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MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

REFLEXÕES NIETZSCHEANAS SOBRE A DISSOLUÇÃO DO MUNDO GREGO
Adilson Florentino

DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
Ana Carolina da Costa e Fonseca

F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO DA VERDADE
Arthur Arruda Leal Ferreira

LAZER E ANIMAÇÃO CULTURAL: PENSANDO A FORMAÇÃO PROFISSSIONAL A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA
Carlos Augusto Santana Pereira

SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO DE UM DEUS
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TRÁGICO E ANGÚSTIA DO AMOR: REFLEXÕES SOBRE A HORA DO LOBO, DE INGMAR BERGMAN
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TÍTULO DO ARTIGO:“SÓCRATES ERA AFINAL UM GREGO ?”
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O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM NIETZSCHE
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POR UMA EDUCAÇÃO LEVE - AO MODO DE ZARATUSTRA,
O “DANÇARINO-DESTRUIDOR”
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ARTE ALÉM DA MORAL E ALTERIDADE NO UNO
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A SABEDORIA TRÁGICA DIONISÍACA
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HERÁCLITO ENTRE HEGEL E NIETZSCHE
Jorge Moraes

MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA
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LA RECEPCIÓN VATTIMIANA DE NIETZSCHE: HACIA UN FILOSOFAR SIN SUJETO.
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ZARATUSTRA, MESTRE DA VIRTUDE DADIVOSA
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A EDUCAÇÃO EM NIETZSCHE: CHEGA-A-SER O QUE TU ÉS
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SOBRE A EDUCAÇÃO EM SI DE NIETZSCHE
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ESPEJOS Y MÁSCARAS. LOS PELIGROS DE UN ARTE DE ARTISTAS
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RECONDUZIR NIETZSCHE A KANT? SOBRE O DESINTERESSE DO BELO
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NIILIISMO E HISTÓRIA: O LOUCO E APÓSTOLO
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NIETZSCHE-RENAISSANCE, DESCONSTRUÇÃO, PENSAMENTO FRACO
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A ORIGEM DO CONHECIMENTO EM NIETZSCHE
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A EDUCAÇÃO MODERNA COMO BARBARIZAÇÃO DO TIPO HOMEM
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DO ESVAZIAMENTO ONTOLÓGICO DE DEUS À DISSOLUÇÃO DO CRISTIANISMO ENQUANTO MORALIDADE: A SENTENÇA NIETZSCHEANA “DEUS ESTÁ MORTO”
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APOLO Y DIONISOS: TEOLOGÍA DE LA VOLUNTAD DE PODER
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EXPEDIENTE
A revista MORPHEUS é uma publicação do Laboratório de Linguagens e Mídias, do Centro de Ciências Humanas da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e objetiva disseminar a produção científica acadêmica, optando pela interdisciplinaridade e pela multiculturalidade, tanto na abordagem como com relação aos objetos.


Editores
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ZARATUSTRA, MESTRE DA VIRTUDE DADIVOSA

Luiz Celso Pinho - UERJ/FAPERJ

Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Filosofia
E-mail: lucepi@uol.com.br

 

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo elucidar a ética nietzschiana a partir da noção de “virtude dadivosa” formulada em Assim falou Zaratustra.
ABSTRACTS: The aim of this article is to elucidate Nietzsche’s ethics from the notion of “bestowing virtue” as formulated in Thus spoke Zarathustra.
PALAVRAS-CHAVE: virtude dadivosa, tragédia, ética.
Título: “Zaratustra, mestre da virtude dadivosa”.

 


