F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO
DA VERDADE
Arthur Arruda Leal Ferreira
Psicólogo e Doutor em
Psicologia Clínica pela PUC - SP, professor do Departamento de
Psicologia Geral e Experimental do Instituto de Psicologia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, participa também como
docente e pesquisador no Programa de pós-graduação em Saúde
Coletiva do NESC-UFRJ.
E-mail: arleal@superig.com.br
Resumo: Quando nos deparamos com pensadores como
Friedrich Nietzsche e William James uma questão se põe: qual a
relação da verdade com a vida? Estratégias diferentes na
consideração do que é a vida, e o posicionamento da verdade
perante esta são postulados. É deste modo que se para James a vida
é adaptação constante nos fluxos da experiência, para Nietzsche,
vontade de potência, forças múltiplas em busca de afirmativa em
busca afirmativa de expansão, e negativa de conservação. A par das
diferenças de substrato, a vida é tomada como múltipla, expansiva,
e fluida na deriva do tempo. Tendo o ser as características da
própria vida, a verdade que pode ser predicada sobre ele não se
curva mais à sua cópia adequada, à sua "re-apresentação"
(representação) no conhecimento. Aqui, duas estratégias para a
consideração da verdade: de um lado se identifica esta
exclusivamente à relação de adequação, na busca do Ser
Transcendental por ascese, e esta, tal como este Ser, é ficcional
e contrária à Vida (estratégia excludente). De outro, pode se
tomar a verdade como os efeitos que nossas crenças, o nosso
conhecimento se produz na vida. Esta estratégia poderia ser
denominada includente ou pragmática em oposição à excludente, ou
cética, que depõe a verdade enquanto imutável perante a vida.
James seria nitidamente includente. Já quanto a Nietzsche, sua
postura oscila; parece falar ora de uma "falsa verdade", oposta à
vida, ora de uma verdade ancorada na vida, e não mais no intelecto
ou na razão. O objetivo deste trabalho é mostrar os deslocamentos
entre as estratégias excludente e includente (pragmática) por
parte de Nietzsche.
Abstract: When we are faced with philosophies
such as William James and Friedrich Nietzsche’s, a question
arises: what is the relation between truth and life? Different
strategies for understanding the question of what life is and its
relationship with truth are proposed. If in James’ philosophy life
is a never-ending adaptation of the stream of experience, in
Nietzsche’s it is will power, a set of forces seeking a positive
way of expansion, and a negative way of conservation. In spite of
their different approach in either case life is multiple, has an
expansive character and flows according to the stream of time. If
the Beings having the characteristics of life, their truth can’t
be tied to the representation in one’s knowledge. And here we have
two strategies for considering this: on one hand we can identify
truth as an adequacy relation searching for an transcendental
Being by askesis (the knowledge then being conceived as fictional
and opposed to life itself), and on the other hand, we can
consider truth as the positive effects that our beliefs produce in
our life. This latter strategy could be called inclusive or
pragmatic and opposed to the former excluding, skeptical one, that
conceives truth as an static, immutable thing. The aim of this
work is to show how Nietzsche’s oscillates between a skeptical and
a pragmatic approach and how his philosophy navigates between the
two.
Palavras - Chaves: Genealogia - Pragmatismo -
Vida - Verdade
Key-words: Genealogy - Pragmatism - Life - Truth
F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE
COMBATE EM TORNO DA VERDADE
Arthur Arruda Leal Ferreira - UFRJ
Introdução
Quando nos deparamos com pensadores como
Friedrich Nietzsche e William James uma questão se põe: qual a
relação da verdade com a vida? Estratégias diferentes na
consideração do que é a vida, e o posicionamento da verdade
perante esta são postulados. É deste modo que se para James a vida
é adaptação constante nos fluxos da experiência, para Nietzsche,
vontade de potência, forças múltiplas em busca de afirmativa em
busca afirmativa de expansão, e negativa de conservação. A par das
diferenças de substrato, a vida é tomada como múltipla, expansiva,
e fluida na deriva do tempo. Nada mais oposto ao Ser
Transcendental, uno, estático, e Ideal, esboçado por Platão, e
habitante da filosofia até nossos dias. Não tendo mais o ser tais
características, mas as da própria vida, a verdade que pode ser
predicada sobre ele não se curva mais à sua cópia adequada, à sua
“re-apresentação” (representação) no conhecimento. Aqui, duas
estratégias para a consideração da verdade: de um lado se
identifica esta exclusivamente à relação de adequação, na busca do
Ser Transcendental por ascese, e esta, tal como este Ser, é
ficcional e contrária à Vida (estratégia excludente). De outro,
pode se tomar a verdade como os efeitos que nossas crenças, o
nosso conhecimento produz na vida. Esta estratégia poderia ser
denominada includente ou pragmática em oposição à excludente, ou
cética, que depõe a verdade enquanto imutável perante a vida.
