preservar as características culturais e éticas como a língua e a religiosidade.
A transmissão cultural iniciava-se com a transmissão oral, como forte influência materna e dos irmãos mais velhos. A complementação da ética social acontecia na Igreja Luterana com os pastores. No ensino confirmatório era feita a alfabetização em alemão, transmitida em cantos e ensinamentos bíblicos.
Segundo Pollak (1989), ao questionar a visão harmoniosa do ato de lembrar mencionada por Halbwachs (1990), afirma que ele é conflituoso, sobretudo quando entra em questão o que deve ser lembrado e de que forma deve ser registrado. Ocorrem disputas por uma determinada versão do passado, o que implica ter um certo posicionamento atual.
Os conflitos sociais e intergrupais fazem parte da história, da memória do grupo e conseqüentemente, dos próprios indivíduos. As estratégias da memória podem:
Reforçar sentimentos, pertencimentos e fronteiras sociais entre a coletividade, mantendo a coesão dos grupos sociais e das instituições que compõem uma sociedade. Para definir seu lugar respectivo, sua complementaridade, mas também as oposições, irredutíveis...defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum.
O depoimento do pastor Edgar nos mostra algumas das transformações mais notadas entre as gerações de fiéis da igreja Lutera da comunidade de Caramuru em Santa Maria de Jetibá ES:
É uma transição agora...da geração dos pais e dos jovens...os jovens já querem uma coisa diferente...por que aquilo que ele lê ele já entende...então ele quer ver discussão, ele quer discutir...ele tem perguntas...o que para a geração anterior essa parte está ausente...então gera uma certa...eu chamo transição por que os velhos são diferentes...os velhos vão aos poucos diminuindo...muitos não conseguem acompanhar...e com isso os jovens vão se sentindo mais entrosados.
As memórias de cada geração, intrínsecas ao grupo e às instituições, encontram paralelo nas posições ocupadas pelos indivíduos dentro da ordem social como um todo. Os contextos onde essas representações ainda mantêm a sua legitimidade são perpassados por regras próprias de ordenação e divisão do trabalho e de transmissão da tradição oral.
A construção da memória se efetua no presente, ao fazer uma releitura do passado e, além do mais, como salienta Halbwachs, não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial. Essa é a complexa problemática que procuramos estabelecer aqui entre Memória e Espaço. Cabe ainda ressaltar, que as relações de apropriação e organização do espaço vivido pelo homem se deram na historicidade.
Conclusão
É nesse sentido que percebemos nas representações daqueles descendentes pomeranos que ainda estão inseridos nas instituições e no mundo concreto do trabalho rural,
que as lembranças importantes ainda permanecem para que os indivíduos não percam as suas características culturais. Tendo em vista a reprodução do modo de vida camponês, os critérios de herança, de religiosidade e de trabalho fortalecem os laços comunitários.Por outro lado, as novas gerações, querem uma maior participação política e social na comunidade e buscam novas informações e padrões de comportamento para que novas identidades sejam construídas. Novas identidades sociais estão sendo construídas na velocidade do processo de mundialização, a comunidade procura evitar a dissolução da memória coletiva e da identidade cultural pomerana.
Notas
* Este artigo é fruto da pesquisa em andamento para elaboração da dissertação de mestrado em Memória Social e Documento, na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), sob orientação do prof. Dr. Marco Aurélio Santana.
1
BULL, Ernesto. Entrevista concedida ao autor em 16/10/2001.2
Os dados sobre a casa correspondem à habitação do Sr. Ernesto Bull. Porém, ele informou que a maioria das casas antigas da região tinha essas características, sendo depois construídas casas de alvenaria. No caso da família do Sr. Ernesto a antiga casa permanece até hoje no fundo da casa nova e é de interesse do seu neto, Ricardo, que tem o intuito de transformá-la em museu da família.3
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed. 1999. p 20.4
Idem. p 8.5
HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice. 1990.6
BAHIA, Joana. A lei da vida: confirmação, evasão escolar e reinvenção da identidade entre os pomeranos. Educação e Pesquisa. São Paulo, v.27, n.1, jan./jun. 2001. Pp. 69-82.7
POLLAK, Michel. Memória, esquecimento e silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v.2, n.3, 1989. p 9.8
VOLLBRECHT, Edgar. Entrevista concedida ao autor em 16/10/2001.9
Cf. FENTRESS, James e WICKHAM, Chris. Memória social. Lisboa. Teorema. 1992.10
HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice. 1990.11
BACHELET, Bernard. L´espace. Paris: PUF, 1998. Pp 5-24.