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MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

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DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
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LAZER E ANIMAÇÃO CULTURAL: PENSANDO A FORMAÇÃO PROFISSSIONAL A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA
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MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA
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A revista MORPHEUS é uma publicação do Laboratório de Linguagens e Mídias, do Centro de Ciências Humanas da
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Editores
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MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA

Leila Navarro de Santana

Mestranda em Memória Social e Documento -
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO
Centro de Ciências Humanas - CCH
Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Memória Social e Documento - MMSD
Psicóloga
lanavarro@terra.com.br

Resumo
O presente artigo apresenta reflexões acerca da interpretação nietzschiana da memória e do esquecimento, tal como apresentada na Segunda Dissertação de Genealogia da Moral. É relevante discutir que Nietzsche não considera a memória um atributo individual, mas um produto das pressões e violências sociais. Para que o homem, animal esquecido por excelência, pudesse forjar uma memória foram necessários requintes de crueldade para que essa “natureza” impulsiva, espontânea gerasse um corpus de lembranças, que o levassem a prever e calcular os acontecimentos. Portanto, pretendemos mostrar que Nietzsche, na abordagem da memória e do esquecimento, seria um dos precursores da tematização contemporânea da memória social.
Abstract
This article presents considerations about Nietzsche’s interpretation of memory and of forgetfulness, such as presented in the second dissertation of Genealogia da Moral It is relevant to bear in mind that Nietzsche does not consider the memory as a characteristic of the individual, but as a product of social constraints and violence. For man, the forgotten animal par excellence, to be able to create a memory it has been necessary a quintessence of cruelty so as to force this “nature”, impetuous, and spontaneous, to generate a corpus of memories, which would lead him to foresee and calculate events. Therefore, we intend to show that Niezstche, in his approach to memory and forgetfulness, is one of the forerunners of the contemporary focus on social memory.
Palavras-chave: Memória, violência, esquecimento

Introdução
Na Segunda Dissertação de Genealogia da Moral, Nietzsche analisa as condições sociais em que se gerou a memória. O autor sustenta a hipótese de que a memória não é um atributo ou capacidade isolada de um indivíduo, mas uma construção social. Assim, toda memória é memória social. 1
Nietzsche afirma que a construção da memória decorre de um processo violento, uma vez que, o homem inicialmente age movido por forças espontâneas e impulsivas: as forças do esquecimento.
Em decorrência desta memória, enquanto atributo humano desenvolvido através de marcas em seu corpo, o homem experiencia sentimentos limitantes que o colocam em sofrimento consigo mesmo, como por exemplo: a consciência de culpa ou “má consciência” e o ressentimento. É no intuito de refletir acerca dessas questões que envolvem a construção da memória como imposições sociais violentas que se destina o presente artigo.
Construção Social da Memória
Nietzsche considera que o homem, em sua natureza ou espontaneidade instintiva, teria o esquecimento como uma força corporal imprescindível para a existência saudável e plena em alegrias e afirmações. Para o autor, não seria a memória a faculdade a ser exaltada, como defende exaustivamente a tradição de nosso pensamento, mas sim, o esquecimento.
O esquecer, nesse contexto, é uma força positiva que possibilita uma espécie de “descanso”, de “relaxamento”, de “paz” da consciência; momento através do qual, ela libera o que fora experimentado e vivenciado, permitindo que a novidade, que o fluxo possa também ser vivido, que possa surgir, por sua vez, o novo. Portanto, a memória e o esquecimento funcionam naturalmente em uma dinâmica em que ambos são igual mente necessários à vida. Esquecer é um processo positivo e saudável ao corpo, fundamental para que sua potência seja vivida em sua forma mais positiva.
Esquecer não é uma simples vis inertiae [força inercial], como crêem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido, graças à qual o que é por nós experimentado, vivenciado, em nós acolhido não penetra mais em nossa consciência, [...] com o que logo se vê que não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento. (NIETZSCHE, 1998: 47-48).
