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MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

REFLEXÕES NIETZSCHEANAS SOBRE A DISSOLUÇÃO DO MUNDO GREGO
Adilson Florentino

DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
Ana Carolina da Costa e Fonseca

F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO DA VERDADE
Arthur Arruda Leal Ferreira

LAZER E ANIMAÇÃO CULTURAL: PENSANDO A FORMAÇÃO PROFISSSIONAL A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA
Carlos Augusto Santana Pereira

SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO DE UM DEUS
Cláudia Cerqueira do Rosario
TRÁGICO E ANGÚSTIA DO AMOR: REFLEXÕES SOBRE A HORA DO LOBO, DE INGMAR BERGMAN
Dax Moraes

TÍTULO DO ARTIGO:“SÓCRATES ERA AFINAL UM GREGO ?”
Flávio L. T. S. Boaventura

O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM NIETZSCHE
Flávio de Oliveira Silva
POR UMA EDUCAÇÃO LEVE - AO MODO DE ZARATUSTRA,
O “DANÇARINO-DESTRUIDOR”
Gilcilene Dias da Costa

ARTE ALÉM DA MORAL E ALTERIDADE NO UNO
Gustavo Gadelha

A SABEDORIA TRÁGICA DIONISÍACA
Ivan Maia de Mello

HERÁCLITO ENTRE HEGEL E NIETZSCHE
Jorge Moraes

MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA
Leila Navarro de Santana
LA RECEPCIÓN VATTIMIANA DE NIETZSCHE: HACIA UN FILOSOFAR SIN SUJETO.
Luis Uribe Miranda
ZARATUSTRA, MESTRE DA VIRTUDE DADIVOSA
Luiz Celso Pinho
A EDUCAÇÃO EM NIETZSCHE: CHEGA-A-SER O QUE TU ÉS
Maria Eugênia Carvalho de la Roca
SOBRE A EDUCAÇÃO EM SI DE NIETZSCHE
Marinete Araújo da Silva
ESPEJOS Y MÁSCARAS. LOS PELIGROS DE UN ARTE DE ARTISTAS
Paula Fleisner
RECONDUZIR NIETZSCHE A KANT? SOBRE O DESINTERESSE DO BELO
Pedro Duarte de Andrade
NIILIISMO E HISTÓRIA: O LOUCO E APÓSTOLO
Pedro Hussak van Velthen Ramos
UMA BRISURA: DERRIDA ÀS MARGENS DE NIETZSCHE
Rafael Haddock-Lobo
A DISTINÇÃO ENTRE SÓCRATES E PLATÃO NA FILOSOFIA DE NIETZSCHE
Rafael Rodrigues Pereira
O SENTIDO DA AGONÍSTICA PARA A VIDA OU A DISPUTA DE NIETZSCHE
Renato Nunes Bittencourt
CONHECER PARA ESQUECER. A IDENTIDADE E OS CAMINHOS PARA A MEMÓRIA:
PERSPECTIVAS NETZSCHIANAS SOBRE A IDENTIDADE E O ESQUECIMENTO COMO ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DA MEMÓRIA NO LOCUS SOCIAL
Ricardo Medeiros Pimenta
NIETZSCHE-RENAISSANCE, DESCONSTRUÇÃO, PENSAMENTO FRACO
Rosário Rossano Pecoraro
A ORIGEM DO CONHECIMENTO EM NIETZSCHE
Sofia Helena Gollnick Ferreira
A EDUCAÇÃO MODERNA COMO BARBARIZAÇÃO DO TIPO HOMEM
Vagner da Silva
DO ESVAZIAMENTO ONTOLÓGICO DE DEUS À DISSOLUÇÃO DO CRISTIANISMO ENQUANTO MORALIDADE: A SENTENÇA NIETZSCHEANA “DEUS ESTÁ MORTO”
Valéria Cristina Lopes Wilke
APOLO Y DIONISOS: TEOLOGÍA DE LA VOLUNTAD DE PODER
Virginia Mabel Cano
 

EXPEDIENTE
A revista MORPHEUS é uma publicação do Laboratório de Linguagens e Mídias, do Centro de Ciências Humanas da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e objetiva disseminar a produção científica acadêmica, optando pela interdisciplinaridade e pela multiculturalidade, tanto na abordagem como com relação aos objetos.


