Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 02, número 03, 2003 - ISSN 1676-2924

DOS GUERREIROS DE BELO MONTE AOS TRABALHADORES RURAIS DE MONTE SANTO – MEMÓRIAS DE LUTA*

Acácia Rios

Bacharel em Comunicação Social (Jornalismo) e mestranda em Memória Social e Documento na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio)
e-mail: acaciarios@uol.com.br

Resumo: O objetivo deste trabalho é investigar de que forma a memória coletiva de Antônio Conselheiro como um 'líder camponês de massas', construída pelo Movimento Popular e Histórico de Canudos desde 1981, foi importante para a organização sindical e para a constituição da identidade social dos trabalhadores rurais de Monte Santo (BA) dentro de um espaço definido - o da guerra de Canudos. As atividades do Movimento, ao longo de vinte anos, foram pautadas por reuniões de base e derrubadas de cercas, criação de fundos de pasto e formação de lideranças comunitárias. O fato de os trabalhadores rurais terem lutado pela autonomia do sindicato, formalmente fundado em 1979 pelo ex-prefeito Ariston Correia de Andrade (PFL) como forma de manobra política eleitoral, é um resultado concreto do trabalho de conscientização feito pelo Movimento na região.

Abstract: This work aims to investigate the importance of Antonio Conselheiro's collective memory as a "peasant leader", built by the Popular and Historic Movement of Canudos since 1981, to the sindicalist organization and the social identity of the peasants of Monte Santo (Bahia, Brazil), from the perspective of the Canudos War. The activities of the Movement throughout these two decades involved meetings and fence destruction, along with the creation of comunitarian agricultural lands and the education of the peasants. The fact that the activists fought to secure the autonomy of the Sindicate, which was formerly controlled by its founder, Ariston Correia de Andrade, a conservative politician, is a concrete result of the conscientization work made by the Movement in the Canudos region.

Palavras-chave: memória social, espaço, trabalhadores rurais.


Desde o início dos anos 1980 o Movimento Popular e Histórico de Canudos, liderado pelo padre Enoque Oliveira, vem desenvolvendo na região, sobretudo no município de Monte Santo1, norte da Bahia, o trabalho de construção da memória social de Antônio Conselheiro como um 'líder camponês de massas'. Lançando mão do fato de Monte Santo ter tido um papel de destaque na guerra de Canudos (1896-97), servindo de quartel general para as tropas do exército republicano, o padre Enoque passou a explorar em seu trabalho de base com as comunidades locais a herança de luta e resistência do povo sertanejo, de que os 'guerreiros' do líder religioso Antônio Conselheiro seriam os exemplos mais aguerridos.

Utilizando a metodologia da história oral, tentarei entender de que forma esse trabalho foi importante para despertar a consciência dos trabalhadores rurais, para a organização sindical e constituição de sua identidade social num espaço definido - o da guerra de Canudos. A partir daí, tracei alguns objetivos, quais sejam, primeiro, tentar verificar se minha hipótese se sustenta investigando como se deu o percurso Movimento-trabalhadores-sindicato; segundo, verificar as continuidades, permanências e/ou rupturas do trabalho do Movimento no sindicato e, por fim, se há continuidades, averiguar quais representações sobre esse passado, tão fortemente utilizado pelo Movimento, ainda se fazem presentes para a coesão do grupo.

Neste artigo, procuro explorar as questões acima a partir dos resultados preliminares do meu projeto de pesquisa no Mestrado em Memória Social e Documento, obtidos em minha primeira ida a campo, realizada de 11 a 19 de outubro de 2002. Nesse período, participei da 19ª Celebração Popular pelos Mártires de Canudos, no Açude do Cocorobó, sertão da Bahia, local onde ocorreu a guerra. A celebração é um ritual realizado anualmente pelo Movimento com o objetivo de relembrar o exemplo de luta e resistência do povo de Antônio Conselheiro e debater o tema proposto. Dela participam trabalhadores rurais, estudantes, intelectuais e artistas comprometidos com os objetivos do Movimento. Durante esse período também realizei entrevistas orais com quatro trabalhadores rurais, membros do sindicato de Monte Santo.