James é nitidamente includente. Já quanto a Nietzsche, sua postura
oscila; parece falar ora de uma “falsa verdade”, oposta à vida,
ora de uma verdade ancorada na vida, e não mais no intelecto ou na
razão. A comparação entre as “verdades” de Nietzsche e James,
intermediado por esta dupla estratégia (includente/excludente), é
o objetivo deste trabalho. Dela serão tomadas as semelhanças e os
contrastes entre o pragmatista americano e o genealogista alemão.
A se acrescentar apenas que ambos tiveram como fruto deste embate
entre a verdade e a vida, a reabilitação de outros saberes
debilitados pela metafísica e a gnosiologia. Assim, a arte
enquanto potência de criação é recuperada por Nietzsche, a
religião, enquanto fé vivida em um mundo por se construir, em
James.
Duas estratégias no embate com a
verdade
Pensar o que pode unir James e Nietzsche é apontar
uma nova relação do conhecimento à vida e o combate a um inimigo
próximo: a filosofia monista, segundo o pragmatista; a ciência
metafísica, segundo o genealogista. Ou melhor, o combate irá se
dar entre as diversas estratégias no ligar (ou desligar) o
conhecimento à vida. James oscila entre a estratégia pragmatista,
e a empirista radical no combate aos racionalismos: a primeira
conciliadora, irônica e não violenta; a segunda, defensiva e
extremista, mas ambas atrelando a verdade à adaptação. A verdade
representa sempre os diversos modos em que se pode ser bem
conduzido na cadeia da experiência, da existência. A verdade,
classicamente uma ascese, uma negação da vida, não encontra outro
caminho que não desembocar na experiência, pois, mesmo quando a
negar, a verificação sempre se conclui numa forma de vida.
Trata-se, pois, de uma estratégia internalista: não há verdade
fora da vida a não ser como recurso ficcional para se produzir um
efeito nesta. Menos potente, é verdade, que outras verdades que
assumem esta produção. Mas ainda, alguma verdade. Não há crença
sem efeito em nossa vida; sempre uma deriva em nossa experiência,
em nossa conduta. W. James, portanto, sem radicalizar o combate
encerra os racionalismos no interior da vida; nada mais fortemente
pode avivar a oposição destes.
Excludência
O combate de Nietzsche se desenvolve em outras
trincheiras. Oscila não no interior de uma postura includente, mas
entre esta e outra excludente. O registro de tal variação não é
estranha a Machado (1984, p.120), recusando nesta oscilação
constante, qualquer sinal de evolução. Na verdade, a postura
excludente seria predominante, recusando-se a maior parte das
vezes a inclusão da verdade na vida, a sua identificação,
tornando-se externamente como mentira a se opor aos “verdadeiros”
valores da vida: força e bela aparência. Por tais razões, Machado
(op.cit. p.120) irá caracterizar o procedimento desta postura como
de inversão. Enquanto James (1909) oferece um “ramo de oliveira”
aos seus oponentes, Nietzsche oferece uma espinheira aos inimigos.
Se o primeiro subverte o platonismo, horizontalizando o Bom, o
Belo e o Verdadeiro na vida, o segundo inverte, pondo-os fora da
vida, revalorando o que estava “por baixo” pondo-o sob o mais alto
bem:
“Desde que isola um ideal de realidade, se rebaixa, se
empobrece, se calunia o real. ‘O Belo pelo Belo’, ‘O Verdadeiro
pelo Verdadeiro’, ‘O Bem pelo Bem’- eis três respostas de mau
olhar para o real (Fragmentos Póstumos, Outono de 1887,10)”
(Machado, 1984, p.96-97)
Contrário a Trismegisto, em Nietzsche
o que está em baixo não é como o que está no alto. É por tais
razões que Deleuze (1969, p.132) encaixa Nietzsche no eixo
vertical da filosofia enquanto pensador das profundidades. São
várias as passagens na obra de Nietzsche que apontam esta
“exclusão-inversão” da verdade com relação aos valores da vida.