Para L., dádiva incessante.
Apesar da linguagem poética utilizada em Assim falou Zaratustra, Nietzsche começa a elaborar uma terminologia própria para contrapor-se ao pensamento metafísico. Daí tanto explicitar como se dá o funcionamento de alguns conceitos, como morte de Deus, morte do homem, último homem, “super-homem” [Übermensch], vontade de verdade, vontade de potência, eterno retorno, quanto esboçar o contexto de aplicação de outros, independente de não nomeá-los, no caso de niilismo, ideal ascético, transvaloração dos valores. Tal arcabouço conceitual servirá de referência para as interpretações futuras da filosofia nietzschiana. No entanto, os comentaristas quase nada falam sobre um termo que, a nosso ver, desempenha papel de destaque na argumentação desse momento divisor de águas - referimo-nos à expressão “virtude dadivosa” [schenkenden Tugend], cujo último capítulo da primeira parte do livro leva o seu nome, privilégio que não se aplica a nenhum dos termos acima mencionados. Além disso, só dispomos da argumentação de Assim falou Zaratustra para dar conta do que Nietzsche almeja com tal expressão.
O discurso pronunciado em “Da virtude dadivosa” concentra a maior parte das referências feitas ao tema. Nele, Zaratustra não apenas encerra o ciclo de ensinamentos sobre a promessa-ameaça do “super-homem”, deixando para trás a cidade que percorreu após ter saído do isolamento de sua caverna, como despede-se, pela primeira vez, da companhia daqueles que lhe são próximos, e aos quais ele se refere ora como amigos, ora como discípulos, ora como companheiros. Trata-se, sem dúvida, de uma ocasião solene, onde Zaratustra faz uma espécie de balanço do que até então vivenciara e fornece indícios dos desafios que estão à sua espera. O capítulo “Da virtude dadivosa” divide-se em três seções. Na primeira, Zaratustra discorre demoradamente sobre essa “nova virtude”, da qual ele dá a entender ser o pioneiro. Em seguida, depois de um súbito silêncio, exorta os que o escutam a abraçar essa que considera uma “nova esperança”. Finalmente, permanece sem pronunciar palavra alguma por um longo momento, como se hesitasse falar, para então ordenar a todos os presentes que se afastem dele, que o deixem, em suma, que o reneguem.
Cada uma das seções a que nos referimos abordam diversos aspectos do que vem a ser a dadivosidade zaratustriana. Não há, a rigor, uma definição que possa servir de parâmetro para o entendimento unívoco do que ela significa. Como ponto de partida talvez seja mais elucidadivo recorrer a uma passagem que a retrate de forma ampla, para que possamos apreendê-la a partir de sua diretriz geral. Essa estratégia nos leva a privilegiar o trecho em que Zaratustra proclama: “Torna-vos vós mesmos oferendas e dádivas, é essa a vossa sede; e, por isso, tendes de acumular, na vossa alma, todas as riquezas. Insaciável, aspira a vossa alma a tesouros e jóias, porque insaciável é a vossa virtude em querer dar presentes. Obrigais todas as coisas a ir a vós e a estar em vós, para que voltem a fluir do vosso manancial como dádivas do vosso amor”. Mais do que um simples conselho, esse discurso ressalta uma forma de virtude calcada no imperativo de presentear, de acolher em si o que é realmente valioso não para obter uma auto-satisfação, mas para estabelecer um estado de incessante transbordamento.
Aliás, o início da trajetória de Zaratustra já está impregnado desse princípio de dadivosidade. Depois de dez anos de reclusão voluntária em sua caverna, ele declara, no Prólogo, que anseia “dar e distribuir” toda a sabedoria que acumulou no período, a ponto de fazer com que os sábios “voltassem a alegrar-se de sua loucura e os pobres, de sua riqueza”, dando a entender que através desse gesto doador é possível ressignificar a existência. Na conversa que mantém com o eremita que encontra no caminho entre sua caverna e a cidade mais próxima, ainda no Prólogo, deixa claro que traz um presente para a humanidade - o “super-homem”. Nessa postura mista de generosidade e desprendimento reside o ponto de partida para que se possa adquirir uma fisionomia radiante (“igual ao ouro, reluz o olhar do homem dadivoso”), atingir o ápice da escala de valores (“uma virtude dadivosa é a mais alta virtude”) e mesmo cultivar uma vida saudável (“sempre adivinhamos a presença da degenerescência onde falta a alma dadivosa”). Na medida em que anuncia esse “inominável anseio”, Zaratustra torna-se mestre da virtude dadivosa.
