| Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 03, 2003 - ISSN 1676-2924 |
MEMÓRIA E TRABALHO NO BAIRRO DO JACARÉ - RIO DE JANEIRO*
Cristiane Muniz Thiago
Graduanda em História na Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Resumo: O presente trabalho tem como tema a memória dos ex-trabalhadores do complexo industrial do bairro do Jacaré, buscando identificar e analisar sua atual situação face à falência da maioria das industrias na década de 1990, bem como às repercussões desse processo para o bairro.
Abstract: The current research has a theme the memory of the old employees of the industrial complex of Jacare, trying to identify and analize the present situation of these employees due to the crash of most of the industries in the 90s, as far as the consequence of this process to the district.
Palavras-chave: Memória, trabalhadores e bairro.
Introdução
O presente trabalho tem como tema a memória dos ex-trabalhadores do complexo industrial do bairro do Jacaré, buscando identificar e analisar sua atual situação face à falência da maioria das industrias na década de 1990, bem como as repercussões desse processo para o bairro. Para entender os processos ocorridos no bairro do Jacaré, torna-se imprescindível considerarmos a comunidade do Jacarezinho que, de acordo com dados do IBGE de 1991, possui cerca de 34.668 moradores, que correspondem a 80,56 % da população do bairro Jacaré. Além disso, a maior parte da mão-de-obra do complexo industrial do Jacaré é moradora do Jacarezinho.
A relevância do trabalho está em reconstruir a memória de ex-trabalhadores, que contribuíram para o desenvolvimento da produção industrial do Brasil da década de 1960 e, que hoje está à margem da história. Cerca de 40 mil trabalhadores perderam seus empregos e sua atual situação merece uma reflexão sobre a decadência da classe operária no Brasil.
O complexo industrial do Jacaré ocupava cerca de 15 ruas do bairro e tinha uma enorme diversidade na sua produção, pois era possível encontrarmos indústrias de sapatos e bolsas, de materiais farmacêuticos, de vidros, de roupas, metalúrgicas, fábricas de café, etc.
Para análise dos processos ocorridos no bairro do Jacaré, utilizamos a metodologia da história oral, bem como o levantamento e análise de fontes documentais sobre os trabalhadores e as indústrias, relacionadas com o contexto histórico da decadência das indústrias.
A prioridade das entrevistas foi dada para trabalhadores que moram no bairro e presenciaram o processo de ascensão e decadência das indústrias. Foram feitas cinco entrevistas, quatro com moradores do Jacarezinho e ex-operários, e uma entrevista com um morador do bairro há mais de 50 anos. Além dessas cinco entrevistas, outras três foram feitas informalmente, sem o uso do gravador, pois a violência, constante no dia-a-dia do bairro, funciona como um fator inibidor na hora das pessoas darem seus depoimentos.
A escolha da metodologia da história oral como base do trabalho elucida a perspectiva de perceber como esses homens e mulheres construíram as representações, ao longo do tempo, sobre suas histórias de vida, e ao mesmo tempo possibilitar uma melhor compreensão dos fenômenos estudados.
Num primeiro momento o trabalho pretende apresentar um histórico do bairro, logo a seguir, a conjuntura da falência das indústrias, e por fim, uma análise através da memória de quem eram os trabalhadores dessas indústrias, qual sua relação com o bairro e como estão vivendo hoje.
Histórico do bairro
A partir da década de 1920, com o estabelecimento de indústrias na região da antiga Avenida Suburbana (Av. Dom Helder Câmara), o bairro do Jacaré, que era uma região de fazendas, passa a ser urbanizado e ocupado. É nesse período que surge, no bairro, a favela do Jacarezinho.
Já na década de 1940, grandes empresas, como a General Eletrics (GE), ocupavam a região e empregavam mais da metade dos moradores do Jacarezinho. Na década de 1950, com o crescimento do processo de industrialização, a população aumenta com a vinda de migrantes de diferentes regiões do Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
Em 1961, Carlos Lacerda assume o governo do Estado da Guanabara. Ao longo de seu governo, vai estimular o desenvolvimento urbano e industrial do Estado. Carlos Lacerda promove a ida de várias indústrias para o bairro do Jacaré, criando o complexo industrial do Jacaré. A localização do complexo foi decidida por ser o Jacaré um bairro central: ele fica próximo à avenida Brasil, além da proximidade com duas vias arteriais, a avenida 24 de Maio e a avenida Marechal Rondon, ambas construídas no governo de Carlos Lacerda. Outra via de acesso ao bairro é uma passagem de nível que liga a Rua Bráulio Cordeiro (principal rua do complexo) à avenida Dom Helder Câmara. Essa obra também foi realizada no governo Carlos Lacerda e ganhou dos moradores do bairro o nome de Buraco do Lacerda. Na década de 1990 a construção do túnel Noel Rosa e da Linha Amarela tornaram o acesso ao bairro ainda mais viável.
