ZARATUSTRA, MESTRE DA VIRTUDE DADIVOSA
Luiz Celso Pinho - UERJ/FAPERJ
Universidade
do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas
Departamento de Filosofia
E-mail:
lucepi@uol.com.br
RESUMO: O presente artigo tem por objetivo
elucidar a ética nietzschiana a partir da noção de “virtude
dadivosa” formulada em Assim falou Zaratustra.
ABSTRACTS: The
aim of this article is to elucidate Nietzsche’s ethics from the
notion of “bestowing virtue” as formulated in Thus spoke
Zarathustra.
PALAVRAS-CHAVE: virtude dadivosa, tragédia,
ética.
Título: “Zaratustra, mestre da virtude dadivosa”.
Para L., dádiva incessante.
Apesar da
linguagem poética utilizada em Assim falou Zaratustra, Nietzsche
começa a elaborar uma terminologia própria para contrapor-se ao
pensamento metafísico. Daí tanto explicitar como se dá o
funcionamento de alguns conceitos, como morte de Deus, morte do
homem, último homem, “super-homem” [Übermensch], vontade de
verdade, vontade de potência, eterno retorno, quanto esboçar o
contexto de aplicação de outros, independente de não nomeá-los, no
caso de niilismo, ideal ascético, transvaloração dos valores. Tal
arcabouço conceitual servirá de referência para as interpretações
futuras da filosofia nietzschiana. No entanto, os comentaristas
quase nada falam sobre um termo que, a nosso ver, desempenha papel
de destaque na argumentação desse momento divisor de águas -
referimo-nos à expressão “virtude dadivosa” [schenkenden Tugend],
cujo último capítulo da primeira parte do livro leva o seu nome,
privilégio que não se aplica a nenhum dos termos acima
mencionados. Além disso, só dispomos da argumentação de Assim
falou Zaratustra para dar conta do que Nietzsche almeja com tal
expressão.
O discurso pronunciado em “Da virtude dadivosa”
concentra a maior parte das referências feitas ao tema. Nele,
Zaratustra não apenas encerra o ciclo de ensinamentos sobre a
promessa-ameaça do “super-homem”, deixando para trás a cidade que
percorreu após ter saído do isolamento de sua caverna, como
despede-se, pela primeira vez, da companhia daqueles que lhe são
próximos, e aos quais ele se refere ora como amigos, ora como
discípulos, ora como companheiros. Trata-se, sem dúvida, de uma
ocasião solene, onde Zaratustra faz uma espécie de balanço do que
até então vivenciara e fornece indícios dos desafios que estão à
sua espera. O capítulo “Da virtude dadivosa” divide-se em três
seções. Na primeira, Zaratustra discorre demoradamente sobre essa
“nova virtude”, da qual ele dá a entender ser o pioneiro. Em
seguida, depois de um súbito silêncio, exorta os que o escutam a
abraçar essa que considera uma “nova esperança”. Finalmente,
permanece sem pronunciar palavra alguma por um longo momento, como
se hesitasse falar, para então ordenar a todos os presentes que se
afastem dele, que o deixem, em suma, que o reneguem.
Cada uma
das seções a que nos referimos abordam diversos aspectos do que
vem a ser a dadivosidade zaratustriana. Não há, a rigor, uma
definição que possa servir de parâmetro para o entendimento
unívoco do que ela significa. Como ponto de partida talvez seja
mais elucidadivo recorrer a uma passagem que a retrate de forma
ampla, para que possamos apreendê-la a partir de sua diretriz
geral. Essa estratégia nos leva a privilegiar o trecho em que
Zaratustra proclama: “Torna-vos vós mesmos oferendas e dádivas, é
essa a vossa sede; e, por isso, tendes de acumular, na vossa alma,
todas as riquezas. Insaciável, aspira a vossa alma a tesouros e
jóias, porque insaciável é a vossa virtude em querer dar
presentes. Obrigais todas as coisas a ir a vós e a estar em vós,
para que voltem a fluir do vosso manancial como dádivas do vosso
amor”. Mais do que um simples conselho, esse discurso ressalta uma
forma de virtude calcada no imperativo de presentear, de acolher
em si o que é realmente valioso não para obter uma
auto-satisfação, mas para estabelecer um estado de incessante
transbordamento.