A dadivosidade zaratustriana implica uma mudança de atitude diante da existência. Na verdade, toda a filosofia de Nietzsche está perpassada por uma incessante problematização de cunho ético. Seja explicitamente, como no caso de Genealogia da moral, através da célebre distinção entre a conduta afirmativa do aristocrata e o comportamento ressentido do escravo; seja implicitamente, nos mais diversos textos a partir dos quais encontramos juízos sobre a necessidade de entrar em consonância com uma dinâmica vital. É por isso que Nietzsche atribui ao homem nobre, do qual Zaratustra mostra-se uma expressão, “a sensação de plenitude, de poder que quer transbordar, a felicidade da tensão elevada, a consciência de uma riqueza que gostaria de ceder e presentear”. No entanto, como veremos, a virtude dadivosa envolve perigos: tanto para as certezas que o homem comum nutre quanto para o próprio Zaratustra. No intuito de elucidar a questão da dadivosidade, nos deteremos em quatro desdobramentos possíveis dessa idéia: 1°. a criação de valores; 2°. o privilégio dos instintos; 3°. a destruição do sujeito; 4°. a adoção de uma visão trágica da existência.
1. O IMPERATIVO DE CRIAR NOVOS VALORES
No caminho que leva à cidade mais próxima, Zaratustra reencontra o mesmo eremita que dez anos atrás o viu dirigindo-se para o seu retiro voluntário na montanha. O diálogo entre eles retrata o choque entre duas formas heterogêneas de dar sentido à própria vida. Uma que ama a perfeição divina e, em função isso, busca o isolamento na floresta; a outra que almeja oferecer seu amor à humanidade, o que a impele a abandonar a solidão dos altos montes. O velho solitário alerta seu interlocutor de que os homens desconfiam de quem lhes quer oferecer algo, recomendando-o que lhes tire alguma coisa, ou melhor, que lhes cure as feridas da existência. Zaratustra vai embora repentinamente, temendo tirar dele o que lhe é mais precioso, pois seu presente só será possível a partir do momento em que não haja qualquer traço de uma instância divina atuando entre os homens. Daí ele proclamar, no final da primeira parte do livro: “‘Mortos estão todos os deuses; agora, queremos que o super-homem viva!’ - Que isto brilhe, algum dia, no grande meio-dia da nossa última vontade!”.
O ato de presentear está intimamente associado a uma reflexão sobre o valor das coisas, na qual a humanidade seja capaz de superar a si mesma. Zaratustra constata que até então prevaleceram os valores divinos, que são eternos e imutáveis. Além disso, “quase todos acreditam ter seu quinhão de virtude; e cada qual, quando menos, pretende-se conhecedor do ‘bem’ e do ‘mal’. Mas não para isto, veio Zaratustra, não para dizer a todos esses mentirosos e néscios: ‘Que sabeis vós da virtude! Que poderíeis, vós, saber da virtude!’”. Nesse discurso Zaratustra comenta onze formas de como alguém pode se considerar virtuoso. Mas, para ele, o que importa é agir tanto como a mãe que ama o filho sem querer ter algum ganho com isso quanto como a estrela cujo brilho continua percorrendo o espaço mesmo após ela ter se extinguido.
A adesão à virtude dadivosa só ocorre, salienta Zaratustra, “quando vos anima uma só vontade”, quando o indivíduo consegue elevar-se “acima do elogio e da censura”. Essa postura está em dissonância com o movimento que norteou a civilização, pois “mil fitos houve até aqui, já que houve mil povos. Falta, ainda, apenas o grilhão para as mil nucas, falta o fito único. Ainda não tem um fito a humanidade”. Quando se despede de seus discípulos, no início de “Da virtude dadivosa”, Zaratustra deseja que cada um deles “se torne criador e julgador de valores”. Pretende, com tais palavras, ressaltar “que todos os valores das coisas sejam, em novo, estabelecidos por vós. Para isso deveis ser lutadores! Para isso deveis ser criadores!”. Se antes o maior valor residia na crença em um ser superior - eterno e transcendente -, agora é preciso lutar contra essa longa tendência. “Poder, é essa nova virtude”, dirá Zaratustra, referindo-se, sem dúvida, à “vontade de potência” [Wille zur Macht].
2. UMA APOLOGIA DOS INSTINTOS
Na segunda seção de “Da virtude dadivosa”, Zaratustra começa com o seguinte discurso: “Permanecei fiéis à terra, meus irmãos, com o poder da vossa virtude! Que o vosso amor dadivoso e o vosso conhecimento sirvam o sentido da terra. Isso eu vos rogo e imploro”. Mais adiante complementa: “Trazei, como eu, essa virtude desorientada de volta à terra - sim, de volta ao corpo e à vida”. A dadivosidade está diretamente relacionado a um plano terreno, corporal, sensível, no qual seja possível reabilitar o lado instintivo do homem. A filosofia nietzschiana defende insistentemente que devemos deixar de lado os mecanismos racionais de controle e empobrecimento da Vida. Ao fazer uma apologia do mundo terreno, em detrimento de tudo o que é etéreo, espiritual, transcendente, Zaratustra não somente concede ao corpo um alto valor como também acaba defendendo uma forma de existência na qual “todos os instintos tornam-se sagrados”.