Não obstante, ao sentir necessidade de pertencimento a um grupo, o homem das forças espontâneas, do esquecimento, do mutante, do intempestivo teria que romper com a sua maneira inicial de viver para que fosse possível o estabelecimento das relações sociais. O convívio social produziu pressões para que o homem se tornasse previsível, responsável, confiável. Houve, assim, a necessidade de controlar o esquecimento. Foi preciso forçar o homem a responder por si, comprometer-se com seus atos futuros, controlar seus afetos, imbuir promessas. A coletividade precisava prever e dirigir os atos de todos os seus membros que, para isto, foram forçados a memorizar consignas coletivas.
Tendo que inibir sua capacidade salutar do esquecimento, como condição para viver em grupo e por ele ser protegido, o homem desenvolveu a memória para que, dessa forma, ele se tornasse confiável, previsível e com(prometido) com os interesses da coletividade.
O homem no qual esse aparelho inibidor é danificado e deixa de funcionar pode ser comparado (e não só comparado) a um dispéptico - de nada consegue “dar conta”... Precisamente esse animal que necessita esquecer, no qual o esquecimento é uma força, uma forma de saúde forte, desenvolveu em si uma faculdade oposta, uma memória, com cujo auxílio o esquecimento é suspenso em determinados casos - nos casos em que se deve prometer. (NIETZSCHE, 1998:48)
Comprometido com o grupo, com a coletividade, o homem deve abrir mão de sua espontaneidade, de seus impulsos mais naturais. Não pode relaxar, não pode esquecer das promessas que o prendem e garantem seu futuro que, embora estagnado, sem alegria e sem aventuras o resguarda dos riscos, ameaças e inseguranças que ele aprendeu a temer.
O corpo pressionado a lembrar da promessa, a barrar o fluxo do novo, a romper com o movimento espontâneo das forças, a continuar querendo o que não quer mais, tornou-se manso. E para que o homem de natureza esquecida prometesse ou se tornasse memorioso e responsável, não foi dispensado o auxílio de muita violência. Pois, de que forma poderia conseguir estancar tal força, tal movimento, tal potência do corpo em se renovar, em se recriar, em esquecer, sem o uso da violência? Certamente não seria possível, uma vez que, o corpo é expressão do movimento, da transformação, do devir; nele é gerada toda a sorte de forças que estão além das coerções sociais. O corpo de maneira instintiva, natural ou não distorcida pode dizer sim ou não quando quiser, suas forças são indirigíveis. Mas, este corpo imprevisível, aliado ao instante e que tem vontade própria, não seria um corpo maleável para que normas, diretrizes e utilidade fossem impostas a suas forças, visando domesticá-las.
O corpo útil, manso, comprometido no pagamento de dívidas, de culpas, tem de aprender a quem deve obedecer. Ora, para tornar um corpo comprometido com o que é contrário a sua vontade, ou melhor, a servir contra si, apenas é possível por intermédio da dor e da violência. Foi preciso, então, gravar o corpo com força, construir uma memória com sangue. Muita violência foi e é dispensada para que o corpo do homem responda docilmente às exigências sociais, para que tenha memória. Para tornar um corpo memorioso, muito sangue foi derramado, houve muita tortura e humilhação; para gerar um corpo dócil, muitos foram os instintos que sofreram censura, inclusive o instinto de esquecer.
[...] “como fazer no bicho-homem uma memória? Como gravar algo indelével nessa inteligência voltada para o instante, meio obtusa, meio leviana, nessa encarnação do esquecimento?” [...] “Grava-se a fogo, para que fique na memória: apenas o que não cessa de causar dor fica na memória”. [...] Jamais deixou de haver sangue, martírio e sacrifício, quando o homem sentiu a necessidade de criar em si uma memória; os mais horrendos sacrifícios e penhores (entre eles o sacrifício dos primogênitos), as mais repugnantes mutilações (as castrações, por exemplo), os mais cruéis rituais de todos os cultos religiosos (todas as religiões são, no seu nível mais profundo, sistema de crueldades) - tudo isso tem origem naquele instinto que divisou na dor o mais poderoso auxiliar da mnemônica.(NIETZSCHE, 1998:50-51)
Origem da consciência de culpa ou “má consciência”
Outro conceito nietzscheano importante, relacionado à produção social da memória é o conceito moral de “culpa”. Segundo o autor, a origem da “culpa” está vinculada ao conceito material de “dívida”. Essa dívida teria surgido a partir do momento em que o próprio homem estabelece alianças, organiza-se socialmente. A organização em comunidade fornece ao homem vantagens de proteção, paz, pertencimento, mas também cobra comprometimento e gratidão para com os benefícios concedidos pela comunidade. A quebra do contrato assumido com o grupo torna o devedor um criminoso, um infrator, um culpado, podendo dessa forma, ser castigado, expulso, desprotegido e colocado à margem dos benefícios oferecidos pela vida coletiva.