A conjuntura da falência das indústrias
Ao longo dos anos, crises na economia brasileira e na economia mundial, como a crise do petróleo na década de 1970, afetaram as indústrias brasileiras, provocando desemprego e falências.
No entanto, o período que mais afetou a indústria brasileira provocando sucessivas falências foi no início da década de 1990. Não fugindo à regra, foi nesse período que a maioria das indústrias do complexo industrial do Jacaré faliram ou tiveram suas unidades reduzidas se transferindo para estados onde havia maiores incentivos fiscais, ou ainda reduziram, consideravelmente, o número de empregados.
Em 1990, Fernando Collor de Melo assume a presidência do País, representando a esperança de milhares de brasileiros em realizarem o sonho da democracia após 21 anos de ditadura militar. Collor também representava o interesse do empresariado brasileiro que, supostamente, se beneficiaria com uma política econômica neoliberal.
Porém, metas como o controle da inflação não foram atingidas com sucesso e mudanças como a reestruturação produtiva provocaram um aumento considerável no desemprego estrutural ou desemprego tecnológico, ou seja, vários postos de trabalho foram, definitivamente, substituídos por máquinas. O desemprego estrutural é um problema mais complexo de ser resolvido, pois os trabalhadores, que perderam seus empregos por conta das inovações tecnológicas, necessitam aprender uma nova profissão para serem novamente absorvidos pelo mercado de trabalho.
No complexo do Jacaré, várias situações elucidam a conjuntura de crise que o país vivia na década de 1990. Um bom exemplo de desemprego estrutural gerado por inovações tecnológicas é o caso das indústrias de vidro que perdem espaço para a indústria de plásticos. A indústria de vidro Cisper, que na década de 1980 tinha cerca de 2 mil empregados, hoje tem cerca de 400 empregados.
O Sindicato dos Trabalhadores de Vidro tinha, na década de 1980, cerca de 8 mil filiados, hoje tem cerca de 2 mil. Em 1984, o sindicato se muda da Praça da Bandeira para o Jacaré, levando em conta o número de indústrias de vidro que tinham na região. Para continuar existindo, o Sindicato da Indústria dos Trabalhadores de Vidro fez uma remodelação e se anexou a outros pequenos sindicatos da área, passando a se chamar Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Vidros, Espelhos, Cerâmica, Louça e Porcelana.
De acordo com dados do sindicato de metalúrgicos do Rio de Janeiro, nos anos 1970, no Jacarezinho, existiam 15 pequenas metalúrgicas. Na atualidade, não existe nenhuma. O bairro do Jacaré teve, na década de 1970, mais de 50 metalúrgicas e na atualidade existem apenas 27.
Outro exemplo é Company (industria de roupas), que empregava cerca de 2 mil empregados, tendo fechado sua unidade no bairro em 1997, se transferindo para Miracema, MG, onde havia uma política de incentivos fiscais. Com o processo de empobrecimento sofrido pelo bairro decorrente principalmente da crise da economia, indústrias como, por exemplo, a Glaxo Welcome (farmacêutica) se transferem do bairro, mas também por conta da violência.
A Glaxo tinha cerca de 300 empregados e fechou sua unidade no bairro em 1999 se transferindo para Jacarepaguá. Segundo o gerente de comunicação da Glaxo, João Demenech, os dois principais motivos de a empresa deixar a região foi a falta de espaço para crescer e a necessidade de instalar máquinas mais modernas, que o prédio não comportava. Ainda segundo ele, a violência na região pesou na decisão. O vice-presidente da FIRJAN, empresário João Lagoeiro Bárbara explica: "Quisera eu que a troca fosse apenas para o aumento da produtividade. Se fosse isso o empresário aumentava ali com o custo menor". O empresário estava se referindo à questão da violência nos bairros.
O que se verifica no Jacaré é um grande número de galpões e prédios fechados. Se a violência não pesasse tanto na decisão das indústrias de saírem do bairro, provavelmente esses espaços seriam reordenados e aproveitados por essas indústrias em expansão.
O processo de falências ocorrido no bairro do Jacaré, seja ele ocasionado por uma crise econômica ou pelo aumento da violência na região, vai atingir principalmente os trabalhadores. Presença indispensável em um complexo industrial, eles vão configurar a imagem das indústrias e do bairro, e é através de suas memórias que tentaremos compreender a dinâmica das relações entre trabalho, organização sindical e partidária, e o bairro.