Editores
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O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM NIETZSCHE

Flávio de Oliveira Silva

Mestre em Filosofia. Professor Assistente do Departamento de Ciências Exatas e da Terra do Campus II (Alagoinhas) e do Departamento de Educação do Campus XI (Serrinha) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Resumo: O texto propõe nominar como questão fundamental de primeira ordem, o fenômeno dionisíaco, explicitado e tematizado por Nietzsche em sua primeira obra O Nascimento da Tragédia. Entendemos que a concepção e identificação do fenômeno, à sabedoria trágica do povo grego antigo, acompanham o pensamento do filósofo, ainda que não tematicamente, a possibilitar a idéia de unidade do seu pensamento. Neste entendimento consideramos os denominados conceitos fundamentais do pensamento de Nietzsche: niilismo; transvaloração de todos os valores; além-do-homem, eterno retorno do mesmo e; vontade de potência como conceitos fundamentais de segunda ordem; na medida em que o vigor desses conceitos se haure da intuição originária do filósofo a se revelar na apreensão do fenômeno dionisíaco.

Palavras-chave: Nietzsche, fenômeno dionisíaco, sabedoria trágica.

THE DIONISYUS´ PHENOMENON AS FUNDAMENTAL QUESTION IN NIETZSCHE

Abstract: This text proposes to nominate as fundamental question of first order, the Dionysius’ phenomenon, showed by Nietzsche in your first work The Birth of Tragedy. We understand that the conception and identification of this phenomenon, related to the tragic wisdom from antique Greek people, follows the philosopher’s thought, even if don’t in a theme form, to make possible the idea of unity from your thinking. In this term we consider the calling fundamental concepts from Nietzsche’s thinking: nihilism; revaluation of all values; over man; eternal return of the same; and will of power as fundamental concepts of second order; in so far as the vigor of these concepts come from the philosopher’s original intuition that reveals itself in the apprehension of the Dionysius’ phenomenon.

Key-words: Nietzsche, Dionysius’ phenomenon, tragic wisdom.

 