Mais uma vez Roberto Machado (1984, p.121) será nosso
guia:
“Não coloco, portanto, a ‘aparência’ em oposição à
realidade, aquela que resiste a toda transformação em um
imaginário ‘mundo verdadeiro’. Um nome preciso para esta realidade
será a ‘vontade de potência’... (Fragmentos Póstumos
-Agosto-Setembro de 1885,40). O mundo ‘aparente’ é o único: o
mundo verdadeiro é apenas um acréscimo mentiroso (Crepúsculo dos
Ídolos, parágrafo 2)... A verdade é do tipo erro sem o que uma
certa espécie de seres vivos não poderia viver. O que tem valor,
do ponto de vista da vida, decide em última instância (Fragmentos
Póstumos, Abril- Junho de 1885, 34)”
E ainda acrescenta de seu
próprio punho:
“A vida é o contrário da verdade e da bondade.
Dizer sim à vida é dizer sim a mentira. E se a vida é falha, o
ideal de verdade é uma negação da vida... Afirmar que a vida é
aparência, reivindicar a positividade do falso, é se insurgir
contra a possibilidade de um julgamento da vida a partir de um
critério de verdade; é ressaltar como a vontade absoluta de saber
é um ultraje à vida” (Machado, 1984, p.122)
Assim ao revalorar
a aparência e a ilusão próprias da arte, Nietzsche está firmando
um aspecto mais “verdadeiro” desta: aponta a potência de mentira,
de fabulação que a criatividade humana impõe na produção de
metáforas. A ciência por outro lado, oposta à arte, nega a sua
própria fonte, desvalorando aqui o que permite o próprio conhecer,
renegando a ilusão criativa em nome da suprema verdade, posta cima
de todas as coisas, como um ideal firmado e estabelecido para todo
o sempre: “Tudo o que destaca o homem do animal depende desta
capacidade de fazer valorizar as metáforas intuitivas num esquema,
logo dissolver a imagem num conceito” (Nietzsche, 1873, p.95).
Portanto a arte é mais “verdadeira”, não apenas por acolher a
criatividade das ilusões metafóricas em que nasce a ciência, mas
também por recusar a rigidez desta, que, congelando tal fluxo em
esquemas, projeta-as como “valor-além”, para acima da realidade
móvel das intuições onde foram geradas. É por tal que a “verdade”
é pois falsa: ao propor esta rígida oposição valorativa entre dois
mundos, e denegando o próprio em que foi criado.
James,
especialmente em seu pragmatismo, vai também salientar a
duplicidade dos mundos intuitivos e conceitual, em que, em
paralelo a Nietzsche, afirma a artificialidade dos conceitos, e
contrário a ele, sustenta que a medida de verdade destes está no
operar utilitário sobre o fluxo intuitivo. Isto demarca uma
oposição entre as posturas excludente e includente de ambos os
autores. Henri Bergson numa solução intermediária, nem tão
includente, nem tão excludente, afirmará que existe a
inteligência, órgão vital marcado na utilidade de se conhecer os
sólidos descontínuos, mas também a intuição, cruzamento do
intelecto com o instinto, e apta a melhor conhecer a realidade da
vida enquanto duração. Ainda que se possa afirmar que esta verdade
seja mais verdadeira, as obras da inteligência não poderão ser
ditas, como em Nietzsche, que sejam falsas.
Na estratégia
excludente, sendo a verdade falsa e a ilusão verdadeira, não nos
encontraríamos em pleno reino do “ceticismo”? Assim seria, se a
missão de Nietzsche fosse menos a de revalorar do que a de
desvalorar. É deste modo que o filósofo alemão irá tomar a vontade
de potência como escala termométrica e recusar os tradicionais
valores de bem/mal, verdadeiro/falso em prol de forte/fraco na
vida, ou seja, o que permite a sua expansão ou se basta na sua
conservação: É neste termômetro “extra-moral” que se poderia
encontrar a “verdadeira verdade”, para alem das ilusões da
“verdade metafísica e mentirosa”. Nesta escala, a arte ocuparia o
ponto mais alto da valoração por conduzir ao conluio das pulsões
dionisíacas (potência) e apolíneas (aparência). Neste aspecto, um
contraste marcante com James: este não inverte, nem cria novos
valores; apenas assimila-os, embaralha-os todos na vida. É desta
forma que o verdadeiro, o bom e belo mantém-se valores, porque da
vida, incumbida em conservar-se e expandir-se. A verdade será uma
noção positiva includente (ou melhor, incluída) na vida. A própria
vida não seria excluída de si, ela seria verdadeira mesmo em seus
momentos de maior contração; não devido a qualquer valor de um
mundo além, mas sim por um movimento de si própria. A fratura, a
inversão e a revaloração que Nietzsche propõe atinge então a
própria vida enquanto fonte de valor: há uma vontade de potência
positiva (expansiva) e outra negativa (conservadora). A diferença
se dá na medida em que James identifica a vida a adaptação,
utilidade, enquanto para Nietzsche este seria o sentido mais
fraco, mais impotente da vontade de potência.