Memórias
Um dos pontos de destaque na memória dos moradores e trabalhadores do bairro do Jacaré é o movimento de organização comunitária do Jacarezinho. O movimento comunitário se torna relevante para a pesquisa, pois está diretamente vinculado à participação política no PCB e nos sindicatos, logo, estando presente na memória operária, tema principal da pesquisa.
A razão da nossa participação no movimento comunitário não era nem pelo comunitário, era pelo político, todo mundo aqui pertencia ao Partido... e a razão da gente participar do movimento comunitário é exatamente porque a gente tinha uma consciência diferente dos moradores e pensamos que tínhamos que organizar os moradores para organizar uma sociedade nova.
A entrevista acima é de um morador do Jacarezinho desde a década de 1950 e ex-trabalhador de indústrias no bairro. Ele entrou para o PCB em 1956, passando a organizar o movimento de base dentro das fábricas em que trabalhou. Seu trabalho se estendia à participação do movimento comunitário. O PCB e os sindicatos eram um ponto de convergência entre o bairro e a fábrica, unindo operários e comunidade em torno da idéia de uma melhor qualidade de vida. Um outro entrevistado explica sua participação no sindicato:
Eu fui trabalhar numa fábrica de sapatos e uns amigos que eram comunistas me chamaram para participar do sindicato... eu achei aquilo lindo porque lá era uma escravidão, lá os latifundiários fazia o pessoal de escravo... Eu aprendi também a ser comunista porque eu achava que o comunismo era a libertação da classe operária (risos).
Nesse trecho fica evidente a relação entre o sindicato e o PCB. A função do movimento de base nas fábricas ia além das reivindicações salariais, ela se estendia à participação política dentro dos movimentos comunitários onde o operário residia.
Outro ponto destacado nas narrativas dos trabalhadores é a perseguição pela participação sindical. Em uma das entrevistas, feita com um ex-alfaiate, a participação no PCB não foi citada, marcada por um silêncio que revela o receio de tocar em um assunto que já gerou tanta perseguição. A entrevista foi marcada por trechos como: "Será que eu devo falar nisso?". Esse alfaiate era operário de uma fábrica e tinha ativa participação sindical e foi demitido por ser considerado um "agitador". Após sua demissão em 1964: "... eu não mais arrumei serviço em fábrica nenhuma". O operário ficava marcado uma vez que a informação sobre sua participação sindical era transmitida pelo dono da fábrica a outras fábricas e o operário não conseguia mais arranjar emprego.
A partir de 1964, a luta comunitária e sindical sofre um abalo com o golpe militar, que traz uma limitação da liberdade de organização. Mas a luta continua mesmo que na clandestinidade. No Jacarezinho, os principais líderes se afastam da direção da associação de moradores e só vão voltar a partir de meados da década de 1970.
Na década de 1970, o Jacarezinho já era uma grande favela e na falta da presença do Estado, a associação de moradores fazia o seu papel, calçando e iluminando ruas. "Ao invés da prefeitura fazer, a gente era que fazia, o que era errado do ponto de vista político". Para os integrantes do PCB, a filosofia política entenderia como certo o fortalecimento do Estado para que este realizasse os melhoramentos dos quais a sociedade necessitava. Porém, as melhorias que o Jacarezinho necessitava eram urgentes demais para se esperar uma transformação maior da sociedade.
Já na década de 1990, quando se acentua o processo de falências e desemprego no bairro, esse grupo ligado ao PCB já não está mais participando da associação de moradores, apesar de ainda estar no movimento comunitário por vias alternativas. Hoje a associação de moradores do Jacarezinho não representa mais o interesse da comunidade.
Seja pelo afastamento do movimento comunitário e do próprio PCB, o processo de desemprego que assola o bairro parece não ser muito discutido por esse grupo que teve uma intensa participação política nas décadas anteriores.
Num primeiro momento da crise que levou à falência das indústrias e a um considerável número de trabalhadores dispensados, sem receber seus direitos trabalhistas, quem os apoiou foi o crime organizado.
Muitas indústrias faliram e não pagaram indenização aos seus funcionários. Uma saída para eles foi a invasão das fábricas e apropriação de máquinas de valor. O que ficou na memória, seja do ex-trabalhador seja do morador do bairro, foi que as invasões foram uma forma legítima de indenização, dada a perspectiva de não pagamento dos direitos trabalhistas.