O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM NIETZSCHE

FLÁVIO DE OLIVEIRA SILVA - UNEB

O pensamento de um filósofo marca um tempo, inaugura uma concepção de mundo, denuncia o impensado do ser. Sua intuição é sagaz, alcança o enigma e não se sabe exatamente o momento nem o porquê dessa abertura. Com a chave do enigma canta versos de poeta, desafia os tempos e se imortaliza no pensamento. A chave do enigma é sua intuição fundamental. Seu dizer genuíno se faz audível e inteligível no que libera e se reverbera como pensamento. Seu pensamento se torna questão, tese e/ou hipótese a possibilitar um novo olhar, uma nova escuta às entranhas, familiaridades e estranhezas do ser.
No pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche encontramos precisamente, o dinamismo de um pensar genuíno. A leitura e interpretação de suas obras identificaram conceitos fundamentais a revelar sua compreensão de mundo e existência.
Nossa pretensão com este trabalho é atribuir o devido reconhecimento à questão, que a nosso ver, se mostra como a chave do enigma intuída pelo filósofo como a questão fundamental a direcionar, dar força e vigor ao seu pensamento no tratamento da condição humana. Nesta perspectiva, entendemos que os chamados conceitos fundamentais, comumente denominados: niilismo, transvaloração de todos os valores, vontade de poder, eterno retorno do mesmo e além-do-homem, somente são possíveis como revelação do pensamento de Nietzsche numa estreita relação a um fenômeno que lhe serve de suporte e se mostra como verdade alcançada pelo pensador.
Em nosso entendimento, os conceitos fundamentais de que tratam as referidas denominações, não são efetivamente conceitos fundamentais de primeira ordem, mas de segunda ordem. Os referidos conceitos sinalizam e pontuam o pensamento do filósofo, mas, como expressões, codificações de uma apreensão que lhe está subjacente, a se impor como apreensão de primeira ordem. Os denominados conceitos fundamentais expressam o que originalmente se dá como força de ser, a revelar homem, mundo e existência numa unidade de pensamento.
Está explicitado em sua primeira obra, O Nascimento da Tragédia, o fenômeno que originariamente chamamos de apreensão de primeira ordem, porque remete ao pensar radical do filósofo enquanto solo do qual a raiz do seu pensamento retira a substância para o seu poder ser e reverberar como pensamento. O percurso que o filósofo elabora não perde de vista o sentimento, a intuição originária tematicamente abordada na citada obra. No vigor dessa intuição, Nietzsche vai manter-se fiel em sua trajetória. Pode-se falar de nuanças de seu pensamento, de rompimentos com pessoas, mudanças de intenções, mas não da perda da identidade originária que marca o desenvolvimento do seu pensamento.
Na obra O Nascimento da Tragédia o autor revela admiração profunda, confiante e sublimada ao povo grego antigo, precisamente no período trágico, por considerar que nele a vida se mostra como vida em sua autenticidade, em sua possibilidade revelativa de si mesma.
Vida, interpretado no sentido nietzschiano como vontade de, que atravessa e domina, a revelar-se como vontade de poder, aparece no pensamento do filósofo como a questão que necessita ser radicalmente desnudada. Se na metafísica tradicional a questão do ser é tomada como questão fundamental, em Nietzsche o ser enquanto questão fundamental é substituído por vida, cuja interpretação se dá numa perspectiva própria do filósofo em questão. Embora pontuemos na questão vida tratada pelo filósofo, uma providência diferente daquela que investiga a questão do ser, contudo, a questão vida, abordada por Nietzsche, e a questão do ser, abordada na tradição filosófica, são investigados na perspectiva de um mostrar-se como realidade do que efetivamente é, enquanto o que é, e em sua totalidade.
O período trágico se revela na tragédia como sabedoria da arte grega, através do qual o filósofo identifica como fenômeno dionisíaco, a mais alta expressão de vida alcançada por um povo. Nossa reflexão acerca deste fenômeno incita-nos a percebê-lo como a questão fundamental por excelência.
Convém, no entanto, ressaltar nesse fenômeno, uma escuta ao fenômeno apolíneo, em vista do qual o fenômeno dionisíaco se afirma. Em quase todo pronunciamento de Nietzsche em O Nascimento da Tragédia, Dionísio é exaltado como divindade artística que mostra a vida no seu cerne, numa oposição a Apolo, entendido pelo filósofo como divindade que se assemelha ao gênio transfigurador a possibilitar, apenas, o alcance da verdade na aparência. Contudo, nas últimas paginas do referido livro, Nietzsche deixa claro o fenômeno apolíneo como o contra ponto que rendido à força de Dionísio, lhe transmite a linguagem apolínea, ocorrendo assim uma mútua rendição: Dionísio fala a língua de Apolo e Apolo fala a língua de Dionísio. Com isto estaria alcançada a meta suprema da tragédia. Neste sentido Nietzsche afirma:

O mito trágico só deve ser entendido como uma afiguração da sabedoria dionisíaca através de meios artísticos apolíneos; ele leva o mundo da aparência ao limite em que este se nega a si mesmo e procura refugiar-se de novo no regaço das verdadeiras e únicas realidades,... (GT/NT § 22 P.131)

