O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM
NIETZSCHE
Flávio de Oliveira Silva
Mestre em
Filosofia. Professor Assistente do Departamento de Ciências Exatas
e da Terra do Campus II (Alagoinhas) e do Departamento de Educação
do Campus XI (Serrinha) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Resumo: O texto propõe nominar como questão
fundamental de primeira ordem, o fenômeno dionisíaco, explicitado
e tematizado por Nietzsche em sua primeira obra O Nascimento da
Tragédia. Entendemos que a concepção e identificação do fenômeno,
à sabedoria trágica do povo grego antigo, acompanham o pensamento
do filósofo, ainda que não tematicamente, a possibilitar a idéia
de unidade do seu pensamento. Neste entendimento consideramos os
denominados conceitos fundamentais do pensamento de Nietzsche:
niilismo; transvaloração de todos os valores; além-do-homem,
eterno retorno do mesmo e; vontade de potência como conceitos
fundamentais de segunda ordem; na medida em que o vigor desses
conceitos se haure da intuição originária do filósofo a se revelar
na apreensão do fenômeno dionisíaco.
Palavras-chave: Nietzsche, fenômeno dionisíaco,
sabedoria trágica.
THE DIONISYUS´ PHENOMENON AS FUNDAMENTAL QUESTION
IN NIETZSCHE
Abstract: This text proposes to nominate as
fundamental question of first order, the Dionysius’ phenomenon,
showed by Nietzsche in your first work The Birth of Tragedy. We
understand that the conception and identification of this
phenomenon, related to the tragic wisdom from antique Greek
people, follows the philosopher’s thought, even if don’t in a
theme form, to make possible the idea of unity from your thinking.
In this term we consider the calling fundamental concepts from
Nietzsche’s thinking: nihilism; revaluation of all values; over
man; eternal return of the same; and will of power as fundamental
concepts of second order; in so far as the vigor of these concepts
come from the philosopher’s original intuition that reveals itself
in the apprehension of the Dionysius’ phenomenon.
Key-words: Nietzsche, Dionysius’ phenomenon,
tragic wisdom.
O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM
NIETZSCHE
FLÁVIO DE OLIVEIRA SILVA - UNEB
O pensamento de um filósofo marca um tempo,
inaugura uma concepção de mundo, denuncia o impensado do ser. Sua
intuição é sagaz, alcança o enigma e não se sabe exatamente o
momento nem o porquê dessa abertura. Com a chave do enigma canta
versos de poeta, desafia os tempos e se imortaliza no pensamento.
A chave do enigma é sua intuição fundamental. Seu dizer genuíno se
faz audível e inteligível no que libera e se reverbera como
pensamento. Seu pensamento se torna questão, tese e/ou hipótese a
possibilitar um novo olhar, uma nova escuta às entranhas,
familiaridades e estranhezas do ser.
No pensamento do filósofo
alemão Friedrich Nietzsche encontramos precisamente, o dinamismo
de um pensar genuíno. A leitura e interpretação de suas obras
identificaram conceitos fundamentais a revelar sua compreensão de
mundo e existência.
Nossa pretensão com este trabalho é
atribuir o devido reconhecimento à questão, que a nosso ver, se
mostra como a chave do enigma intuída pelo filósofo como a questão
fundamental a direcionar, dar força e vigor ao seu pensamento no
tratamento da condição humana. Nesta perspectiva, entendemos que
os chamados conceitos fundamentais, comumente denominados:
niilismo, transvaloração de todos os valores, vontade de poder,
eterno retorno do mesmo e além-do-homem, somente são possíveis
como revelação do pensamento de Nietzsche numa estreita relação a
um fenômeno que lhe serve de suporte e se mostra como verdade
alcançada pelo pensador.
Em nosso entendimento, os conceitos
fundamentais de que tratam as referidas denominações, não são
efetivamente conceitos fundamentais de primeira ordem, mas de
segunda ordem. Os referidos conceitos sinalizam e pontuam o
pensamento do filósofo, mas, como expressões, codificações de uma
apreensão que lhe está subjacente, a se impor como apreensão de
primeira ordem. Os denominados conceitos fundamentais expressam o
que originalmente se dá como força de ser, a revelar homem, mundo
e existência numa unidade de pensamento.
