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MORPHEUS

Revista Eletrônica em Ciências Humanas
- Conhecimento e Sociedade -

publicação on-line semestral - ISSN 1676-2924

REFLEXÕES NIETZSCHEANAS SOBRE A DISSOLUÇÃO DO MUNDO GREGO
Adilson Florentino

DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
Ana Carolina da Costa e Fonseca

F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO DA VERDADE
Arthur Arruda Leal Ferreira

LAZER E ANIMAÇÃO CULTURAL: PENSANDO A FORMAÇÃO PROFISSSIONAL A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA NIETZSCHEANA
Carlos Augusto Santana Pereira

SOBRE NIETZSCHE E A RESSURREIÇÂO DE UM DEUS
Cláudia Cerqueira do Rosario
TRÁGICO E ANGÚSTIA DO AMOR: REFLEXÕES SOBRE A HORA DO LOBO, DE INGMAR BERGMAN
Dax Moraes

TÍTULO DO ARTIGO:“SÓCRATES ERA AFINAL UM GREGO ?”
Flávio L. T. S. Boaventura

O FENÔMENO DIONISÍACO COMO QUESTÃO FUNDAMENTAL EM NIETZSCHE
Flávio de Oliveira Silva
POR UMA EDUCAÇÃO LEVE - AO MODO DE ZARATUSTRA,
O “DANÇARINO-DESTRUIDOR”
Gilcilene Dias da Costa

ARTE ALÉM DA MORAL E ALTERIDADE NO UNO
Gustavo Gadelha

A SABEDORIA TRÁGICA DIONISÍACA
Ivan Maia de Mello

HERÁCLITO ENTRE HEGEL E NIETZSCHE
Jorge Moraes

MEMÓRIA: CONSTRUÇÃO SANGRENTA
Leila Navarro de Santana
LA RECEPCIÓN VATTIMIANA DE NIETZSCHE: HACIA UN FILOSOFAR SIN SUJETO.
Luis Uirbe Miranda
ZARATUSTRA, MESTRE DA VIRTUDE DADIVOSA
Luiz Celso Pinho
A EDUCAÇÃO EM NIETZSCHE: CHEGA-A-SER O QUE TU ÉS
Maria Eugênia Carvalho de la Roca
SOBRE A EDUCAÇÃO EM SI DE NIETZSCHE
Marinete Araújo da Silva
ESPEJOS Y MÁSCARAS. LOS PELIGROS DE UN ARTE DE ARTISTAS
Paula Fleisner
RECONDUZIR NIETZSCHE A KANT? SOBRE O DESINTERESSE DO BELO
Pedro Duarte de Andrade
NIILIISMO E HISTÓRIA: O LOUCO E APÓSTOLO
Pedro Hussak van Velthen Ramos
UMA BRISURA: DERRIDA ÀS MARGENS DE NIETZSCHE
Rafael Haddock-Lobo
A DISTINÇÃO ENTRE SÓCRATES E PLATÃO NA FILOSOFIA DE NIETZSCHE
Rafael Rodrigues Pereira
O SENTIDO DA AGONÍSTICA PARA A VIDA OU A DISPUTA DE NIETZSCHE
Renato Nunes Bittencourt
CONHECER PARA ESQUECER. A IDENTIDADE E OS CAMINHOS PARA A MEMÓRIA:
PERSPECTIVAS NETZSCHIANAS SOBRE A IDENTIDADE E O ESQUECIMENTO COMO ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DA MEMÓRIA NO LOCUS SOCIAL
Ricardo Medeiros Pimenta
NIETZSCHE-RENAISSANCE, DESCONSTRUÇÃO, PENSAMENTO FRACO
Rosário Rossano Pecoraro
A ORIGEM DO CONHECIMENTO EM NIETZSCHE
Sofia Helena Gollnick Ferreira
A EDUCAÇÃO MODERNA COMO BARBARIZAÇÃO DO TIPO HOMEM
Vagner da Silva
DO ESVAZIAMENTO ONTOLÓGICO DE DEUS À DISSOLUÇÃO DO CRISTIANISMO ENQUANTO MORALIDADE: A SENTENÇA NIETZSCHEANA “DEUS ESTÁ MORTO”
Valéria Cristina Lopes Wilke
APOLO Y DIONISOS: TEOLOGÍA DE LA VOLUNTAD DE PODER
Virginia Mabel Cano
 

EXPEDIENTE
A revista MORPHEUS é uma publicação do Laboratório de Linguagens e Mídias, do Centro de Ciências Humanas da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e objetiva disseminar a produção científica acadêmica, optando pela interdisciplinaridade e pela multiculturalidade, tanto na abordagem como com relação aos objetos.


