|
SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO
DE UM DEUS
Cláudia Cerqueira do Rosario
(Departamento de Filosofia e Ciências
Sociais/CCH/UNIRIO)
RESUMO :
Este artigo é uma reflexão sobre a
importãncia do arquétipo mítico de Dioniso para a filosofia de
Nietszche e, por outro lado, sobre a importância da concepção
nietzscheana de Dioniso dentro dos estudos sobre este deus no campo
da mitologia.
Palavras-chave : Nietzsche, Dioniso,
mito e filosofia.
ABSTRACT :
This paper is a reflection on the
importance of Dionysus' s mythic archetipe in Nietzsche's philosophy
and, by other side, on the importance of Nietzsche's conception of
Dionysus for the studies about this god in the mythology field.
Key-words : Nietzsche, Dyonisus, myth
and philosophy.
Existem duas versões fundamentais,
entre as incontáveis variações e indícios, para o nascimento do Deus
Dioniso, através das quais pode-se esboçar uma tentativa de
compreender o sentido elementar deste Deus na antiguidade. Entre os
estudiosos de mitologia elas sugerem que se possa falar em pelo
menos dois Dionisos, sem contar as diversas epifanias que constituem
os sincretismos que apontam para suas numerosas manifestações no
campo religioso. Dioniso é um Deus arcaico, cujos indícios do culto
organizado parecem remontar à mais de mil anos antes da Era Cristã.
Outros indícios, de caráter arqueológico, apontam para a possível
origem do tipo de culto que caracterizou a religião dionisíaca na
esfera do período pré-histórico conhecido como Neolítico. Imagem
fascinante, a figura daquilo que Dioniso representa, banalizada na
redução de sua identificação como “o deus grego do vinho”, perdeu ao
longo da história, após o declínio da religião grega, o caráter de
sacralidade avassaladora que caracterizou seu culto, um culto de
vida e de morte, um culto que mergulhava nos mistérios mais trágicos
da existência. Dioniso permaneceu no mundo profano como motivo
importante na arte e na literatura, cercado por uma aura de
ligeireza irresponsável que fez dele uma imagem ligada apenas à
transgressão da embriaguez e da licenciosidade à ela associada –
entenda-se isto tanto ao nível do indivíduo como na esfera das
interdições, tabus, regulamentos ou convenções de ordem política ou
social. De qualquer modo, isto indica a sua permanência como
arquétipo mítico 1), atestando a força dos significados
daquilo que ele representa, ainda que indiretamente, ainda que
reduzido à parte de um todo muito mais complexo, do qual são apenas
expressões superficiais.
Esta força arquetípica tem muitos de
seus aspectos mais profundos resgatados no mundo contemporâneo
através da obra de Friedrich Nietzsche, que, num movimento inverso
ao que o senso comum entende pelo nascimento da filosofia - aquilo
que os manuais chamam de passagem do mythos ao logos
- reintroduz no âmbito do pensamento filosófico a força do
mito. Melhor dizendo, insere o mythos no logos da
compreensão contemporânea do mundo, e o faz já em sua primeira obra
publicada, A Origem da Tragédia , início da trilha na qual
desenvolve seu pensamento. Ainda que um dos motivos mais conhecidos
da filosofia nietzscheana seja o da “morte de Deus”, sua filosofia
dá ensejo, já que ele próprio considera o mito como a condição
prévia e necessária de toda religião (NIETZSCHE,1982, Aforisma 18) ,
à sobrevivência do mito que, na forma de Dioniso, entendido em seu
significado mais profundo, mesmo filosoficamente toma um caráter
eminentemente religioso. Que elemento fundamental, do caráter
eminentemente religioso de Dioniso, sobrevive através da obra de
Nietzsche, resgatando-o da banalização de seu caráter de embriaguez
e licenciosidade e dissociado de seu sentido existencial mais
profundo, como permaceu ao longo da maior parte das representações
até que o filósofo o buscasse em seu sentido mais amplo ? Uma pista
para esta compreensão pode estar nas duas variantes míticas que
citamos, germes de culto e ritual dionisíacos. Estes, ao que parece,
mais que em qualquer outro complexo mítico no tempo em que se
insere, apontam fundamentalmente, como quer Carl Kerényi, estudioso
do mito e do pensamento religioso, para o aspecto indestrutível da
vida, que abarca mesmo a morte como elemento à ela submetido.
