Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 03, 2003 - ISSN 1676-2924

TECENDO MEMÓRIAS COLETIVAS: A FESTA DO ROSÁRIO EM BURACO ESCURO (MG)

Andréa Lúcia da Silva de Paiva
Bacharel em Ciências Sociais e mestranda em Memória Social e Documento na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio)

Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar o papel da memória da festa anual de Nossa Senhora do Rosário em Buraco Escuro (MG) na construção da identidade social de seus habitantes. A análise é feita a partir dos relatos orais de alguns dos participantes do ritual. Busco descrever as formas pelas quais uma memória coletiva é organizada e transmitida em um espaço rural, onde a religiosidade se coloca como um marco local.

Abstract: This article analyses the memory of the annual Rosario's religious celebration in the countryside of Minas Gerais state, Brazil. What interests us is the role played by this memory in the building of the local social identity. Through the accounts of some participants the article deals with the ways a collective memory is organized and transmitted in a rural area where the religiosity is an important feature.

Palavras-chave: Memória Coletiva – Espaço – Festa do Rosário


Introdução

A gente só quer manter isso tudo, moça, porque que é tudo pra nós. É uma santa, pobre, igual nós aqui.
(Z. D. Rei do Rosário em 2001)

...a festa é uma fala, uma memória e uma mensagem
(Brandão,1989: 8)

O objetivo deste trabalho é analisar o papel da memória da festa anual de Nossa Senhora do Rosário em Buraco Escuro (MG) na construção da identidade social de seus habitantes. A análise é feita a partir dos relatos orais de alguns dos participantes do ritual. Busco descrever as formas pelas quais uma memória coletiva é organizada e transmitida em um espaço rural, onde a religiosidade se coloca como um marco local.

O estudo de uma memória festiva em Buraco Escuro torna-se um exercício desafiador para a compreensão da memória coletiva. Pensada enquanto categoria socialmente construída, a memória de uma festa constitui-se como um fenômeno social capaz de ligar os indivíduos através da solidariedade religiosa existente em seu conjunto de valores, crenças e práticas transmitidas oralmente ao longo do tempo. Parto da discussão teórica do conceito de memória coletiva não como se tratando de uma mera repetição do passado, mas como uma construção continuamente realizada no presente, onde os indivíduos se posicionam como seres ativos e sujeitos a transformações. As lembranças conduzem os indivíduos a cenas vivenciadas em conjunto, onde tempo e espaço apresentam-se como meios de concretizá-las.

Como um método interdisciplinar (Thompson, 2002), a História Oral nos permite obter "registros", que não se encontram documentados na comunidade e nem na literatura, sobre as formas como seus participantes narram e percebem suas experiências festivas e do espaço em que vivem1. Sendo assim, a produção de um documento sobre uma festa popular através da história oral torna-se um instrumento científico importante para o estudo da memória coletiva em um determinado contexto. A utilização da história oral constitui uma forma de pesquisar até que ponto a Festa do Rosário se encontra presente na memória da comunidade e em que medida ela contribui para a construção social do espaço em que é realizada.

Festa na roça, memória local

Buraco Escuro se localiza nas proximidades da Serra da Mantiqueira, cuja cidade mais próxima, Sem Peixe encontra-se a 150Km de Belo Horizonte. As fronteiras e a forma de localização da população no local são demarcadas por casas e terras familiares. Há uma grande distância de uma morada para outra e estas possuem nomes, não se observando qualquer tipo de numeração.

Quanto à origem do nome Buraco Escuro, Dona M., 86 anos, a segunda moradora mais antiga da região, conta uma história que é compartilhada pelos demais moradores, incluindo-se os mais jovens. Ela remete-se a um tempo em que não havia energia elétrica. Ela acha que o nome se deve a isso. A única coisa de que Dona M. se recorda bem é da existência de dois primos que se chamavam Seu Dandão e Antônio Bárbara. A estes dois personagens é atribuído o início da povoação local2. Seu Dandão, que se chamava Antônio Brandão, havia "pego" uma jovem índia e levado para Buraco Escuro, espaço no qual, na época, "somente existia muita onça e mato".