A comunidade, o credor traído, exigirá pagamento, pode-se ter certeza. [...] o criminoso é sobretudo um “infrator”, alguém que quebra a palavra e o contrato com o todo, no tocante aos benefícios e comodidades da vida em comum dos quais participava.(NIETZSCHE, 1998:60)
Nessa relação contratual de credor e devedor, há realmente a necessidade da construção de uma memória que estabeleça confiabilidade, que ofereça rigor à promessa, que reforce a memória da obrigação que o devedor tem com o credor, podendo este, lançar mão do que aquele ainda possui para que haja a restituição ou compensação da dívida. Nessa relação, o credor tem direito de humilhar o devedor, torturá-lo, até o extremo de cortar partes de seu corpo a fim de compensar a dívida.
As questões da culpa moral e do débito econômico estariam relacionadas, na medida em que a obrigação pessoal, segundo Nietzsche, teria origem na relação entre credor e devedor. Essa relação dominou o pensamento do homem antigo condicionando assim o seu olhar perspectivo de avaliação, o costume e o poder de valorar, empenhar contratos, direitos e deveres, medidas e compromissos.
É preciso construir uma memória naquele que promete [...] para reforçar na consciência a restituição como dever e obrigação, por meio de um contrato empenha ao credor, para o caso de não pagar, algo que ainda “possua”, sobre o qual ainda tenha poder, como seu corpo, sua mulher, sua liberdade ou mesmo sua vida.(NIETZSCHE, 1998:53)
O poder que o credor tinha sobre o devedor lhe permitia ser recompensado através de crueldades cometidas em quem devia como, torturas, lesões corporais, isolamento e expulsão da comunidade etc. Tais crueldades traziam ao credor satisfação. Ao causar o sofrimento, ele se sentia potente novamente, gratificado e recompensado pela quebra da promessa por parte do devedor.
Tornemos clara para nós mesmos a estranha lógica dessa forma de compensação. A equivalência está em substituir uma vantagem diretamente relacionada ao dano (uma compensação em dinheiro, terra, bens de algum tipo) por uma espécie de satisfação intima, concedida ao credor como reparação e recompensa. .(NIETZSCHE, 1998:54)
Criar no homem o sentimento de falta, o sentimento de culpa, o sentimento de ter de pagar uma dívida impagável o torna acuado, com medo e por isso ele oferece seu corpo a qualquer preço, pois aprendeu que sua vida e que seu corpo não têm valor. Uma vez amansado o homem bloqueia seus instintos em favor de uma memória que o torna totalmente dependente das relações sociais, em uma vida calculada, responsável, controlada, sem espontaneidade.
Esse sentimento de culpa e de débito, pressão de compromisso e memória, alimentam o sofrimento do homem consigo mesmo, ele sofre pela falta de sentido na vida, sua vida está atrelada ao dever, sua memória está ligada ao castigo. Esse indivíduo domesticado está preso a crenças e idéias fixas, fechou-se para a vida ativa, paralisou o devir, não arrisca, não deseja, ficou acuado e com medo de agir e ficar desprotegido. Moldou-se de acordo com as exigências e pressões da comunidade em troca de “paz”, tornou-se manso, bloqueando suas forças espontâneas por temor, por culpa, pela sua dependência do espírito gregário.
O homem que faz promessas teme o intempestivo, o acidente, o imprevisto, o tempo, a morte. Para tanto, cria falsas certezas, salvação, outra vida, deus; assim, ele prefere não amar por medo de sofrer, não se arrisca por medo de perder, tenciona a memória com medo de esquecer e, com isso, estagna-se em sua própria ânsia por fixidez e vontade de previsão. Ele não consegue ver ou vi(ver) a sua hora por sempre necessitar pre(ver) as horas vindouras. Quer sempre estar pre(parado). Sofre por não querer sofrer. Fica refletindo sobre o limite da finitude e luta incessantemente para postergar sua chegada. Acelera a velocidade do tempo e luta em vão para resgatá-lo ou retê-lo na memória.