Aliás, o início da trajetória de Zaratustra já
está impregnado desse princípio de dadivosidade. Depois de dez
anos de reclusão voluntária em sua caverna, ele declara, no
Prólogo, que anseia “dar e distribuir” toda a sabedoria que
acumulou no período, a ponto de fazer com que os sábios “voltassem
a alegrar-se de sua loucura e os pobres, de sua riqueza”, dando a
entender que através desse gesto doador é possível ressignificar a
existência. Na conversa que mantém com o eremita que encontra no
caminho entre sua caverna e a cidade mais próxima, ainda no
Prólogo, deixa claro que traz um presente para a humanidade - o
“super-homem”. Nessa postura mista de generosidade e
desprendimento reside o ponto de partida para que se possa
adquirir uma fisionomia radiante (“igual ao ouro, reluz o olhar do
homem dadivoso”), atingir o ápice da escala de valores (“uma
virtude dadivosa é a mais alta virtude”) e mesmo cultivar uma vida
saudável (“sempre adivinhamos a presença da degenerescência onde
falta a alma dadivosa”). Na medida em que anuncia esse “inominável
anseio”, Zaratustra torna-se mestre da virtude dadivosa.
A
dadivosidade zaratustriana implica uma mudança de atitude diante
da existência. Na verdade, toda a filosofia de Nietzsche está
perpassada por uma incessante problematização de cunho ético. Seja
explicitamente, como no caso de Genealogia da moral, através da
célebre distinção entre a conduta afirmativa do aristocrata e o
comportamento ressentido do escravo; seja implicitamente, nos mais
diversos textos a partir dos quais encontramos juízos sobre a
necessidade de entrar em consonância com uma dinâmica vital. É por
isso que Nietzsche atribui ao homem nobre, do qual Zaratustra
mostra-se uma expressão, “a sensação de plenitude, de poder que
quer transbordar, a felicidade da tensão elevada, a consciência de
uma riqueza que gostaria de ceder e presentear”. No entanto, como
veremos, a virtude dadivosa envolve perigos: tanto para as
certezas que o homem comum nutre quanto para o próprio Zaratustra.
No intuito de elucidar a questão da dadivosidade, nos deteremos em
quatro desdobramentos possíveis dessa idéia: 1°. a criação de
valores; 2°. o privilégio dos instintos; 3°. a destruição do
sujeito; 4°. a adoção de uma visão trágica da existência.
1. O
IMPERATIVO DE CRIAR NOVOS VALORES
No caminho que leva à cidade
mais próxima, Zaratustra reencontra o mesmo eremita que dez anos
atrás o viu dirigindo-se para o seu retiro voluntário na montanha.
O diálogo entre eles retrata o choque entre duas formas
heterogêneas de dar sentido à própria vida. Uma que ama a
perfeição divina e, em função isso, busca o isolamento na
floresta; a outra que almeja oferecer seu amor à humanidade, o que
a impele a abandonar a solidão dos altos montes. O velho solitário
alerta seu interlocutor de que os homens desconfiam de quem lhes
quer oferecer algo, recomendando-o que lhes tire alguma coisa, ou
melhor, que lhes cure as feridas da existência. Zaratustra vai
embora repentinamente, temendo tirar dele o que lhe é mais
precioso, pois seu presente só será possível a partir do momento
em que não haja qualquer traço de uma instância divina atuando
entre os homens. Daí ele proclamar, no final da primeira parte do
livro: “‘Mortos estão todos os deuses; agora, queremos que o
super-homem viva!’ - Que isto brilhe, algum dia, no grande
meio-dia da nossa última vontade!”.
O ato de presentear está
intimamente associado a uma reflexão sobre o valor das coisas, na
qual a humanidade seja capaz de superar a si mesma. Zaratustra
constata que até então prevaleceram os valores divinos, que são
eternos e imutáveis. Além disso, “quase todos acreditam ter seu
quinhão de virtude; e cada qual, quando menos, pretende-se
conhecedor do ‘bem’ e do ‘mal’. Mas não para isto, veio
Zaratustra, não para dizer a todos esses mentirosos e néscios:
‘Que sabeis vós da virtude! Que poderíeis, vós, saber da
virtude!’”. Nesse discurso Zaratustra comenta onze formas de como
alguém pode se considerar virtuoso. Mas, para ele, o que importa é
agir tanto como a mãe que ama o filho sem querer ter algum ganho
com isso quanto como a estrela cujo brilho continua percorrendo o
espaço mesmo após ela ter se extinguido.
A adesão à virtude
dadivosa só ocorre, salienta Zaratustra, “quando vos anima uma só
vontade”, quando o indivíduo consegue elevar-se “acima do elogio e
da censura”. Essa postura está em dissonância com o movimento que
norteou a civilização, pois “mil fitos houve até aqui, já que
houve mil povos. Falta, ainda, apenas o grilhão para as mil nucas,
falta o fito único. Ainda não tem um fito a humanidade”. Quando se
despede de seus discípulos, no início de “Da virtude dadivosa”,
Zaratustra deseja que cada um deles “se torne criador e julgador
de valores”. Pretende, com tais palavras, ressaltar “que todos os
valores das coisas sejam, em novo, estabelecidos por vós. Para
isso deveis ser lutadores! Para isso deveis ser criadores!”. Se
antes o maior valor residia na crença em um ser superior - eterno
e transcendente -, agora é preciso lutar contra essa longa
tendência. “Poder, é essa nova virtude”, dirá Zaratustra,
referindo-se, sem dúvida, à “vontade de potência” [Wille zur
Macht].