Na explicitação do fenômeno dionisíaco, Nietzsche aponta para a instância, fecunda e desveladora inerente ao fenômeno. Nessa revelação o filósofo se contrapõe à dissimulação, ao enfraquecimento e à negação da vida, na medida em que também expõe como fato que o fenômeno dionisíaco foi negado e por fim esquecido, embora sua força pulsante esteja a reverberar nos recônditos de nosso ser, a permitir-nos que sejamos, mesmo na mentira, mesmo na décadence.
Em linhas gerais Nietzsche toma por décadence o fenômeno em que se encontra a humanidade, numa referência ao estado de fraqueza e covardia do espírito humano em seu empenho de fuga frente à realidade. Segundo Nietzsche, o cristianismo, Sócrates e todos os idealistas representam o espírito décadent, por expressarem o instinto que degenera que se volta contra a vida, ávidos de vingança, na medida em que, forjando uma duplicação de mundo, atribuem valor de verdade positivo, real a um suposto mundo transcendente, e valor negativo e ilusório ao mundo corpóreo. Nesta perspectiva afirma: “Os décadents necessitam da mentira - ela é uma de suas condições de sobrevivência" (EH/EH § 4 P.63)
Na exaltação da Tragédia grega, o filósofo ressalta o poder da vida, a despeito de toda e qualquer negação.
O consolo metafísico - com que, como já indiquei aqui, toda a verdadeira tragédia nos deixa - de que a vida, no fundo das coisas, apesar de toda a mudança das aparências fenomenais, é indestrutivelmente poderosa e cheia de alegria, esse consolo aparece com nitidez corpórea como coro satírico, como coro de seres naturais, que vivem, por assim dizer indestrutíveis, por trás de toda civilização, e que, a despeito de toda mudança de gerações e das vicissitudes da história dos povos, permanecem perenemente os mesmos. (GT/NT § 7 P.55).

O fenômeno dionisíaco é precisamente uma compreensão fundamental do filósofo. A partir dessa intuição primeira, Nietzsche legisla, porque em sua interpretação o filósofo é aquele que legisla. Legislar para o filósofo significa impor valores, na medida em que procede a uma avaliação crítica dos valores vigentes. Neste sentido Nietzsche avalia na história do pensamento e na história da vida - nas suas previsíveis e inusitadas apresentações e representações - os caminhos, as escolhas empreendidas pelo homem na interpretação da condição humana.
No dizer de Nietzsche, em sua autobiografia Ecce Homo, a sabedoria trágica revela a compreensão de vida (existência) não alcançada nem antes do período trágico e menos ainda, após este período. Na referida obra, cita uma passagem do Crepúsculo dos Ídolos a explicitar a atmosfera em que se desenvolve o fenômeno dionisíaco.

O dizer sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos - a isto chamei dionisíaco, isto entendi como a ponte para a psicologia do poeta trágico. (...) mas para, além do pavor e da compaixão ser em si mesmo o eterno prazer de vir-a-ser - esse prazer que traz em si mesmo o prazer no destruir. (EH/EH § 4 P.63-64).

Se há uma verdade e se há uma ciência, num sentido próprio, num sentido autêntico, essa verdade e essa ciência estão concebidas no pensamento de Nietzsche como a expressão de afirmação da vida, pela apropriação da vida, no simples deixar ser o que por natureza é e quer ser por direito: vida. Se, designamos por filosofia o poder dizer o que é o mundo, o que é a existência enquanto tal, como o que é enquanto é, na totalidade de seu âmbito; se, na aquiescência ao que preconiza a história da filosofia considerarmos este dizer do ente enquanto tal e em sua totalidade como expressão da verdade e da ciência, então, na concepção do fenômeno dionisíaco (sabedoria trágica) está anunciada um direcionamento como questão fundamental a expressar verdade e ciência no pensamento nietzschiano, por entendermos nesse fenômeno a expressão, a pulsão fundamental da vida. Na referência a esta questão Nietzsche mostra-se enfático.

... um dizer Sim sem reserva, ao sofrimento mesmo, à culpa mesmo, a tudo que é estranho e questionável na existência mesmo... Esse último, mais radiante, mais exaltado-exuberante Sim à vida é não apenas a mais elevada percepção é também a mais profunda, a mais rigorosa firmada e confirmada por ciência e verdade. Grifo nosso (EH/EH § 4 P.63)