Segundo o relato de uma moradora do Jacarezinho e cunhada de um ex-trabalhador demitido sem receber os direitos trabalhistas, essas invasões foram feitas com a ajuda do crime organizado, "o pessoal (os traficantes) foram os únicos que nos ajudaram". Seu cunhado esta até hoje sem trabalhar, sofrendo de uma doença em conseqüência do trabalho na indústria química.
Na memória das pessoas que se beneficiaram com essa apropriação os traficantes fizeram o papel do Estado, garantindo os direitos dos trabalhadores. Em comunidades como Jacarezinho, a presença do Estado é praticamente nula. Apesar da violência gerada pelo tráfico de drogas, o traficante é um referencial para a ajuda dos moradores. Ainda segundo o relato dessa moradora, a saída das indústrias do bairro se deve à crise econômica mas também ao crescimento da violência no bairro. Segundo ela, empresários eram seqüestrados com relativa freqüência e fábricas como a Company tinham seus carregamentos de roupas constantemente roubados.
As invasões das indústrias não foram feitas apenas para a apropriação de máquinas, também houve invasões com o intuito de fazer os terrenos das indústrias de moradia. A primeira medida para a ocupação dos galpões abandonados era a retirada das telhas. Isso era feito para impedir que outras empresas ocupassem os galpões, permitindo então a fixação de moradores. A ocupação desses galpões foi feita por pessoas que não estavam inseridas na dinâmica econômica gerada pelo complexo industrial, mas também foi feita por ex-trabalhadores que pagavam aluguel e passaram a não ter mais condição de fazê-lo.
A partir da análise do que foi o movimento operário, tanto para a participação nas fábricas quanto para a participação no movimento comunitário, podemos partir para a análise das repercussões do processo de falência das indústrias e do desemprego para os trabalhadores e para o bairro.
Os trabalhadores e o bairro hoje
A maioria dos trabalhadores demitidos ao longo da década de 1990 está hoje desempregada ou subempregada e aqueles que montaram uma pequena empresa, em sua maioria, tiveram que fechar as portas.
Um bom exemplo de um trabalhador subempregado é o caso do "seu" Paulista: ele foi demitido na década de 1990, acabou indo morar na ocupação da fábrica onde trabalhou e sua atividade atual é de catador de papel. Ele se recusou a gravar entrevistas alegando: "Eu não sou o tipo que você procura, eu estou bem de vida".
Mas como alguém que mora em um galpão, sem água encanada e rede de esgoto, com um emprego informal que não garante uma renda estável pode estar bem de vida? A posição desse senhor é de proteção da memória do que foi um dia, um homem com uma profissão, um emprego fixo, que morava na favela, mas tinha uma vida digna.
A reestruturação produtiva que fez com que muitos trabalhadores perdessem definitivamente seus postos de trabalho, também influiu no fechamento de pequenas fábricas montadas por operários que perderam seus empregos. Um exemplo é o caso do senhor José, um alfaiate que após perder seu emprego na fábrica, montou uma pequena oficina no Jacarezinho, segundo ele :
Fiz muita roupa, aí depois veio o problema da calça jeans, eu fazia uma média de 50 a 80 calças por semana, fora os ternos. Aí vinha o camarada comprava uma calça jeans e passava o mês todo com ela.
Em alguns setores a reestruturação produtiva provoca a perda da figura do profissional que domina todo o processo produtivo. Este já não se enquadra mais às necessidade do mercado. A profissão de alfaiate está em vias de extinção, pois hoje o operário de uma fábrica de roupas não precisa mais saber fazer uma calça, ele precisa conhecer apenas uma das etapas do processo de fabricação das peças.
As conseqüências desse fenômeno são graves e variadas, considerando seus impactos no bairro. Segundo um entrevistado, "tem certos trabalhadores do passado que hoje são marginais, porque o tráfico hoje dá condição de ganhar muito mais do que eles ganhavam como empregados". O que faz esse ex-operário se envolver com o tráfico não é apenas o fato de ele ganhar melhor, a principal questão é a falta de emprego.
Um dos problemas enfrentados atualmente pelo bairro é a falta de infra-estrutura e de segurança nas suas principais vias de acesso; uma delas, Buraco do Lacerda, vive constantemente inundada, tendo dias que nem ônibus passam pelo local. Outra via de acesso ao bairro, o túnel Noel Rosa, é um local de freqüentes assaltos. Por fim, a via de acesso mais utilizada no bairro, a Linha Amarela, é cercada por favelas e é palco de constantes cenas de violência.