Neste sentido, a
consideração da “vontade de verdade” como uma “vontade de
potência”, ainda que negativa, aparentemente conduz a uma
oscilação entre a estratégia includente e a excludente.
Includente, pois a vontade de verdade ou a vontade moral faz parte
da vida, ainda que ligada a seus estados menos intensos, de pura
conservação: “... o homem prefere querer o nada do que nada
querer; a vontade de nada, a revolta contra as condições
fundamentais da vida, ainda é vontade de potência (Genealogia da
moral III S28)” (Machado, 1984, p.80). Excludente, pois tal vida
não mereça talvez ser chamada de vida, e sim de sua negação, qual
seja a morte: “A vontade de conservação é a expressão de uma
situação desesperada, de uma restrição de instinto vital que, por
sua natureza, aspira a uma extensão de potência e por isso
freqüentemente põe em jogo e sacrifica a própria conservação (Gaia
Ciência, S 349)” (op.cit.,p.81). Representa mais um certo desvio
da vida, um esquecimento da potência que lhes permitiu existir,
conduzindo à uma moral ascética e reativa, própria dos escravos e
mais digno de morte que de vida: “Quando considerado na
perspectiva das forças, a moral é um poderoso instrumento de
conservação do fraco, mas por isso mesmo enfraquece a vida,
transforma a força em fraqueza” (op.cit., p.82).
Nesta fratura
e inversão dos valores, a verdade é pois deslocada da vida, ao
menos de seus estados mais “intensos” e “verdadeiros”. Esta
exclusão visa o acoplamento com a arte, por incluir os valores
dionisíacos (da potência) e apolíneos (da aparência) tão caros a
vida, em detrimento dos morais, ou ao menos de uma certa
moral:
“O essencial dessa teoria é a concepção da arte em suas
relações com a vida: ela é, tanto fisiológica, quanto
psicologicamente o grande estimulante, aquilo que impele
eternamente para a vida, a eterna vida. (Fragmentos Póstumos,
Primavera de 1888, 14)... O sentimento de belo, é um aumento do
sentimento de potência, da vontade de potência. (Fragmentos
Póstumos, Outono de 1887,10)” (Machado,1984,p.124).
Em síntese,
ao adotar a estratégia excludente, Nietzsche está rachando a vida
e a cultura Humana: de um lado, a vida em sua máxima potência, os
instintos, a arte, o belo encontro entre Apolo e Dionísio, os
novos valores superiores; de outro, a conservação da vida, a
morte, o intelecto, a moral e a verdade, Platão e Sócrates na
Academia, os antigos valores agora desvalorizados. Tudo isto sob o
termômetro da vontade de potência. A verdade não reside na vida, a
não ser enquanto expansão, exagero, desmesura. Quando útil, pode
servir no máximo à conservação da vida, a sua manifestação
menor.
Includência
Contudo em Nietzsche, pode-se encontrar uma
estratégia includente. Neste ponto, o diálogo com James é mais do
que possível. Suas manifestações se dão especialmente numa
concepção funcionalista da verdade e do intelecto, e do
conhecimento enquanto produtor de realidade (próximo pois, do
pragmatismo de James). A inserção do intelecto na vida não se
processa impune, sem recaídas na estratégia excludente:
“Em
algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um
sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que
animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais
soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi
somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza,
congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer.
-Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria
ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e
fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano
(grifo meu). Houve eternidades, em que ele não estava; quando de
novo ele tiver passado, nada terá acontecido” (Nietzsche, 1873,
p.89).
Contudo, a consideração includente do intelecto se
processa no “perspectivismo”, em que o nosso conhecimento é visto
não como um processo neutro e desinteressado, mas como solução de
compromisso no jogo de força apresentado pelos múltiplos instintos
em ação. De resto, trata-se de uma noção paralela e de liberdade
em Spinoza, em que esta se daria, não na superação de nossas
paixões, mas no seu conhecimento de nossas inclinações:
“Só há
visão perspectiva, só há conhecimento perspectivo; e quanto mais
deixamos os sentimentos entrarem e consideração e respeito de uma
coisa, quanto mais sabemos incorporar novos olhos, olhos
diferentes para essa coisa, mais nosso ‘conceito’ desta coisa,
nossa ‘objetividade’ será completa. Eliminar a vontade, afastar
todos os sentimentos sem exceção, supondo que isso fosse possível,
não seria castrar o intelecto?... (Genealogia da moral, III S12)”
(Machado, 1984, pp. 108 e 109).