A pergunta pelo ente na totalidade e enquanto tal é no dizer do filósofo Martin Heidegger (1889-1976) a caracterização da metafísica.
A afirmação de muitos, inclusive de Heidegger, em apontar Nietzsche como metafísico, deve-se a este entendimento do que seja a metafísica. Este apontar Nietzsche como metafísico é, portanto, na concepção de que o pensamento do filósofo transita na inquietação das perguntas: o que é o mundo? O que é a finitude? E o que é a singularização? Nas quais se busca a plena realização do conceito em sua articulação com a totalidade, tomando por tarefa dizer o que se apresenta como enigma. Nietzsche, no entanto, repudia a metafísica e toda a tradição filosófica, não se considerando, em hipótese alguma, fazendo parte dessa tradição.
Convém ressaltar, no impasse desta questão, o fato de Nietzsche pensar a metafísica e a tradição filosófica, num víeis pessoal a pontuar a sua filosofia. Nietzsche interpreta a metafísica como um movimento de consagração a valores que enfraquecem e ameaçam a vida, na medida em que a metafísica se mostra como duplicação de mundo, como especulação em torno de um transcende que ignora o homem fático, o homem concreto, a realidade viva que se consagra num permanente duelo e jogo de forças. Nietzsche deixa claro nas entrelinhas do seu dizer, não ser confiável, não ser possível atribuir seriedade a questões de ordem ontológica, por entender estas, como questão transcendental, fora da experiência do homem, a dissimular a real significação da vida. É neste sentido que Nietzsche não se julga metafísico nem fazendo parte de uma tradição, por entender não haver compromisso com a realidade que se impõe como vida. No entendimento do filósofo este equívoco é visível na investigação acerca do ser, a começar pelo próprio entendimento do que diz ser pela tradição. Para o filósofo, a tradição se apraz na violação, dissimulação da realidade através do pensamento, no uso da racionalidade. Em sua concepção, a tradição representa o racionalismo, a exaltação do conceito que põe no esquecimento a intuição originária do fenômeno dionisíaco. Considera a tradição como “movimento profundamente negativo”.
Entendemos que a questão de saber se Nietzsche é ou não metafísico, e se deve ou não ser colocado como fazendo parte de uma tradição que ele mesmo rejeita, critica e avalia em toda sua obra; perde seu sentido, na medida em que, na perspectiva de julgamento das partes contraditória, a interpretação de metafísica é por demais diferente. Impõe-se, portanto como necessidade, uma pergunta que antecede à exposição do dilema, a fim de esclarecê-lo ou simplesmente, nem sequer concebê-lo enquanto dilema: O que se entende por metafísica? Se a interpretação de ambas as partes for a mesma (o que entendemos não ser o caso), é procedente a questão, caso não seja, então, a questão é inócua. Ao que nos parece, a ênfase de Nietzsche ao que seja metafísico está enfaticamente direcionado ao modo, aos caminhos trilhados na interpretação de mundo e existência, e neste sentido a questão do ser traduz, reflete esse direcionamento. Portanto, a tônica dada por Nietzsche ao seu entendimento de metafísica não se refere à inquietação que procura alcançar o ente enquanto tal e em sua totalidade, e sim ao modo como se buscou alcançar esse fim.
Ao atribuir ao período trágico a afirmação da vida, sugere e muitas vezes afirma que todos os outros povos a negam e a negaram. Nietzsche deixa compreensível que esse negar tem o sentido de fuga. Essa negação se manifestou precisamente no ideal de homem e sociedade, proveniente de uma cultura que se estabeleceu na história do pensamento como metafísica. Nessa idealização arbitrária e contrária à própria manifestação da vida, forjou uma concepção de homem, mundo e existência, destituída de toda e qualquer escuta à vida.
Uma leitura próxima à de Nietzsche, neste sentido, pode ser visualizada na obra Paidéia, de Werner Jaeger, quando o autor tematiza inúmeras vezes o caráter apropriativo dos gregos ao que é inerente à natureza humana, como fenômeno fundamental da vida. “Todos os povos criaram seu código de leis, mas os Gregos buscaram a ‘lei’ que age nas próprias coisas, e procuraram reger por ela a vida e o pensamento do homem”. (Jaeger, 2001, p.12)
Entendendo que a vida é sofrimento, Nietzsche, considera que não cabe negá-la, nem forjar uma outra realidade a fim de justificá-la. Para Nietzsche a existência do mundo só se justifica como fenômeno estético (GT/NT autocrítica P.18). Ademais, cabe ao homem vivê-la em toda sua verdade. A esta postura e compostura do homem como experiência vivencial, chama de afirmação da vida.
A vida em plenitude de afirmação consiste no que propriamente o trágico revela, neste sentido o filósofo reconhece em Kant e mais precisamente em Schopenhauer - com referências expressas a estes filósofos nos escritos do Nascimento da Tragédia - a propensa confirmação de sua interpretação, embora, nos escritos de sua maturidade venha concluir tratar-se tão somente de interpretação própria.
Na referência à suposta inspiração que lhe foi concebida pelos escritos de Kant e Schopenhauer, Nietzsche ressalta o fenômeno dionisíaco como o cerne da questão vida.

