HERÁCLITO ENTRE HEGEL E
NIETZSCHE
Jorge Moraes
Doutorando em Filosofia pelo
PPGF/UFRJ
jorgedemoraes@uol.com.br
RESUMO
Nesse artigo pretendo
confrontar o pensamento de Hegel e de Nietzsche à luz da chamada
filosofia trágica. Trata-se especificamente de avaliar a
proeminência de Hegel como filósofo trágico. Nesse sentido,
visamos primeiramente caracterizar a filosofia trágica em sua
relação com uma possível afirmação do devir, para finalmente
apontar essa relação em Hegel e em Nietzsche. Nesse percurso,
entretanto, tomaremos Heráclito como referência, tanto no discurso
nietzschiano, quanto no hegeliano. Caso tenhamos sucesso, veremos
que a filosofia de Hegel, apesar de conter uma valorização do
tempo e da transitoriedade, acaba por determinar esse devir no
âmbito da teleologia; distanciando-se assim da filosofia trágica
proclamada por Nietzsche.
ABSTRACT
In the present paper I intend to
confront Hegel and Nietzsche's thought in the light of the
so-called tragic Philosophy. I will evaluate specifically Hegel's
prominence as a tragic philosopher. Firstly, I will characterize
tragic philosophy in its relationship with a possible affirmation
of being, in order to finally ascertain this relationship in Hegel
and in Nietzsche. In this course, however, I will use Heraclit as
a reference, in nietzschian as well as in Hegelian speech. Should
I be successful, we will see that Hegel's philosophy, in spite of
containing a valorization of time and transitivity, sees being in
the teleological realm; parting, as such, from a tragic philosophy
proclaimed by Nietzsche.
HERÁCLITO ENTRE HEGEL E NIETZSCHE
Jorge Moraes
Doutorando em Filosofia pelo
PPGF/UFRJ
Em sua Introdução à Filosofia da
História de Hegel, Jean Hyppolite afirma a proeminência do
autor da Fenomenologia do Espírito com relação a uma
visão trágica do mundo. Segundo ele:
o conceito de destino está carregado
de sentido e parece escapar às análises da razão. É um conceito
irracional, muito mais do que a idéia de positividade; é à visão
trágica que Hegel vai buscar, uma visão trágica que com Hõlderlin
e antes de Nietzsche, apercebe o pano de fundo sombrio da
serenidade helênica. 1)
O problema que esta afirmação de
Hyppolite traz à tona pode ser resumido numa única e breve
questão: a filosofia dialética de Hegel seria uma
antecipação da filosofia trágica de Nietzsche? A de se
notar, entretanto, que o próprio Hyppolite, ao advogar a
proeminência de Hegel com relação à visão trágica, faz menção ao
autor de Zaratustra . E não poderia ser de outro modo,
pois isso realmente se faz necessário ao menos por uma simples
razão: nenhum outro filósofo antes de Nietzsche se autodenominou
um filósofo trágico; e mais do que isso, nenhum outro filósofo,
além de Nietzsche, se autoproclamou o “primeiro f ilósofo
trágico ” 2), ou o inventor do trágico, mesmo em
detrimento aos filósofos gregos. Portanto, para desbancar
Nietzsche, como deseja Hyppolite, nada mais justo do que se
conhecer o conceito nietzschiano de trágico e verificar se ele é
compatível com a filosofia hegeliana e então verificarmos se Hegel
pode ter sido um precursor da filosofia trágica.
Todavia, embora Nietzsche se
considere o primeiro filósofo trágico, é certo que ele não elimina
a possibilidade de um antecessor. Neste sentido, ele postula o
obscuro Heráclito como pensador que talvez tenha compreendido o
trágico. 3) Justamente aí se destaca uma importante
proximidade com Hegel, autor que também tanto prezava o filósofo
de Éfeso. Diante dessa proximidade entre Hegel e Nietzsche,
tentaremos através de Heráclito estabelecer um elemento distintivo
entre que talvez possa caracterizar a chamada filosofia trágica.