No espaço que compõe Buraco Escuro, além das casas localizadas distantes umas das outras, existe hoje somente uma capelinha. A capela de Santo Antônio é bastante modesta e está localizada no meio da mata, entre duas casas. Feita de tijolos e cimento, a estrutura encontra-se semi-acabada e sua cerca é feita de bambu. É neste lugar o ponto de encontro dos moradores aos domingos, dia de culto (tempo cotidiano), e durante os tempos festivos. Não há padre em Buraco Escuro, como também não há em Sem Peixe. Ambos os lugares encontram-se subordinados à Paróquia Nossa Senhora da Saúde, localizada em Dom Silvério. A construção da Capela Santo Antônio não teria mais de 10 ou 11 anos, como relembra Dona M., tendo sido criada pela própria necessidade de a comunidade de ter uma igreja local:

Foi assim, em toda a comunidade ia fazer igrejinha. Em alguns lugares, fizeram igreja assim: mais boa. E lá no Buraco Escuro, lá não tem dinheiro. Aí eu sei que tiveram boa vontade e fizeram aquela capelinha. Tem festa de Santo Antônio que é o padroeiro (...) É a comunidade que se juntou e o padre também parecia que estava a fim, com boa vontade. (Entrevista em outubro/2002)

Se antes da construção da capela em Buraco Escuro os indivíduos celebravam muitas festas religiosas em algumas casas, existem hoje apenas duas festas religiosas caracterizadas pela devoção a santos: a Festa de Santo Antônio, o padroeiro da comunidade, (realizada em Junho) e a Festa de Nossa Senhora do Rosário (normalmente realizada em outubro). Dentre estas, é na Festa do Rosário que observamos alguns aspectos importantes para o estudo da memória coletiva.

Uma breve descrição da Festa de Nossa Senhora do Rosário

A história de Nossa Senhora do Rosário, em Buraco Escuro, nos é contada por Z.D., 63 anos e Rei do Rosário em 2001. Ele narra que um escravo havia encontrado a santa presa numa montanha. Ao comunicar a sua majestade, este pede para seu filho ir ao local. Ao confirmar a existência da santa, o rei manda fazer um coral apenas com pessoas "brancas" para irem ao local e retirarem a santa3. Porém, a santa, com "muito medo", retornou ao local onde se encontrava:

Aí, o escravo mesmo que achou a imagem, arrumou com viola de bambu, aqueles pandeiros véios reuniu eles, lá na senzala deles e foram, foi cantando e ela veio. Ela acompanhou e veio pras igrejas e não voltou mais. Coisa de antigo. Há essas coisas e tá havendo a mesma coisa. Ocê vê que hoje a pessoa tá virando santa. A gente tem que acreditar. (Entrevista em outubro/ 2002)

A Festa de Nossa Senhora do Rosário em Buraco Escuro inicia-se com uma novena, período de nove dias, conduzida pelos reis ainda sem vestimentas rituais. No dia da última novena, os reis ordenam que a festa comece. Há em seguida, o "levantamento do mastro"4. Após esta ação, a festa é animada ao som de forró e por venda e sorteio de alimentos e bebidas (onde a cachaça aparece como a grande campeã de venda).

No dia seguinte, a manhã é tomada com a preparação do banquete por homens e mulheres (em sua maioria). Cabe às mulheres preparar os alimentos (cozinhá-los à lenha em grandes tachos no quintal de uma das casas). Aos homens, cabe auxiliar esta atividade, obtendo madeira para garantir o fogo aceso ou providenciando uma lona para cobrir o quintal em caso de chuva e, além disso, ficam encarregados de buscar os integrantes do congado. Os congadeiros ou dançantes5 (como muitos denominam), ao chegarem ao local, dançam e agradecem ao dono da casa, à comunidade e aos reis pelo convite e pela comida oferecida. Após o banquete, a dança conga toma lugar. Observam-se algumas crianças e idosos que, dispostos a "entrarem na fila", dançam com alguns integrantes do congo ou imitam seus gestos em um canto. É comum também vermos crianças "fora da roda conga", aprendendo o ritual com os pais ou entre elas próprias.