Com esse conhecimento se introduz uma cultura que me atrevo a denominar trágico: cuja característica mais importante é que, para o lugar da ciência como alvo supremo, se empurra a sabedoria, a qual, não iludida pelos sedutores desvios da ciência, volta-se com olhar fixo para a imagem conjunta do mundo (...) Imaginemos uma geração a crescer com esse destemor do olhar, com esse heróico pendor para o descomunal, imaginemos o passo arrojado desses matadores de dragão, a orgulhosa temeridade com que dão as costas a todas as doutrinas da fraqueza pregadas pelo otimismo, a fim de “viver resolutamente” na completude e na plenitude. Grifo nosso. (GT/NT § 18 P.111).

O fenômeno dionisíaco, cujo nosso entendimento aponta-o como questão fundamental sempre presente no pensamento nitzschiano, reverbera como voz que se faz audível mesmo no silêncio e como força que se impõe e a partir do qual os conceitos fundamentais do pensamento do filósofo encontram fluidez.
O niilismo, enquanto conceito fundamental caracteriza o processo histórico de expansão em que o filósofo reconhece o momento vigente de negação da negação da vida, que se instaura na medida em que a moral cristã entra em declínio e começa a se efetivar a perda dos valores transcendentais (Deus, imortalidade, liberdade...). O niilismo é precisamente a nadificação do supra-sensível. Com isto, o homem se reconhece apenas entregue a si mesmo, e desse modo, de forma mais autêntica, a vida pode se apresentar nas reais possibilidades em que de fato ela se dá. O niilismo, portanto, aponta para um possível retorno ao que Nietzsche chamou de fenômeno dionisíaco, no qual o filósofo reconhece, mas do que um falar, um viver que auscuta a si mesmo.
Se nos remeter-mos para o conceito da transvaloração de todos os valores, podemos entrever que neste está expresso o caminho para o qual aponta o niilismo. O trans, cujo significado remete a um para além de, convoca, na concepção da transvaloração de todos os valores, para um caminhar, para um ir além de todos os valores morais. É, portanto visível a crítica de Nietzsche aos valores morais vigentes, na medida em que o filósofo reconhece que os valores são humanos, demasiadamente humanos, por isto, podem e devem ser questionados. Nietzsche faz a acusação de que tais valores passaram a ser determinados como realidades efetivas em detrimento da vida em sua corporeidade. A transvaloração de todos os valores remete, assim, à concepção de valor que se confunde com a própria vida em sua facticidade. Neste sentido é que fazemos uma relação com o fenômeno dionisíaco, porque neste, o valor maior é a vida em seu acontecimento.
Quanto ao conceito em que Nietzsche se refere ao além-do-homem, há que se pressupor o fenômeno da transvaloração de todos os valores, ou seja, há que se pensar o homem na desconsideração a todas as condições impostas e mediadas como condição de ser, erigida por uma tradição de pensamento. A proposição Über, que compõe a palavra alemã Übermensech, tem precisamente o sentido de designar um ir além, o que significa no caso específico, ir além da estrutura que idealizou a ocorrência do gênero humano. Há, deste modo, uma avaliação que o filósofo empreende, considerando que o übermensech, traduzido por alem-do-homem, se mostra como aquele que na negação aos valores morais, só reconhece a vida como valor supremo. Valor este já tematizado pelo filósofo como a experiência do período trágico caracterizado como fenômeno dionisíaco. Somente na transvaloração de todos os valores, estaria no dizer do Zaratustra o despontar do Übermensech.
Na referência ao conceito do eterno retorno do mesmo e sua relação ao fenômeno dionisíaco, nossa especulação é de que o conceito esteja a se referir a um retornar eterno do que é enquanto tal e em sua totalidade. Aqui, entendemos o que é enquanto tal e em sua totalidade como sendo o vigor de auto-afirmação da vida. Ou seja, o retorno do que se mostra como fundamento de toda condição possível é a vida. A vida aparece, portanto como o sempre presente. O pensamento do filósofo mostra que todas as vezes que a mediocridade da vida humana tende para o seu ápice, na negação do que é fundamental, então a vida, em toda sua força sempre presente, ainda que na maioria das vezes velada, se desvela caracterizando aí um círculo hermenêutico do retorno do fenômeno que tematicamente exige ser apropriado.