Numa palavra, tentaremos confrontar Hegel e Nietzsche através de
Heráclito.
* * *
Desde de 1870 Nietzsche, como jovem
professor de filologia, já esboçava suas teses sobre
filosofia trágica. Naquela época, entretanto, eram elas restritas
apenas aos alunos que acompanhavam seu curso na Universidade da
Basiléia sobre os filósofos pré-platônicos, mais precisamente, nas
aulas sobre Heráclito. Depois de uma explanação geral sobre a vida
e o pensamento do filósofo de Éfeso, Nietzsche afirma:
No fundo, ele é o contrário de um
pessimista. Por outro lado, ele não é nada otimista: pois ele não
nega o sofrimento e a desrazão: a guerra mostra-se para ele como o
eterno processo do mundo (...); isto é genuinamente helênico. Há
nele uma harmonía, mas uma [harmonia] baseada na
discordância palíntropos [discordante] 4)
Naquelas anotações dos cursos de
1870-71, o jovem professor ainda não havia dado um nome a esse
pensamento (nem pessimista, nem otimista) de Heráclito. A harmonia
“baseada na discordância [discordante]” ainda não possuía uma
denominação. Mas fica bastante clara a intenção de apresentá-lo
por oposição aos demais.
Um ano depois (ao publicar sua
primeira obra), Nietzsche fala de Heráclito como o filósofo
contemporâneo de um grande evento, o nascimento da tragédia. 5) Morta "em conseqüência de um conflito
insolúvel, portanto tragicamente" 6), o renascimento da arte trágica se daria
finalmente a partir da música alemã, a qual Nietzsche compara à
filosofia heraclítica:
que o mentiroso e o hipócrita tomem
cuidado com a música alemã: pois justamente ela é, em meio a toda
a nossa cultura, o único espírito de fogo limpo, puro e
purificador, a partir do qual e para o qual, como na doutrina do
grande Heráclito de Éfeso, se movem em dupla órbita circular todas
as coisas: tudo o que chamamos agora de cultura, educação,
civilização terá algum dia de comparecer perante o infalível juiz
Dioniso. 7)
O fogo de Heráclito, presente tanto
nos acordes da música alemã como na tragédia grega arcaica, seria
capaz de incendiar a cultura ocidental, reformulando-a a partir
das cinzas. A música que Nietzsche considerava apolínea serviria
então como instrumento de transformação nas mãos do “infalível
juiz Dioniso”.
No entanto, esse movimento atribuído
à doutrina de Heráclito não se resume a uma mera reformulação,
cujo fim seria uma nova cultura pronta e acabada. Longe disso, com
a “ajuda da relação musical da dissonância", Nietzsche descreve o
"fenômeno dionisíaco que toma a nos revelar sempre de novo o
lúdico construir e desconstruir do mundo individual como eflúvio
de um arquiprazer”. 8) Como filósofo trágico, Nietzsche já comparava
esse fenômeno à filosofia de Heráclito, para o qual o jogo de
criação e de destruição do universo tem um caráter espontâneo, não
visando qualquer fim - tal como “uma criança que, brincando,
assenta pedras aqui e ali e constrói montes de areia e volta a
derrubá-los.” 9) Seguindo as prescrições do autor do
Nascimento da Tragédia, essa nova cultura deveria estar
também inserida num infinito movimento, nunca resolvido, nunca
acabado, mas sempre em aberto, sempre dinâmico, tal como as
dissonâncias não resolvidas de Tristão e Isolda, as quais
(poucos anos antes) revolucionavam a concepção de harmonia da
época na Europa e se tomavam a esperança de Nietzsche com relação
ao futuro da música alemã.
Já em 1873 (portanto, um ano após a
publicação de seu primeiro livro), Nietzsche produz um ensaio onde
a figura do filósofo obscuro reaparece: A filosofia na época
trágica dos gregos. Neste escrito, ele mostra o que há de
comum entre Schopenhauer e Heráclito: para ambos a natureza existe
somente por causa de uma luta constante, de um eterno conflito.