2. UMA APOLOGIA DOS INSTINTOS
Na segunda seção de
“Da virtude dadivosa”, Zaratustra começa com o seguinte discurso:
“Permanecei fiéis à terra, meus irmãos, com o poder da vossa
virtude! Que o vosso amor dadivoso e o vosso conhecimento sirvam o
sentido da terra. Isso eu vos rogo e imploro”. Mais adiante
complementa: “Trazei, como eu, essa virtude desorientada de volta
à terra - sim, de volta ao corpo e à vida”. A dadivosidade está
diretamente relacionado a um plano terreno, corporal, sensível, no
qual seja possível reabilitar o lado instintivo do homem. A
filosofia nietzschiana defende insistentemente que devemos deixar
de lado os mecanismos racionais de controle e empobrecimento da
Vida. Ao fazer uma apologia do mundo terreno, em detrimento de
tudo o que é etéreo, espiritual, transcendente, Zaratustra não
somente concede ao corpo um alto valor como também acaba
defendendo uma forma de existência na qual “todos os instintos
tornam-se sagrados”.
A concepção nietzschiana de instinto não
resulta da adoção de qualquer idéia de cunho naturalista ou
inatista. Além disso, Nietzsche, ao longo de sua obra, nem sequer
distingue instinto, de impulso, de pulsão ou de impulsão. Uma
passagem que nos parece esclarecedora ocorre em Genealogia da
moral, quando lemos que, em vez de o ser humano deixar-se levar
pela necessidade de “pensar, inferir, calcular, combinar causas e
efeitos”, deveria estar atento a “impulsos reguladores e
inconscientemente certeiros”. Diferente do sinuoso caminho que o
pensamento racional percorre ao ficar indeciso entre o sim, o não
e o talvez, os instintos são um guia eficiente, pois nos conduzem
diretamente ao âmago do que está em questão. Eles dão vazão ao que
é mais fundamental. Daí o elogio, em A gaia ciência, ao “animal
que, arriscando a própria vida, protege seus filhotes, ou que na
época do cio acompanha a fêmea até a morte”.
Nietzsche
considera que a “natureza superior”, ou seja, o “indivíduo nobre,
magnânimo” é aquele “que se sacrifica, sucumbe mesmo a seus
instintos, e em seus melhores momentos a sua razão faz uma pausa”.
Reabilitar o lado instintivo do homem significa, pois, adotar uma
atitude visceral consigo mesmo, já que os mecanismos de controle
são deixados de lado. O uso da razão pode trazer segurança, mas
são os instintos do animal selvagem, livre e errante que
proporcionam a felicidade. Em Verdade e mentira no sentido
extra-moral, Nietzsche lamenta o momento em que abandonamos os
chifres e as presas e passamos a utilizar o intelecto como
instrumento de sobrevivência. “Foi o momento mais soberbo e mais
mentiroso da ‘história universal’”, sentencia. A virtude dadivosa
implica a possibilidade de o indivíduo gerenciar sua existência a
partir de uma “razão corporal”, ou seja, de um princípio mais
vital na medida em que não se engana nem gera ressentimento.
3.
O SUJEITO EM PERIGO
“Eu sou dadivoso: com prazer, como amigo,
eu presenteio os amigos” - é assim que Zaratustra define a si
próprio. Essa auto-definição já havia sido esboçada na primeira
parte do Prólogo de Assim falou Zaratustra a partir do anseio de
dar e distribuir e de atingir um estado de transbordamento. Só que
naquela passagem inicial ficava claro que a “taça que quer
transbordar” corresponde à “taça que quer voltar a esvaziar-se”.
Um pouco mais adiante, a necessidade de auto-preservação é
colocada em cheque através de uma alusão ao mito de Fênix: “arder
nas tuas próprias chamas, deverás querer; como pretenderias
renovar-te, se antes não te tornasses cinza!”.