A concepção nietzschiana de instinto não resulta da adoção de qualquer idéia de cunho naturalista ou inatista. Além disso, Nietzsche, ao longo de sua obra, nem sequer distingue instinto, de impulso, de pulsão ou de impulsão. Uma passagem que nos parece esclarecedora ocorre em Genealogia da moral, quando lemos que, em vez de o ser humano deixar-se levar pela necessidade de “pensar, inferir, calcular, combinar causas e efeitos”, deveria estar atento a “impulsos reguladores e inconscientemente certeiros”. Diferente do sinuoso caminho que o pensamento racional percorre ao ficar indeciso entre o sim, o não e o talvez, os instintos são um guia eficiente, pois nos conduzem diretamente ao âmago do que está em questão. Eles dão vazão ao que é mais fundamental. Daí o elogio, em A gaia ciência, ao “animal que, arriscando a própria vida, protege seus filhotes, ou que na época do cio acompanha a fêmea até a morte”.
Nietzsche considera que a “natureza superior”, ou seja, o “indivíduo nobre, magnânimo” é aquele “que se sacrifica, sucumbe mesmo a seus instintos, e em seus melhores momentos a sua razão faz uma pausa”. Reabilitar o lado instintivo do homem significa, pois, adotar uma atitude visceral consigo mesmo, já que os mecanismos de controle são deixados de lado. O uso da razão pode trazer segurança, mas são os instintos do animal selvagem, livre e errante que proporcionam a felicidade. Em Verdade e mentira no sentido extra-moral, Nietzsche lamenta o momento em que abandonamos os chifres e as presas e passamos a utilizar o intelecto como instrumento de sobrevivência. “Foi o momento mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’”, sentencia. A virtude dadivosa implica a possibilidade de o indivíduo gerenciar sua existência a partir de uma “razão corporal”, ou seja, de um princípio mais vital na medida em que não se engana nem gera ressentimento.
3. O SUJEITO EM PERIGO
“Eu sou dadivoso: com prazer, como amigo, eu presenteio os amigos” - é assim que Zaratustra define a si próprio. Essa auto-definição já havia sido esboçada na primeira parte do Prólogo de Assim falou Zaratustra a partir do anseio de dar e distribuir e de atingir um estado de transbordamento. Só que naquela passagem inicial ficava claro que a “taça que quer transbordar” corresponde à “taça que quer voltar a esvaziar-se”. Um pouco mais adiante, a necessidade de auto-preservação é colocada em cheque através de uma alusão ao mito de Fênix: “arder nas tuas próprias chamas, deverás querer; como pretenderias renovar-te, se antes não te tornasses cinza!”.
Esse anseio pela aniquilação do indivíduo ocupa um lugar central em Assim falou Zaratustra e em diversos textos de Nietzsche. O próprio advento do “super-homem” parte do pressuposto de que “o homem é algo que deve ser superado”. Nietzsche invariavelmente atribui um estatuto inferior ao Eu, à Consciência, ao Sujeito, ao Cogito, tendo em vista que designam instâncias que, além de serem tardias no processo de evolução, são responsáveis por deixar de lado o que é mais fundamental para a Vida. É nesse sentido que o caminho que leva à formação do homem criador põe em risco a noção de subjetividade. Daí Zaratustra amar aquele que “é sempre dadivoso e não quer conservar-se”, “aquele cuja alma é tão transbordante, que se esquece de si mesmo”. E mesmo ao defender um comportamento egoísta, o do “ladrão de todos os valores”, que seria um egoísmo “sagrado e sadio”, Zaratustra declara que fica horrorizado com “a mente degenerada que diz: ‘Tudo para mim’”.
Ao mesmo tempo que se caracteriza por ser um crítico do livre arbítrio, Nietzsche apregoa que devemos nos tornar aquilo que somos. Deixando de lado o aspecto paradoxal dessa fórmula de Píndaro, o que está em jogo não é justamente a possibilidade de transformação, de metamorfose de si mesmo? Para Foucault, o pensamento nietzschiano segue a trilha aberta por Schopenhauer ao desvencilhar a vontade individual dos modelos da filosofia natural e da filosofia do direito, o que remeteria à capacidade de agir sobre a natureza ou distinguir o certo do errado. Trata-se, de agora em diante, de concebê-la enquanto resultante de relações estratégicas de forças. Forças estas que almejam se expandir ou se conservar. O que nos leva a distinguir, do ponto de vista da conduta individual, aquele que “cria a partir da abundância” e aquele que “tem sede da abundância”. O terceiro aspecto da dadivosidade envolve tanto uma espécie de esgotamento do sujeito quanto a obediência a uma vontade impessoal que põe em risco, inclusive, a sobrevivência daquele que deseja.