Todavia, diferentemente de Heráclito, para Schopenhauer, essa luta
“não passa de uma prova da autocisão da vontade de vida, uma
autocorrosão deste instinto sombrio e confuso; é um fenômeno
absolutamente horroroso, nada beatificante.” 10) Nietzsche mostra como o pessimista de
Frankfurt julga negativamente o conflito eterno, "o jogo
de Zeus". 11) Entretanto, para o Heráclito nietzschiano, o
conflito ganha um caráter positivo: não apenas tudo "acontece de
acordo com essa luta", mas também “é essa luta que manifesta a
justiça eterna.” 12) Deste modo, o conflito é visto como justo e
a justiça é vista como existindo apenas no interior do conflito.
Nietzsche mostra assim como o
jogo de Zeus ou o jogo da criança (presente
tanto nos cursos de 70-1, quanto no Nascimento da Tragédia
e no ensaio de 73) passa a ser "uma metáfora sublime"
utilizada pelo filósofo de Éfeso. Ela designa o fogo eterno, "um
devir e um declínio sem qualquer justificação moral". 13) Para Nietzsche, entretanto, por Heráclito
não ser um homem artístico, “ele recorre à imagem do jogo da
criança”, que Nietzsche encontra também nas artes: “Aqui reina a
inocência, mas também a criação e a destruição”, 14) acrescenta o jovem professor. Para
Heráclito, o jogo inocente e sem propósito é uma metáfora da
natureza, 15) mas Nietzsche encontra na arte essa mesma
metáfora. A arte inocente e sem propósito passa a figurar como um
modelo para compreender o eterno e despropositado movimento de
criação e destruição da natureza. Nesse sentido, o único propósito
que poderia ser atribuído a esta arte, passa a ser a afirmação de
seu próprio movimento, reflexo do prazer do artista em realizar
sua arte, sem nenhum objetivo exterior a essa realização, a não
ser sua própria participação no devir arte de sua obra.
É com Nietzsche e Heráclito, que
encontramos no devir um elemento central na filosofia trágica.
Mais do que isso, evidencia-se um gosto especial pelo devir e suas
conseqüências — o qual Nietzsche mais tarde denominaria amor
fati. Todavia, ainda não seria por esse viés que lograríamos
diferenciar Nietzsche de Hegel, tal como o próprio autor de
Zaratustra destaca:
Nós alemães, somos hegelianos, mesmo
que nunca tivesse existido um Hegel, na medida em que (ao
contrário de todos os latinos) damos instintivamente ao vir-a-ser,
ao desenvolvimento, um valor mais profundo e mais rico do que
aquilo que ‘é' - nós mal acreditamos que se justifique o conceito
de 'ser' — 16)
Só esta afirmação de Nietzsche já
justificaria a tese de Hyppolite. Além disso, o valor atribuído
por Hegel à doutrina de Heráclito (a mesma que inspirou Nietzsche)
nos leva mais uma vez a nossa questão: a filosofia dialética
de Hegel não seria uma antecipação da filosofia trágica
de Nietzsche? Todavia, quando lemos o conteúdo dos cursos que
Hegel escreveu sobre estética, mais precisamente no que se refere
à arte trágica, tal proeminência poderia parecer estranha ou até
mesmo inadequada. Lá a tragédia é vista à luz de um conflito entre
forças que são, na verdade, particularizações de uma totalidade.
