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MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

REFLEXÕES NIETZSCHEANAS SOBRE A DISSOLUÇÃO DO MUNDO GREGO
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DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
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LAZER E ANIMAÇÃO CULTURAL: PENSANDO A FORMAÇÃO PROFISSSIONAL A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA
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SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO DE UM DEUS
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DO ESVAZIAMENTO ONTOLÓGICO DE DEUS À DISSOLUÇÃO DO CRISTIANISMO ENQUANTO MORALIDADE: A SENTENÇA NIETZSCHEANA “DEUS ESTÁ MORTO”
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APOLO Y DIONISOS: TEOLOGÍA DE LA VOLUNTAD DE PODER
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SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO DE UM DEUS

Cláudia Cerqueira do Rosario

(Departamento de Filosofia e Ciências Sociais/CCH/UNIRIO)

RESUMO :

Este artigo é uma reflexão sobre a importãncia do arquétipo mítico de Dioniso para a filosofia de Nietszche e, por outro lado, sobre a importância da concepção nietzscheana de Dioniso dentro dos estudos sobre este deus no campo da mitologia.

Palavras-chave : Nietzsche, Dioniso, mito e filosofia.

ABSTRACT :

This paper is a reflection on the importance of Dionysus' s mythic archetipe in Nietzsche's philosophy and, by other side, on the importance of Nietzsche's conception of Dionysus for the studies about this god in the mythology field.

Key-words : Nietzsche, Dyonisus, myth and philosophy.

Existem duas versões fundamentais, entre as incontáveis variações e indícios, para o nascimento do Deus Dioniso, através das quais pode-se esboçar uma tentativa de compreender o sentido elementar deste Deus na antiguidade. Entre os estudiosos de mitologia elas sugerem que se possa falar em pelo menos dois Dionisos, sem contar as diversas epifanias que constituem os sincretismos que apontam para suas numerosas manifestações no campo religioso. Dioniso é um Deus arcaico, cujos indícios do culto organizado parecem remontar à mais de mil anos antes da Era Cristã. Outros indícios, de caráter arqueológico, apontam para a possível origem do tipo de culto que caracterizou a religião dionisíaca na esfera do período pré-histórico conhecido como Neolítico. Imagem fascinante, a figura daquilo que Dioniso representa, banalizada na redução de sua identificação como “o deus grego do vinho”, perdeu ao longo da história, após o declínio da religião grega, o caráter de sacralidade avassaladora que caracterizou seu culto, um culto de vida e de morte, um culto que mergulhava nos mistérios mais trágicos da existência. Dioniso permaneceu no mundo profano como motivo importante na arte e na literatura, cercado por uma aura de ligeireza irresponsável que fez dele uma imagem ligada apenas à transgressão da embriaguez e da licenciosidade à ela associada – entenda-se isto tanto ao nível do indivíduo como na esfera das interdições, tabus, regulamentos ou convenções de ordem política ou social. De qualquer modo, isto indica a sua permanência como arquétipo mítico 1), atestando a força dos significados daquilo que ele representa, ainda que indiretamente, ainda que reduzido à parte de um todo muito mais complexo, do qual são apenas expressões superficiais.

Esta força arquetípica tem muitos de seus aspectos mais profundos resgatados no mundo contemporâneo através da obra de Friedrich Nietzsche, que, num movimento inverso ao que o senso comum entende pelo nascimento da filosofia - aquilo que os manuais chamam de passagem do mythos ao logos - reintroduz no âmbito do pensamento filosófico a força do mito. Melhor dizendo, insere o mythos no logos da compreensão contemporânea do mundo, e o faz já em sua primeira obra publicada, A Origem da Tragédia , início da trilha na qual desenvolve seu pensamento. Ainda que um dos motivos mais conhecidos da filosofia nietzscheana seja o da “morte de Deus”, sua filosofia dá ensejo, já que ele próprio considera o mito como a condição prévia e necessária de toda religião (NIETZSCHE,1982, Aforisma 18) , à sobrevivência do mito que, na forma de Dioniso, entendido em seu significado mais profundo, mesmo filosoficamente toma um caráter eminentemente religioso. Que elemento fundamental, do caráter eminentemente religioso de Dioniso, sobrevive através da obra de Nietzsche, resgatando-o da banalização de seu caráter de embriaguez e licenciosidade e dissociado de seu sentido existencial mais profundo, como permaceu ao longo da maior parte das representações até que o filósofo o buscasse em seu sentido mais amplo ? Uma pista para esta compreensão pode estar nas duas variantes míticas que citamos, germes de culto e ritual dionisíacos. Estes, ao que parece, mais que em qualquer outro complexo mítico no tempo em que se insere, apontam fundamentalmente, como quer Carl Kerényi, estudioso do mito e do pensamento religioso, para o aspecto indestrutível da vida, que abarca mesmo a morte como elemento à ela submetido.