4. A VISÃO TRÁGICA DA VIDA
No início da terceira parte de “Da virtude dadivosa”, Zaratustra permanece um longo tempo em silêncio. Hesita “como alguém que ainda não disse a sua última palavra”. É a segunda vez que sua voz muda, como se estivesse se dando conta, cada vez mais, de algo terrível. Zaratustra está transfigurado, pois acabara de adquirir um conhecimento extraordinário. Ele já havia dito que o coração dadivoso pode tornar-se, ao mesmo tempo, “benção e perigo para os que vivem às suas margens”. Agora seu discurso adquire uma feição paradoxal: Zaratustra exorta os discípulos a o renegarem, tendo em vista que, no entender dele, “retribui-se mal um mestre, quando se permanece sempre e somente discípulo”; defende que “o homem de conhecimento não deve poder, somente, amar seus inimigos, mas, ainda, odiar também seus amigos”; anseia pelo “grande meio-dia”, quando “o homem [irá] se achar na metade da sua trajetória entre o animal e o ‘super-homem’”.
Zaratustra lança a fórmula do amor fati, ou seja, da aceitação incondicional da Vida. Aliás, é nesse ponto que reside a sutil diferença entre a descrença nos valores vigentes no último homem e no “super-homem”. Enquanto aquele não acredita em mais nada, pois a vida tornou-se desinteressante, este último almeja criar valores em consonância com a dinâmica transformadora da vida. Daí se poder afirmar que, “diante da mesma realidade, o homem sem Deus ou sem ídolos, sem esperanças extraterrenas ou futuras, pode sentir-se sufocado ou alegrar-se”. Esse aspecto que destacamos da virtude dadivosa coloca a questão da necessidade de o ser humano abraçar a fatalidade, em vez de tentar escapar dela. É por isso que Zaratustra aconselha que se deve deixar de lutar contra “o gigante chamado acaso”, o que significa mergulhar no abismo do destino, independente do que nos venha a acontecer.
***
A idéia de dadivosidade retrata o que podemos considerar como sendo um dos traços fundamentais de Assim falou Zaratustra: a elaboração de uma modalidade de conduta ética em relação a si mesmo. Os quatro aspectos que assinalamos correspondem os desafios inerentes aos principais momentos do livro. Referimo-nos ao duplo assassinato de Deus e do homem, no primeiro capítulo; à vontade de potência, no segundo; e ao pensamento do eterno retorno, no terceiro. Além disso, os três primeiros aspectos que abordamos da virtude dadivosa corroboram a adoção de uma visão trágica da existência, na medida em que o indivíduo é impelido a se deixar guiar por instintos fundamentais, renegando a um plano secundário a sua vontade e deixando de lado a segurança do pensamento racional. O homem dadivoso nietzschiano assemelha-se, assim, para utilizar uma imagem trágica, a uma vela que quanto mais ilumina consome a si própria...
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FOUCAULT, M. “Méthodologie pour la connaissance du monde: comme se débarrasser du marxisme” (entrevista com R. Yoshimoto) in Dits et écrits: 1976-1979, volume III, Paris, Gallimard, 1994, p. 595-618.
MACHADO, R. Nietzsche e a verdade. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
__________. Zaratustra, tragédia nietzschiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
NIETZSCHE, F. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral in Os pensadores (obras incompletas). 3ª ed. Seleção de textos de Gérard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho; posfácio de Antônio Cândido. São Paulo: Abril Cultural, 1983 [Über Wahrheit und Lüge im aussermoralischen Sinne, 1873].
__________. A gaia ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2001 [Die fröhliche Wissenschaft, 1881-1882].
__________. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. 6ª ed. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989 [Also Sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen, 1883-1885].
__________. “Von der schenkenden Tugend/De la vertu qui donne” (edição bilíngüe de Assim falou Zaratustra no site http://de.geocities.com/geri090162/nizfml06.htm).
__________. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução, notas e posfácio de Paulo César Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. [Jenseits von Gut und Böse: Vorspiel einer Philosophie der Zukunft, 1885-1886].
__________. O caso Wagner: um problema para músicos. Tradução notas e posfácio de Paulo César Lima de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 [Der fall Wagner. Ein Musikanten-Problem, 1888].