Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 03, 2003 - ISSN 1676-2924

 

A MEMÓRIA DAS NORMALISTAS DO INSTITUTO SARAH KUBITSCHEK (IESK) DE CAMPO GRANDE*

Amanda Oliveira Rabelo
Bacharel em Pedagogia e mestranda em Memória Social e Documento na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio)

Resumo: Esse trabalho tenciona analisar a memória das normalistas do Instituto Sarah Kubitschek (IESK), principalmente no que tange às influências do seu local de formação e moradia, na motivação de sua escolha profissional e na constituição de sua singularidade. Propõe-se indagar a geração da memória das normalistas do IESK, visando esclarecer os processos de subjetivação que contribuíram para a construção social dessas professoras, enquanto profissionais. A metodologia escolhida nessa investigação é a captação de narrativas orais de algumas normalistas, visando detectar os motivos pelos quais elas escolheram sua profissão e optaram especificamente por esta instituição. Na fase inicial dessa pesquisa foi possível constatar alguns dos motivos para a escolha da profissão: com destaque para a possibilidade de uma inserção rápida no mercado de trabalho e a feminização da profissão do professor, estimulada pelas instituições e pela sociedade.

Abstract: This work intends to analyse the memory of the IESK normal school students, principally about the influences of their place of studies and residence, in the motivation of their professional choice and in the constitution of their singularity. It, proposes to quest the memory’s generation of the IESK’s students, having in view to clear the processes of "subjetivation" that contributed to the social construction of those teachers, while professionals. The methodology chosen in this investigation is the capitation of oral narrations of some students, intending to detect the reasons why they choose their professions and this institution. In a first moment was possible to find some of the reasons to their choice of the profession: the chance of a fast insertion in the work market; the "feminilization" of the teacher profession, stimulated by the institutions and the society; and many others.

Palavras-chave: Memória; espaço; formação de professores.


Introdução

Pretendemos analisar se a memória das normalistas do IESK (Instituto Sarah Kubitschek) é influenciada por seu local de formação, que possui determinadas características específicas, já que está situada em Campo Grande, uma área que ainda mantém tradições rurais, com concepções e valores de uma sociedade fechada, podendo condicionar a construção da singularidade desse grupo de docentes.

Visamos analisar os impactos locais na memória dessas normalistas não só no momento em que estudaram, no IESK, mas também, numa fase posterior, antes mesmo do exercício da docência, quando refletiram sobre sua escolha profissional e sobre a importância que teve sua instituição de estudo, na sua opção pela docência.

Dessa forma, queremos esclarecer se o Instituto de Educação Sarah Kubitschek - IESK – está presente ainda na memória das professoras formadas e se ainda continua influenciando, após a sua formação, sua maneira de agir diante da profissão, sua identidade enquanto docentes. É importante elucidar se esse condicionamento seria mais marcante porque o IESK se constitui na única instituição destinada à formação de professores, na região oeste do Município do Rio de Janeiro. Deste modo, ele seria o único a conter características específicas nessa área, podendo influenciar a memória individual das normalistas.

A memória individual, de acordo com Halbwachs (1950), é sempre formada no coletivo, ou seja, no contato com a sociedade de convívio dos indivíduos, com suas tradições.

O IESK é um instituto que não somente forma professores, mas que muitas vezes é escolhido por pais e alunas por ser conceituado como uma escola pública de qualidade na localidade de Campo Grande. Um detalhe importante que marca a relevância do IESK na memória dos campograndenses é a valorização do uniforme da Instituição. Diversos entrevistados destacaram que pensaram em estudar no IESK pela importância e popularidade que tem o uniforme do IESK, símbolo de status, marco na memória dessa sociedade.

Procuramos estudar a memória das jovens professoras, egressas do IESK, referente à época da escolha profissional e, dessa forma, esclarecer o que as motivou a optarem pela profissão e, especificamente, por este instituto, investigando, também, se a conclusão do curso possibilitou, ou não, a revisão da sua escolha profissional.

Objetivos

Partindo destas premissas, o objetivo desta pesquisa, é analisar a constituição da memória e da identidade dos estudantes do curso normal do IESK que colaram grau no ano de 2001, estudando as influências desse espaço específico (IESK, Campo Grande) na elaboração dessa memória e identidade.