Esse anseio pela
aniquilação do indivíduo ocupa um lugar central em Assim falou
Zaratustra e em diversos textos de Nietzsche. O próprio advento do
“super-homem” parte do pressuposto de que “o homem é algo que deve
ser superado”. Nietzsche invariavelmente atribui um estatuto
inferior ao Eu, à Consciência, ao Sujeito, ao Cogito, tendo em
vista que designam instâncias que, além de serem tardias no
processo de evolução, são responsáveis por deixar de lado o que é
mais fundamental para a Vida. É nesse sentido que o caminho que
leva à formação do homem criador põe em risco a noção de
subjetividade. Daí Zaratustra amar aquele que “é sempre dadivoso e
não quer conservar-se”, “aquele cuja alma é tão transbordante, que
se esquece de si mesmo”. E mesmo ao defender um comportamento
egoísta, o do “ladrão de todos os valores”, que seria um egoísmo
“sagrado e sadio”, Zaratustra declara que fica horrorizado com “a
mente degenerada que diz: ‘Tudo para mim’”.
Ao mesmo tempo que
se caracteriza por ser um crítico do livre arbítrio, Nietzsche
apregoa que devemos nos tornar aquilo que somos. Deixando de lado
o aspecto paradoxal dessa fórmula de Píndaro, o que está em jogo
não é justamente a possibilidade de transformação, de metamorfose
de si mesmo? Para Foucault, o pensamento nietzschiano segue a
trilha aberta por Schopenhauer ao desvencilhar a vontade
individual dos modelos da filosofia natural e da filosofia do
direito, o que remeteria à capacidade de agir sobre a natureza ou
distinguir o certo do errado. Trata-se, de agora em diante, de
concebê-la enquanto resultante de relações estratégicas de forças.
Forças estas que almejam se expandir ou se conservar. O que nos
leva a distinguir, do ponto de vista da conduta individual, aquele
que “cria a partir da abundância” e aquele que “tem sede da
abundância”. O terceiro aspecto da dadivosidade envolve tanto uma
espécie de esgotamento do sujeito quanto a obediência a uma
vontade impessoal que põe em risco, inclusive, a sobrevivência
daquele que deseja.
4. A VISÃO TRÁGICA DA VIDA
No início da
terceira parte de “Da virtude dadivosa”, Zaratustra permanece um
longo tempo em silêncio. Hesita “como alguém que ainda não disse a
sua última palavra”. É a segunda vez que sua voz muda, como se
estivesse se dando conta, cada vez mais, de algo terrível.
Zaratustra está transfigurado, pois acabara de adquirir um
conhecimento extraordinário. Ele já havia dito que o coração
dadivoso pode tornar-se, ao mesmo tempo, “benção e perigo para os
que vivem às suas margens”. Agora seu discurso adquire uma feição
paradoxal: Zaratustra exorta os discípulos a o renegarem, tendo em
vista que, no entender dele, “retribui-se mal um mestre, quando se
permanece sempre e somente discípulo”; defende que “o homem de
conhecimento não deve poder, somente, amar seus inimigos, mas,
ainda, odiar também seus amigos”; anseia pelo “grande meio-dia”,
quando “o homem [irá] se achar na metade da sua trajetória entre o
animal e o ‘super-homem’”.
Zaratustra lança a fórmula do amor
fati, ou seja, da aceitação incondicional da Vida. Aliás, é nesse
ponto que reside a sutil diferença entre a descrença nos valores
vigentes no último homem e no “super-homem”. Enquanto aquele não
acredita em mais nada, pois a vida tornou-se desinteressante, este
último almeja criar valores em consonância com a dinâmica
transformadora da vida. Daí se poder afirmar que, “diante da mesma
realidade, o homem sem Deus ou sem ídolos, sem esperanças
extraterrenas ou futuras, pode sentir-se sufocado ou alegrar-se”.
Esse aspecto que destacamos da virtude dadivosa coloca a questão
da necessidade de o ser humano abraçar a fatalidade, em vez de
tentar escapar dela. É por isso que Zaratustra aconselha que se
deve deixar de lutar contra “o gigante chamado acaso”, o que
significa mergulhar no abismo do destino, independente do que nos
venha a acontecer.
***
A idéia de dadivosidade retrata o que
podemos considerar como sendo um dos traços fundamentais de Assim
falou Zaratustra: a elaboração de uma modalidade de conduta ética
em relação a si mesmo. Os quatro aspectos que assinalamos
correspondem os desafios inerentes aos principais momentos do
livro. Referimo-nos ao duplo assassinato de Deus e do homem, no
primeiro capítulo; à vontade de potência, no segundo; e ao
pensamento do eterno retorno, no terceiro. Além disso, os três
primeiros aspectos que abordamos da virtude dadivosa corroboram a
adoção de uma visão trágica da existência, na medida em que o
indivíduo é impelido a se deixar guiar por instintos fundamentais,
renegando a um plano secundário a sua vontade e deixando de lado a
segurança do pensamento racional. O homem dadivoso nietzschiano
assemelha-se, assim, para utilizar uma imagem trágica, a uma vela
que quanto mais ilumina consome a si própria...
REFERÊNCIAS
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