Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 03, 2003 - ISSN 1676-2924

SEMEANDO MEMÓRIAS NO JARDIM

Christiane de Assis Pacheco
Historiadora e mestre em Memória Social e Documento pela Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO)

Resumo: O trabalho pretende mostrar como, através de publicações comemorativas, republicações de obras históricas e homenagens a determinados botânicos, o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro vem procurando reforçar sua identidade como uma instituição notadamente voltada para a pesquisa científica. A história que deve ser e está sendo lembrada, nesse sentido, é aquela que deixa claro que a "missão" da instituição sempre foi a pesquisa botânica e que o Jardim é e sempre foi um espaço de ciência e de cientistas – mesmo que a história não corrobore inteiramente com essa versão do passado.

Abstract: This paper shows how the Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (Research Institute Botanical Garden of Rio de Janeiro) is using commemorative publications, republishing of historical works and homages to selected botanicals to strength its identity as a research institution. The remembered History shows that the institution mission has always been one of botanical research, and a place of Science and scientists, but the facts does not always agree with this version of the past.

Palavras-chave: Jardim Botânico do Rio de Janeiro; memória; publicações históricas.


Introdução

O presente texto foi elaborado a partir de um dos capítulos de minha dissertação de mestrado na qual abordei algumas questões sobre a memória de uma instituição científica, o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e de seus cientistas. Meu objetivo principal foi entender porque o Jardim Botânico não possuía um arquivo documental que desse conta de seus quase duzentos anos de história e teria, mesmo, destruído parte desse acervo numa fogueira, segundo lenda corrente na Instituição.

Os documentos mais antigos encontrados no que se pode chamar de "arquivo morto" da Instituição (um depósito numa antiga cocheira) são documentos contábeis e administrativos da década de 1960 em diante. A Biblioteca Barbosa Rodrigues guarda uns poucos relatórios de excursões de certos botânicos mais antigos, um livro manuscrito de registro de funcionários e outros poucos documentos e o Museu Botânico guarda documentos do botânico João Geraldo Kuhlmann, a quem o Museu era inicialmente dedicado. Ainda hoje, a falta de um espaço adequado para depósito da documentação produzida faz com que os botânicos guardem consigo seus relatórios, cadernetas de campo etc., fazendo com que a Instituição perca parte de seus registros documentais, importantes fontes para sua história e para a história da ciência brasileira.

Na última década, a Botânica e os jardins botânicos passaram a assumir um lugar de destaque em decorrência das preocupações com a natureza e a preservação da biodiversidade. Dentro desse contexto, o Jardim Botânico do Rio veio (e ainda vem) se adequando a novas funções e desempenhando novos papéis sociais. Com mais verbas e autonomia, houve nos últimos anos um forte incremento da pesquisa e o desenvolvimento de programas voltados para a educação e a extensão e, concomitantemente a essas mudanças, o passado e a história da Instituição começaram a ser mais valorizados. Entre outras ações nesse sentido, podemos citar: homenagens a alguns botânicos da Casa; publicações sobre a história do Jardim e reedições de alguns livros históricos; a já prevista modernização da biblioteca; a reforma do Museu Botânico que, finalmente, após o concurso, passou a contar com um museólogo; o levantamento das coleções históricas do Arboreto; a contratação de historiadores; e, como coroamento desse processo, a idéia de levar adiante o projeto de organização de um arquivo, com a reprodução dos documentos históricos presentes em outras instituições e recolhimento dos que estão em posse dos funcionários. Vemos, assim, que à medida que o Jardim cresceu de importância estratégica e conseguiu mais verbas e prestígio, começou a criar novas formas de preservar institucionalmente sua memória e suas coleções científicas e históricas.

Mas a história que deve ser contada – e é disso que trataremos neste artigo – é especialmente a história de uma instituição científica, da ciência botânica e de seus cientistas botânicos.