A escolha por estudar docentes, moradoras de Campo Grande e egressas do primeiro ano de formação do século XXI (2001) no IESK, como recorte neste trabalho, se faz porque estas profissionais, formadas há pouco tempo e iniciantes em suas atividades profissionais, ainda estão repensando sua escolha profissional e continuam, de alguma maneira, ligadas à sua história de formação e vida comunitária no IESK, que tem ainda impactos em sua prática escolar cotidiana. Assim, sua memória continua fortemente influenciada por sua passagem pelo Instituto Sarah Kubitschek. Frisemos, para esclarecer este ponto, que conforme Halbwachs, enquanto estamos em recente contato com um grupo lembramos dos acontecimentos que o concernem, porém quando nos distanciamos:

Todo o conjunto das lembranças que temos em comum com eles bruscamente desaparecem. Esquecer um período de sua vida é perder contato com aqueles que então nos rodeavam. (1950: 32).

Estas professoras estão em um processo de reconhecimento da profissão, uma vez que devem lidar de maneira mais profunda com a afirmação da sua escolha profissional, que é, muitas vezes, colocada em dúvida diante das contínuas dificuldades que apareceram/aparecerão no dinamismo social que engendram sempre novas políticas educacionais.

Uma política educacional relevante para essa afirmação profissional é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96) que determina, a partir do ano de 2007, a educação superior como formação mínima para a profissão de professor; isto exige uma reflexão e reavaliação de sua condição como professora, pois as docentes devem cursar uma Instituição Superior de Educação para continuar na profissão.

Essa análise será efetuada partindo de estudos sobre a singularidade dessas professoras egressas do IESK, de Campo Grande (RJ) e, que ainda estão ligadas às características deste local: onde grupos de encontro se formaram/formam, estabelecendo vínculos e relações, marcados por valores e costumes específicos e próprios da localidade em questão.

Visamos desvendar, no contato com as recém formadas normalistas, os processos de subjetivação que contribuíram para a construção da memória da professora, nos meandros de sua escolha profissional, tendo por base algumas questões que serviram/servirão de escopo a esta dissertação de Mestrado em Memória Social e Documento:

Metodologia

O recurso metodológico da oralidade não pode esgotar a contínua mobilidade e fluidez do nosso pensamento, mesmo assim estudar a oralidade é essencial para apreciar e criticar fatos que dizem respeito aos costumes ainda não estudados de um grupo, assim como elucidar os fatores que levam um indivíduo a agir de determinada maneira, motivado pela memória social.

Para Lozano (1996), a oralidade na história permite obter conhecimentos e análises partindo de fontes novas, por isso a oralidade se torna um espaço de contato e influências interdisciplinares e oferece interpretações qualitativas de processos histórico-sociais.

A narrativa possibilita esclarecer processos subjetivos da experiência humana. Tais processos facilitam o contato com as "pequenas histórias" de indivíduos, grupos e comunidades que, ao entrar em contato com essas experiências singulares, de segmentos muitas vezes esquecidos – velhos, trabalhadores, agricultores, desempregados, religiosos, crianças de rua, domésticas, aposentados etc. – permite registrar uma história popular.

Portanto, empregar o recurso da oralidade, para o esclarecimento das vivências das professoras formadas no IESK, possibilita que estas transmitam seus modos de ver o mundo e a sua história pessoal, com todos os seus percalços, acertos e desacertos, certezas e incertezas. Este procedimento nos permite extrair das lembranças mais longínquas dos pesquisados as imagens que marcaram o seu processo de escolha e de sua formação profissional.

Pesquisando e buscando atingir os objetivos desta investigação por meio dos depoimentos e da interação com as professoras, refletiremos sobre a formação profissional e a relação dessa profissão com as experiências pessoais e coletivas. Também esclarecemos a relação dessas experiências específicas com o local de vivência e formação.

Entendemos que narrar a própria história de vida é rever experiências, com a possibilidade de retomá-las; torna-se possível, assim, desvelar o processo de recriação dessa memória, compreendendo-a como memória individual, entretanto profundamente marcada pela memória coletiva ou social (há uma importante discussão teórica que envolve a caracterização da memória: Halbwachs cunhou o conceito memória coletiva, já Fentress e Wickham empregam a noção de memória social. Não estará em foco essa discussão, mas trataremos de memória coletiva quando utilizarmos Halbwachs, e memória social quando aludirmos a Fentress e Wickham).