Movimento Popular e Histórico de Canudos - estratégias da memória

O Movimento Popular e Histórico de Canudos foi criado no início dos anos 1980 pelo padre Enoque Oliveira, da paróquia de Monte Santo que, depois de acompanhar várias ocupações de terras no subúrbio de Salvador, foi transferido para o sertão de Monte Santo com a finalidade, segundo ele, de "solucionar conflitos de terra" (Revista Canudos: 1997: 85). "Movia-nos a idéia de resgatar Canudos, denunciar os culpados, exigir justiça. Mas a justificativa maior para mexer naquela chaga aberta nos céus da caatinga era transformar a realidade do mundo camponês e dar-lhe identidade" (Idem: 87).

Num momento delicado da história do país, nesse momento sob o Regime Militar (1964-1984), como era de se esperar, o padre Enoque, Isabel Anunciação e Gilvandete Evangelista dos Santos (Monte Santo), Edésio Lima (Cumbe, hoje Euclides da Cunha), Pedro Peixinho (Uauá) - núcleo inicial do Movimento -, encontraram uma resistência grande da Igreja Católica e do povo em falar sobre Antônio Conselheiro. Por meio das palavras do padre Enoque podemos ter uma noção do contexto em que surge o seu trabalho de uma memória camponesa do líder religioso:

Em 1982 visitamos o povoado Rosário (teatro da guerra). Não tivemos autorização de entrar na capela para falar de Canudos. Os padres da diocese de Bonfim, temerosos de abordar o assunto, irritaram-se com a iniciativa do resgate. Uma das filhas de seu João de Régis, ramo dos Guerra, afirma que há dez anos odiava o Conselheiro "porque aquele assassino tinha matado muito gente". Em Chorrochó, na novena de Senhor do Bonfim, Afonso, preocupado com a memória histórica do município, é proibido pelo vigário local de falar sobre Conselheiro no templo religioso construído pelos canudistas. Havia temor de tocar naquele episódio. Para uns era história de carochinha, para outros lembrava o ronco dos canhões. A lembrança da guerra soava atroz, como se evocasse o martírio que ali se reproduzia nas milhares de criancinhas assassinadas. O espantalho da morte soava como uma ferida canudista que reproduzia flagelo. Como superar aquele medo das armas misturado à propaganda anticomunista pregada pelos adeptos da ditadura militar? [Com] A idéia de que os comunistas "comiam criancinhas", tomavam as terras e acabavam com a fé?; a estrutura mental do mundo camponês associava essa realidade ao massacre de canudos" (Ibidem: 88)

Apesar de toda essa resistência ao assunto "proibido", o trabalho de base teve início "debaixo de umbuzeirais, em barracas, capelas, casas de farinha, em que os camponeses iam tirando as suas prioridades, quais sejam, defesa da terra livre para o bode se criar, terra para trabalhar e morar, criação de açudes, vivência profética do evangelho incorporado à religiosidade popular, denúncia aberta contra a injustiça generalizada, defesa da escola etc." (Id. Ibid.).

Não tardaram a surgir as divergências com o clero e com os coronéis de Monte Santo, afinal, para eles, aquela era uma prática mais política que religiosa. Batizado pelo padre Enoque como "Santuário da fé e paraíso da grilagem", Monte Santo não diferia das cidades vizinhas no que diz respeito aos conflitos com grandes proprietários grileiros. Segundo dados do Centro de Estudos sobre Reforma Agrária da Bahia (1983), os anos 70 e 80 foram difíceis para várias comunidades de trabalhadores rurais, que sofreram com espancamentos físicos, mortes, ameaças e tiveram casas e propriedades incendiadas.

No nosso entender, os trabalhadores rurais que desde o início acompanharam o trabalho de "pastoral alternativa" do padre Enoque e permaneceram efetivamente no movimento, fizeram-no por duas razões que considero mais pontuais: 1) a sua referência como pároco foi fundamental para que o povo se dispusesse a ouvi-lo. Sabemos que a gente do sertão é devota e tem um respeito grande pelos padres; 2) o fato de ele fazer reflexões da Bíblia associando-as aos problemas locais como a grilagem e o assistencialismo político fizeram com que se sentissem refletidos naquele discurso do qual também eles eram partícipes. O pilar do trabalho de construção dessa outra memória partia do fato de que o povo do Conselheiro só conseguiu vencer enquanto comunidade porque se organizou e que os camponeses também precisavam se organizar para não serem mais explorados pela oligarquia vigente, caso contrário, não haveria possibilidade da luta pela terra e pela conquista de direitos. E a forma mais imediata seria a organização sindical.