Jardim Botânico: espaço de ciência e de cientistas

Durante a pesquisa para a elaboração da dissertação, pudemos observar tanto nas entrevistas como em algumas ações da Instituição, que os cientistas buscam reforçar e imprimir uma determinada identidade ao Jardim, qual seja, a de um espaço de e para a ciência. Os entrevistados insistiram na idéia de que o Jardim Botânico precisa ser entendido como local de pesquisa científica – e não apenas de lazer –, e que o público que o freqüenta ou o conhece como um belo ponto turístico da cidade do Rio de Janeiro deve tomar conhecimento do trabalho científico ali desenvolvido, entendendo sua necessidade e seu valor.

Os botânicos reconhecem que o lazer é fundamental para a Instituição, pois além de ser parte de seu objetivo institucional, traz visibilidade e verbas, diretas e indiretas. O que parece incomodá-los, no entanto, é o fato – ou a possibilidade – do público entender o Jardim Botânico apenas como área de lazer. Isto porque o lazer, de acordo com os botânicos e com a própria definição de jardim botânico estabelecida pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), tem que ser compatível com a difusão científica e deve estar associado de alguma forma à ciência ali desenvolvida.

Assim como o lazer, a história do Jardim Botânico deve, da mesma forma, refletir e transmitir essa identidade, essa "essência" e "missão" da Instituição: deve recordar que ali é, e sempre foi, um espaço de práticas científicas e de cientistas. Deve recordar um passado de realizações e lutas pela ciência.

Oficialmente definida em 1996, a missão do Jardim Botânico é "Promover, realizar e divulgar o ensino e as pesquisas técnico-científicas sobre os recursos florísticos do Brasil, visando o conhecimento e a conservação da biodiversidade, assim como a manutenção das coleções científicas sob sua responsabilidade". Mas segundo alguns entrevistados, o estudo da flora brasileira sempre foi a missão da Instituição. Se analisarmos sua história, no entanto, vemos que não é bem assim: o Jardim Botânico já foi jardim de aclimatação de espécies estrangeiras, já esteve ligado à pesquisa agronômica, florestal e química e já passou por épocas em que a pesquisa científica era quase inexistente. Ou seja, o Jardim nem sempre foi visto como instituição científica e mesmo se considerarmos que a atividade científica esteve sempre presente, não tinha nem a mesma intensidade e nem as mesmas características.

Vejamos agora como, recentemente, o passado (ou melhor, um determinado passado) vem sendo utilizado e apropriado com o intuito de definir e imprimir uma identidade ao presente e ao futuro que se espera da Instituição.

O passado refletindo a "missão" do Jardim Botânico

Uma série de publicações recentes organizadas ou chanceladas pelo Jardim Botânico nos mostra como o passado está sendo utilizado para reforçar a identidade da Instituição como um espaço de ciência. Publicando ou reeditando livros que recordam a história das atividades científicas da Casa, o Jardim procura mostrar como a ciência sempre esteve presente e sempre foi o objetivo primeiro da instituição. Vejamos alguns exemplos:

Em 1989, foi reeditado o Hortus Fluminensis, ou, Breve Notícia sobre as plantas cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro: para servir de guia aos visitantes (Rodrigues, 1989), livro que o botânico João Barbosa Rodrigues (diretor do Jardim de 1890 a 1909) publicou em 1894 fazendo um breve histórico da Instituição e relatando suas primeiras medidas como diretor.

Na introdução dessa reedição, o então diretor Sérgio Bruni escreveu:

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro, nestes 181 anos de existência, experimentou períodos de grande pujança científica, entrecortados por épocas de um marasmo indescritível. Teve dirigentes, cientistas, técnicos e jardineiros com excepcional nível de conhecimento e dedicação incontestável, mas também conviveu com pessoas desqualificadas e desinteressadas. A mais importante lição a ser extraída desta trajetória é a de que, hoje, sua sobrevivência altaneira, abrigando mais de meia centena de pesquisadores, está intimamente ligada a alguns dirigentes e cientistas que por aqui passaram e fincaram linhas programáticas estratégicas. Dentre todos, talvez o que mais tenha tido esta visão prospectiva foi o Prof. João Barbosa Rodrigues. (Rodrigues, 1989: s/p)