O papel da oralidade e da narrativa fica evidenciado pelo fato, ressaltado por Fentress e Wickham, de que a memória só pode ser social ao ser transmitida, ou seja, enquanto não é transmitida ela é individual e pode se perder, assim, ela tem que ser primeiro articulada, nas lembranças grupais. É em busca dessa articulação e da revisão da memória (pois a memória sempre que é contada, ela é revista) que nesta dissertação optamos por investigar e colher os depoimentos baseados nas experiências pessoais.

Dessa maneira, a oralidade apresenta-se como um recorte no procedimento de escolha da profissão. Assim, a reconstituição da memória individual permite ao narrador reinterpretações de si próprio, de processos e práticas de ensino, propiciando, desta forma, a recuperação de sua experiência através de uma história singular de vida, conforme esclarece Bosi: "A narração da própria vida é o testemunho mais eloqüente dos modos que a pessoa tem de lembrar. É a sua memória" (1995: 68).

Outro fator que contribuiu, também, para escolher trabalhar com narrativas e oralidade, foi a possibilidade de estudar, através desses métodos, os processos de subjetivação, ou melhor, indagar como se processa/processou a construção da subjetividade da professora no seu âmbito social.

Conforme o já assinalado, o estudo se dará através de entrevistas abertas (entrevistas que permitam novas respostas sem um roteiro de perguntas totalmente fechado e que possibilitem ao entrevistado falar com certa liberdade de outros assuntos também, porém sem se perder do tema principal que está sendo focalizado) com professoras formadas no ano de 2001, no Instituto de Educação Sarah Kubitschek (IESK). Lembremos, neste ponto, que Walter Benjamim destaca: é preciso não esquecer que "a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. (...) Uma das causas desse fenômeno é obvia: as ações da experiência estão em baixa" (1985: 197-198). Nesse sentido, é preciso, para esta pesquisa, dialogar com essas professoras para que suas experiências venham à tona, no ato de relembrar suas memórias.

Sabemos que a professora demonstra, na sua prática, a capacidade de compartilhar com outros pares suas experiências. Somente com a sabedoria que vem das experiências vividas no cotidiano escolar (por vezes, tão esquecidas, desvalorizadas e desconsideradas) a formação docente poderá ser repensada.

Repensar, também, faz parte da memória, pois, de acordo com Fentress e Wickham (1992), a memória não é somente um mecanismo de cópia de uma informação e armazenagem em nossa consciência, ela também se faz pela experiência de recuperar essa informação e transformá-la, de maneira a formar pensamentos novos.

Aos efeitos de efetuar esta pesquisa, restringimos as entrevistas a no máximo 10 alunas egressas do IESK do ano de 2001, e 2 diretores atuais do Sarah Kubitschek: a diretora geral e o diretor do curso normal. Essa delimitação foi motivada pela impossibilidade de se entrevistar mais alunas, pois o IESK forma cerca de 2000 professoras(es) por ano. Tomando por base o fato ressaltado por Blanchet e Gotman (2001) de que a amostra necessária para a realização de uma entrevista é, de modo geral, de tamanho mais reduzido que a de uma enquete por questionário, pois as informações provenientes das entrevistas são validadas pelo contexto e não têm necessidade de sê-lo pela sua probabilidade de ocorrência (não precisam ser validadas por uma amostra matematicamente delimitada), empreendemos este estudo focalizando os dados coletados a partir desta amostra documental.

A escolha por entrevistar mulheres professoras surge pelo fato dessa profissão estar permeada pela questão de gênero, uma vez que o magistério é uma profissão que historicamente vem sendo destinada às mulheres. O que é demonstrado pela quantidade reduzida de homens/alunos que se formam no IESK.

A partir dessa delimitação, a ida a campo, ou seja, aos arquivos do IESK sobre as normalistas formadas, possibilitou o recolhimento de seus telefones para as entrevistas exploratórias.

Para tal, produzimos um roteiro de questões para os diretores e outro para as alunas (em anexo) com o intuito de começar as entrevistas exploratórias. O roteiro para os diretores possibilitou ter uma visão inicial de sua história de vida e sua escolha profissional, mas principalmente esclareceu como estes percebiam o porquê das alunas escolherem a carreira de professora e decidirem-se a ingressar no IESK. O roteiro de questões para as alunas tornou-se mais abrangente visando esclarecer a sua história de vida, escolha profissional, visões sobre o IESK e sobre a opção de exercer a docência.