Após muita dança e cantos, há o momento em que o congado vai "pegar" o rei e a rainha em suas casas, sendo seguido pela comunidade. O rei e a rainha já se encontram vestidos e são apresentados à comunidade pelos dançantes. São estes também que conduzirão os reis para a missa ao som da música conga e de fogos de artifício. É o Reinado. No altar, os reis sentam em seus tronos, o congado se posiciona ao meio e em duas filas que permanecem de pé durante toda a cerimônia. As demais pessoas participam da festa em pé ou sentadas em pequenos bancos normalmente destinados às senhoras e às crianças. No lugar da música conga, abre-se espaço para as músicas eclesiásticas cantadas por um coral de mulheres onde, dentre elas, encontra-se Quiquinha, 36 anos, umas das maiores organizadoras das festas do Rosário na comunidade.

A missa do Reinado é finalizada com a procissão da santa em um pequeno trecho da roça. De volta à capela, os reis passam suas coroas para os novos festeiros que conduzirão a festa do Rosário no ano seguinte. A festa então passa a ser animada pelos novos reis ao som de muito forró, foguetes e, mais uma vez, pela venda de alimentos e bebidas. Às "antigas" majestades resta agora os cumprimentos, a alegria e a lembrança de terem sido rei e rainha do Rosário algum dia. É desta forma que os moradores de Buraco Escuro buscam, em um tempo, o festivo, recordarem e até partilharem uma memória coletiva que se tornará, de acordo com este evento, memórias, que serão transmitidas na vida cotidiana, nos momentos de causos6.

Tecendo memórias coletivas: a Festa da Santa e os seus devotos

Le Goff (1984), em seu estudo sobre a memória medieval no ocidente, destaca o judaísmo e o cristianismo como religiões de recordações de um passado, sustentadas por uma crença e pela prática de salvação através das histórias narradas em livros sagrados ou pela tradição histórica que se articula com a vivência dos indivíduos. Em seu estudo sobre o catolicismo, o autor observa que há normas fixadas por calendários festivos de celebração dos santos que são realizadas no dia conhecido ou suposto de seu martírio.

Complementando esta discussão, Brandão (1989) observa que nas cidades grandes e médias as festas de caráter cívico, histórico ou "profano" possuem um lugar de destaque, enquanto que nas cidades pequenas e povoados são os festejos locais e religiosos, como a festa do padroeiro, que preenchem quase todo o calendário.

Em Buraco Escuro, é uma promessa feita a uma santa por um morador que deu origem a festa. Como narra Z. D.:

(...) meu cunhado ele tem muita fé sabe, na Senhora do Rosário. A muiér dele adoeceu, Mariza. Ele então fez uma promessa. Se ela sarasse, ele ia comprar uma imagem pra por em Córrego Escuro7. Ela táva completamente doida só se vendo. Tomava remédio não valia de nada. Aí ele foi fez a promessa. Ocê vê que ela lá onti, dia da fiesta ela tava aí, sã e completa. Quer dizer ela sarou. Nós dois vomos em Belo Horizonte, comprou essa imagem. (Entrevista em junho/2003)

A Festa do Rosário em Buraco Escuro torna-se uma fonte de investigação para a compreensão da memória coletiva do local e da identidade de um povo, sobretudo quando interrogamos como ela se encontra nas lembranças dos indivíduos. A ritualização da festa presente nas recordações dos agentes nos é capaz de complementar este estudo ao revelar a forma de organização de um grupo em um tempo e espaço. Destacamos aqui a Coroação para o complemento desta afirmativa.

Na Festa de Nossa Senhora do Rosário, segundo os relatos orais dos seus participantes, o rei e a rainha não precisam ser moradores do próprio local. Pessoas das demais roças próximas e da cidade podem "pegar a coroa", assim como aqueles residentes em outros estados que apresentam algum tipo de contato com Buraco Escuro seja pelo nascimento ou pela presença de familiares no local. Isto faz com que haja um número maior de participantes e visitantes ao local nos dias da Festa do Rosário, tornando esta um evento de maior proporção que a festa do padroeiro. É também nesta festa que a comunidade gasta mais dinheiro, pois é preciso pagar aos dançantes e ao padre, vestir o rei e a rainha, oferecer o banquete à comunidade, entre outras tarefas. A festa na roça permite também que um indivíduo de baixa renda se torne um rei do rosário se diferenciando da Festa do Rosário na cidade, onde, como dizem os próprios moradores da roça, não tinham a oportunidade de serem festeiros por não terem dinheiro para "bancar" a festa na cidade e, por mais que quisessem, não era passada a coroa para eles. Sendo assim, a Festa do Rosário tem a função de se tornar um evento não só dos moradores de Buraco Escuro, mas dos devotos da santa, como narra Z. D.:

A Fiesta do Rosário nossa aqui é uma fiesta com bastante entusiasmo como você já viu, graças a Deus. É fiesta pobre nossa aqui, porque nós não tem recurso igual as pessoas que é rico que quando eles topa a fiesta ganha muita coisa. Agora aqui toca humilde e nos fica satisfeito do que jeito que nós toca, faz do jeito que a gente tem. A capela é pobre quer dizer é uma fiestinha simplis, mas ocê vê, junta bastante gente. Vem bastante gente, tudo humildi. É uma fiesta que não tem político nela, não tem confusão nenhuma. É uma santa humilde também. (Entrevista em junho/ 2003)

É com base nestes dados que podemos pensar tanto a festa quanto a memória coletiva como eventos que ultrapassam as fronteiras específicas do espaço em que é realizada. A festa, assim como a memória dos indivíduos, eis aqui o elo de ligação entre elas, não se restringe apenas a um grupo ou sociedade específica. Ambas possuem a função de ultrapassar os limites destes convertendo-se em práticas e trocas de experiências mais ou menos comuns entre os indivíduos em um determinado contexto.

A partir do momento em que a memória coletiva é construtora de uma identidade, ela pode ser capaz de agir como um elemento de coesão social a partir de uma determinada organização, como uma festa. Para Michael Pollak (1992: 204) o conceito de identidades coletivas está ligado a todos os investimentos e trabalhos que um grupo deve realizar ao longo de um tempo que o desperta para um sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou grupo em sua reconstrução de si, para si e para os outros, sendo este último essencial para a construção da identidade, pois, como afirma: "ninguém pode construir uma auto imagem isenta de mudanças, de negociação, de transformação em função dos outros".

No caso de Buraco Escuro, a organização da Festa do Rosário parece ser realizada, em sua origem, em oposição à festa realizada na cidade de Sem Peixe, constituindo um confronto de identidades que se organiza através de um relacionamento entre o Eu e o Tu. A festa faz também com que o indivíduo se torne parte de uma comunidade, a qual Brandão (1989: 9) expressou muito bem: a comunidade de eus-outros, em que seus integrantes buscam não esquecer as memórias que são transmitidas e modificadas por longo do tempo, memórias que a experiência da idade conta e experimenta em narrativas e práticas com seus conterrâneos ou transmite à geração posterior.

A memória coletiva que os devotos de Buraco Escuro incorporam e trazem da festa são também filtradas e trabalhadas pelas recordações das festas do Rosário realizadas em outros lugares. A festa permite que a comunidade de Buraco Escuro traga lembranças seja através de comparações com as festas anteriores realizadas no local ou com as festas das cidades mais próximas ou de outras roças. Dona M. recorda das festas de Nossa Senhora do Rosário de quando era moradora do espaço da atual cidade de Sem Peixe, onde chegava a caminhar por 18 Km para comemorar a festa no Município de Dom Silvério do qual Sem Peixe foi distrito até 1995:

Quando eu era solteira, eu morava lá né. Mas, as festas eram tão animadas! Eu não perdia uma. Eu ia. Eu não perdia uma festa. Eu ia à festa em São Bartolomeu, em Santana, ia Dom Silvério. Eu ia pra Dom Silvério a pé Andréa, você acredita? Saímos daqui de madrugada, e ia, vortava em casa. Vortava em casa Andréa, sem mentira, eu ainda socava o café no pilão, torrava e fazia a janta. (Entrevista em junho/ 2003)

Para Seu A. de 70 anos, integrante do congo, a Festa de Nossa Senhora do Rosário está ligada a sua história de vida:

Quando completei 7 anos veio uma fila dançar aqui em Raimundo Pereira8. Eu morava ali embaixo (Buraco Escuro). A fila (congado) do Córrego das Almas, e vinha batendo aqueles panderinhos, tic tac tic tac tic tac e eu fiquei evocado9 e sou devoto de Nossa Senhora do Rosário até hoje. (Entrevista em outubro/ 2002)

A festa torna-se então capaz de proporcionar aos fiéis lembranças de sua devoção, de suas ações e de objetos que foram presenciados e ensinados anos atrás. A realização da festa em Buraco Escuro traz para seus organizadores, a cada ano, uma negociação com os demais devotos visando apenas um objetivo concreto: realizá-la. Estas práticas fazem com que os indivíduos repitam todo ano uma tradição, a festa, ou a reinventem diante de novos valores e imposições do presente.

As lembranças dos indivíduos nos permitem pensar como as memórias festivas são apreendidas e transmitidas por estes, o que nos conduz a refletir sobre o conceito de tradição. Nas festas do Rosário de 2001, 2002 e 2003 são observados muitos relatos sobre a necessidade de mantê-la e papéis sociais são dados e reconhecidos para esta função. Destacamos aqui Z. D, como zelador da capela e a sua imagem como Rei do Rosário em 2001; Dona M., Rainha do Rosário em 2001, cuja vivência é trabalhada na comunidade como exemplo para a juventude e as experiências de "vida popular"; e de Seu A. como integrante do congo desde os seus 7 anos. Há também aquelas narrativas que não foram trabalhadas neste artigo com a do Pe. A. que, durante os reinados, busca transmitir a explicação da vida da santa ou outros fatores religiosos e de Quiquinha, que desenvolve muitas atividades na capela e na festa do Rosário.

As narrativas e os papéis sociais dos devotos de Buraco Escuro vêm ao encontro do conceito de tradição descrita por Anthony Giddens (1997: 81). Segundo o autor, tradição apresenta as seguintes características: está relacionada ao conceito de memória coletiva; envolve um ritual; está ligada ao que ele chama de noção familiar de verdade; possui guardiões e apresenta uma força de união que relaciona moral e emocional. A memória como tradição diz respeito à organização do passado em relação ao presente e, para esta discussão, o autor cita a visão de passado de Halbwachs, como algo que não é preservado, mas continuamente reconstruído socialmente pelos indivíduos tendo como base o presente.

A noção de tradição para Halbwachs (1990 e 1994), apresenta-se como práticas sociais contínuas desta construção. Sendo assim, podemos pensar que a Festa do Rosário em Buraco Escuro torna-se registro memorial nas consciências dos agentes que funcionam como motor de uma memória coletiva e de um espaço em determinado tempo a ser transformado e transmitido continuamente no presente. Os devotos, a cada ano, pedem favores e pagam promessas, pois acreditam que, com a realização da festa, há uma materialização de seus desejos e é demonstrada sua devoção10.

Na festa do Rosário em Buraco Escuro, há mecanismos de comportamentos, como a crença na Virgem, os milagres, a tradição, que constituem padrões de comportamento para o grupo de fiéis e que tornam coeso o espaço social em que vive. O indivíduo que se mostre desviante é punido por meio de ações sustentadas por uma moral cristã que pode ser demonstrada através de um sermão do padre ou de outros indivíduos. O princípio fundamental parece consistir na idéia de que ferir esta consciência coletiva representa uma violência que atinge a todos aqueles, visto que, em Buraco Escuro, todos são católicos e é trabalhada a noção de comunidade como ideal de homogeneidade e igualitarismo que deve ser compartilhada entre os indivíduos.

Memória e Resistência

A festa quer lembrar. Ela quer ser a memória do que os homens teimam esquecer – e não devem - fora dela. Séria e necessária, a festa apenas quer brincar com os sentidos, o sentido e o sentimento. E não existe nada de mais gratuito e urgentemente humano do que exatamente isso. (Brandão, 1989:17)

O ritual da festa de Nossa Senhora do Rosário, em Buraco Escuro, desde os seus preparativos até a sua finalização com a missa, encontra-se muito ligado a uma memória de resistência ocasionada, a cada ano, pelo medo do padre não comparecer à cerimônia, da chuva que dificulta o acesso ao local e, ainda, das doações não serem fartas.