Ele ressente e repete a vida já vivida com medo do novo, com medo de mudanças. Preso a uma camisa de força de idéias, vislumbra sua potencialidade como se não tivesse mais poder sobre si, como se não tivesse a capacidade de amar, de dançar, de rir, de esquecer e de festejar, apenas ficaria preso, amargurado, no interior de seu controle, de sua culpa, de sua “má consciência”.
Memória de Afetos Reativos - o Homem Ressentido.
Conforme fora apresentado no início do artigo, o homem é esquecido por natureza, porém a fim de tornar o homem responsável, confiável e consciente de seu dever, diversas violências são marcadas no seu corpo para que o esquecimento não aconteça, a fim de que o convívio social seja estabelecido. A partir dessas violências sociais, dessas pressões o homem aprende a dominar seus afetos, desenvolve um grau de “humanização” em que é necessário avaliar os outros, cobrá-los, distingui-los, julgá-los e fazê-los pagar. Nessa relação de cobranças, oriunda de um modelo comercial, os afetos não podem ser exprimidos espontaneamente. Objeto dessa avaliação econômica, os afetos que são naturalmente ativos tomam uma direção reativa, ou seja, diante de um prejuízo, injúria, agressão o sentimento é “guardado”, memorizado, preso para que de forma calculada seja planejada a melhor forma, socialmente convencionada, de exprimi-lo. Dessa maneira, uma força ativa é transformada em reativa; nutrindo vinganças, rancores e ressentimentos.
Ressentimento é sentir um mesmo afeto de forma repetida. A memória obsessiva de cumprir as promessas também fez nascer o ressentimento. Ressentimento é memória de sentimento estragado, que não “(es)corre”, que não tem fluxo livre, que não cede lugar ao novo sentimento, impedindo que a criação, que as novas idéias, que as novas experiências o visitem.
Tal aliança e dependência em relação passado é visível no corpo do homem ressentido, sua amargura o impede de celebrar a vida, pois ele não deixa o sentimento novo entrar, uma vez que não permite o sentimento velho sair. A natureza é ativa, agressiva, expansiva. Para que a vida se afirme e se expanda ela deve romper limites. A vida nova não poupa atividade, violência, a direção da força de vida é nascer, é positiva, é vontade e , portanto é potência.
Conclusão
É preciso que o corpo reaprenda a digerir, a esquecer as vivências do passado. Armazenar doenças, sentimentos reativos, vinganças, não é uma condição saudável. O corpo quer viver o movimento potencializador e transformador da vida, ele quer brincar, dançar, nascer do conflito e dos embates das suas forças, expandir limites, inventar novas formas, esquecer, inventar outra coisa, mas fluir com alegria.
Conforme assinalei no início, Nietzsche, em Genealogia da Moral, descreve o surgimento da memória no bicho-homem. Inicialmente, o homem é um animal que esquece, que não retém as experiências do passado, que age espontaneamente. O homem, como indivíduo, vivia no esquecimento, na imprevisibilidade, atrelado apenas ao momento presente.
A memória surgiu como uma exceção na natureza, oriunda de violentas pressões sociais. Foi necessário controlar a expansão dos instintos desse bicho anárquico. Nasceu a memória social, tomando conta, inoculando-se no “interior” dos homens. A memória, a partir de então, faz parte da vida do homem. Mas, o excesso de memória envenena a vida. Qual seria a solução para essa situação “doentia”. Nietzsche não postula o esquecimento total. Contudo, é preciso que a memória seja suspensa, às vezes, de forma momentânea. É necessário que, de tempos em tempos, fechemos as janelas da consciência, que abandonemos o estado de alerta, de previsão. O esquecimento faz parte de uma salutar digestão psíquica. Ao esquecer, torna-se possível a alegria, a jovialidade, a afirmação do tempo presente.

Referências Bibliográficas
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia da Letras, 1998.