A variante mais conhecida do mito
2) , a mais popularizada, nos diz que
Dioniso foi filho dos amores de Zeus, deus celeste supremo, e
Sêmele, uma princesa filha de Cadmo, o fundador de Tebas, e de
Harmonia, filha de Afrodite e Ares, os Deuses do amor e da guerra. A
Deusa Hera, enciumada, toma a forma de Beroe, criada e confidente da
princesa, e sob este artifício convence a jovem a pedir a Zeus que
se apresente a ela como o faz à Hera, para que ela soubesse em toda
a intensidade o que é partilhar o leito de um Deus. Zeus, acuado
diante do pedido, pois em seus delírios amorosos havia jurado nada
negar à Sêmele, não tem como recusar. Sêmele, sendo incapaz em sua
mortalidade de suportar a absolutez da divina presença de seu
amante, cai imediatamete morta, fulminada pelo raio emanado da
presença de Zeus, não sem antes abortar o filho que carregava. Zeus,
rapidamente, acolheu o feto e colocou-o para gestar em sua coxa.
Assim que Dioniso nasceu, foi entregue aos reis da Queronéia, para
que fosse criado. A perseguição implacável de Hera enlouquece os
tutores de Dioniso, e o pai novamente intervem para salvá-lo. Desta
vez, o metamorfoseia em bode, e o entrega ao Deus Hermes, o
condutor, para que o confiasse aos Sátiros e às Ninfas que habitavam
uma profunda gruta no monte Nisa. Mas Hera não desiste, e enlouquece
o próprio Dioniso menino, fazendo-o afundar-se num pântano que não
poderia atravessar. Foi salvo por dois asnos, e um deles – do qual
se dizia ser a montaria do Sileno - o carregou através das águas e o
levou para um templo de Zeus. Lá, imediatamente, viu-se livre da
loucura. É dito também que o próprio Sileno o protegeu, então,
instruindo-o e tornando-se seu conselheiro. Mais tarde, na Frígia,
Dioniso foi purificado pela Deusa-Mãe dos deuses, Réia, e com ela
aprendeu os ritos de iniciação. Depois, empreendeu uma descida ao
Mundo Subterrâneo, o mundo dos mortos, e de lá trouxe de volta a
mãe, Sêmele, ascendendo com ela aos céus, onde Zeus tornou-a
imortal.
Numa outra versão, menos conhecida,
Dioniso é filho de Zeus e Perséfone (em algumas versões de Deméter)
, e é conhecido como Zagreu, “caçador”. Nesta variação, resultante
de sincretismo órfico-dionisíaco, Zeus, para proteger o filho dos
ciúmes de Hera, confia o menino Dioniso à Apolo para que o esconda
nas florestas do Monte Parnaso. Mas Hera descobre o esconderijo, e
envia os Titãs para raptar e matar o jovem Deus. Usando alguns
brinquedos, os rostos pintados de branco como que usando máscaras,
os Titãs atraem o menino Dioniso e, uma vez de posse dele, o
dilaceram em pedaços. Cozinham as carnes num caldeirão e depois as
assam. Atraído pelo cheiro, Zeus descobre o banquete e constata o
crime. Enfurecido, Zeus fulmina os Titãs com seus raios. Da fuligem
que se formou, surgiu então uma espécie de massa, e dessa massa
foram feitos os homens. Assim, de acordo com a teologia órfica ,
“nosso corpo é dionisíaco, nós somos uma parte dele (Dioniso), pois
brotamos da fuligem dos Titãs que comeram de sua carne” 3). Mas no sacrifício, os Titãs deixaram de
lado o coração. Teria sido Palas Atena quem o encontrou e o levou ao
pai. A partir dele , então, Zeus teria preparado uma poção e dado de
beber à Sêmele, que engravida. Dela nascerá Dioniso pela segunda
vez, ressuscitado da morte.
Estas duas variantes, datadas de
diferentes períodos religiosos do mundo antigo em torno da Hélade,
contém os elementos essenciais do dionisismo, presentes no espírito
elementar do culto através dos séculos – ou milênios – em que se
constituiu numa religião viva. Antes de mais nada, Dioniso é um Deus
que nasce duas vezes. Mais exatamente, é compreendido como um Deus
que morre e ressuscita, que transita entre o mundo da vida e o mundo
da morte, o que, de forma intensa, o reveste de características
xamânicas elementares – o que é, além disto, atestado pelo
desmembramento e pela cocção ou passagem pelo fogo, ambos eventos de
caráter iniciático. Ambas as narrativas possuem o caráter do
nascimento, da eclosão para a vida, e a passagem pelo mundo dos
mortos. Como sintetiza Kérenyi, “o mito de Dioniso exprime a
realidade de zoé , sua indestrutibilidade e seu peculiar
vínculo dialético com a morte” (KERÉNYI, 2002, p.206).
