MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA
Leila Navarro de Santana
Mestranda em Memória Social e
Documento -
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro -
UNIRIO
Centro de Ciências Humanas - CCH
Programa de
Pós-Graduação - Mestrado em Memória Social e Documento -
MMSD
Psicóloga
lanavarro@terra.com.br
Resumo
O presente artigo
apresenta reflexões acerca da interpretação nietzschiana da
memória e do esquecimento, tal como apresentada na Segunda
Dissertação de Genealogia da Moral. É relevante discutir que
Nietzsche não considera a memória um atributo individual, mas um
produto das pressões e violências sociais. Para que o homem,
animal esquecido por excelência, pudesse forjar uma memória foram
necessários requintes de crueldade para que essa “natureza”
impulsiva, espontânea gerasse um corpus de lembranças, que o
levassem a prever e calcular os acontecimentos. Portanto,
pretendemos mostrar que Nietzsche, na abordagem da memória e do
esquecimento, seria um dos precursores da tematização
contemporânea da memória social.
Abstract
This article
presents considerations about Nietzsche’s interpretation of memory
and of forgetfulness, such as presented in the second dissertation
of Genealogia da Moral It is relevant to bear in mind that
Nietzsche does not consider the memory as a characteristic of the
individual, but as a product of social constraints and violence.
For man, the forgotten animal par excellence, to be able to create
a memory it has been necessary a quintessence of cruelty so as to
force this “nature”, impetuous, and spontaneous, to generate a
corpus of memories, which would lead him to foresee and calculate
events. Therefore, we intend to show that Niezstche, in his
approach to memory and forgetfulness, is one of the forerunners of
the contemporary focus on social memory.
Palavras-chave:
Memória, violência, esquecimento
Introdução
Na Segunda Dissertação
de Genealogia da Moral, Nietzsche analisa as condições sociais em
que se gerou a memória. O autor sustenta a hipótese de que a
memória não é um atributo ou capacidade isolada de um indivíduo,
mas uma construção social. Assim, toda memória é memória social.
1
Nietzsche afirma que a construção da memória decorre de um
processo violento, uma vez que, o homem inicialmente age movido
por forças espontâneas e impulsivas: as forças do esquecimento.
Em decorrência desta memória, enquanto atributo humano
desenvolvido através de marcas em seu corpo, o homem experiencia
sentimentos limitantes que o colocam em sofrimento consigo mesmo,
como por exemplo: a consciência de culpa ou “má consciência” e o
ressentimento. É no intuito de refletir acerca dessas questões que
envolvem a construção da memória como imposições sociais violentas
que se destina o presente artigo.
Construção Social da
Memória
Nietzsche considera que o homem, em sua natureza ou
espontaneidade instintiva, teria o esquecimento como uma força
corporal imprescindível para a existência saudável e plena em
alegrias e afirmações. Para o autor, não seria a memória a
faculdade a ser exaltada, como defende exaustivamente a tradição
de nosso pensamento, mas sim, o esquecimento.
O esquecer, nesse
contexto, é uma força positiva que possibilita uma espécie de
“descanso”, de “relaxamento”, de “paz” da consciência; momento
através do qual, ela libera o que fora experimentado e vivenciado,
permitindo que a novidade, que o fluxo possa também ser vivido,
que possa surgir, por sua vez, o novo. Portanto, a memória e o
esquecimento funcionam naturalmente em uma dinâmica em que ambos
são igual mente necessários à vida. Esquecer é um processo
positivo e saudável ao corpo, fundamental para que sua potência
seja vivida em sua forma mais positiva.
Esquecer não é uma
simples vis inertiae [força inercial], como crêem os superficiais,
mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido,
graças à qual o que é por nós experimentado, vivenciado, em nós
acolhido não penetra mais em nossa consciência, [...] com o que
logo se vê que não poderia haver felicidade, jovialidade,
esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento. (NIETZSCHE,
1998: 47-48).
Não obstante, ao sentir necessidade de
pertencimento a um grupo, o homem das forças espontâneas, do
esquecimento, do mutante, do intempestivo teria que romper com a
sua maneira inicial de viver para que fosse possível o
estabelecimento das relações sociais. O convívio social produziu
pressões para que o homem se tornasse previsível, responsável,
confiável. Houve, assim, a necessidade de controlar o
esquecimento. Foi preciso forçar o homem a responder por si,
comprometer-se com seus atos futuros, controlar seus afetos,
imbuir promessas. A coletividade precisava prever e dirigir os
atos de todos os seus membros que, para isto, foram forçados a
memorizar consignas coletivas.