São os tempos de grande perigo em que aparecem os filósofos. Então, quando a roda rola com sempre mais rapidez, eles e arte retomam o lugar dos mitos em extinção. Mas projetam-se muito à frente, pois só muito devagar a atenção dos contemporâneos para eles se volta. Um povo consciente de seus perigos gera um gênio. (Nietzsche, Der Wille zur Macht, n.420) .

Em nosso entendimento a questão do eterno retorno do mesmo, tanto na perspectiva de uma hipótese ética como imperativo categórico, em que prescreve que se deva experiênciar a vida de maneira a desejar uma permanente repetição dessa experiência; quanto na perspectiva de uma tese metafísica, em que se configura como fenômeno a aletheia grega do permanente vir a tona da vida como valor. Ambas as perspectivas possibilitam a tematização do conceito na fundamentação ao fenômeno dionisíaco.
Quanto à questão da vontade de poder, escrito na língua alemã como Wille zur macht, esta remete a possíveis interpretações da palavra macht, que pode se dar no sentido de poder, ou no sentido de potência. Disto decorre conceber o conceito como vontade de poder ou como vontade de potência.
Embora tenhamos optado pela tradução de Wille zur macht como vontade de poder, não estamos negando a possibilidade do direcionamento do macht para o sentido de potência. Acreditamos inclusive que a disjunção ou não é necessariamente, neste caso, excludente. Em nossa especulação o filósofo teria, senão deliberadamente, mas intuitivamente, pensado nas duas direções, e nisto estaria acertadamente a dupla significação de macht a explicitar o pensamento do filósofo.
Macht no sentido de potência, mostra-se na física como capacidade de realizar e neste sentido, wille zur macht designa a capacidade de realizar. Deste modo, a vida se dá como atividade constante (ação) e a perda desta atividade é a ausência de si mesma. Disto decorre que o homem é um ser potente. Macht no sentido de poder mostra-se na filosofia política como capacidade de se fazer obedecer; esse conceito pressupõe estado de relação constante entre os seres numa assimetria. Neste sentido poder aparece como um retratar o interior das relações em que se dá efetivamente a disputa de vontade contra vontade. Nesta perspectiva a vida é essencialmente poder a traduzir a constante busca do homem em se sobressair contra os embates sempre presentes.
Em ambas as direções Wille zur macht traduz a vida em seu movimento, na medida em que a vida se mostra como força que visa se apoderar de todos os obstáculos que lhe faz oposição. Vida como vontade de vida se revela como atividade constante. Ela é a própria capacidade em que se mentem. A perda da capacidade de realizar a subjugação do que lhe opõe à vida manifesta a perda da vida. Wille zur macht expressa a experiência do fenômeno dionisíaco em que a vida fala e se expõe em si mesma como ação.
A partir destas considerações, entendemos que uma fiel interpretação dos denominados conceitos fundamentais em Nietzsche, necessariamente se dá numa escuta ao que o filósofo chamou de fenômeno dionisíaco. Por causa disto, consideramos pertinente a devida explicitação e tematização desta concepção, como o cerne da questão no pensamento do filósofo.