A variante mais conhecida do mito 2) , a mais popularizada, nos diz que Dioniso foi filho dos amores de Zeus, deus celeste supremo, e Sêmele, uma princesa filha de Cadmo, o fundador de Tebas, e de Harmonia, filha de Afrodite e Ares, os Deuses do amor e da guerra. A Deusa Hera, enciumada, toma a forma de Beroe, criada e confidente da princesa, e sob este artifício convence a jovem a pedir a Zeus que se apresente a ela como o faz à Hera, para que ela soubesse em toda a intensidade o que é partilhar o leito de um Deus. Zeus, acuado diante do pedido, pois em seus delírios amorosos havia jurado nada negar à Sêmele, não tem como recusar. Sêmele, sendo incapaz em sua mortalidade de suportar a absolutez da divina presença de seu amante, cai imediatamete morta, fulminada pelo raio emanado da presença de Zeus, não sem antes abortar o filho que carregava. Zeus, rapidamente, acolheu o feto e colocou-o para gestar em sua coxa. Assim que Dioniso nasceu, foi entregue aos reis da Queronéia, para que fosse criado. A perseguição implacável de Hera enlouquece os tutores de Dioniso, e o pai novamente intervem para salvá-lo. Desta vez, o metamorfoseia em bode, e o entrega ao Deus Hermes, o condutor, para que o confiasse aos Sátiros e às Ninfas que habitavam uma profunda gruta no monte Nisa. Mas Hera não desiste, e enlouquece o próprio Dioniso menino, fazendo-o afundar-se num pântano que não poderia atravessar. Foi salvo por dois asnos, e um deles – do qual se dizia ser a montaria do Sileno - o carregou através das águas e o levou para um templo de Zeus. Lá, imediatamente, viu-se livre da loucura. É dito também que o próprio Sileno o protegeu, então, instruindo-o e tornando-se seu conselheiro. Mais tarde, na Frígia, Dioniso foi purificado pela Deusa-Mãe dos deuses, Réia, e com ela aprendeu os ritos de iniciação. Depois, empreendeu uma descida ao Mundo Subterrâneo, o mundo dos mortos, e de lá trouxe de volta a mãe, Sêmele, ascendendo com ela aos céus, onde Zeus tornou-a imortal.

Numa outra versão, menos conhecida, Dioniso é filho de Zeus e Perséfone (em algumas versões de Deméter) , e é conhecido como Zagreu, “caçador”. Nesta variação, resultante de sincretismo órfico-dionisíaco, Zeus, para proteger o filho dos ciúmes de Hera, confia o menino Dioniso à Apolo para que o esconda nas florestas do Monte Parnaso. Mas Hera descobre o esconderijo, e envia os Titãs para raptar e matar o jovem Deus. Usando alguns brinquedos, os rostos pintados de branco como que usando máscaras, os Titãs atraem o menino Dioniso e, uma vez de posse dele, o dilaceram em pedaços. Cozinham as carnes num caldeirão e depois as assam. Atraído pelo cheiro, Zeus descobre o banquete e constata o crime. Enfurecido, Zeus fulmina os Titãs com seus raios. Da fuligem que se formou, surgiu então uma espécie de massa, e dessa massa foram feitos os homens. Assim, de acordo com a teologia órfica , “nosso corpo é dionisíaco, nós somos uma parte dele (Dioniso), pois brotamos da fuligem dos Titãs que comeram de sua carne” 3). Mas no sacrifício, os Titãs deixaram de lado o coração. Teria sido Palas Atena quem o encontrou e o levou ao pai. A partir dele , então, Zeus teria preparado uma poção e dado de beber à Sêmele, que engravida. Dela nascerá Dioniso pela segunda vez, ressuscitado da morte.