Tendo que inibir sua capacidade
salutar do esquecimento, como condição para viver em grupo e por
ele ser protegido, o homem desenvolveu a memória para que, dessa
forma, ele se tornasse confiável, previsível e com(prometido) com
os interesses da coletividade.
O homem no qual esse aparelho
inibidor é danificado e deixa de funcionar pode ser comparado (e
não só comparado) a um dispéptico - de nada consegue “dar
conta”... Precisamente esse animal que necessita esquecer, no qual
o esquecimento é uma força, uma forma de saúde forte, desenvolveu
em si uma faculdade oposta, uma memória, com cujo auxílio o
esquecimento é suspenso em determinados casos - nos casos em que
se deve prometer. (NIETZSCHE, 1998:48)
Comprometido com o
grupo, com a coletividade, o homem deve abrir mão de sua
espontaneidade, de seus impulsos mais naturais. Não pode relaxar,
não pode esquecer das promessas que o prendem e garantem seu
futuro que, embora estagnado, sem alegria e sem aventuras o
resguarda dos riscos, ameaças e inseguranças que ele aprendeu a
temer.
O corpo pressionado a lembrar da promessa, a barrar o
fluxo do novo, a romper com o movimento espontâneo das forças, a
continuar querendo o que não quer mais, tornou-se manso. E para
que o homem de natureza esquecida prometesse ou se tornasse
memorioso e responsável, não foi dispensado o auxílio de muita
violência. Pois, de que forma poderia conseguir estancar tal
força, tal movimento, tal potência do corpo em se renovar, em se
recriar, em esquecer, sem o uso da violência? Certamente não seria
possível, uma vez que, o corpo é expressão do movimento, da
transformação, do devir; nele é gerada toda a sorte de forças que
estão além das coerções sociais. O corpo de maneira instintiva,
natural ou não distorcida pode dizer sim ou não quando quiser,
suas forças são indirigíveis. Mas, este corpo imprevisível, aliado
ao instante e que tem vontade própria, não seria um corpo maleável
para que normas, diretrizes e utilidade fossem impostas a suas
forças, visando domesticá-las.
O corpo útil, manso,
comprometido no pagamento de dívidas, de culpas, tem de aprender a
quem deve obedecer. Ora, para tornar um corpo comprometido com o
que é contrário a sua vontade, ou melhor, a servir contra si,
apenas é possível por intermédio da dor e da violência. Foi
preciso, então, gravar o corpo com força, construir uma memória
com sangue. Muita violência foi e é dispensada para que o corpo do
homem responda docilmente às exigências sociais, para que tenha
memória. Para tornar um corpo memorioso, muito sangue foi
derramado, houve muita tortura e humilhação; para gerar um corpo
dócil, muitos foram os instintos que sofreram censura, inclusive o
instinto de esquecer.
[...] “como fazer no bicho-homem uma
memória? Como gravar algo indelével nessa inteligência voltada
para o instante, meio obtusa, meio leviana, nessa encarnação do
esquecimento?” [...] “Grava-se a fogo, para que fique na memória:
apenas o que não cessa de causar dor fica na memória”. [...]
Jamais deixou de haver sangue, martírio e sacrifício, quando o
homem sentiu a necessidade de criar em si uma memória; os mais
horrendos sacrifícios e penhores (entre eles o sacrifício dos
primogênitos), as mais repugnantes mutilações (as castrações, por
exemplo), os mais cruéis rituais de todos os cultos religiosos
(todas as religiões são, no seu nível mais profundo, sistema de
crueldades) - tudo isso tem origem naquele instinto que divisou na
dor o mais poderoso auxiliar da mnemônica.(NIETZSCHE,
1998:50-51)
Origem da consciência de culpa ou “má
consciência”
Outro conceito nietzscheano importante,
relacionado à produção social da memória é o conceito moral de
“culpa”. Segundo o autor, a origem da “culpa” está vinculada ao
conceito material de “dívida”. Essa dívida teria surgido a partir
do momento em que o próprio homem estabelece alianças, organiza-se
socialmente. A organização em comunidade fornece ao homem
vantagens de proteção, paz, pertencimento, mas também cobra
comprometimento e gratidão para com os benefícios concedidos pela
comunidade. A quebra do contrato assumido com o grupo torna o
devedor um criminoso, um infrator, um culpado, podendo dessa
forma, ser castigado, expulso, desprotegido e colocado à margem
dos benefícios oferecidos pela vida coletiva.