Resultados e Discussão

Iniciamos a pesquisa com quatro entrevistas exploratórias: duas com os diretores do IESK e duas com duas normalistas. As entrevistas exploratórias ajudaram a confirmar a escolha do formato das entrevistas e a forma da seleção das entrevistadas: contatos ao acaso por telefone e indagadas se queriam continuar na profissão, para logo após, formar-se uma corrente de possíveis entrevistadas indicadas. Nas entrevistas com os diretores, ficou claro que há diferenças no que determina o ingresso ao magistério; diferenças ligadas a questões de gênero: há uma disparidade nos motivos pelos quais a mulher e o homem optam pelo magistério.

Nestas entrevistas exploratórias, um fato ficou evidenciado: muitas alunas que estudaram/estudam no IESK não queriam ser professoras. Este dado já tinha sido constatado por Reis (2002) em suas pesquisas com professores oriundos de diversas escolas de formação de nível médio e, atualmente, em formação de nível superior.

Algumas alunas apenas estudavam no IESK pelo atrativo que gera o uniforme escolar de uma normalista, símbolo da instituição na região, gravado na memória da coletividade local.

Percebemos que a memória está fortemente marcada por símbolos da coletividade, pois a escolha por estudar no IESK ser motivada por um uniforme é algo que, além de remeter a um passado glorioso da formação de professores, passado denominado por Angela Martins (1996) de "anos dourados" da educação, se torna ainda um símbolo presente de qualidade na atualidade, conforme assinala Halbwachs:

O passado deixou muitos traços, visíveis algumas vezes, e que se percebe também na expressão dos rostos, no aspecto dos lugares (...) os costumes modernos repousam sobre antigas camadas que afloram em mais de um lugar (1950: 68).

Outras estudantes escolheram o IESK pela falta de escolas de ensino médio de formação geral na região. Este fato nos possibilitou uma outra delimitação metodológica, ou seja, as alunas com este perfil teriam um tratamento específico nesta pesquisa, uma vez que, preferencialmente, nos interessava estudar aquelas alunas que desde o início escolheram o magistério como profissão e o IESK como escola de formação.

A narrativa das entrevistas exploratórias nos permitiu inferir, inicialmente, que o IESK possivelmente teve uma grande influência na atuação profissional dos futuros docentes, no que tange à continuidade dessa valorização do local e de uma vida que se move em torno desse espaço e das tradições de Campo Grande.

As entrevistas exploratórias com as alunas permitiram verificar como surge o interesse pela profissão e como estas estavam repensando sua escolha profissional: uma delas escolheu sua profissão a partir da relação com a família e por ter idealizado duas professoras (sua tia e sua alfabetizadora, que foi muito marcante na sua vida). Essa aluna conseguiu dedicar-se ao ensino superior, pois quis seguir na profissão com qualidade acadêmica, por considerá-lo indispensável para suas atividades profissionais.

A outra aluna esclareceu que não queria ser professora, alegando ter se formado pelo IESK, apenas, por não ter outro lugar para estudar. Esta também teve um condicionamento familiar para entrar na profissão, pois a tia, por trabalhar no IESK, conseguiu-lhe uma vaga e sua mãe a incentivou a aceitá-la, porém ela já pensou em desenvolver outra atividade que possa ser mais interessante e, por isso, desistiu de atuar na profissão docente.

As duas alunas afirmaram que cerca de 90% de seus colegas de classe não queriam continuar na profissão e tinham entrado no IESK por falta de opção. Porém, as duas reconheceram que havia colegas de classe que queriam permanecer na profissão e que desejavam ser professoras.

Enfim, pudemos constatar, em um primeiro momento, alguns dos motivos que determinaram a escolha da profissão: a possibilidade de uma inserção rápida no mercado de trabalho; a feminização da profissão do professor, estimulada pelas instituições e pela sociedade (como a família, a igreja e outros grupos sociais); as influências positivas da repercussão de boa qualidade de educação da instituição de ensino público – especialmente a qualidade do IESK.

 

* Este artigo é fruto da pesquisa, ainda em andamento, para elaboração da dissertação de mestrado em Memória Social e Documento, na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), sob orientação do professor Dr. Miguel Angel de Barrenechea.

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