Está explicitado em
sua primeira obra, O Nascimento da Tragédia, o fenômeno que
originariamente chamamos de apreensão de primeira ordem, porque
remete ao pensar radical do filósofo enquanto solo do qual a raiz
do seu pensamento retira a substância para o seu poder ser e
reverberar como pensamento. O percurso que o filósofo elabora não
perde de vista o sentimento, a intuição originária tematicamente
abordada na citada obra. No vigor dessa intuição, Nietzsche vai
manter-se fiel em sua trajetória. Pode-se falar de nuanças de seu
pensamento, de rompimentos com pessoas, mudanças de intenções, mas
não da perda da identidade originária que marca o desenvolvimento
do seu pensamento.
Na obra O Nascimento da Tragédia o autor
revela admiração profunda, confiante e sublimada ao povo grego
antigo, precisamente no período trágico, por considerar que nele a
vida se mostra como vida em sua autenticidade, em sua
possibilidade revelativa de si mesma.
Vida, interpretado no
sentido nietzschiano como vontade de, que atravessa e domina, a
revelar-se como vontade de poder, aparece no pensamento do
filósofo como a questão que necessita ser radicalmente desnudada.
Se na metafísica tradicional a questão do ser é tomada como
questão fundamental, em Nietzsche o ser enquanto questão
fundamental é substituído por vida, cuja interpretação se dá numa
perspectiva própria do filósofo em questão. Embora pontuemos na
questão vida tratada pelo filósofo, uma providência diferente
daquela que investiga a questão do ser, contudo, a questão vida,
abordada por Nietzsche, e a questão do ser, abordada na tradição
filosófica, são investigados na perspectiva de um mostrar-se como
realidade do que efetivamente é, enquanto o que é, e em sua
totalidade.
O período trágico se revela na tragédia como
sabedoria da arte grega, através do qual o filósofo identifica
como fenômeno dionisíaco, a mais alta expressão de vida alcançada
por um povo. Nossa reflexão acerca deste fenômeno incita-nos a
percebê-lo como a questão fundamental por excelência.
Convém,
no entanto, ressaltar nesse fenômeno, uma escuta ao fenômeno
apolíneo, em vista do qual o fenômeno dionisíaco se afirma. Em
quase todo pronunciamento de Nietzsche em O Nascimento da
Tragédia, Dionísio é exaltado como divindade artística que mostra
a vida no seu cerne, numa oposição a Apolo, entendido pelo
filósofo como divindade que se assemelha ao gênio transfigurador a
possibilitar, apenas, o alcance da verdade na aparência. Contudo,
nas últimas paginas do referido livro, Nietzsche deixa claro o
fenômeno apolíneo como o contra ponto que rendido à força de
Dionísio, lhe transmite a linguagem apolínea, ocorrendo assim uma
mútua rendição: Dionísio fala a língua de Apolo e Apolo fala a
língua de Dionísio. Com isto estaria alcançada a meta suprema da
tragédia. Neste sentido Nietzsche afirma:
O mito trágico só deve ser entendido como uma
afiguração da sabedoria dionisíaca através de meios artísticos
apolíneos; ele leva o mundo da aparência ao limite em que este se
nega a si mesmo e procura refugiar-se de novo no regaço das
verdadeiras e únicas realidades,... (GT/NT § 22 P.131)
Na explicitação do fenômeno dionisíaco, Nietzsche
aponta para a instância, fecunda e desveladora inerente ao
fenômeno. Nessa revelação o filósofo se contrapõe à dissimulação,
ao enfraquecimento e à negação da vida, na medida em que também
expõe como fato que o fenômeno dionisíaco foi negado e por fim
esquecido, embora sua força pulsante esteja a reverberar nos
recônditos de nosso ser, a permitir-nos que sejamos, mesmo na
mentira, mesmo na décadence.
