PELAS VEREDAS DE PAULO FREIRE E PIERRE
LÉVY: COMPILANDO PENSAMENTOS NA (RE) CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO
POPULAR
Genoveva Batista do Nascimento
Universidade Federal da Paraíba
Mestranda em Educação
Email: genoveva_batista@hotmail.com
Resumo
Este artigo tem por objetivo elencar a relação das idéias do
Paulo Freire no contexto da educação popular e as idéias do Pierre
Lévy contextualizando a educação através de uma aprendizagem
coletiva. Neste sentido, tento fazer uma explanação sobre a
correlação dos pensamentos dos supracitados autores a fim de
destacar essa correlação na (re) construção de uma educação
popular.
Palavras-chave: Aprendizagem colaborativa- Educação Popular -
Inteligência coletiva Tecnologias de informação e comunicação
FOR THE PATHS OF PAULO FREIRE AND PIERRE LÉVY: JOINING THOUGHTS
IN THE (RE) CONSTRUCTION OF A POPULAR EDUCATION
Abstract
This article has for objective detach the relation of the Paulo
Freire ideias in the context of the Popular Education and Pierre
Lévy ideas detaching the education thought an collective learning.
In this sense, I try to do an explanation about the correlation of
the author's thoughts presenters showing this correlation in the
(re) construction of a popular education.
Key Words: Popular Education- Collective Intelligence-
Communication and information technologies
PELAS VEREDAS DE PAULO FREIRE E PIERRE LÉVY: COMPILANDO
PENSAMENTOS NA (RE) CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO POPULAR
Genoveva Batista do Nascimento
Universidade Federal da Paraíba
Mestranda em Educação
“A educação... é uma atualização da cultura, e isso não somente
no plano de seu conteúdo (as formas aprendidas), mas, sobretudo no
plano de seu gesto exploratório, consciente, deliberado”.
Pierre Lévy
“[...] acho que o uso de computadores no processo de
ensino/aprendizagem, em lugar de reduzir, pode expandir a
capacidade crítica e criativa... Depende de quem a usa a favor de
quê e de quem e para quê.”
Paulo Freire
Quando falamos em Educação Popular, logo nos remetemos às
idéias de Paulo Freire, visto que, durante sua vida inteira
envolveu-se com a questão do educar para a vida, através de uma
educação preocupada com a formação do indivíduo crítico, criativo
e participante na sociedade. Neste sentido, é relevante destacar
que o ser humano nesta educação, é um sujeito que não deve somente
“estar no mundo, mas com o mundo”, ou seja, fazer parte dessa
imensa esfera giratória, não apenas vivendo, mas construindo sua
própria identidade e intervindo no melhoramento de suas condições
enquanto cidadão e buscando o direito de construir uma cidadania
igualitária e justa.
A pedagogia freireana propõe um ensino voltado ao diálogo, a
liberdade e ao exercício constante de busca ao conhecimento
participativo e transformador . Uma educação que esteja disposta a
considerar o ser humano como sujeito de sua própria aprendizagem e
não como mero objeto sem respostas e saber. Seu local de morada,
sua vivência, sua realidade e principalmente sua forma de enxergar
e ler o mundo precisam ser levados em consideração para que esta
aprendizagem aconteça.
Contextualizando a educação popular como motivadora para a
formação de indivíduos críticos e conscientes de seu papel
enquanto cidadãos, é pertinente enfocar a importância que a mesma
assume na sociedade do conhecimento, para o elucidar de uma
cidadania com direitos e deveres iguais para todos.
A educação hoje não assume apenas o dever de repassar
informação , mas tem por obrigação fomentar e resgatar as
potencialidades individuais do ser humano, objetivando a
construção de um conhecimento coletivo, onde a experiência de um
se correlaciona com a vivência de outro. Freire apud Scocuglia
(1999, p. 47) afirma que: “a educação como prática de liberdade, é
ato de conhecimento, uma aproximação da realidade [...]”.
Nesta perspectiva, é fundamental ressaltar a educação como
fomentadora da “consciência”, destacada na pedagogia freireana.