Editores
Evelyn Goyannes Dill Orrico; Cláudia Cerqueira do Rosário; Leila Beatriz Ribeiro; Mônica Cerbella Freire Mandarino;  Valéria Cristina Lopes Wilke; Carmen Irene C. de Oliveira; Guaracira Gouvêa de Souza.

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F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO DA VERDADE

Arthur Arruda Leal Ferreira

Psicólogo e Doutor em Psicologia Clínica pela PUC - SP, professor do Departamento de Psicologia Geral e Experimental do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, participa também como docente e pesquisador no Programa de pós-graduação em Saúde Coletiva do NESC-UFRJ.

E-mail: arleal@superig.com.br

 

Resumo: Quando nos deparamos com pensadores como Friedrich Nietzsche e William James uma questão se põe: qual a relação da verdade com a vida? Estratégias diferentes na consideração do que é a vida, e o posicionamento da verdade perante esta são postulados. É deste modo que se para James a vida é adaptação constante nos fluxos da experiência, para Nietzsche, vontade de potência, forças múltiplas em busca de afirmativa em busca afirmativa de expansão, e negativa de conservação. A par das diferenças de substrato, a vida é tomada como múltipla, expansiva, e fluida na deriva do tempo. Tendo o ser as características da própria vida, a verdade que pode ser predicada sobre ele não se curva mais à sua cópia adequada, à sua "re-apresentação" (representação) no conhecimento. Aqui, duas estratégias para a consideração da verdade: de um lado se identifica esta exclusivamente à relação de adequação, na busca do Ser Transcendental por ascese, e esta, tal como este Ser, é ficcional e contrária à Vida (estratégia excludente). De outro, pode se tomar a verdade como os efeitos que nossas crenças, o nosso conhecimento se produz na vida. Esta estratégia poderia ser denominada includente ou pragmática em oposição à excludente, ou cética, que depõe a verdade enquanto imutável perante a vida. James seria nitidamente includente. Já quanto a Nietzsche, sua postura oscila; parece falar ora de uma "falsa verdade", oposta à vida, ora de uma verdade ancorada na vida, e não mais no intelecto ou na razão. O objetivo deste trabalho é mostrar os deslocamentos entre as estratégias excludente e includente (pragmática) por parte de Nietzsche.

Abstract: When we are faced with philosophies such as William James and Friedrich Nietzsche’s, a question arises: what is the relation between truth and life? Different strategies for understanding the question of what life is and its relationship with truth are proposed. If in James’ philosophy life is a never-ending adaptation of the stream of experience, in Nietzsche’s it is will power, a set of forces seeking a positive way of expansion, and a negative way of conservation. In spite of their different approach in either case life is multiple, has an expansive character and flows according to the stream of time. If the Beings having the characteristics of life, their truth can’t be tied to the representation in one’s knowledge. And here we have two strategies for considering this: on one hand we can identify truth as an adequacy relation searching for an transcendental Being by askesis (the knowledge then being conceived as fictional and opposed to life itself), and on the other hand, we can consider truth as the positive effects that our beliefs produce in our life. This latter strategy could be called inclusive or pragmatic and opposed to the former excluding, skeptical one, that conceives truth as an static, immutable thing. The aim of this work is to show how Nietzsche’s oscillates between a skeptical and a pragmatic approach and how his philosophy navigates between the two.

Palavras - Chaves: Genealogia - Pragmatismo - Vida - Verdade

Key-words: Genealogy - Pragmatism - Life - Truth

F. NIETZSCHE E W. JAMES: DUAS ESTRATÉGIAS DE COMBATE EM TORNO DA VERDADE

Arthur Arruda Leal Ferreira - UFRJ

 