Zoé é um termo grego que
significa “vida” , no sentido em que abarca a vida de todos os
viventes – diferentemente do termo bíos , que diz respeito
aos traços característicos de uma vida específica. Zoé diz
respeito ao curso ilimitado da vida, ao
“tempo de existir”, mas não no sentido
de um tempo vazio em que o ente vivo entra e permanece até a morte.
Não ! Esse “tempo de existir” deve ser tomado como um ser contínuo
que se enquadra em um bíos enquanto este perdura – donde
vem a chamar-se zoé de bíos – ou de que bíos
vem a destacar-se como uma parte que se consigna a um ser ou a
outro. Essa parte pode ser chamada de bíos de zoé.
(KERÉNYI, 2002. p.xx)
Zoé , subjacente à toda
bíos , da qual a morte vem a ser uma das características,
não admite sua extinção : é a vida sem fim , subjacente à finitude
da bíos . Desta forma, é “não-morte”, é a vida que
permanece para além da vida como bíos : é a vida
indestrutível. Dioniso, identificado arquetipicamente com zoé
, fala de nascimento e renascimento, de morte e ressurreição.
Fala de uma continuidade entre estados que não se esgotam na nossa
experiência de bíos , mas apontam para uma intuição de
zoé e sua inelutável continuidade.
Do ponto de vista do arquétipo, o mito
pode ter implicações tanto religiosas como filosóficas. No sentido
religioso, Dioniso é o epicentro de uma religiosidade extremamente
mística, como atesta a complexidade de seu culto, vinculado tanto
aos Mistérios de Elêusis como à religião órfica, e passando mesmo
por um culto importantísimo que alternava-se com o de Apolo em
Delfos. No sentido filosófico, o mito de Dioniso pode ser
relacionado à esta complexidade existente entre a experiência da
vida como bíos e a intuição da vida como zoé .
Dioniso sintetiza o nascimento e a paixão que culmina na morte, mas
sua ressurreição, sua insistência em renascer, aponta para a força
existencial de zoé . Este era o cerne da religião
dionisíaca, perdido ao longo da história no processo de
dessacralização do mito, mas cuja intuição filosófica podemos
perceber resgatada na obra de Nietzsche.
Segundo Nietzsche, as religiões
costumam acabar
quando todas as proposições míticas
que formam a base de uma religião chegam a ser sistematizadas pelo
intelecto e pelo rigor de um dogmatismo ortodoxo, na suma definitiva
de acontecimentos históricos, e quando se começa a defender com
inquietação a credibilidade dos mitos, impedindo que eles
naturalmente evoluam e se multipliquem; quando numa palavra,
desaparece o sentimento do mito para dar lugar à tendência para
procurar os fundamentos históricos da religião. Quem se apodera do
mito moribundo é o gênio remanescente da música dionisíaca; o mito
rejuvenesce outra vez, como um ramo coberto de flores, com cores
desconhecidas, com um perfume que sugere o pressentimento de um
mundo metafísico . (NIETZSCHE, 1982, Aforisma 10)
A intensidade e o modo da presença de
Dioniso no texto de Nietzsche aponta um aspecto da religião que ele
entendia como perdido em seu tempo : o sentimento do mito, elemento
original do sentimento religioso, a ser resgatado em nome da
possibilidade do pressentimento de um mundo metafísico diferente
daquele da metafísica da razão, hermética ao arrebatamento.