Em linhas gerais Nietzsche toma
por décadence o fenômeno em que se encontra a humanidade, numa
referência ao estado de fraqueza e covardia do espírito humano em
seu empenho de fuga frente à realidade. Segundo Nietzsche, o
cristianismo, Sócrates e todos os idealistas representam o
espírito décadent, por expressarem o instinto que degenera que se
volta contra a vida, ávidos de vingança, na medida em que,
forjando uma duplicação de mundo, atribuem valor de verdade
positivo, real a um suposto mundo transcendente, e valor negativo
e ilusório ao mundo corpóreo. Nesta perspectiva afirma: “Os
décadents necessitam da mentira - ela é uma de suas condições de
sobrevivência" (EH/EH § 4 P.63)
Na exaltação da Tragédia grega,
o filósofo ressalta o poder da vida, a despeito de toda e qualquer
negação.
O consolo metafísico - com que, como já indiquei
aqui, toda a verdadeira tragédia nos deixa - de que a vida, no
fundo das coisas, apesar de toda a mudança das aparências
fenomenais, é indestrutivelmente poderosa e cheia de alegria, esse
consolo aparece com nitidez corpórea como coro satírico, como coro
de seres naturais, que vivem, por assim dizer indestrutíveis, por
trás de toda civilização, e que, a despeito de toda mudança de
gerações e das vicissitudes da história dos povos, permanecem
perenemente os mesmos. (GT/NT § 7 P.55).
O fenômeno dionisíaco é precisamente uma
compreensão fundamental do filósofo. A partir dessa intuição
primeira, Nietzsche legisla, porque em sua interpretação o
filósofo é aquele que legisla. Legislar para o filósofo significa
impor valores, na medida em que procede a uma avaliação crítica
dos valores vigentes. Neste sentido Nietzsche avalia na história
do pensamento e na história da vida - nas suas previsíveis e
inusitadas apresentações e representações - os caminhos, as
escolhas empreendidas pelo homem na interpretação da condição
humana.
No dizer de Nietzsche, em sua autobiografia Ecce Homo,
a sabedoria trágica revela a compreensão de vida (existência) não
alcançada nem antes do período trágico e menos ainda, após este
período. Na referida obra, cita uma passagem do Crepúsculo dos
Ídolos a explicitar a atmosfera em que se desenvolve o fenômeno
dionisíaco.
O dizer sim à vida, mesmo em seus problemas mais
duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria
inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos - a
isto chamei dionisíaco, isto entendi como a ponte para a
psicologia do poeta trágico. (...) mas para, além do pavor e da
compaixão ser em si mesmo o eterno prazer de vir-a-ser - esse
prazer que traz em si mesmo o prazer no destruir. (EH/EH § 4
P.63-64).
Se há uma verdade e se há uma ciência, num sentido
próprio, num sentido autêntico, essa verdade e essa ciência estão
concebidas no pensamento de Nietzsche como a expressão de
afirmação da vida, pela apropriação da vida, no simples deixar ser
o que por natureza é e quer ser por direito: vida. Se, designamos
por filosofia o poder dizer o que é o mundo, o que é a existência
enquanto tal, como o que é enquanto é, na totalidade de seu
âmbito; se, na aquiescência ao que preconiza a história da
filosofia considerarmos este dizer do ente enquanto tal e em sua
totalidade como expressão da verdade e da ciência, então, na
concepção do fenômeno dionisíaco (sabedoria trágica) está
anunciada um direcionamento como questão fundamental a expressar
verdade e ciência no pensamento nietzschiano, por entendermos
nesse fenômeno a expressão, a pulsão fundamental da vida. Na
referência a esta questão Nietzsche mostra-se enfático.
... um dizer Sim sem reserva, ao sofrimento mesmo,
à culpa mesmo, a tudo que é estranho e questionável na existência
mesmo... Esse último, mais radiante, mais exaltado-exuberante Sim
à vida é não apenas a mais elevada percepção é também a mais
profunda, a mais rigorosa firmada e confirmada por ciência e
verdade. Grifo nosso (EH/EH § 4 P.63)
A pergunta pelo ente na totalidade e enquanto tal
é no dizer do filósofo Martin Heidegger (1889-1976) a
caracterização da metafísica.
A afirmação de muitos, inclusive
de Heidegger, em apontar Nietzsche como metafísico, deve-se a este
entendimento do que seja a metafísica. Este apontar Nietzsche como
metafísico é, portanto, na concepção de que o pensamento do
filósofo transita na inquietação das perguntas: o que é o mundo? O
que é a finitude? E o que é a singularização? Nas quais se busca a
plena realização do conceito em sua articulação com a totalidade,
tomando por tarefa dizer o que se apresenta como enigma.