Estas duas variantes, datadas de diferentes períodos religiosos do mundo antigo em torno da Hélade, contém os elementos essenciais do dionisismo, presentes no espírito elementar do culto através dos séculos – ou milênios – em que se constituiu numa religião viva. Antes de mais nada, Dioniso é um Deus que nasce duas vezes. Mais exatamente, é compreendido como um Deus que morre e ressuscita, que transita entre o mundo da vida e o mundo da morte, o que, de forma intensa, o reveste de características xamânicas elementares – o que é, além disto, atestado pelo desmembramento e pela cocção ou passagem pelo fogo, ambos eventos de caráter iniciático. Ambas as narrativas possuem o caráter do nascimento, da eclosão para a vida, e a passagem pelo mundo dos mortos. Como sintetiza Kérenyi, “o mito de Dioniso exprime a realidade de zoé , sua indestrutibilidade e seu peculiar vínculo dialético com a morte” (KERÉNYI, 2002, p.206).

Zoé é um termo grego que significa “vida” , no sentido em que abarca a vida de todos os viventes – diferentemente do termo bíos , que diz respeito aos traços característicos de uma vida específica. Zoé diz respeito ao curso ilimitado da vida, ao

“tempo de existir”, mas não no sentido de um tempo vazio em que o ente vivo entra e permanece até a morte. Não ! Esse “tempo de existir” deve ser tomado como um ser contínuo que se enquadra em um bíos enquanto este perdura – donde vem a chamar-se zoé de bíos – ou de que bíos vem a destacar-se como uma parte que se consigna a um ser ou a outro. Essa parte pode ser chamada de bíos de zoé. (KERÉNYI, 2002. p.xx)

Zoé , subjacente à toda bíos , da qual a morte vem a ser uma das características, não admite sua extinção : é a vida sem fim , subjacente à finitude da bíos . Desta forma, é “não-morte”, é a vida que permanece para além da vida como bíos : é a vida indestrutível. Dioniso, identificado arquetipicamente com zoé , fala de nascimento e renascimento, de morte e ressurreição. Fala de uma continuidade entre estados que não se esgotam na nossa experiência de bíos , mas apontam para uma intuição de zoé e sua inelutável continuidade.

Do ponto de vista do arquétipo, o mito pode ter implicações tanto religiosas como filosóficas. No sentido religioso, Dioniso é o epicentro de uma religiosidade extremamente mística, como atesta a complexidade de seu culto, vinculado tanto aos Mistérios de Elêusis como à religião órfica, e passando mesmo por um culto importantísimo que alternava-se com o de Apolo em Delfos. No sentido filosófico, o mito de Dioniso pode ser relacionado à esta complexidade existente entre a experiência da vida como bíos e a intuição da vida como zoé . Dioniso sintetiza o nascimento e a paixão que culmina na morte, mas sua ressurreição, sua insistência em renascer, aponta para a força existencial de zoé . Este era o cerne da religião dionisíaca, perdido ao longo da história no processo de dessacralização do mito, mas cuja intuição filosófica podemos perceber resgatada na obra de Nietzsche.

Segundo Nietzsche, as religiões costumam acabar

quando todas as proposições míticas que formam a base de uma religião chegam a ser sistematizadas pelo intelecto e pelo rigor de um dogmatismo ortodoxo, na suma definitiva de acontecimentos históricos, e quando se começa a defender com inquietação a credibilidade dos mitos, impedindo que eles naturalmente evoluam e se multipliquem; quando numa palavra, desaparece o sentimento do mito para dar lugar à tendência para procurar os fundamentos históricos da religião. Quem se apodera do mito moribundo é o gênio remanescente da música dionisíaca; o mito rejuvenesce outra vez, como um ramo coberto de flores, com cores desconhecidas, com um perfume que sugere o pressentimento de um mundo metafísico . (NIETZSCHE, 1982, Aforisma 10)

A intensidade e o modo da presença de Dioniso no texto de Nietzsche aponta um aspecto da religião que ele entendia como perdido em seu tempo : o sentimento do mito, elemento original do sentimento religioso, a ser resgatado em nome da possibilidade do pressentimento de um mundo metafísico diferente daquele da metafísica da razão, hermética ao arrebatamento.