No final do texto, o diretor enumera todos as melhorias do Jardim realizadas naquele ano de 1989, tais como a atualização das publicações científicas, a introdução da informática científica, a duplicação do herbário, a ampliação do Pavilhão de Pesquisas, o aperfeiçoamento dos pesquisadores, entre outras, dizendo que tudo isso consolida a posição privilegiada do Jardim "entre os Centros de Excelência em botânica, ao nível internacional, cumprindo desta maneira, a vocação histórica que D. João VI pretendeu ao criá-lo" (grifo meu). Vemos, nessa breve introdução, o mesmo discurso que encontramos nas entrevistas: a missão do Jardim sempre foi, desde a sua criação, a pesquisa científica em Botânica. No texto anterior, percebemos uma clara intenção do autor em estabelecer vínculos com a época mais fértil do Jardim em termos de incremento à pesquisa científica: a gestão do botânico Barbosa Rodrigues.

Não foi por acaso que outro livro do mesmo botânico foi reeditado durante a segunda gestão de Sérgio Bruni. Dessa vez, em 1998, para comemorar os 190 anos da Instituição, foi reeditado em fac-símile o livro "Jardim Botânico do Rio de Janeiro - Uma Lembrança do Primeiro Centenário. 1808-1908" (Rodrigues, 1998), livro publicado originalmente em 1908 pelo então diretor Barbosa Rodrigues, comemorando os cem anos da criação do Jardim. O livro original traz uma versão ampliada da história da Instituição que Barbosa Rodrigues já esboçara no Hortus Fluminensis. Na reedição de 1998, com tiragem de 3.000 exemplares, a história da Instituição é complementada por um breve capítulo escrito pela Dra. Graziela Maciel Barroso, intitulado "A pesquisa no Jardim Botânico do Rio de Janeiro: revivendo a história". Dra. Graziela termina seu texto lembrando que "Bons tempos, alternados com maus tempos sempre acontecerão, mas a Casa de D. João VI manter-se-á invicta, acima de tudo porque a ciência, a história e a cultura são eternas!".

O diretor Sérgio Bruni também assina a introdução dessa reedição, enumerando as atividades então desenvolvidas pelo Jardim e lembrando, mais uma vez, "a coerência e a continuidade" da Instituição, "sempre um passo adiante na busca do conhecimento e da conservação da riqueza da flora brasileira". Ora, "coerência" e "continuidade" é o que menos encontramos na história conturbada da Instituição e a "busca do conhecimento e da conservação da riqueza da flora brasileira" nem sempre esteve presente.

Um livro inédito de Barbosa Rodrigues foi publicado 1996. Iconographie des Orchidees du Brésil (Rodrigues, 1996), apesar de não ter sido editado pelo Jardim Botânico, tem lugar de destaque entre as publicações da Casa, tanto na página oficial da Instituição na Internet, como na vitrine da biblioteca. A obra, elaborada por Barbosa Rodrigues entre 1877 e 1898, é composta de centenas de aquarelas de orquídeas brasileiras com suas descrições, que foram encontradas, depois de décadas, parte no Jardim Botânico e parte na Universidade de Harvard, nos EUA. A obra, depois de longas negociações diplomáticas e restauração dos desenhos, foi publicada pela Universidade da Basiléia, na Suíça, em 1996.

Essa (re)edições de obras de Barbosa Rodrigues são muito significativas, ainda mais se levarmos em conta os textos introdutórios que as acompanham. Barbosa Rodrigues é considerado por todos o maior diretor da Instituição, aquele que lhe deu caráter científico, através de medidas como a criação do herbário, da biblioteca, do museu botânico, o incremento das publicações científicas, entre outras. Sua gestão representa a época de ouro da pesquisa científica no Jardim Botânico. Através das (re)edições de seus livros, glorifica-se essa parte da história da Instituição e, ao mesmo tempo, vincula-se o atual momento a uma época profícua da Casa .