A comunidade, o
credor traído, exigirá pagamento, pode-se ter certeza. [...] o
criminoso é sobretudo um “infrator”, alguém que quebra a palavra e
o contrato com o todo, no tocante aos benefícios e comodidades da
vida em comum dos quais participava.(NIETZSCHE, 1998:60)
Nessa
relação contratual de credor e devedor, há realmente a necessidade
da construção de uma memória que estabeleça confiabilidade, que
ofereça rigor à promessa, que reforce a memória da obrigação que o
devedor tem com o credor, podendo este, lançar mão do que aquele
ainda possui para que haja a restituição ou compensação da dívida.
Nessa relação, o credor tem direito de humilhar o devedor,
torturá-lo, até o extremo de cortar partes de seu corpo a fim de
compensar a dívida.
As questões da culpa moral e do débito
econômico estariam relacionadas, na medida em que a obrigação
pessoal, segundo Nietzsche, teria origem na relação entre credor e
devedor. Essa relação dominou o pensamento do homem antigo
condicionando assim o seu olhar perspectivo de avaliação, o
costume e o poder de valorar, empenhar contratos, direitos e
deveres, medidas e compromissos.
É preciso construir uma
memória naquele que promete [...] para reforçar na consciência a
restituição como dever e obrigação, por meio de um contrato
empenha ao credor, para o caso de não pagar, algo que ainda
“possua”, sobre o qual ainda tenha poder, como seu corpo, sua
mulher, sua liberdade ou mesmo sua vida.(NIETZSCHE, 1998:53)
O
poder que o credor tinha sobre o devedor lhe permitia ser
recompensado através de crueldades cometidas em quem devia como,
torturas, lesões corporais, isolamento e expulsão da comunidade
etc. Tais crueldades traziam ao credor satisfação. Ao causar o
sofrimento, ele se sentia potente novamente, gratificado e
recompensado pela quebra da promessa por parte do devedor.
Tornemos clara para nós mesmos a estranha lógica dessa forma
de compensação. A equivalência está em substituir uma vantagem
diretamente relacionada ao dano (uma compensação em dinheiro,
terra, bens de algum tipo) por uma espécie de satisfação intima,
concedida ao credor como reparação e recompensa. .(NIETZSCHE,
1998:54)
Criar no homem o sentimento de falta, o sentimento de
culpa, o sentimento de ter de pagar uma dívida impagável o torna
acuado, com medo e por isso ele oferece seu corpo a qualquer
preço, pois aprendeu que sua vida e que seu corpo não têm valor.
Uma vez amansado o homem bloqueia seus instintos em favor de uma
memória que o torna totalmente dependente das relações sociais, em
uma vida calculada, responsável, controlada, sem espontaneidade.
Esse sentimento de culpa e de débito, pressão de compromisso e
memória, alimentam o sofrimento do homem consigo mesmo, ele sofre
pela falta de sentido na vida, sua vida está atrelada ao dever,
sua memória está ligada ao castigo. Esse indivíduo domesticado
está preso a crenças e idéias fixas, fechou-se para a vida ativa,
paralisou o devir, não arrisca, não deseja, ficou acuado e com
medo de agir e ficar desprotegido. Moldou-se de acordo com as
exigências e pressões da comunidade em troca de “paz”, tornou-se
manso, bloqueando suas forças espontâneas por temor, por culpa,
pela sua dependência do espírito gregário.
O homem que faz
promessas teme o intempestivo, o acidente, o imprevisto, o tempo,
a morte. Para tanto, cria falsas certezas, salvação, outra vida,
deus; assim, ele prefere não amar por medo de sofrer, não se
arrisca por medo de perder, tenciona a memória com medo de
esquecer e, com isso, estagna-se em sua própria ânsia por fixidez
e vontade de previsão. Ele não consegue ver ou vi(ver) a sua hora
por sempre necessitar pre(ver) as horas vindouras. Quer sempre
estar pre(parado). Sofre por não querer sofrer. Fica refletindo
sobre o limite da finitude e luta incessantemente para postergar
sua chegada. Acelera a velocidade do tempo e luta em vão para
resgatá-lo ou retê-lo na memória.