Todavia, a escola responsável por esta educação formal, já não
assume o papel de instituição comprometida com a formação do
indivíduo para a sociedade, “incluindo a socialização do saber
historicamente produzido, a construção pessoal do conhecimento, a
formação para o trabalho e a produção de identidades coletivas, em
especial a de indivíduos que, vivendo em sociedade, (com) formam a
cidadania.” (BURNHAM, 2000, p. 284).
Dito isto, é preciso rever novas práticas para uma educação
popular moderna. É preciso então, (re) construir os novos rumos
dessa educação cidadã, dinâmica, libertadora, autônoma, consciente
e popular, respaldando o aprendizado para a vida.
Na busca dessa (re) construção, a educação popular hoje toma
outra forma, enveredando por caminhos modernos, rendendo-se ao
apoio das novas tecnologias, buscando seu uso efetivo como
mediadora na construção de uma nova forma de ensinar e aprender,
proporcionando ao ser humano o acesso a essas mudanças
tecnológicas e tornando possível o (re) conhecimento de uma nova
realidade.
Segundo Brennand (2002, p. 40): “ A forma de difusão da
tecnologia está reconfigurando as experiências de uso e
conseqüentemente novas formas de aplicações, o que tem ocasionado
mudanças substantivas nas formas de aprendizagem dos sujeitos
[...]”. Dessa forma, a educação baseada no sistema de informação
tecnológica, atribui ao educador/a a incumbência de criar um novo
ambiente escolar, um lugar que estimule o aprendizado ativo e
proporcione diretrizes que estimulem a troca de experiências entre
alunos/as.
As tecnologias de informação e comunicação (TIC's) serão
complementos fundamentais no processo de ensino/aprendizagem,
dando subsídios para que a educação seja mais efetiva, nesse mundo
que se torna cada vez mais digital. Isto posto, podemos
acrescentar que as TIC's “exercem um papel importante na produção
e na disseminação da informação e do conhecimento-especificamente
o científico e o tecnológico [...].”(BURNHAM, 2000, p. 291),
almejamos então com esse apoio, a construção de uma sociedade
democrática , sem desigualdades e exclusão social.
Assim , é que direciono os pensamentos do Paulo Freire com os
pensamentos do Pierre Lévy, visto que, o mesmo destaca a
importância da valorização das competências individuais, formando
através da colaboração de conhecimentos, experiências e idéias,
uma aprendizagem colaborativa, formando então, uma inteligência
coletiva, definida por Lévy (1998, p. 28) como sendo: “uma
inteligência distribuída por toda parte, incessamente valorizada,
coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva
das competências.”
Dessa forma, desenvolver a construção da inteligência coletiva,
resgatando os diversos tipos de saberes, proporcionará uma nova
forma de ensinar, fomentando um aprendizado dinamizador que
transforma paradigmas, dando liberdade para descobrir e criar,
contribuindo assim, para a formação de cidadãos críticos e
conscientes de seu papel na sociedade, (re) construindo uma nova
prática pedagógica na educação e (re) organizando o processo
ensino/aprendizagem, a fim de se formar uma sociedade que ponha em
prática seus pensamentos, idéias e sonhos.
“E a sociedade passa assim, aos poucos, a se conhecer a si
mesma. Renuncia à velha postura de objeto e vai assumindo a de
sujeito”. (FREIRE, 1980, p.52).
E nessa busca constante pela transformação e emancipação da
sociedade, Pierre Lévy destaca e conceitua a criação de “As
árvores de Conhecimentos” (software que permite que pessoas de
diferentes perfis troquem informações e formem comunidades de
conhecimento), oferecendo nesse sentido, ênfase na aprendizagem
colaborativa, ou seja, o conhecimento de um se correlacionando a
práticas e habilidades de outros. Dito isto, Authier apud Souza
(2003, p. 49) destaca que:
Não há mais saber na casa de um professor universitário do que
na casa de um trabalhador pobre que precisa descobrir formas sutis
de ganhar a vida, de educar seus filhos. Na verdade, não existe
desequilíbrio de conhecimento. O que existe, na sociedade moderna,
é um desequilíbrio na valorização das diversas formas de
conhecimento.