O curioso é que o próprio Barbosa Rodrigues parece ter feito algo semelhante, ou seja, se valido do passado num momento em era preciso reafirmar a "verdadeira missão" da Instituição. O botânico assumiu a direção do Jardim após o período em que ele esteve sob a administração do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (IIFA), uma associação de grandes proprietários interessados no aumento da produtividade de suas terras. Barbosa Rodrigues e outros botânicos da época consideravam que o período de gestão do IIFA havia sido uma fase de "descontinuidade" na trajetória da Instituição, já que o estudo botânico ficou esquecido e o Jardim, além disso, havia se tornado um mero local de passeio. Procurando retomar a verdadeira "vocação" da Instituição, Barbosa Rodrigues, além das já mencionadas medidas que procuravam transformar o Jardim num local de ciência, teve, pela primeira vez, a grande preocupação em "resgatar" a história da Instituição. Em seus dois livros já citados, o diretor procurou valorizar diretores e botânicos preocupados com a parte científica do Jardim, considerando períodos de crise aqueles em que esta foi abandonada ou voltada para outras áreas que não a Botânica.

Outra publicação atual tendo a história como temática foi o CD-ROM Mata Atlântica 500 Anos, publicado em 2000. O Programa Mata Atlântica (PMA), um dos programas científicos do Jardim Botânico, contratou o serviço de duas historiadoras para a elaboração de uma pesquisa sobre a Mata Atlântica, planejando realizar, na Instituição, uma exposição comemorativa dos 500 anos de "descobrimento" do Brasil sob a perspectiva da floresta. A exposição acabou não acontecendo, mas a pesquisa serviu de base para a elaboração do CD-ROM, concebido como produto de divulgação científica e tendo como público-alvo principal estudantes de nível médio e professores. Seu conteúdo é composto da história dos processos de devastação da floresta, de informações científicas sobre as diferentes configurações vegetais da Mata Atlântica, da história da atuação de naturalistas brasileiros sobre o conhecimento científico da floresta, além de uma rica iconografia histórica. O CD foi distribuído gratuitamente para bibliotecas de todo o país, tendo conquistado grande espaço na mídia na ocasião de seu lançamento. Para isso, o patrocinador do PMA e do produto, a Petrobras, custeou assessores de imprensa e uma produtora de arte eletrônica. O CD-ROM foi considerado, por alguns botânicos da Instituição, um grande sucesso como produto de divulgação científica: o Jardim passou a receber cartas de escolas e bibliotecas agradecendo e elogiando o trabalho e as mensagens diziam que através do CD os estudantes estavam entendendo o que era Mata Atlântica e o que os botânicos faziam na Instituição.

Em 2000, outro grupo do Jardim Botânico contratou as mesmas historiadoras para fazer uma reconstituição da história das primeiras coleções do herbário da Instituição, para a elaboração do livro "O herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro: um expoente na história da Flora brasileira", publicado em 2001 (Marquete et alli, 2001). O livro também é voltado para divulgação científica e procura explicar ao público leigo o que é e para que serve um herbário, o cotidiano dos botânicos, do que é composta a coleção científica do Jardim Botânico, além da parte histórica.

O livro é dedicado "à mestra Graziela Maciel Barroso" e no texto da dedicatória encontramos novamente a necessidade de afirmação do Jardim como espaço de ciência:

"Este livro é dedicado a todos aqueles que passaram pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro e que através de suas intenções e ações possibilitaram constituir um precioso acervo científico e cultural sobre a flora brasileira legado à nação, não importando as funções ou cargos que tenham ocupado ao longo da história da instituição, mas sim a consciência de cada um deles trabalhando para a conservação do patrimônio natural do país, na busca e aprimoramento do conhecimento botânico e para o fortalecimento do Jardim Botânico como uma casa onde se faz Ciência" (Marquete et alli, 2001:3, grifo meu).