A carta sindical do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Monte Santo é de 1979 e foi obtida pelo senhor Ariston Correia de Andrade (PDS, hoje PFL), um filho da terra que se candidatou a prefeito, mas perdeu as eleições. Para "ganhar tempo" e consolidar seu nome no município, fundou o sindicato. Na opinião de alguns trabalhadores rurais que entrevistei, seu objetivo era utilizá-lo como máquina de manobra política. E de que forma isso acontecia? – pergunta inevitável -, "fazendo assistencialismo sindical, dando carrinho de mão, foices, martelos, enxadas, facões", resposta invariável de todos os entrevistados. Em 1987, uma vez organizados enquanto categoria, os trabalhadores rurais constituíram uma chapa e pela primeira vez participaram do processo eleitoral. Os enfrentamentos com a polícia e com a política oligárquica em Monte Santo também foram marcas fortes nos momentos em que tentavam conquistar a autonomia do sindicato.

De acordo com Pollak (1992), os elementos constitutivos da memória coletiva são os acontecimentos vividos pessoalmente e os acontecimentos "vividos por tabela", ou seja, "acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer e que não se situam dentro de seu espaço-tempo" (p. 201). Segundo ele, "é perfeitamente possível que por meio da socialização política, ou da socialização histórica, ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar de uma memória quase que herdada. De fato, podem existir acontecimentos regionais que traumatizaram tanto, marcaram tanto uma região ou um grupo, que sua memória pode ser transmitida ao longo dos séculos com altíssimo grau de identificação".(Id. Ibid.)

Como a memória também é constituída por pessoas e personagens, ainda acompanhando as reflexões de Pollak, "podemos falar de personagens freqüentadas por tabela, indiretamente, mas que, por assim dizer, se transformaram quase que em conhecidas, e ainda de personagens que não pertenceram necessariamente ao espaço - tempo da pessoa" (Idem: 202).

Olhando para o nosso objeto a partir dessas reflexões, percebemos que Antônio Conselheiro, personagem principal do drama vivido no final do século XIX na região, atravessa a vida e a trajetória dos trabalhadores rurais sindicalizados, agrega-os, torna-os coesos. Longe, entretanto, de tratar o sindicato de trabalhadores rurais de Monte Santo como uma entidade homogênea, ou como a realização de um projeto ideal, o que quero realçar aqui são os fatos invariantes da memória coletiva da qual o sindicato é portador, e que, acredito, estão presentes nas entrevistas orais que realizei.

Açude do Cocorobó – espaço de luta e resistência

Podemos agora, a partir das falas de três trabalhadores rurais, entender como a memória desse líder religioso, transformada num símbolo de resistência e de luta pela terra, serviu para despertar a consciência política dos trabalhadores e para transformar as suas vidas, tornando-os efetivamente atores sociais importantes e com identidade social definida. "Memória é trabalho", nos lembra Marilena Chauí (1979, apud BOSI), e este trabalho do jogo entre memória e identidade se inscreve dentro do espaço (re)construído da guerra.

No trabalho de campo, entrevistei José Alves Guimarães Ribeiro, 50 anos (povoado Barra) - atual presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Monte Santo; Maria Dias de Santana, 37 anos (Oiteiro); Máximo Santana, 60 (povoado Muquém) e Jucelino Nunes Rocha, 40, (Fazenda Mundo Novo). Neste artigo, entretanto, utilizo apenas três destes depoimentos.

Nas entrevistas abordei um leque de questões sobre o presente, o passado, a construção da memória e a utilização do espaço. Os recortes das falas aqui apresentados, entretanto, abrangem mais enfaticamente dois pontos cruciais para atender aos meus objetivos: 1) como era antes e como passou a ser depois da organização sindical; 2) a importância para os entrevistados da Celebração Popular pelos Mártires de Canudos.

Segundo Halbwachs (1990), o espaço é uma realidade que dura. E nele,

certamente os acontecimentos excepcionais também têm lugar neste quadro espacial, mas porque na ocasião certa o grupo tomou consciência com mais intensidade daquilo que ele era desde há muito tempo e até esse momento, e porque os vínculos que o ligavam ao lugar se tornaram mais claros, no momento em que iam se romper (Op. cit.: 133).