É importante que o conceito do que é conhecimento seja revisto,
reformulado por cada um de nós, pois, a valorização desse
conhecimento e a forma de como o gerenciamos dão subsídios para a
libertação da sociedade, potencializando a socialização do saber e
fomentando o ato de criar em conjunto. Existe uma desorganização
na forma de ensinar e aproveitar as competências de cada ser
humano, deixando suspensa a construção de uma inteligência
coletiva e esquecendo que é possível, por mais utópico que seja
transformar a sociedade, almejando o crescimento pelo saber e
aprendizado daqueles que a constituem.
Precisamos direcionar o ensino para a (re) descoberta e
intervenção no mundo, como tanto fez Paulo Freire com a sua
pedagogia. Precisamos renovar os saberes e valorizar as
competências como propõe Pierre Lévy. É certo que cada qual
direciona suas idéias a realidades diferentes, porém, para serem
colocados em prática por todos, em prol de uma mesma educação. “É
o fim único da educação tornar a consciência humana consciente
dela mesma [...]” (LÉVY, 2001, p. 155). Neste sentido, é que
educadores/as devem refletir e estarem comprometidos com uma nova
forma de aprender/ensinar, idealizando perspectivas para que a
democracia seja colocada em prática.
E contando com essa democracia, é que acreditamos nas mais
variadas formas de educar para a mudança social, política e
econômica da nossa sociedade. Levando-se em consideração que
mudança no sentido mais amplo da palavra, só ocorre quando podemos
perceber realmente transformação.
Isto posto, Freire apud Melo Neto (1999, p. 56, grifo nosso)
destaca que: “também faz história quando, ao surgirem os novos
temas, ao se buscarem valores inéditos, o ser humano sugere uma
nova formulação, uma mudança na maneira de atuar, nas atitudes e
nos comportamentos”.
E nessa maneira de atuar, agir e se comportar diante da
imensidão de novidades que vão surgindo a cada dia, percebo que ao
falarmos em transformação logo me vejo a pensar na formação
educacional mediada pelas tecnologias de informação e comunicação,
destacando o uso da internet, pois, uma vez que a construção do
conhecimento se dá através da troca de informações e experiências
interligadas pela participação de outros sujeitos, a internet se
transforma assim, em veículo de ensino e aprendizagem coletiva,
tendo como suporte a utilização da máquina (computador).
Sendo assim, Neves apud Souza (2003, p. 45), enfoca que: “O
indivíduo só aprende de fato quando troca experiências e se sente
um agente ativo na busca do conhecimento”. Ou seja, é a partir da
valorização do potencial e do conhecimento de cada um, que um novo
ensino/aprendizagem poderá ser colocado em prática e dessa forma
estaremos fazendo parte de uma sociedade mais criativa e dinâmica.
Criativa pela capacidade de (re) inventar o atual e dinâmica pela
maneira de como agir diante das mais inusitadas situações. Existe
aqui um vislumbramento a novas formas de aprender a aprender,
educar e aprender e ou aprender a educar.
E nesta perspectiva é que tomo como pressuposto para a (re)
construção da educação popular, a expectativa dos dois autores
supracitados: Paulo Freire e Pierre Lévy, tentando fazer uma
relação das suas idéias e compilando seus pensamentos a fim de
deixar explícito que a educação nas suas mais variadas formas deve
estar voltada principalmente, a ter com o educando a
responsabilidade de fomentar a sua curiosidade, autonomia e sua
criticidade diante do mundo e das injustiças que os cercam.
Sabemos, pois, que (re) construir não é tarefa fácil, mas é
necessário que estejamos dispostos a mudar essa mesmice em que
estamos, os ideais de luta devem fazer parte dessa (re) construção
educacional a que propomos, ou seja, preocupada com o futuro de
alunas e alunos enquanto desbravadores de uma sociedade cheia de
sonhos, desejos e anseios e tendo como meta principal a
concretização dos mesmos, através de uma emancipação política,
econômica e social, buscando trazer de volta a dignidade humana
hoje tão esquecida. Neste contexto de mudança e (re) construção,
Lévy (2001, p. 155) enfoca que:
Nenhuma das formas exploradas por essa nova educação seria
concebida como “ultrapassada”, mas, ao contrário , descoberta e
rememorada como sempre presente, participando da dinâmica viva do
espírito humano e vista do centro único- a consciência- a partir
do qual se originam todas as formas.