Nietzsche, no entanto, repudia a metafísica e toda a tradição
filosófica, não se considerando, em hipótese alguma, fazendo parte
dessa tradição.
Convém ressaltar, no impasse desta questão, o
fato de Nietzsche pensar a metafísica e a tradição filosófica, num
víeis pessoal a pontuar a sua filosofia. Nietzsche interpreta a
metafísica como um movimento de consagração a valores que
enfraquecem e ameaçam a vida, na medida em que a metafísica se
mostra como duplicação de mundo, como especulação em torno de um
transcende que ignora o homem fático, o homem concreto, a
realidade viva que se consagra num permanente duelo e jogo de
forças. Nietzsche deixa claro nas entrelinhas do seu dizer, não
ser confiável, não ser possível atribuir seriedade a questões de
ordem ontológica, por entender estas, como questão transcendental,
fora da experiência do homem, a dissimular a real significação da
vida. É neste sentido que Nietzsche não se julga metafísico nem
fazendo parte de uma tradição, por entender não haver compromisso
com a realidade que se impõe como vida. No entendimento do
filósofo este equívoco é visível na investigação acerca do ser, a
começar pelo próprio entendimento do que diz ser pela tradição.
Para o filósofo, a tradição se apraz na violação, dissimulação da
realidade através do pensamento, no uso da racionalidade. Em sua
concepção, a tradição representa o racionalismo, a exaltação do
conceito que põe no esquecimento a intuição originária do fenômeno
dionisíaco. Considera a tradição como “movimento profundamente
negativo”.
Entendemos que a questão de saber se Nietzsche é ou
não metafísico, e se deve ou não ser colocado como fazendo parte
de uma tradição que ele mesmo rejeita, critica e avalia em toda
sua obra; perde seu sentido, na medida em que, na perspectiva de
julgamento das partes contraditória, a interpretação de metafísica
é por demais diferente. Impõe-se, portanto como necessidade, uma
pergunta que antecede à exposição do dilema, a fim de esclarecê-lo
ou simplesmente, nem sequer concebê-lo enquanto dilema: O que se
entende por metafísica? Se a interpretação de ambas as partes for
a mesma (o que entendemos não ser o caso), é procedente a questão,
caso não seja, então, a questão é inócua. Ao que nos parece, a
ênfase de Nietzsche ao que seja metafísico está enfaticamente
direcionado ao modo, aos caminhos trilhados na interpretação de
mundo e existência, e neste sentido a questão do ser traduz,
reflete esse direcionamento. Portanto, a tônica dada por Nietzsche
ao seu entendimento de metafísica não se refere à inquietação que
procura alcançar o ente enquanto tal e em sua totalidade, e sim ao
modo como se buscou alcançar esse fim.
Ao atribuir ao período
trágico a afirmação da vida, sugere e muitas vezes afirma que
todos os outros povos a negam e a negaram. Nietzsche deixa
compreensível que esse negar tem o sentido de fuga. Essa negação
se manifestou precisamente no ideal de homem e sociedade,
proveniente de uma cultura que se estabeleceu na história do
pensamento como metafísica. Nessa idealização arbitrária e
contrária à própria manifestação da vida, forjou uma concepção de
homem, mundo e existência, destituída de toda e qualquer escuta à
vida.
Uma leitura próxima à de Nietzsche, neste sentido, pode
ser visualizada na obra Paidéia, de Werner Jaeger, quando o autor
tematiza inúmeras vezes o caráter apropriativo dos gregos ao que é
inerente à natureza humana, como fenômeno fundamental da vida.
“Todos os povos criaram seu código de leis, mas os Gregos buscaram
a ‘lei’ que age nas próprias coisas, e procuraram reger por ela a
vida e o pensamento do homem”. (Jaeger, 2001, p.12)
Entendendo
que a vida é sofrimento, Nietzsche, considera que não cabe
negá-la, nem forjar uma outra realidade a fim de justificá-la.