De acordo com David Harvey (1993), "as mudanças nas qualidades objetivas do espaço e do tempo podem ser, e com freqüência são, efetuadas por meio da luta social" (p. 208). Para alguns autores como Leopoldo Bernucci2, por exemplo, a inundação do lugar pelas águas do rio Vazabarris, onde por duas vezes a cidade de Canudos foi erguida - em 1893 e posteriormente nos idos dos anos 20 - se deu pela tentativa de tentar apagar a memória da guerra de Canudos, caracterizada pela luta contra as elites políticas. Uma vez transformado em açude, o lugar passa a se constituir em uma área de segurança nacional, o que facilita o controle do exército e, consequentemente, o combate às possíveis sublevações do campo. Essa estratégia se insere num momento de militarização do campo, que teve início no período do regime militar.

Para além da utilização da água para combater a seca e a fome, o Açude foi transformado, (re)criado pela presença dos trabalhadores rurais que iam em massa participar da Celebração Popular pelos Mártires de Canudos. O espaço simbólico do qual tratamos trouxe para o senhor Máximo Dias um sentido outro, subjetivo, de diálogo consigo mesmo sobre o que vivenciou naquele lugar e o que ele lhe transmitia:

acho aquilo tão importante, não sabe, quando a gente chegava lá encontrava com gente de tudo que era parada, então a gente se sentia com aquela emoção, de ver aquela discussão toda, tá entendendo, bulia com tanta coisa que já tinha sido passada, até mesmo por aqueles onde lá era uma cidade, que já estava uma cidade até avançada, que já tinha vinte e tantas mil pessoas aposada lá e aquilo foi destruído por quem? Pelo governo, tá entendendo? Destruir uma cidade, uma cidade que se naquele tempo não destruísse hoje tá com cento e tantos anos dessa história, eu acho que hoje essa cidade tava avançada que já seria uma das maiores da nossa Bahia, não era não?3

Pelas palavras do senhor Máximo, podemos perceber a importância do fato de a Celebração ser realizada no palco da guerra e não em qualquer outro lugar do sertão. Estar precisamente neste local, que "bulia com tanta coisa que já tinha sido passada", significa revivenciar o exemplo de luta e o modelo de vida igualitário transmitido pelo Movimento e que é utilizado ainda hoje no discurso do movimento sindical porque isso ajuda a "crescer muito mais na luta", como afirma Zé da Barra. Para termos uma noção do quanto este assunto era temido, o senhor Máximo, apesar de ter nascido na região, nunca tinha ido ao Açude. Segundo ele, as pessoas mais velhas da sua comunidade avisavam para que eles não fossem lá porque tinham medo de que viesse a ocorrer uma outra guerra militar.

Para Jucelino Nunes Rocha, 40 anos, a celebração lembra que a memória de Antônio Conselheiro foi importante para que passasse a dar um sentido à luta:

eu acho que a importância é que Canudos é uma história da gente, que a gente não pode deixar, tem que sempre estar memoriando e repassando para quem não conhece. Até porque em parte a gente ainda vive essa história. É a nossa história, né, a nossa realidade aí, porque os massacre continua, cê vê que hoje o assentamento só acontece depois que morre o trabalhador, depois que patrão manda matar alguém, manda fazer despejo. Depois de tanta luta é que acontece um assentamento, uma área de reforma agrária, então eu acho que o que mudou, como eu falei antes, é que cresceu mais a organização, o sistema é o mesmo, eles querem implantar o mesmo modelo, os coronéis.

E foi essa luta, tal como ela foi concretizada, que lhe conferiu também uma identidade social:

Eu penso que se eu não tivesse entrado no Movimento, eu como um trabalhador rural, hoje eu acho que eu era uma pessoa desconhecido na sociedade, né, como muitos. Porque hoje aqui nessa região aqui, posso dizer que no estado da Bahia eu tenho tanto apoio hoje através desse movimento, porque em quase todos os sindicatos da Bahia a gente tem um amigo lá, um companheiro de luta, né, a gente tem um apoio. Só a amizade que a gente tem pela aqui, acho que já valeu muito, e até conhecimento no próprio município, conhecimento dos problemas do município, e também conhecimento com as pessoas. E chegou hoje de a gente ser diretor do sindicato já pela segunda vez e hoje se falar em meu nome eu acho que aqui no município pouca gente pode não saber quem é. Eu acho que isso pra gente é importante.