Contrapostas, tais forças são igualmente corretas, mas também
equivocadas. Nesse sentido, uma peça exemplar para Hegel seria
Antígona. Do conflito que nasce entre elas não necessariamente
deveria surgir constrangedora a exigência de uma resolução, ou de
uma síntese, um fim. Mas essa exigência faz-se presente para Hegel
e a sua dialética. Por isso, ao fim de toda luta, faz-se
necessária a resolução, ou mais precisamente, uma espécie de
reabsorção das forças particulares no interior do todo:
Logo, tão legítimo é o fim e o
caráter trágico como necessária é a solução desse conflito. Com
efeito, assim se realiza a justiça eterna nos fins e nos
indivíduos, restabelecendo-se a sua substância e unidade morais
pela supressão da individualidade que perturbava o repouso. 17)
Mesmo assim, esta reabsorção das
forças particulares pela totalidade poderia ser vista como não
sendo de todo apaziguadora. Mas não parece ser esse o caso. Hegel,
tal como Nietzsche também utiliza o fenômeno musical da
dissonância. Todavia, para se diferenciar do autor do Nascimento
da Tragédia, afirmando “que a harmonia surja como resultado dela
[da dissonância], por meio da solução do conflito”. 18) Está em jogo, portanto, uma concepção de
harmonia própria do movimento romântico, notadamente, a inaugurada
por Beethoven: consonância, dissonância e resolução. Análoga a
ela, encontramos o modelo marxista de dialética atribuída a Hegel:
tese, antítese e síntese - os três tempos do compasso hegeliano.
Todavia, essa síntese bem poderia permanecer tensa, instável,
dinâmica, tal como afirmam alguns dos grandes intérpretes de
Hegel, a fim de valorizar seu pensamento:
Os opostos são opostos entre si, mas
eles não se opõem à unidade. Por certo, a unidade é nada mais que
a união, ou síntese, dos opostos. Ela não é imobilidade, e sim
movimento. Ela não é fixidez, mas desenvolvimento. (...) o
concreto universal, com suas sínteses dos opostos, expressa a vida
e não o cadáver da vida; ele fornece a fisiologia e não a
anatomia do real. 19)
Esta expressão da vida, como
salienta Croce, se dá através do "movimento". Portanto, ao fim da
dialética hegeliana, deveríamos ter não um mero ponto final, mas
sim as oscilações que caracterizam a vida e suas vicissitudes.
Pelo mesmo caminho, argumenta Francis Fukuyama, esclarecendo que o
polêmico fim da história em Hegel não corresponderia a um fim dos
conflitos ou eventos significativos para a humanidade, mas um fim
do "processo evolutivo" das formas de governo ou de organização
das "sociedades humanas". Conforme assinala Fukuyama:
Isto [o fim da história em Hegel e
Marx] não significava que o ciclo natural de nascimento, vida, e
morte terminaria, que eventos importantes já não aconteceriam, ou
que os jornais que os informam cessariam ser publicados.
Significava, antes, que não haveria nenhum progresso adicional no
desenvolvimento de princípios subjacentes e instituições, porque
todas as perguntas realmente significativas já haviam sido
resolvidos. 20)
Mesmo assim, se as análises de Croce
e de Fukuyama estiverem corretas (embora, segundo Lefebvre e
Gérard Lebrun, isto seja um equivoco) 21), a estética da tragédia de Hegel e, como
vimos, sua "supressão da individualidade que perturbava o repouso"
acaba por comprometer uma possível filosofia trágica hegeliana. Se
ela existe, de modo algum foi enunciada em seus cursos sobre a
tragédia. Vemos assim, finalmente, o que está em jogo no conceito
de trágico: a noção de fim, de conclusão, ou resolução. Se essa
conclusão for sinônimo de repouso, ela jamais poderá ser trágica.
Pois lhe faltaria o movimento próprio da vida.
Todavia, haverá quem também perceba
nas reflexões nietzschianas sobre a tragédia um "cheiro
indecorosamente hegeliano" 22) e, a partir daí, veja na relação entre ApoIo
e Dioniso uma forma possível da dialética de Hegel - o que bem
poderia ser justificado pela influência indireta de Feuerbach
através da figura de Richard Wagner na obra de Nietzsche. Desse
modo, nos perguntamos se talvez a filosofia trágica de Nietzsche
não se faça presente em seu discurso sobre a tragédia?