Em retorno à comunidade em Junho de 2003, foi notável a preocupação de alguns participantes sobre a realização da festa. Porém, há uma certa garantia destes ao afirmarem que "com padre ou sem padre", a festa sairá, mesmo que, para alguns a festa sem padre não seja muito válida. A cultura torna-se por excelência um marcador de grupos onde cada tipo de comunidade revela uma ordem social (Halbwachs, 1990; Geertz 1989; Hobsbawn,1997). Para os devotos da festa em Buraco Escuro, a resistência em fazê-la está em manter memórias coletivas visto que estas vêm se tornando um processo importante na construção de suas identidades culturais próprias.

Fentress & Wickham (1992: 65) já apontavam um aspecto importante para a compreensão da memória social o qual podemos relacionar com o conceito de resistência. Segundo tais autores, a memória social é uma memória articulada e isto só é possível devido a sua capacidade de transmissão entre os indivíduos. A confiança nesta memória está no fato de ela ser continuamente testada na vida cotidiana. Podemos assim afirmar que enquanto a festa for capaz de proporcionar ao grupo festeiro, em Buraco Escuro, recordações, haverá a necessidade deste em se articular para mantê-la em um tempo e espaço. A ação social, portanto, envolve poder que é atribuído à capacidade de transformação dos indivíduos. É neste sentido que podemos dizer que os devotos de Buraco Escuro vão tecendo uma memória coletiva.

Através da realização da festa, os devotos do Rosário em Buraco Escuro vão tecendo um registro histórico entre eles. A festa é capaz de legitimar uma memória coletiva que, uma vez permanecendo aceita pela população, define algumas normas: mantê-la, realizá-la e reinventá-la. Para executarem estas funções, os devotos da santa precisam necessariamente negociar a organização da festa entre eles a cada ano. Como assinala Pollak (1992: 204): Esse último elemento da memória – a sua organização em função das preocupações pessoais e políticas do momento – mostra que a memória é um fenômeno construído.

Considerações Finais

É pela memória festiva, realizada e organizada há nove anos, que a comunidade de Buraco Escuro busca fazer com que a festa do Rosário dê certo e não caia em decadência. É com as representações que possuem registradas em suas memórias que os indivíduos mantêm, de forma criativa, a memória deste ritual.

Diante desses dados pode-se interpretar que tempo e espaço se organizam conforme as ordens de ocupações de um grupo, fato observado entre os devotos de Nossa Senhora do Rosário em Buraco Escuro. O estudo de uma festa religiosa, como exercício relativizador, pode ser capaz de revelar como é construída a identidade social de um povo.

A Festa do Rosário solidifica memórias coletivas que são transmitidas em narrativas pelos seus agentes. Memórias constituídas pelas expressões culturais e experiências de vida de pessoas que querem dar um sentido à festa: o lembrar. A fim de manter a memória de uma festa em movimento, as pessoas enquanto autores têm de inventá-la, refleti-la, experimentá-la, recordá-la, discuti-la, interpretá-la e transmiti-la. Estas ações fazem com que a festa se torne um evento de vidas continuamente construídas em um presente.

Referências bibliográficas:

 BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Cultura na Rua. São Paulo: Papirus,1989.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2001.

FENTRESS, James e Wickham, Chris. Memória Social: novas perspectivas sobre o passado. Tradução de Telma Costa. Lisboa: Teorema, 1992.

FRADE, Cáscia e outros. Festa Popular. Rio de Janeiro: Livroarte, 1980.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.

GIDDENS, Anthony et all. Modernização Reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Fundação UNESP, 1997.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

________, Les Cadres Sociaux de la Mémoire. Paris: Albin Michel, 1994.

HOBSBAWN, Eric e Ranger, Terence. Introdução. In. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. p.9-24.

LE GOFF, Jacques. Memória. In. Memória e História. Enciclopédia Einaudi, v.1. Rio de Janeiro; Imprensa Nacional, 1984.