No texto introdutório, mais uma vez, o diretor Sérgio Bruni aproveitou para reverenciar o passado da Instituição:

(...) enquanto assistimos a descaracterização de instituições, a globalização e conseqüentemente a perda de valores culturais, o Jardim Botânico encontra-se ainda fiel a seus princípios, resultados da dedicação e idealismo de botânicos como Barroso, Ducke, Brade, Kuhlmann, Rizzini, Milanez e D. Graziela". [O livro] "vem iniciar um processo de redescoberta institucional e sobretudo de seus diferentes acervos científicos (idem, grifo meu).

Ao contrário do CD-ROM Mata Atlântica 500 Anos, o livro teve tiragem pequena e foi distribuído apenas para os convidados do lançamento e algumas instituições, não cumprindo totalmente sua função de divulgação científica. De qualquer forma, é uma obra importante e de referência, já que é a única publicação no gênero. As duas publicações, portanto, cumprem o papel de divulgar para um público variado as atividades científicas do Jardim.

Por fim, destacamos as homenagens prestadas à botânica Dra. Graziela Maciel Barroso, uma das mais prestigiadas cientistas da Casa. Dra. Graziela foi mestra de várias gerações de botânicos, não só da Instituição como de todo o Brasil e com mais de 50 de profissão, foi orientadora de cerca de 60 teses de mestrado e 15 de doutorado. Era considerada "a primeira dama da botânica no Brasil" e em 1999 recebeu a medalha Millenium Botany Award, no Congresso Internacional de Botânica, realizado em St. Louis, EUA. Dra. Graziela trabalhou no Jardim até às vésperas de seu falecimento, em 2003, aos 91 anos de idade. Mas mesmo antes de sua morte já vinha recebendo inúmeras homenagens: o ano de 2002 foi, no Jardim, o "Ano da Dra. Graziela Maciel Barroso"; em seu aniversário de 90 anos a botânica teve direito a um ato de ação de graças, selo comemorativo e homenagens diversas; a área de Botânica Sistemática do Jardim, onde está localizado o mesmo herbário, recebe o nome de Pavilhão Graziela Maciel Barroso.

Conclusão

Vemos que a história da comunidade de cientistas do Jardim Botânico é a história de uma luta constante para imprimir uma marca – a da pesquisa científica – num espaço a que sempre foram, e ainda são, atribuídos outros significados (pela população, por forças políticas etc.). Hoje, mais que nunca, essa comunidade espera que o Jardim Botânico – seu espaço físico, suas árvores, sua história, suas atividades – seja entendido e reconhecido como lócus de pesquisa científica. Para os cientistas, tal reconhecimento é fundamental para obtenção de verbas, prestígio profissional, reconhecimento dos pares, entre outros.

Como dissemos, a Instituição negligenciou por um grande período seu acervo documental. Desde a década de 1960, quando os documentos do arquivo desapareceram, nada foi feito para salvaguardar a documentação produzida e, de fato, parece que inexistia uma preocupação em relação à preservação da memória institucional. Essa preocupação (re)apareceu justamente no momento – a década de 1990 – em que se buscava a legitimação, valorização e destaque das atividades científicas desenvolvidas na Casa. O Jardim Botânico está procurando lembrar e celebrar determinados aspectos de seu passado e pretende, com a recuperação do arquivo histórico, homenagens etc., fazer com que a preservação da memória de seus cientistas se torne mais enraizada e perene.

A memória social, como nos ensinam Fentress e Wickham (1992), identifica um grupo, conferindo sentido ao seu passado e definindo as suas aspirações para o futuro. E ela, quase sempre, faz exigências factuais sobre os acontecimentos passados (Fentress e Wickham, 1992:41). Assim, é comum nas disputas pela identidade os grupos sociais recorrerem à história e à memória, reescreverem seu passado e mesmo "inventarem tradições". O passado desejado pelo Jardim Botânico é aquele em que ele foi, desde sua origem, uma instituição científica. As outras fases não são comemoradas e, se fosse possível, seriam esquecidas. Importa neste momento, através de publicações, comemorações, homenagens e valorização da memória, recuperar uma história de lutas, glórias, heróis e tradições científicas, para que o Jardim seja finalmente reconhecido como uma instituição de pesquisa fundamental na história da ciência botânica brasileira.