Para José Alves Guimarães Ribeiro, conhecido como Zé da Barra, a celebração tem um peso significativo. Ele participa anualmente do ritual e é um dos responsáveis pela organização do transporte que sai de comunidade em comunidade para levar os trabalhadores rurais. Canudos atravessa a sua vida: "Só aprendi a viver quando descobri Canudos. Hoje o que é que pode fazer afinal para contribuir para aquilo que Antônio Conselheiro nos deu exemplo?" indaga, dando ele mesmo a resposta:

Antônio Conselheiro foi uma figura, né, e o mundo tá se modernizando desde aquela época pra cá, e agora é preciso que apareçam pessoas que dê exemplos de Antônio Conselheiro. No caso da gente, nós era camponês que não tivemos a oportunidade de estudar, morava num semi-árido desse aqui longe da cidade, os povoados mais próximo não tem nem energia e através das luta das comunidades a gente começou a se desenvolver e junto a padre Enoque começamo a se implantar a questão Canudos, e chegamo ao ponto do resgate e do conhecimento de que foi Antônio Conselheiro. Não era aquela história que dizia que Antônio Conselheiro era fanático, aquela história toda. Antônio Conselheiro foi um exemplo de luta, de liberdade, atualização do povo, o povo ter liberdade, e que nós aprendemos com isso, e que o sindicato era governado pelo sistema, a gente partiu pra cima. A gente tinha uma experiência do Movimento e essa experiência ajudou a fazer essa administração no sindicato, que não tinha nada. A gente se engajou na luta de Canudos e entendemos que essa experiência de Canudos nos dá o exemplo de você crescer muito mais na luta. O exemplo que as comunidades tiveram, o exemplo de honestidade, que você reparte o que tem.

A mudança ocorrida na vida e na consciência coletiva após o trabalho de base do movimento é assim descrita por Jucelino:

Eu acho que melhorou muito a consciência das pessoas, elas começaram a entender que só organizado poderia conseguir alguma coisa, né, e também começaram a perceber que a história é verdadeira, até porque hoje a gente tem uma história eu não é muito diferente, o problema é que hoje a organização cresceu no Brasil e eles hoje tão sem poder romper com essa organização, né, o pessoal tão mais organizado, cresceu o grupo de organização então eles têm uma dificuldade de implantar o mesmo projeto de guerra que eles implantaram em Canudos, mas hoje a vontade deles de deixar o trabalhador mais miserável é mesma, eu acho que não mudou nada.

No meu entender, as atividades do Movimento, inspiradas no exemplo de liberdade do povo conselheirista, só foram possíveis porque encontraram nos trabalhadores rurais uma vontade de mudança. As estratégias da memória - pesquisa histórica, celebração popular, produção de canções, poemas e representações do episódio em pinturas a óleo, fotografias, xilogravuras de artistas comprometidos com o Movimento - serviram de "semente de rememoração", para que viessem a se transformar nessa "massa consistente de lembranças" (Halbwachs, 1990: 28).

Conclusão

A partir destas pistas possibilitadas pelo trabalho de campo, podem ser apontados alguns aspectos que dizem respeito aos objetivos alcançados até o presente momento, quais sejam: 1) constatei que o trabalho do Movimento Popular com os camponeses foi, sim, condição sine qua non para que eles se estabelecessem enquanto organização e oposição sindical, precisamente naquele momento em que vigorava o assistencialismo sindical e não o político; 2) as características do povo de Monte Santo, um dos municípios de tradição religiosa mais fortes da Bahia, foram o elo entre os trabalhadores e o Movimento (liderado por um padre), resultando na sua organização sindical; 3) quanto à continuidade do trabalho do Movimento no Sindicato, não há mais uma relação de aprendizagem, mas de união de experiências, forças e estratégias, já que o sindicato, hoje, anda com suas próprias pernas e se constituiu em um ator social em Monte Santo; 4) a participação dos trabalhadores na Celebração Popular pelos Mártires de Canudos, ritual que congrega camponeses, intelectuais, estudantes, pesquisadores e artistas no espaço simbólico da guerra, demonstra o quanto a construção da memória coletiva de Antônio Conselheiro como líder camponês une e reúne centenas desses trabalhadores em torno de uma imagem com a qual eles se identificam, tornando o grupo coeso; 5) Verificamos que essa imagem do peregrino, como também é conhecido o Conselheiro na região, também é passada pelos trabalhadores aos seus filhos, que freqüentam o sindicato e muitas vezes participam com os pais das reuniões ordinárias e assembléias. De acordo com os entrevistados, as assembléias nas associações comunitárias se iniciam com o hino do Conselheiro: "Salve, salve, Canudos", em que se relembra o exemplo de luta e de resistência que o líder religioso representou na região. Na sede do sindicato, pinturas, calendários e cartazes do Movimento com representações de Antônio Conselheiro e frases tiradas pelos próprios trabalhadores, segundo Zé da Barra, são fruto da experiência adquirida com o Movimento Popular.