Quanto a uma concepção
funcionalista da verdade, podemos encontrar subsídios nesta outra
citação:
“É apenas num sentido tão restrito como este que o
homem quer a verdade: ele ambiciona as conseqüências agradáveis da
verdade, as que conservam a vida; é indiferente em relação ao
conhecimento puro e sem conseqüências e manifesta uma atitude
hostil em relação às verdades prejudiciais e destrutivas”
(Nietzsche, 1873, pp. 91 e 92).
Aqui é quase possível se fazer
eco a identidade biunívoca proposta em James (1907-b, p. 73) entre
o útil e o verdadeiro. Quase seria, se Durkhrein (1914, p.25) não
lembrasse “... que Nietzsche não diz que o que é útil é verdade,
mas o que parece verdadeiro foi estabelecido por utilidade. A seus
olhos, o útil é fácil. Há, segundo ele, uma forma de verdade
diferente da que é qualificada de verdadeira pelos homens do
‘rebanho’...” Ou seja, o verdadeiro pode ser útil, mas não
vice-versa: há uma verdade de maior fundo que é expressa pela
intuição do artista. Pensar uma verdade mais verdadeira traz
alguns problemas para estas “filosofias da vida”, especialmente
para Nietzsche, que se arrisca de forma mais pujante na reversão e
oposição de valores. Machado (1984, pp 119 e 120) irá se contrapor
à possibilidade de uma verdade mais verdadeira, ainda que em
certos textos, Nietzsche dê ensejo a tal
interpretação:
“Negando o privilégio da verdade, a filosofia de
Nietzsche não poderia reivindicar para si a própria verdade... sob
pena de diminuir a radicalidade de sua crítica mesmo quando
utiliza o termo verdade... o lugar onde se pretende considerar o
conhecimento e criticá-lo não é mais o lugar da verdade, mas o da
vontade de potência. O que é fundamental na posição em que se
situa - e que a meu ver deve se constituir como critério, para
avaliar inclusive o seu pensamento - é a dimensão das forças, é a
perspectiva da potência, e considerar as forças que se manifestam
no conhecimento não significa instituir a força como novo critério
de verdade”.
Em “verdade”, pensar numa verdade mais verdadeira
conduz a todos os riscos de sua tomada enquanto relação de
adequação, cópia, ascensão, ou mesmo descenso às forças, como no
caso de Nietzsche. Talvez seja isso o que este filósofo busque
evitar, se não se esquecesse que a própria realidade da “vontade
de potência” convidasse, não mais à cópia, mas a criação, a
potência de invenção, tão caras a arte, e que James também inclui
a verdade, especialmente na vontade de crer enquanto possibilidade
efetiva de concreção de uma realidade através de fé. Isto talvez
evite o problema de se afirmar a existência de uma realidade (a
das forças) que não seja verdadeira. Não é verdadeira dentro de um
conceito clássico como o de adequação: tais forças não podem ser
representadas; tão somente efetivadas. Afirmá-las verdadeiras
seria possível dentro de uma renovação includente do conceito tal
como sugere James, enquanto produção, onde força, vida e verdade
se conjugam. Aqui nem por lógica, nem por efeito de linguagem se
pode falar de uma verdade mais “verdadeira”: o suposto fundo de
verdades, seja o fluxo da experiência, ou o mosaico das forças,
ele só é verdadeiro porque se efetiva, produz, se expressa em toda
sua multiplicidade. Não há mais como falar em duas realidades, uma
mais real que a outra.