Esta é, porém, uma hipótese pouco
provável, por várias razões. A primeira delas encontra-se a poucas
linhas da própria afirmação de suspeita de Nietzsche. (1) Como sua
obra poderia ser dialética se "a verdadeira oposição" 23) apresentada por ela se dá entre Dioniso e
Sócrates? Esta oposição tem como resultado a morte da tragédia e
não qualquer tipo de síntese. (2) A relação entre ApoIo e Dioniso
se mostra, em várias passagens, conflituosa e em várias outras,
harmoniosa: "luta incessante e onde intervêm periódicas
reconciliações" 24). Nunca estão absolutamente unidos, nem
totalmente separados. Sua relação aparece sempre de forma
dinâmica, ou energética, tal como na relação entre consonância e
dissonância da harmonia inaugurada por Richard Wagner em
Tristão e Isolda. A harmonia de sua união reside
justamente na tensão produzida pelo encontro de ambas as pulsões:
apolínea e dionisíaca - tal como se fossem os pólos de uma
bateria. (3) A supremacia de Dioniso sobre ApoIo, identificada por
vários comentadores, também nos leva a conceber um tipo de relação
não dialética, uma relação de outra ordem. Tudo se passa como se
ApoIo fosse a expressão de Dioniso. Deste modo, o deus Dioniso
aparece no palco individualizado na figura apolínea do
protagonista da tragédia. Afinal, quem é mais apolíneo do que
Édipo, que quer estabelecer a ordem em Tebas e punir com sua ira
todos os culpados? Todavia, essa individualização apolínea se
dissolve no terrível fim do herói trágico. (4) A história dos
contratempos que envolveram a publicação do Nascimento da
Tragédia mostra uma obra que foi concluída sob o signo de
concessões, subtrações, acréscimos, mudanças de direção etc. Por
tudo isso, podemos dizer que este é um texto difícil, pleno de
contradições e imprecisões. Essas dificuldades, entretanto, têm
levado vários interpretes à tentação de simplificar o que não é de
modo algum simples, reduzindo este primeiro livro de Nietzsche a
uma ou outra influência de juventude: Wagner, Schopenhauer etc.
Por esta razão, é preciso se precaver e encarar esta obra com suas
dificuldades e dar-lhe um sentido unificado apenas onde isso for
possível. Deste modo, considerando justamente a miscelânea
assistemática que forma O Nascimento da Tragédia, mesmo
que de fato a filosofia trágica de Nietzsche ainda não se encontra
ali pronta e acabada, cabe compreender que nessa obra complexa
estão contidos (ainda que misturados e emaranhados) os elementos
principais da filosofia trágica nietzschiana. 25)
* * *
Quanto a nossa questão original,
talvez encontremos a chave para a sua resposta justamente num
visível ponto em comum entre Nietzsche e Hegel, o apreço para com
a doutrina do obscuro Heráclito.
Em seu Curso sobre a História da
Filosofia, o próprio Hegel afirma sem nenhuma reserva: "Não
há uma sentença de Heráclito que eu não tenha acolhido em minha
lógica." 26) Nesta lógica, porém, Hegel anuncia a
prioridade do Ser: "O ser puro constitui ( macht
) o começo, porque ele é tanto pensamento puro, quanto
incerto e simples imediato. Porém, o primeiro começo não pode ser
nada de mediato e ainda determinado.” 27) Tudo isso faz com que o ser guarde
também uma íntima relação com o nada: "Este ser puro
agora é a pura abstração, para ser o negativo absoluto, o qual
tomado do mesmo modo em sua imediatidade, é o nada.” 28) Como síntese, união desses conceitos opostos
(e intimamente relacionados), surge o devir: "O nada, como este
imediato, é similar a si mesmo, e inversamente o mesmo que o ser.
A verdade do ser tal como a do nada, portanto, é a unidade de
ambos; esta unidade é o devir.” 29) Esta mesma relação já aparecia na anterior
Ciência da Lógica: o ser como um a priori do
pensamento e, como tal, uma forma vazia, abstrata e, portanto,
equivalendo a um nada. Por fim, a união concreta e materializada
do ser e de seu oposto - ser e nada consumados no devir.