Bibliografia

FENTRESS, James e WICKHAM, Chris. Memória Social: novas perspectivas sobre o passado. Lisboa: Editorial Teorema, 1992.

HOBSBAWN, Eric. "Introdução: a invenção das tradições". In. Hobsbawn, E. e Ranger, T. (org.) A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984

MARQUETE, Nilda F. da Silva, CARVALHO, Lúcia d’Ávila Freire e BAUMGRATZ, José Fernando (orgs.) O Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro: um expoente na história da flora brasileira. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2001.

Mata Atlântica 500 Anos. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2000.

PACHECO, Christiane de Assis. "Botânicos e Botânica no Jardim: arquivo, memória e oralidade". In. Anais do IV Encontro Regional Sudeste de História Oral - Dimensões da História Oral. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz, 2001.

PACHECO, Christiane de Assis. "Documentos para a História da Ciência: o caso do Jardim Botânico do Rio de Janeiro". In. Anais Eletrônicos do XXII Simpósio Nacional de História (ANPUH) - História, acontecimento e narrativa. João Pessoa: ANPUH / UFPB, 2003.

RODRIGUES, João Barbosa. Hortus Fluminensis, ou, breve notícia sobre as plantas cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1989 [reedição comemorativa do original de 1894].

________. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro: uma lembrança do primeiro centenário 1808-1908. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 1998 [reedição comemorativa do original de 1908]

________. Iconographie des Orchidees du Brésil", Editado por Samuel Sprunger, em colaboração com Plillip Cribb e Antonio Toscano de Brito. Basle, Switzerland: Reinhardt Druck, 1996. Vol. I (Ilustrações) e Vol. II (Textos)

 

Notas

A dissertação foi defendida em fevereiro de 2003 no Mestrado de Memória Social e Documento da UNIRIO com o título "Semeando memórias no Jardim: documentos e memórias do Jardim Botânico do Rio de Janeiro", sob orientação da professora Dra. Icléia Thiesen Magalhães Costa.

2 O Museu Kuhlmann foi criado em 1960, dois anos após a morte do diretor João Geraldo Kuhlmann, para abrigar suas coleções e pertences. Foi fechado em 1991 e substituído pelo Museu Botânico.

3 Durante a pesquisa, a partir de entrevistas realizadas com alguns botânicos do Instituto, pudemos constatar que a memória de suas atividades e da instituição, para eles, estava presente em outros "suportes": nas plantas secas do herbário (as exsicatas), que trazem informações científicas e históricas; nas publicações científicas; nas lembranças dos ensinamentos e da convivência com os mestres, discípulos e companheiros de profissão; no próprio espaço físico do Jardim, entre suas árvores e aléias. Assim, se por um lado os botânicos guardaram os registros que consideram mais importantes (sobretudo as plantas e as informações históricas contidas no herbário e as publicações científicas), não preservaram a maioria dos registros documentais produzidos, tais como relatórios de excursões, de pesquisa, correspondências, fotos, cadernetas de campo etc. Segundo os próprios botânicos entrevistados, a não preservação desses documentos deve-se, em parte, ao tipo de cultura institucional que sempre privilegiou o resultado científico, a ação, ao invés do culto à memória, mas, sobretudo, porque a Instituição não tinha (e não tem) um local e uma estrutura segura e eficiente para preservar tais registros. Os textos da dissertação referente a essas questões podem ser encontrados, com algumas adaptações, em PACHECO, 2001 e PACHECO, 2003.

4 Resolução CONAMA nº 266, de 03.08.2000, objetivo nº 1 dos jardins botânicos: "promover a pesquisa, a conservação, a preservação, a educação ambiental e o lazer compatível com a finalidade de difundir o valor multicultural das plantas e sua utilização sustentável" (grifo meu).

5 Cf. o sítio virtual do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro: http://www.jbrj.gov.br

6 Eu fui uma das historiadoras contratadas para a pesquisa, junto com Ana Paula Goulart Ribeiro.

7 Cf. Hobsbawn, 1984.