Apesar de Machado (op.cit.,p.119) por em
ressalva estas iniciativas, Nietzsche parece considerar tal
argumentação e em alguns momentos tomar a verdade enquanto relação
de produção, outrora restrita ao âmbito da arte:
“Fomos nós que
criamos o mundo que tem valor! Reconhecendo isso já reconhecemos
também que o respeito que temos pela verdade é a conseqüência de
uma ilusão [enquanto criação- Fragmentos Póstumos, Primavera de
1884, 25]...Também no conhecimento, sinto apenas a volúpia de
minha vontade de procriar e devir, e se existe uma inocência em
meu saber, é que há nele vontade de procriar [Zaratrusta II, “Nas
ilhas bem-aventuradas”]. Assim, a verdade não é uma coisa que
existiria para ser encontrada e descoberta- mas alguma coisa que
deve ser criada e que dá nome a um processo, mais ainda a uma
vontade de ultrapassar que não tem fim: introduzir a verdade como
processus in infinitum, determinação ativa e não como devir
consciente de algo (que) seria ‘em si’ firme e determinado. Nome
próprio da ‘vontade de potência.’”
A recusa à identificação da
verdade enquanto descoberta, cópia ou representação e sua
conseqüente tomada como invenção também é endossada por James: “A
crença cria a sua verificação. O pensamento torna-se literalmente
pai do fato, como o desejo é pai do pensamento” (James, 1882, p.
341). Machado, talvez na busca de uma coerência, um sentido único
no trato com a verdade por parte de Nietzsche tenha negligenciado
esta posição includente quando apresentada recusando a
identificação textualmente feita entre “vontade de potência” e
“verdade”. Ainda que represente mais uma exceção do que regra no
pensamento do filósofo alemão, tais momentos includentes se
apresentam opondo-se à massa dos excludentes. E nesta oscilação
estratégica é que podemos apontar as aproximações e afastamentos
em pontos particulares nas obras de Nietzsche e James. Isto, para
no choque entre as duas estratégias, recolher subsídios para novas
estratégias de combate da “verdade”, contra qualquer forma de
saber pretensamente desenraizada da vida.
Conclusão
A importância destes combates em torno da verdade
se dá ao revelar a potência criadora em que constantemente nos
reinventamos “humanos”. Importante por revelar nesta reinvenção
infinda nenhuma evolução, nenhum ponto ou porto final, que não
seja constante revolução das figuras e formas em que
momentaneamente nos descobrimos. O problema aqui, contrário da
filosofia grega clássica, não é o do movimento, mas o da fixação,
o da estagnação; a saber: por que certas formas perseveram?
Responder a esta questão não apontaria senão para peculiaridades
temporais, ou “a prioris históricos”, em que momentaneamente nos
sedimentamos..
Contudo, esta vinculação entre saber e vida não
apontaria para um valor que estaria subjacente às formas
históricas, justificando e avaliando a sua dispersão? Esta questão
toca no problema do “estofo”, ou do “substrato” deste mundo, ainda
que movediço e sem nenhum solo firme. Considerá-lo ainda como
fluxo múltiplo da experiência (James), ou jogo cego das forças em
expansão (Nietzsche) não representaria ainda um suspiro de
“cosmologia”, ou uma certa “metafísica” ainda que mínima? Não se
procederia como denuncia Heidegger uma confusão do ser como
“ente”? Eis um dos problemas mais complexos a qualquer alternativa
à tese da representação. Recusado por todo caráter estático,
consistente e monolítico do ser, como repensá-lo, sem proceder
qualquer mínima solidificação, formalização deste? Paralelo aos
escolásticos medievais que se perguntavam pela matéria, pela
potência pura, hoje poder-se-ia perguntar pela “produção pura”.
Sem qualquer “entização” mínima, seja a extensão do fluxo, seja a
intensidade das forças. Todas elas já seriam formas mínimas,
restos últimos do que se denunciaria como “produção pura e nossas
imagens, nossas metáforas.
Se nossas metáforas, nossas imagens
são produzidas ao livre sabor de nossas criações e fixadas por
valores que são momentâneos (sejam racionais, niilistas, práticos
ou potentes), não há sentido num projeto excludente da verdade
contra qualquer produto, inclusive aqueles que negam a sua própria
origem na existência, buscando se fixar em oposição a seu próprio
solo móvel. Eles seriam verdadeiros, porque se efetivam. Assim
todas as “metafísicas da representação” o seriam. Foram possíveis,
e produziram “homens” a sua imagem e semelhança. Mas não tão
“verdadeiros” quanto outros que reconheceram e reconhecem o seu
próprio terreno de produção, incentivando inclusive a recriação ao
modo artístico de novas imagens. Eis a grande virtude das
trincheiras cavadas por Nietzsche e James.
Referências bibliográficas
Nesta bibliografia, a data do texto original é
posta em colchetes, ao lado do nome do autor. Quando o original
for consultado, ou outra edição qualquer, desconhecendo-se o ano
da primeira, será suprimida a data final da referência.
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