Finalizamos com as palavras de Le Goff (1984), para quem "a memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens" (p. 47).

Referências Bibliográficas:

BOSI, Eclea. Memória e Sociedade. São Paulo: T. A. Queiroz, 1979.
CALASANS, José. No tempo de Antônio Conselheiro. Salvador: Uneb, 1959.
_______. Cartografia de Canudos. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo, Conselho Estadual de Cultura, EGBA, 1997.
COMUNIDADES DE BASE DAS DIOCESES DA REGIÃO. Canudos - a sua história e de seu fundador. Salvador, EMQ Gráfica e Editora, 1984.CUNHA, Euclides da. Os sertões. 30. ed. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1965.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
HARVEY, David. A condição pós moderna. São Paulo: Loyola, 1993.
LE GOFF, J. Memória. In: Enciclopédia Einaudi. V. 1, Memória - História. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984.
NOTA DE ESCLARECIMENTO E DE APOIO AO POVO DE MONTE SANTO E AO PADRE ENOQUE, Senhor do Bonfim (BA), 11 maio 1985.
OLIVEIRA, Pe. Enoque. Conselheiro do Sertão - Entre prédicas e conselhos (líder camponês). Salvador: Edição do Autor, 1997.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, 1992, p. 200-212.
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QUE É A CELEBRAÇÃO POPULAR PELOS MÁRTIRES DE CANUDOS?, Salvador, documento remetido à Secretaria da Educação do estado da Bahia, 1991.
SECRETARIADO NACIONAL DA CPT. A luta pela terra - a Comissão Pastoral da Terra 20 anos depois. São Paulo: Paulus, 1997.
XIII CELEBRAÇÃO POPULAR PELOS MÁRTIRES DE CANUDOS. Tema: 100 anos, destruíram Canudos. Construíram o quê? Movimento Popular e Histórico de Canudos. out/1996.

Relação dos entrevistados:
José Alves Guimarães Ribeiro, 50 anos, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Monte Santo. Monte Santo (BA), 2002.

Máximo Moreira de Andrade, 60 anos, trabalhador rural sindicalizado. Monte Santo (BA), 2002.

Jucelino Nunes Rocha, 40 anos, tesoureiro do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Monte Santo. Monte Santo (BA), 2002.

 

Notas:

*Este artigo é fruto da pesquisa em andamento para elaboração da dissertação "Dos heróis de Belo Monte aos trabalhadores rurais de Monte Santo - Memórias de luta" no Mestrado em Memória Social e Documento da Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), sob orientação do Prof. Dr. Marco Aurélio Santana.

1Cidade da região de Canudos, a 353 quilômetros de Salvador. O início da sua tradição religiosa data do século XVIII. Em 1875, ao chegar à então Fazenda Soledade, localizada ao pé da Serra do Piquaraçá, o frei italiano Apolônio de Tody, achou-a semelhante ao Calvário de Jerusalém, onde se realizou os passos da Paixão de Cristo. Por essa razão, construiu, ao longo de seus 1.969 metros de altitude, 24 capelas que simbolizavam os passos de Jesus Cristo e, no alto da serra, a igreja da Santa Cruz. Em 1880, Antônio Conselheiro restaurou as capelas do caminho da Santa Cruz. A crença de que teriam acontecido milagres nesse local transformou a cidade em um centro de romarias e a tradição se mantém até hoje. Na época da guerra, Canudos fazia parte do município de Monte Santo e serviu de base militar para as tropas republicanas, daí a abrangência da memória do líder religioso, que abarca não só toda a região do nordeste da Bahia, onde construiu açudes, capelas e igrejas, algumas destas ainda hoje existentes, mas também alguns municípios do estado de Sergipe.

2 Aqui, citamos uma referência a este autor, cujo trabalho foi apresentado no "Simpósio Internacional Os Sertões – Permanência e rasuras", realizado de 2 a 7 de dezembro de 2002, em Salvador, Feira de Santana e Canudos. O resumo está publicado em Programa e Resumos, Salvador: EDUFBA, 2002.

3 Este e os demais depoimentos foram concedidos à autora em Monte Santo, em outubro de 2002, durante o trabalho de campo. Nas transcrições das entrevistas, optei por não fazer correções ortográficas.