Para Nietzsche, a música, arte dionisíaca por excelência, será a expressão simbólica daquilo a que ele se refere em outra passagem como o “Uno primordial, simbolizado por uma esfera como um mundo superior a todas as aparências e anterior a todos os fenômenos” (NIETZSCHE, 1982, Aforisma 6), objeto de aspiração tanto religiosa como filosófica, e para o filósofo seria através da música que o mito pode ser revigorado, que se mantem perene. Através da música o mito ressuscitaria de uma agonia imposta pela razão. Ao reclamar a ressurreição do mito, Nietzsche o transpõe do âmbito do religioso ao âmbito filosófico, guardando no entanto, ou melhor, resgatanto aspectos do arquétipo perdidas na representações dessacralizadas que se seguiram ao declínio da religião dionisíaca ou ao seu escrutínio lógico-racional. Este perde em vasta medida a potência do mito de abarcar o drama da coexistência das aparentemente mais profundas contradições, tema retomado por Nietzsche em sua obra. Para além da religião, da filosofia ou da arte, o mito tomado em geral possui mobilidade o bastante para subsistir em todas estas formas de expressão do humano. E, mais ainda, o mito de um Deus que é também o da metamorfose, o da transformação realizada pelo arrebatamento causado pelo êxtase e pelo entusiasmo, que torna o homem diferente do que era no cotidiano e o impele para além de si mesmo.

A formulação de Nietzsche sobre o Uno primordial acessível através da música pode remeter à noção de zoé , ou melhor, para sua intuição metafísica através do mito, centralizado na figura de Dioniso, que abarca as experiências existenciais possíveis, que extrapolam a experiência das incontáveis bíos . Como extrapolação, é desmedida, desmesura, excesso, e assim, loucura. Uma loucura inerente ao próprio mundo, não entendida apenas como um estado degenerativo, mas como elemento constitutivo da vida que acaba por ser constitutiva de sua saúde. No caso do homem, esta loucura pode significar um estado em que seus poderes vitais estão exacerbados, e onde consciente e inconsciente se fundem em um único transbordamento – que seria de modo mais próprio o que Nietzsche e outros autores possivelmente entenderam quando falam de um “estado dionisíaco” 4). É a analogia à este estado que Nietzsche resgata para o estado de embriaguez, não apenas como um estado resultante do consumo imoderado do álcool, mas por seu efeito de remeter à própria desordenação do mundo por detrás das ordens possíveis (NIETZSCHE, 1982, Aforisma 1).

O estado dionisíaco, também mas não apenas estado de embriaguez pelo álcool – Dioniso embriaga por si próprio - caracteriza-se, por um lado, pelo êxtase, o estado de semi-inconsciência experimentado pelos adeptos do Deus, que pode ser definido como a saída de si,

(...)uma superação da condição humana, uma ultrapassagem do métron , a descoberta de uma liberação total, a conquista de uma liberdade e de uma espontaneidade que os demais seres humanos não podiam experimentar (BRANDÃO, 1995, p. 136).

Por outro lado, a saída de si implicava o entusiasmo, que significava em sentido primordial “ter um deus dentro de si, identificar-se com ele, co-participando da divindade” (BRANDÃO, 1995, p.136). Isto constituía a comunhão do humano com o divino, no mergulho e dissolução da bíos em zoé . Nas palavras de Nietzsche, é despertada “a exaltação dionisíaca, que vai atrair o indivíduo subjetivo, para o obrigar a aniquilar-se no total esquecimento de si mesmo “ (NIETZSCHE, 1982, Aforisma 1).

Mas “dionisíaco” é um adjetivo. Significa algo que se remete a Dioniso, poderoso Deus cuja força, sacralizada ou não, permaneceu até o mundo contemporâneo. O mito permaneceu pois, sob toda tentativa de racionalização do mundo, que à ela não se subjuga em sua igualmente constitutiva e inegável irracionalidade. E um dos fatos capitais que contribuiram para esta permanência foi a importância que ele ocupa na filosofia de Nietzsche. O deus cuja morte em sua crítica feroz ele proclama – ou melhor, demanda – é aquele que está no centro de um sistema de crenças elaborado, em detrimento do sentido fundamental da religião, cujo aspecto mais importante é na verdade o envolvimento e percepção da vida em seu sentido mais amplo, muitas vezes avassalador, e a diferença desta percepção ou sentimento na vida daquele que a percebe ou sente. Esta intuição da vida absoluta que caracteriza o sentimento religioso mais profundo está presente na percepção nietzcheana de Dioniso.