Para Nietzsche a existência do mundo só se justifica como fenômeno
estético (GT/NT autocrítica P.18). Ademais, cabe ao homem vivê-la
em toda sua verdade. A esta postura e compostura do homem como
experiência vivencial, chama de afirmação da vida.
A vida em
plenitude de afirmação consiste no que propriamente o trágico
revela, neste sentido o filósofo reconhece em Kant e mais
precisamente em Schopenhauer - com referências expressas a estes
filósofos nos escritos do Nascimento da Tragédia - a propensa
confirmação de sua interpretação, embora, nos escritos de sua
maturidade venha concluir tratar-se tão somente de interpretação
própria.
Na referência à suposta inspiração que lhe foi
concebida pelos escritos de Kant e Schopenhauer, Nietzsche
ressalta o fenômeno dionisíaco como o cerne da questão vida.
Com esse conhecimento se introduz uma cultura que me
atrevo a denominar trágico: cuja característica mais importante é
que, para o lugar da ciência como alvo supremo, se empurra a
sabedoria, a qual, não iludida pelos sedutores desvios da ciência,
volta-se com olhar fixo para a imagem conjunta do mundo (...)
Imaginemos uma geração a crescer com esse destemor do olhar, com
esse heróico pendor para o descomunal, imaginemos o passo arrojado
desses matadores de dragão, a orgulhosa temeridade com que dão as
costas a todas as doutrinas da fraqueza pregadas pelo otimismo, a
fim de “viver resolutamente” na completude e na plenitude. Grifo
nosso. (GT/NT § 18 P.111).
O fenômeno dionisíaco, cujo nosso entendimento
aponta-o como questão fundamental sempre presente no pensamento
nitzschiano, reverbera como voz que se faz audível mesmo no
silêncio e como força que se impõe e a partir do qual os conceitos
fundamentais do pensamento do filósofo encontram fluidez.
O
niilismo, enquanto conceito fundamental caracteriza o processo
histórico de expansão em que o filósofo reconhece o momento
vigente de negação da negação da vida, que se instaura na medida
em que a moral cristã entra em declínio e começa a se efetivar a
perda dos valores transcendentais (Deus, imortalidade,
liberdade...). O niilismo é precisamente a nadificação do
supra-sensível. Com isto, o homem se reconhece apenas entregue a
si mesmo, e desse modo, de forma mais autêntica, a vida pode se
apresentar nas reais possibilidades em que de fato ela se dá. O
niilismo, portanto, aponta para um possível retorno ao que
Nietzsche chamou de fenômeno dionisíaco, no qual o filósofo
reconhece, mas do que um falar, um viver que auscuta a si
mesmo.
Se nos remeter-mos para o conceito da transvaloração de
todos os valores, podemos entrever que neste está expresso o
caminho para o qual aponta o niilismo. O trans, cujo significado
remete a um para além de, convoca, na concepção da transvaloração
de todos os valores, para um caminhar, para um ir além de todos os
valores morais. É, portanto visível a crítica de Nietzsche aos
valores morais vigentes, na medida em que o filósofo reconhece que
os valores são humanos, demasiadamente humanos, por isto, podem e
devem ser questionados. Nietzsche faz a acusação de que tais
valores passaram a ser determinados como realidades efetivas em
detrimento da vida em sua corporeidade. A transvaloração de todos
os valores remete, assim, à concepção de valor que se confunde com
a própria vida em sua facticidade. Neste sentido é que fazemos uma
relação com o fenômeno dionisíaco, porque neste, o valor maior é a
vida em seu acontecimento.
Quanto ao conceito em que Nietzsche
se refere ao além-do-homem, há que se pressupor o fenômeno da
transvaloração de todos os valores, ou seja, há que se pensar o
homem na desconsideração a todas as condições impostas e mediadas
como condição de ser, erigida por uma tradição de pensamento. A
proposição Über, que compõe a palavra alemã Übermensech, tem
precisamente o sentido de designar um ir além, o que significa no
caso específico, ir além da estrutura que idealizou a ocorrência
do gênero humano. Há, deste modo, uma avaliação que o filósofo
empreende, considerando que o übermensech, traduzido por
alem-do-homem, se mostra como aquele que na negação aos valores
morais, só reconhece a vida como valor supremo. Valor este já
tematizado pelo filósofo como a experiência do período trágico
caracterizado como fenômeno dionisíaco. Somente na transvaloração
de todos os valores, estaria no dizer do Zaratustra o despontar do
Übermensech.