Para Nietzsche, a música, arte
dionisíaca por excelência, será a expressão simbólica daquilo a que
ele se refere em outra passagem como o “Uno primordial, simbolizado
por uma esfera como um mundo superior a todas as aparências e
anterior a todos os fenômenos” (NIETZSCHE, 1982, Aforisma 6), objeto
de aspiração tanto religiosa como filosófica, e para o filósofo
seria através da música que o mito pode ser revigorado, que se
mantem perene. Através da música o mito ressuscitaria de uma agonia
imposta pela razão. Ao reclamar a ressurreição do mito, Nietzsche o
transpõe do âmbito do religioso ao âmbito filosófico, guardando no
entanto, ou melhor, resgatanto aspectos do arquétipo perdidas na
representações dessacralizadas que se seguiram ao declínio da
religião dionisíaca ou ao seu escrutínio lógico-racional. Este perde
em vasta medida a potência do mito de abarcar o drama da
coexistência das aparentemente mais profundas contradições, tema
retomado por Nietzsche em sua obra. Para além da religião, da
filosofia ou da arte, o mito tomado em geral possui mobilidade o
bastante para subsistir em todas estas formas de expressão do
humano. E, mais ainda, o mito de um Deus que é também o da
metamorfose, o da transformação realizada pelo arrebatamento causado
pelo êxtase e pelo entusiasmo, que torna o homem diferente do que
era no cotidiano e o impele para além de si mesmo.
A formulação de Nietzsche sobre o Uno
primordial acessível através da música pode remeter à noção de
zoé , ou melhor, para sua intuição metafísica através do
mito, centralizado na figura de Dioniso, que abarca as experiências
existenciais possíveis, que extrapolam a experiência das incontáveis
bíos . Como extrapolação, é desmedida, desmesura, excesso,
e assim, loucura. Uma loucura inerente ao próprio mundo, não
entendida apenas como um estado degenerativo, mas como elemento
constitutivo da vida que acaba por ser constitutiva de sua saúde. No
caso do homem, esta loucura pode significar um estado em que seus
poderes vitais estão exacerbados, e onde consciente e inconsciente
se fundem em um único transbordamento – que seria de modo mais
próprio o que Nietzsche e outros autores possivelmente entenderam
quando falam de um “estado dionisíaco” 4). É a analogia à este estado que
Nietzsche resgata para o estado de embriaguez, não apenas como um
estado resultante do consumo imoderado do álcool, mas por seu efeito
de remeter à própria desordenação do mundo por detrás das ordens
possíveis (NIETZSCHE, 1982, Aforisma 1).
O estado dionisíaco, também mas não
apenas estado de embriaguez pelo álcool – Dioniso embriaga por si
próprio - caracteriza-se, por um lado, pelo êxtase, o estado de
semi-inconsciência experimentado pelos adeptos do Deus, que pode ser
definido como a saída de si,
(...)uma superação da condição humana,
uma ultrapassagem do métron , a descoberta de uma liberação
total, a conquista de uma liberdade e de uma espontaneidade que os
demais seres humanos não podiam experimentar (BRANDÃO, 1995, p.
136).
Por outro lado, a saída de si
implicava o entusiasmo, que significava em sentido primordial “ter
um deus dentro de si, identificar-se com ele, co-participando da
divindade” (BRANDÃO, 1995, p.136). Isto constituía a comunhão do
humano com o divino, no mergulho e dissolução da bíos em
zoé . Nas palavras de Nietzsche, é despertada “a exaltação
dionisíaca, que vai atrair o indivíduo subjetivo, para o obrigar a
aniquilar-se no total esquecimento de si mesmo “ (NIETZSCHE, 1982,
Aforisma 1).
Mas “dionisíaco” é um adjetivo.
Significa algo que se remete a Dioniso, poderoso Deus cuja força,
sacralizada ou não, permaneceu até o mundo contemporâneo. O mito
permaneceu pois, sob toda tentativa de racionalização do mundo, que
à ela não se subjuga em sua igualmente constitutiva e inegável
irracionalidade. E um dos fatos capitais que contribuiram para esta
permanência foi a importância que ele ocupa na filosofia de
Nietzsche. O deus cuja morte em sua crítica feroz ele proclama – ou
melhor, demanda – é aquele que está no centro de um sistema de
crenças elaborado, em detrimento do sentido fundamental da religião,
cujo aspecto mais importante é na verdade o envolvimento e percepção
da vida em seu sentido mais amplo, muitas vezes avassalador, e a
diferença desta percepção ou sentimento na vida daquele que a
percebe ou sente. Esta intuição da vida absoluta que caracteriza o
sentimento religioso mais profundo está presente na percepção
nietzcheana de Dioniso.