Dioniso em seu aspecto elementar toca um aspecto fundamental da religião – no sentido de um sistema de crenças elaborado – que constitui a referência da crítica de Nietzsche. É ponto crucial também do cristianismo a morte e a ressurreição de Jesus, o Cristo, o Deus feito carne. Dioniso e Cristo se irmanam na paixão, morte e ressurreição. Mas a religião de Dioniso nunca perdeu a dimensão e a amplitude da intuição de zoé , e da indissociabilidade dos aspectos da vida , que, entre outras coisas, abarca o sofrimento mas também a alegria. A religião cristã, ao elaborar seu sistema de crenças, privilegiou o sofrimento e suas conseqüências que geraram a moral que Nietzsche entendia como criminosa contra a vida em sua amplitude, e cujo sentido ele vai buscar no mito de Dioniso. Nele a encontra : o caráter numinoso da vida indestrutível . Usamos o termo “numinoso” aqui no sentido de Rudolf Otto (OTTO, 1958), para designar o sagrado abstraído de seus elementos morais ou quaisquer outros elementos racionais, mas como um excedente de significado que envolve um sentimento do absoluto presente na medula das religiões, e anterior à sua elaboração num sistema de crenças. Dioniso aponta para a vida indestrutível, a que é impossível de aprisionar em categorias racionais , e é esta vitalidade numinosa que alimentará mais tarde, na filosofia nietzscheana, as noções de vontade de potência e do eterno retorno. Impulsionado pelo mito, mesmo tomado por ele ao fim da vida – quando, fora de si mesmo, identifica-se tanto à Dioniso quanto ao Crucificado - Nietzsche impõe ao pensamento ocidental a reflexão sobre o componente demasiado humano da irracionalidade, do arrebatamento e do esquecimento de si, que nunca deixaram de ser elementos constitutivos da religiâo tomada em seu sentido mais originário.

A ressurreição de Dioniso na obra de Nietszche clama uma re-ligação com a vida, uma ressurreição da força vital apesar e para além do sofrimento - ainda que o sofrimento dela participe - e cuja melhor expressão, a menos fragmentada, encontra-se na esfera do mito. Desta forma, do mesmo modo que Nietzsche reintroduz o mito na esfera do pensamento filosófico – e com uma força que vai além da simples metáfora – os estudos no campo da mitologia que se debruçam sobre o mito de Dioniso não podem, na contemporaneidade, prescindir da interpretação de Nietzsche e de sua apropriação do arquétipo. Nietzsche logra alimentar o mito , e afirma assim sua vitalidade indestrutível, como um elo luxuoso na imemorial cadeia de suas representações.

NOTAS :

1) O termo “arquétipo” é tomado aqui no sentido da psicologia analítica de Carl Gustav Jung : como designando os conteúdos do inconsciente coletivo, que constituem as imagens universais, arcaicas, que existiram desde os tempos mais remotos, cujas expressões mais contundentes são encontradas no mito.

2) As narrativas das duas variantes do nascimento de Dioniso aqui apresentadas tem por base sua apresentação em BRANDÃO, Junito : Mitologia Grega , vol.II, Ed. Vozes. Rio de Janeiro :1995; e KERÉNYI, Carl : Dioniso: Imagem Arquetípica da Vida Indestrutível, Ed. Odysseus. São Paulo : 2002.

3) Olimpiodoro, escritor órfico, citado por KERÉNYI, Carl (2002, p. 209).

4) A propósito, ver KÉRENYI, 2002, p. 117.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS :

BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega , vol II , Rio de Janeiro : Ed. Vozes, 1995.

BRUNEL, Pierre, org. Dicionário de Mitos Literários . Rio de Janeiro : Ed. José Olympio, 1997.

ELIADE, Mircea. A History of Religious Ideas , vol.1. Chicago : The University of Chicago Press, 1981.

________ , Editor in Chief. The Encyclopedia of Religion , vol .10. New York : MacMillan Publishing, 1997.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo . Rio de Janeiro, Ed. Vozes, 2000.

KERÉNYI, Carl. Dioniso : Imagem Arquetípica da Vida Indestrutível . São Paulo : Ed. Odysseus, 2002.

NIETZSCHE, Friedrich. A Origem da Tragédia . Lisboa : Ed. Guimarães e Cia, 1982.

OTTO, Rudolf. The Idea of Holy . New York : Oxford University Press, 1958.