POLLAK, Michael. Memória e identidade. In. Revista de Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.5, n.10, 1992. p 200 – 215.

SOUZA, Marina de Mello e. Reis Negros no Brasil Escravista: história da festa de coroação de Rei Congo. Belo Horizonte: UFMG, 2002.

THOMPSON, Paul. História Oral e Contemporaneidade. In. História Oral: Revista da Associação Brasileira de História Oral. São Paulo: ABHO. N. 5, junho de 2002. pp.9-28.

 

Outras Fontes:

Entrevistas realizadas em Buraco Escuro e concedidas à autora em 2002 e 2003.

http://www.ibge.gov.br/cidadesat/default.php

 

Notas:

* Este artigo é fruto da pesquisa em andamento para elaboração da dissertação de mestrado em Memória Social e Documento, na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), sob orientação do Prof. Dr. Marco Aurélio Santana.

1 É importante destacar que as falas dos personagens serão mantidas em sua forma "bruta" sem interferência do pesquisador. Muito dos registros se devem a anotações no diário de campo e à observação participante. A preferência por entrevistar pessoas idosas deve-se às experiências vivenciadas por estas e pela dificuldade de se obter documentos sobre Buraco Escuro e a Festa.

2 Quanto à formação histórica do local, uma das primeiras questões da pesquisa era sobre a remanescência de escravos no local visto que a devoção da Santa do Rosário, no Brasil, faz parte de um sincretismo religioso entre a cultura dos missionários católicos e a população de origem africana. Porém, nos dados da Prefeitura de Sem Peixe ou nos relatos orais dos moradores da zona urbana e rural, não há referência aos escravos negros, mas aos índios que junto com o "homem branco" teriam dado origem à população local. São freqüentes as narrativas sobre a origem indígena de seus antepassados.

3 Nossa Senhora do Rosário é considerada padroeira de todos os congadeiros e protetora dos escravos. Na época da escravidão, as festas de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito eram chamadas de "Festa de Negros" (Cascudo, 2001; Souza, 2002). Os escravos praticavam o culto religioso como forma de evitarem a punição dos senhores de engenho e manterem presente a sua cultura.

4 O "levantamento do mastro" é um ritual dividido por tarefas masculinas e femininas. Cabe aos homens ir à mata e cortar uma enorme madeira, trazendo-a para o quintal da igreja. Às mulheres e crianças cabe fazer e enfeitar a bandeira com a imagem de Nossa Senhora do Rosário que ficará no topo do mastro. Com a chegada do mastro, todos ajudam a enfeitá-lo com papel colorido.

5 O congado (ou dançantes), que constitui parte do ritual da Festa do Rosário, em Buraco Escuro, é representado por um grupo de mulheres, homens e crianças (a maioria são negros e mestiços). Apresentam-se com fitas coloridas, roupa branca e chapéu com espelhos colados e outros adereços, dançando e tocando pandeiros, uma sanfona e uma caixa. As músicas cantadas pelo congado normalmente dizem respeito à Nossa Senhora do Rosário e à exploração do trabalho de escravos negros. É comum entre os integrantes atribuírem a denominação de fila ao congado.

6 Causo em Buraco Escuro se refere à narrativa de fato passado (em geral, extra-cotidiano ou extraordinário) em conversa cotidiana.

7 Buraco Escuro é dividido, segundo relatos orais, em duas partes: Córrego Escuro (onde está a capela) e Córrego Grande.

8 Raimundo Pereira era quem realizava a Festa de Nossa Senhora de Santana com fogueira e dança em sua casa em Buraco Escuro. Contam que "morreu muito ruim", há mais de 30 anos.

9 Evocado é um termo muito usado em Buraco Escuro. Além de significar raiva, o conceito serve também para expressar vontade, desejo.

10 Entre os fiéis em Buraco Escuro, há uma memória a ser trabalhada continuamente: a noção de uma forte crença religiosa, uma imagem ideal de um mundo sagrado que se apresenta como um sistema de representações mediadoras entre os interesses da vida cotidiana e a realidade divina capaz de assegurar a salvação dos fiéis.