Ele ressente e repete a vida
já vivida com medo do novo, com medo de mudanças. Preso a uma
camisa de força de idéias, vislumbra sua potencialidade como se
não tivesse mais poder sobre si, como se não tivesse a capacidade
de amar, de dançar, de rir, de esquecer e de festejar, apenas
ficaria preso, amargurado, no interior de seu controle, de sua
culpa, de sua “má consciência”.
Memória de Afetos Reativos - o
Homem Ressentido.
Conforme fora apresentado no início do
artigo, o homem é esquecido por natureza, porém a fim de tornar o
homem responsável, confiável e consciente de seu dever, diversas
violências são marcadas no seu corpo para que o esquecimento não
aconteça, a fim de que o convívio social seja estabelecido. A
partir dessas violências sociais, dessas pressões o homem aprende
a dominar seus afetos, desenvolve um grau de “humanização” em que
é necessário avaliar os outros, cobrá-los, distingui-los,
julgá-los e fazê-los pagar. Nessa relação de cobranças, oriunda de
um modelo comercial, os afetos não podem ser exprimidos
espontaneamente. Objeto dessa avaliação econômica, os afetos que
são naturalmente ativos tomam uma direção reativa, ou seja, diante
de um prejuízo, injúria, agressão o sentimento é “guardado”,
memorizado, preso para que de forma calculada seja planejada a
melhor forma, socialmente convencionada, de exprimi-lo. Dessa
maneira, uma força ativa é transformada em reativa; nutrindo
vinganças, rancores e ressentimentos.
Ressentimento é sentir
um mesmo afeto de forma repetida. A memória obsessiva de cumprir
as promessas também fez nascer o ressentimento. Ressentimento é
memória de sentimento estragado, que não “(es)corre”, que não tem
fluxo livre, que não cede lugar ao novo sentimento, impedindo que
a criação, que as novas idéias, que as novas experiências o
visitem.
Tal aliança e dependência em relação passado é
visível no corpo do homem ressentido, sua amargura o impede de
celebrar a vida, pois ele não deixa o sentimento novo entrar, uma
vez que não permite o sentimento velho sair. A natureza é ativa,
agressiva, expansiva. Para que a vida se afirme e se expanda ela
deve romper limites. A vida nova não poupa atividade, violência, a
direção da força de vida é nascer, é positiva, é vontade e ,
portanto é potência.
Conclusão
É preciso que o corpo
reaprenda a digerir, a esquecer as vivências do passado. Armazenar
doenças, sentimentos reativos, vinganças, não é uma condição
saudável. O corpo quer viver o movimento potencializador e
transformador da vida, ele quer brincar, dançar, nascer do
conflito e dos embates das suas forças, expandir limites, inventar
novas formas, esquecer, inventar outra coisa, mas fluir com
alegria.
Conforme assinalei no início, Nietzsche, em Genealogia
da Moral, descreve o surgimento da memória no bicho-homem.
Inicialmente, o homem é um animal que esquece, que não retém as
experiências do passado, que age espontaneamente. O homem, como
indivíduo, vivia no esquecimento, na imprevisibilidade, atrelado
apenas ao momento presente.
A memória surgiu como uma exceção
na natureza, oriunda de violentas pressões sociais. Foi necessário
controlar a expansão dos instintos desse bicho anárquico. Nasceu a
memória social, tomando conta, inoculando-se no “interior” dos
homens. A memória, a partir de então, faz parte da vida do homem.
Mas, o excesso de memória envenena a vida. Qual seria a solução
para essa situação “doentia”. Nietzsche não postula o esquecimento
total. Contudo, é preciso que a memória seja suspensa, às vezes,
de forma momentânea. É necessário que, de tempos em tempos,
fechemos as janelas da consciência, que abandonemos o estado de
alerta, de previsão. O esquecimento faz parte de uma salutar
digestão psíquica. Ao esquecer, torna-se possível a alegria, a
jovialidade, a afirmação do tempo presente.
Referências
Bibliográficas
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da
moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia da Letras, 1998.