Nesta lógica, o fato de o ser
se encontrar em primeiro lugar, de modo algum, postula para
ele um valor mais elevado. O devir sim, como síntese das
abstrações de um ser que equivale a um nada, passa a ser
considerado como ponto mais elevado. O devir como síntese, como
ponto final de uma trajetória lógica, representa um avanço
considerável no pensamento ocidental. Situado em segundo plano
desde Heráclito, o devir precisaria de um filósofo como Hegel para
se tomar novamente o foco do pensamento ocidental.
Todavia, o movimento a que Hegel se
refere (este devir como síntese) possui uma característica que o
toma muito distante do movimento trágico da filosofia
nietzschiana. Ele possui uma teleologia. Ele busca um
fim, uma razão na história, uma realização concreta do Ideal em
sua união com o Real. Essa teleologia percorre toda a obra de
Hegel, da Fenomenologia do Espírito à Filosofia da
História.
Em Nietzsche, entretanto, vemos o
oposto. Como jovem estudante de filologia, ele já se colocava ao
lado de Kant contra as teses teleológicas. E já parecia consciente
da íntima relação entre tais teses e o otimismo vigente: "Otimismo
e teleologia caminham de mãos dadas” 30), escrevia em 1867. Num sentido completamente
oposto, em Hegel a história caminhava em direção à união entre o
Ideal e o Real, onde o espírito deve conquistar a consciência de
si se afastando da natureza, para assim alcançar o ápice de sua
própria essência: a liberdade.
A liberdade encontrou a chave para
realizar seu conceito como sua própria verdade. Esta é a meta da
história mundial, e nós temos que percorrer o longo caminho que
simplesmente é claramente estabelecido.” 31)
Em Nietzsche, principalmente quando
ele interpreta Anaxágoras e Heráclito, esse conceito de liberdade
(próprio do otimismo alemão) assume um outro caráter. Esta
liberdade não é subordinada a uma meta histórica, como em Hegel.
Para Nietzsche, "esse querer absolutamente livre só pode pensar-se
como desligado de qualquer fim, à maneira de um jogo de crianças
ou do jogo do instinto artístico.” 32) Liberdade, portanto, passa a estar
intimamente relacionada a encontros fortuitos, ao acaso, ao jogo
instintivo do artista.
Deste modo, compreendendo o
pensamento trágico de Nietzsche, tal como ele mesmo o expressou,
como tendo um possível precursor em Heráclito (i.e. em sua
doutrina do jogo inocente e despropositado da criança), seria
impossível identificar esse mesmo pensamento trágico na filosofia
de Hegel: uma filosofia que dança somente em compassos temários,
cujos passos permanecem obedientes a um fim bem preciso e
determinado. A adesão à vida, como princípio da filosofia trágica,
não comporta um único compasso, tampouco a obediência a
predeterminações. O passo da dança deve acompanhar a música da
vida. Por isso, a filosofia trágica não pode ter um fim no duplo
alcance do termo: (1) nem fim como conclusão, acabamento,
resolução do movimento; (2) nem fim como meta, objetivo
ou predeterminação do mover-se.
Neste sentido, se a
filosofia de Hegel é uma filosofia do devir, como a de Nietzsche,
ela não pode ser considerada trágica, porque esse devir percorre
um caminho já previamente traçado e esquadrinhado. Embora o devir
não seja expulso do pensamento, ele é aprisionado pela filosofia
hegeliana em um projeto previamente elaborado.
_________________________________________________________________________
1)
HYPPOLITE , Jean . Introdução à Filosofia da História de
Hegel . Trad. José M. Lima. Lisboa: Elfos, 1995, p. 45.
2) NIETZSCHE. Ecce Homo .
In: ______, Kritische Studien Ausgabe. Berlim: Walter De
Gruyter, 1988, vol. VI, p. 312 (doravante, KSA VI , p.
312).
3) Cf. NIETZSCHE. Ecce Homo
. In: ______, KSA VI , p. 312-3.