Tiroteios entre polícia e criminosos são outra constante no bairro, fazendo vítimas principalmente entre moradores. As empresas que ainda permanecem no bairro, parecem verdadeiras fortalezas, com guardas, câmeras de vídeo e muros altos. Hoje o Jacaré é um bairro marcado pela violência e pelo abandono. A insegurança está presente na vida de quem mora e/ou trabalha no bairro.
Conclusão
Uma crise econômica gerada principalmente pela adoção de uma política neoliberal, um processo de reestruturação produtiva que dá à indústria a capacidade de produzir mais, produtos de maior qualidade e com o efetivo de operários bem menor; e por fim, a violência, foram fatores que juntos resultaram no fim de um complexo industrial. Hoje, o Jacaré é um bairro desvalorizado e a comunidade do Jacarezinho sofre ainda o estigma da violência e da periculosidade. As ruas repletas de operários, estão hoje semidesertas com seus galpões feitos de moradias.
Os resultados da pesquisa indicam que os ex-trabalhadores do complexo industrial do Jacaré, hoje em sua maioria desempregados ou subempregados sofreram um imenso desgaste, tanto no aspecto profissional, quanto na sobrevivência individual e coletiva. A identidade deste grupo é assegurada não mais pela identidade de operário, mas por elos de ligação com o PCB e o movimento comunitário.
O bairro sofreu também um imenso desgaste, com o processo de empobrecimento e favelização. De acordo com um dos entrevistados: "As indústrias foram embora, só ficaram as favelas, estamos cercados por seis favelas".
As transformações pelas quais o bairro passou, principalmente ao longo da década de 1960, tendo um grande surto de desenvolvimento, foram aos poucos sendo uma realidade presente apenas na memória de ex-trabalhadores e moradores do bairro. Hoje o que foi construído por uma geração que acreditava em transformações mais profundas na sociedade, está destruído entre outros fatores, pelo crime organizado que desestrutura as relações de produção no bairro, afastando as indústrias, e também desestrutura as relações de sociabilidade, tendo em vista que a violência é uma constante que faz do bairro um local pouco atrativo.
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Documentação consultada
Documentação da Associação Comercial e Industrial Regional do Jacaré e Adjacências (ACIRJA)
Documentação do Ministério da Fazenda, referentes às indústrias do Jacaré.
Periódicos
Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro Poder Executivo. Ano XV. N.º 51. Terça-feira, 29 de maio de 2001
Jornal O Povo, Caderno Cidade de 1 de junho de 2001
Jornal O Globo, 24 de novembro de 2002
Entrevistas
Senhor André, Senhor Antônio, Senhor Joaquim, Senhor João e Senhor José.
Notas
* O presente trabalho nasceu na disciplina Memória, Cultura e Sociedade, sob a orientação da Professora Icléia Thiesen e teve continuidade nas disciplinas Seminário de Pesquisa em História do Brasil, sob a orientação do professor Marco Aurélio Santana.
1
Optamos por usar nomes fictícios para os entrevistados, para uma maior segurança e privacidade dos mesmos.2
Relatório do Programa de Desenvolvimento Econômica Local (PDEL).3
Dados obtidos a partir de relatos de um funcionário do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Vidros, Espelhos, Cerâmica, Porcelana.4
Relatório PDEL.5
Dados obtidos a partir de relato de um funcionário da Associação Comercial e Industrial Regional do Jacaré e adjacências (ACIRJA).6
Jornal O Globo 24/ 11/ 02.7
Entrevista concedida a autora em 20/01/03. Senhor Joaquim.8
Entrevista concedida a autora em 20/01/03. "Lá" refere-se ao estado da Bahia, de onde o entrevistado é migrante. Senhor João.9
Entrevista concedida a autora em 20/01/03. Essa entrevista foi realizada com mais três companheiros do Partido Comunista, a pergunta citada acima é dirigida aos demais companheiros senhor José.10
Entrevista concedida a autora em 20/01/03 senhor José.11
Entrevista concedida a autora em 20/01/03 senhor Joaquim.12
De acordo com um dos entrevistados, a associação de moradores representa hoje o interesse do tráfico de drogas. Segundo esta mesma pessoa, esse envolvimento se torna explícito com a prisão de Rumba, ex-presidente da associação de moradores de Jacarezinho, acusado de envolvimento com o tráfico de drogas.13
Relato colhido em 10/ 08/02- Senhor Paulista.14
Entrevista concedida a autora em 20/01/03 senhor José15
Entrevista concedida a autora em 03/08/02 senhor André.16
Entrevista concedida a autora em 03/08/02 senhor André.