Na referência ao conceito do eterno retorno do
mesmo e sua relação ao fenômeno dionisíaco, nossa especulação é de
que o conceito esteja a se referir a um retornar eterno do que é
enquanto tal e em sua totalidade. Aqui, entendemos o que é
enquanto tal e em sua totalidade como sendo o vigor de
auto-afirmação da vida. Ou seja, o retorno do que se mostra como
fundamento de toda condição possível é a vida. A vida aparece,
portanto como o sempre presente. O pensamento do filósofo mostra
que todas as vezes que a mediocridade da vida humana tende para o
seu ápice, na negação do que é fundamental, então a vida, em toda
sua força sempre presente, ainda que na maioria das vezes velada,
se desvela caracterizando aí um círculo hermenêutico do retorno do
fenômeno que tematicamente exige ser apropriado.
São os tempos de grande perigo em que aparecem os
filósofos. Então, quando a roda rola com sempre mais rapidez, eles
e arte retomam o lugar dos mitos em extinção. Mas projetam-se
muito à frente, pois só muito devagar a atenção dos contemporâneos
para eles se volta. Um povo consciente de seus perigos gera um
gênio. (Nietzsche, Der Wille zur Macht, n.420) .
Em nosso entendimento a questão do eterno retorno
do mesmo, tanto na perspectiva de uma hipótese ética como
imperativo categórico, em que prescreve que se deva experiênciar a
vida de maneira a desejar uma permanente repetição dessa
experiência; quanto na perspectiva de uma tese metafísica, em que
se configura como fenômeno a aletheia grega do permanente vir a
tona da vida como valor. Ambas as perspectivas possibilitam a
tematização do conceito na fundamentação ao fenômeno
dionisíaco.
Quanto à questão da vontade de poder, escrito na
língua alemã como Wille zur macht, esta remete a possíveis
interpretações da palavra macht, que pode se dar no sentido de
poder, ou no sentido de potência. Disto decorre conceber o
conceito como vontade de poder ou como vontade de
potência.
Embora tenhamos optado pela tradução de Wille zur
macht como vontade de poder, não estamos negando a possibilidade
do direcionamento do macht para o sentido de potência. Acreditamos
inclusive que a disjunção ou não é necessariamente, neste caso,
excludente. Em nossa especulação o filósofo teria, senão
deliberadamente, mas intuitivamente, pensado nas duas direções, e
nisto estaria acertadamente a dupla significação de macht a
explicitar o pensamento do filósofo.
Macht no sentido de
potência, mostra-se na física como capacidade de realizar e neste
sentido, wille zur macht designa a capacidade de realizar. Deste
modo, a vida se dá como atividade constante (ação) e a perda desta
atividade é a ausência de si mesma. Disto decorre que o homem é um
ser potente. Macht no sentido de poder mostra-se na filosofia
política como capacidade de se fazer obedecer; esse conceito
pressupõe estado de relação constante entre os seres numa
assimetria. Neste sentido poder aparece como um retratar o
interior das relações em que se dá efetivamente a disputa de
vontade contra vontade. Nesta perspectiva a vida é essencialmente
poder a traduzir a constante busca do homem em se sobressair
contra os embates sempre presentes.
Em ambas as direções Wille
zur macht traduz a vida em seu movimento, na medida em que a vida
se mostra como força que visa se apoderar de todos os obstáculos
que lhe faz oposição. Vida como vontade de vida se revela como
atividade constante. Ela é a própria capacidade em que se mentem.
A perda da capacidade de realizar a subjugação do que lhe opõe à
vida manifesta a perda da vida. Wille zur macht expressa a
experiência do fenômeno dionisíaco em que a vida fala e se expõe
em si mesma como ação.
A partir destas considerações,
entendemos que uma fiel interpretação dos denominados conceitos
fundamentais em Nietzsche, necessariamente se dá numa escuta ao
que o filósofo chamou de fenômeno dionisíaco. Por causa disto,
consideramos pertinente a devida explicitação e tematização desta
concepção, como o cerne da questão no pensamento do filósofo.