Dioniso em seu aspecto elementar toca
um aspecto fundamental da religião – no sentido de um sistema de
crenças elaborado – que constitui a referência da crítica de
Nietzsche. É ponto crucial também do cristianismo a morte e a
ressurreição de Jesus, o Cristo, o Deus feito carne. Dioniso e
Cristo se irmanam na paixão, morte e ressurreição. Mas a religião de
Dioniso nunca perdeu a dimensão e a amplitude da intuição de zoé
, e da indissociabilidade dos aspectos da vida , que, entre
outras coisas, abarca o sofrimento mas também a alegria. A religião
cristã, ao elaborar seu sistema de crenças, privilegiou o sofrimento
e suas conseqüências que geraram a moral que Nietzsche entendia como
criminosa contra a vida em sua amplitude, e cujo sentido ele vai
buscar no mito de Dioniso. Nele a encontra : o caráter numinoso da
vida indestrutível . Usamos o termo “numinoso” aqui no sentido de
Rudolf Otto (OTTO, 1958), para designar o sagrado abstraído de seus
elementos morais ou quaisquer outros elementos racionais, mas como
um excedente de significado que envolve um sentimento do absoluto
presente na medula das religiões, e anterior à sua elaboração num
sistema de crenças. Dioniso aponta para a vida indestrutível, a que
é impossível de aprisionar em categorias racionais , e é esta
vitalidade numinosa que alimentará mais tarde, na filosofia
nietzscheana, as noções de vontade de potência e do eterno retorno.
Impulsionado pelo mito, mesmo tomado por ele ao fim da vida –
quando, fora de si mesmo, identifica-se tanto à Dioniso quanto ao
Crucificado - Nietzsche impõe ao pensamento ocidental a reflexão
sobre o componente demasiado humano da irracionalidade, do
arrebatamento e do esquecimento de si, que nunca deixaram de ser
elementos constitutivos da religiâo tomada em seu sentido mais
originário.
A ressurreição de Dioniso na obra de
Nietszche clama uma re-ligação com a vida, uma ressurreição da força
vital apesar e para além do sofrimento - ainda que o sofrimento dela
participe - e cuja melhor expressão, a menos fragmentada,
encontra-se na esfera do mito. Desta forma, do mesmo modo que
Nietzsche reintroduz o mito na esfera do pensamento filosófico – e
com uma força que vai além da simples metáfora – os estudos no campo
da mitologia que se debruçam sobre o mito de Dioniso não podem, na
contemporaneidade, prescindir da interpretação de Nietzsche e de sua
apropriação do arquétipo. Nietzsche logra alimentar o mito , e
afirma assim sua vitalidade indestrutível, como um elo luxuoso na
imemorial cadeia de suas representações.
NOTAS :
1) O termo “arquétipo” é tomado aqui
no sentido da psicologia analítica de Carl Gustav Jung : como
designando os conteúdos do inconsciente coletivo, que constituem as
imagens universais, arcaicas, que existiram desde os tempos mais
remotos, cujas expressões mais contundentes são encontradas no mito.
2) As narrativas das duas variantes
do nascimento de Dioniso aqui apresentadas tem por base sua
apresentação em BRANDÃO, Junito : Mitologia Grega , vol.II,
Ed. Vozes. Rio de Janeiro :1995; e KERÉNYI, Carl : Dioniso:
Imagem Arquetípica da Vida Indestrutível, Ed. Odysseus. São
Paulo : 2002.
3) Olimpiodoro, escritor órfico,
citado por KERÉNYI, Carl (2002, p. 209).
4) A propósito, ver KÉRENYI, 2002,
p. 117.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS :
BRANDÃO, Junito. Mitologia
Grega , vol II , Rio de Janeiro : Ed. Vozes, 1995.
BRUNEL, Pierre, org.
Dicionário de Mitos Literários . Rio de Janeiro :
Ed. José Olympio, 1997.
ELIADE, Mircea. A History of
Religious Ideas , vol.1. Chicago : The University of
Chicago Press, 1981.
________ , Editor in Chief.
The Encyclopedia of Religion , vol .10. New York :
MacMillan Publishing, 1997.
JUNG, Carl Gustav. Os
Arquétipos e o Inconsciente Coletivo . Rio de Janeiro, Ed.
Vozes, 2000.
KERÉNYI, Carl. Dioniso :
Imagem Arquetípica da Vida Indestrutível . São
Paulo : Ed. Odysseus, 2002.
NIETZSCHE, Friedrich. A Origem
da Tragédia . Lisboa : Ed. Guimarães e Cia, 1982.
OTTO, Rudolf. The Idea of Holy
. New York : Oxford University Press, 1958.
|