Contudo , é importante relembrar que é a consciência que nos
leva a perceber as mudanças ocorridas a cada dia em nossa
sociedade e dessa forma, precisamos estar atentos para
acompanhá-las de forma crítica. Se as formas são originadas da
nossa consciência, devemos rever se quando elas são modificadas e
contribuem para a construção de uma sociedade menos desigual,
visto que , quando as mudanças são propostas logo se pensa na
rotulação de novo nome. É como se fosse pensada apenas na teoria e
a prática ficasse bem distante.
Nesta perspectiva é que convém esclarecer que a (re) construção
da educação popular aqui proposta, não tem intenção alguma de
modificar o nome que é conhecida, mas acrescentar a essa nova
forma de ensino, meios de acesso dinâmicos a educação, fazendo da
aprendizagem uma busca constante de conhecimento potencializador,
pois, “no futuro, o estudante viverá realmente como explorador,
como pesquisador, como caçador à espreita nesse imenso terreno que
será seu universo de informações”. (GADOTTI, 1997, p. 295). O uso
adequado de tecnologias da informação e da comunicação permitirá
ao estudante essa exploração, por isso, é urgente a democratização
desse acesso, é necessário salientar um olhar político para que
este uso seja mais efetivo, visto que, não se pode negar que
estamos vivendo uma nova era, onde o novo está emergindo e em
crescente transformação.
A integração do tecnológico (computacionais e sistemas
existentes) com o pedagógico (aprendizagem ), impelem a educação a
buscar caminhos que viabilizem o processo de ensino se respaldando
nos aparatos tecnológicos.
E para os temerosos quanto ao uso da tecnologia na educação
Paulo Freire (2002, p. 36) afirma:
E não vai nesta consideração nenhuma arrancada falsamente
humanista de negação da tecnologia [...]. Pelo contrário é
consideração de quem, de um lado, não diviniza a tecnologia, mas,
de outro, não a diaboliza. De quem a olha ou mesmo a espreita de
forma criticamente curiosa.
Precisamos aguçar nossa curiosidade e descobrir que as novas
tecnologias não ameaçam, apenas nos redireciona e nos convidam a
navegar por mares “ainda” não navegados. A educação popular
vislumbra outras formas de aprender a aprender, educar e aprender
e aprender a educar-se. O indivíduo será reconhecido como parte
integrante das mudanças ocorridas e peça peculiar na busca dessa
tão esperada (re) construção do ensino/educação/popular/coletiva.
Mas, é relevante destacar aqui que sem a educação a tecnologia
é estática, pois, para que ela seja efetiva é preciso que mentes
sejam levadas a pensar, e assim, é através da educação, ou seja,
do ensino/aprendizagem que isso se torna possível. Por isso,a
importância de uma (re) construção de uma educação popular,
mediada pelas transformações e pelo avanço tecnológico.
Enfim, pelas veredas de Paulo Freire e Pierre Lévy passemos a
construir nossos próprios caminhos e outros pensamentos e sem
dúvida alguma iremos (re) construir muitas outras idéias nesse
grande universo chamado educação.
Referências
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Pessoa: Laboratório de desenvolvimento Instrucional/Coord.
Instrucional de educação a distância/Universidade Federal da
Paraíba, 2002. 1 CD-ROM
BURNHAM, Terezinha Fróes. Sociedade da informação, sociedade do
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2000. p. 283-307.
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Leitura).
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GADOTTI, Moacir. História das idéias pedagógicas . 5. ed. São
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LÉVY, Pierre. A conexão planetária : o mercado, o ciberespaço,
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MELO NETO, José Francisco de. Educação Popular: uma ontologia.
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SCOCUGLIA, Afonso Celso. A história das idéias de Paulo Freire
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