4) NIETZSCHE. Os filósofos
pré-platônicos. ln : ______, Kritische Gesamtaugabe.
Berlin: Walter De Gruyter, 1995, Tomo II, vol. 4, p. 282
(doravante, KGW II4 , p. 282).
5) Cf. NIETZSCHE. O Nascimento
da Tragédia, § 11 . In: ______, KSA I , p. 78.
6) NIETZSCHE. O Nascimento da
Tragédia, § 11 . In: ______, KSA I , p. 75.
7) NIETZSCHE. O Nascimento da
Tragédia, § 19. In: ______, KSA I , p. 127-8.
8) NIETZSCHE. O Nascimento da
Tragédia, § 24 . In: ______, KSA I , p. 153.
9) NIETZSCHE. O Nascimento da
Tragédia, § 24 . In: ______, KSA I , p. 153.
10) NIETZSCHE, A filosofia na
época trágica dos gregos, §5 . In: ______, KSA
I, p. 826.
11) Ibid., p. 374.
12) Ibid., p. 372.
13) NIETZSCHE. Die
vorplatonischen Philosophen. In: ______, KGW II4 ,
p. 278.
14) Idem, Ibidem .
15) Cf. HERÁCLITO. Frag.
52. In: Diels-Vorsokr. Die Fragmente der Vorsokratiker 2
vol. 4a ed. Bilíngüe de DIELS, Herma nn. Berlin:
Weidmannsche, 1922, vol. 1, p. 88: “O tempo é uma criança,
criando, jogando o jogo de pedras; vigência da criança.”
16) NIETZSCHE. A Gaia Ciência,
§ 357. In: ______, KSA III , p. 399.
17) HEGEL. Curso de Estética
II. In: ______, Werke 20 vol. Frankfurt am Main:
Suhrkamp,1970, vol. 15, p. 524 (doravante W 15 , p. 524).
18) HEGEL, Curso de Estética I
. In: ______, W 13 , p. 268. Passagem traduzida por
GONÇALVES, Márcia. O belo e o destino. São Paulo: Loyola,
2001, p. 290.
19) CROCE, Benedetto. "The
Dialectic or Synthe sis of Opposites". In: ______, What
is Living and What is Dead of the Philosophy of Hege!.
Trad. Ainslie, Douglas. Lanham: University Press of América,
1985.
20) FUKUYAMA, Francis. By way of an
introduction. In: ______, The end of History and the last man.
New York: Avon Books, 1993, p. xii.
21) Ver LEFEBVRE, Lógica
Forma/Lógica Dialética. Trad. Carlos Coutinho. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, p. 173 e LEBRUN, Gerard. O
avesso da dialética Hegel à luz de Nietzsche . Trad. Renato
Janine Ribeiro São Paulo: Companhia das Letras , 1988, p. 101-2.
22) NIETZSCHE . Ecce Homo.
In: ______, KSA VI , p. 310 .
23) NIETZSCHE . Ecce Homo.
In: ______, KSA VI , p. 311.
24) NIETZSCHE . O Nascimento da
Tragédia , § 1. In: ______, KSA I , p. 25.
25) Estes quatro pontos
encontram-se desenvolvidos em minha dissertação de mestrado
______, O Pensamento Dissonante. Dissertação de Mestrado
em Filosofia IFCS- UFRJ, Rio de Janeiro, 2002.
26) HEGEL. Curso de história da
Filosofia. In: ______, W XVIII , p. 320.
27) HEGEL. Plano para
enciclopédia das ciências filosóficas. ln: ______, W VIII
, p. 182-3.
28) Idem, Ibidem , p. 186.
29) Idem, Ibidem, p. 188.
30) NlETZSCHE, Zur Teleologie.
ln: ______, Jugendschriften em 5 vol.. München:
Beck. Vol. III, p. 371 (BAW III, p. 371).
31) HEGEL. Curso de Filosofia
da História. In: ______, W XII , p.141.
32) NIETZSCHE, A
filosofia na época trágica dos gregos, §19. ln: ______,
KSA I , p. 872.