Introdução

Quando nos deparamos com pensadores como Friedrich Nietzsche e William James uma questão se põe: qual a relação da verdade com a vida? Estratégias diferentes na consideração do que é a vida, e o posicionamento da verdade perante esta são postulados. É deste modo que se para James a vida é adaptação constante nos fluxos da experiência, para Nietzsche, vontade de potência, forças múltiplas em busca de afirmativa em busca afirmativa de expansão, e negativa de conservação. A par das diferenças de substrato, a vida é tomada como múltipla, expansiva, e fluida na deriva do tempo. Nada mais oposto ao Ser Transcendental, uno, estático, e Ideal, esboçado por Platão, e habitante da filosofia até nossos dias. Não tendo mais o ser tais características, mas as da própria vida, a verdade que pode ser predicada sobre ele não se curva mais à sua cópia adequada, à sua “re-apresentação” (representação) no conhecimento. Aqui, duas estratégias para a consideração da verdade: de um lado se identifica esta exclusivamente à relação de adequação, na busca do Ser Transcendental por ascese, e esta, tal como este Ser, é ficcional e contrária à Vida (estratégia excludente). De outro, pode se tomar a verdade como os efeitos que nossas crenças, o nosso conhecimento produz na vida. Esta estratégia poderia ser denominada includente ou pragmática em oposição à excludente, ou cética, que depõe a verdade enquanto imutável perante a vida. James é nitidamente includente. Já quanto a Nietzsche, sua postura oscila; parece falar ora de uma “falsa verdade”, oposta à vida, ora de uma verdade ancorada na vida, e não mais no intelecto ou na razão. A comparação entre as “verdades” de Nietzsche e James, intermediado por esta dupla estratégia (includente/excludente), é o objetivo deste trabalho. Dela serão tomadas as semelhanças e os contrastes entre o pragmatista americano e o genealogista alemão. A se acrescentar apenas que ambos tiveram como fruto deste embate entre a verdade e a vida, a reabilitação de outros saberes debilitados pela metafísica e a gnosiologia. Assim, a arte enquanto potência de criação é recuperada por Nietzsche, a religião, enquanto fé vivida em um mundo por se construir, em James.

 

Duas estratégias no embate com a verdade

Pensar o que pode unir James e Nietzsche é apontar uma nova relação do conhecimento à vida e o combate a um inimigo próximo: a filosofia monista, segundo o pragmatista; a ciência metafísica, segundo o genealogista. Ou melhor, o combate irá se dar entre as diversas estratégias no ligar (ou desligar) o conhecimento à vida. James oscila entre a estratégia pragmatista, e a empirista radical no combate aos racionalismos: a primeira conciliadora, irônica e não violenta; a segunda, defensiva e extremista, mas ambas atrelando a verdade à adaptação. A verdade representa sempre os diversos modos em que se pode ser bem conduzido na cadeia da experiência, da existência. A verdade, classicamente uma ascese, uma negação da vida, não encontra outro caminho que não desembocar na experiência, pois, mesmo quando a negar, a verificação sempre se conclui numa forma de vida. Trata-se, pois, de uma estratégia internalista: não há verdade fora da vida a não ser como recurso ficcional para se produzir um efeito nesta. Menos potente, é verdade, que outras verdades que assumem esta produção. Mas ainda, alguma verdade. Não há crença sem efeito em nossa vida; sempre uma deriva em nossa experiência, em nossa conduta. W. James, portanto, sem radicalizar o combate encerra os racionalismos no interior da vida; nada mais fortemente pode avivar a oposição destes.

Excludência

O combate de Nietzsche se desenvolve em outras trincheiras. Oscila não no interior de uma postura includente, mas entre esta e outra excludente. O registro de tal variação não é estranha a Machado (1984, p.120), recusando nesta oscilação constante, qualquer sinal de evolução. Na verdade, a postura excludente seria predominante, recusando-se a maior parte das vezes a inclusão da verdade na vida, a sua identificação, tornando-se externamente como mentira a se opor aos “verdadeiros” valores da vida: força e bela aparência. Por tais razões, Machado (op.cit. p.120) irá caracterizar o procedimento desta postura como de inversão. Enquanto James (1909) oferece um “ramo de oliveira” aos seus oponentes, Nietzsche oferece uma espinheira aos inimigos. Se o primeiro subverte o platonismo, horizontalizando o Bom, o Belo e o Verdadeiro na vida, o segundo inverte, pondo-os fora da vida, revalorando o que estava “por baixo” pondo-o sob o mais alto bem:
“Desde que isola um ideal de realidade, se rebaixa, se empobrece, se calunia o real. ‘O Belo pelo Belo’, ‘O Verdadeiro pelo Verdadeiro’, ‘O Bem pelo Bem’- eis três respostas de mau olhar para o real (Fragmentos Póstumos, Outono de 1887,10)” (Machado, 1984, p.96-97)
Contrário a Trismegisto, em Nietzsche o que está em baixo não é como o que está no alto. É por tais razões que Deleuze (1969, p.132) encaixa Nietzsche no eixo vertical da filosofia enquanto pensador das profundidades. São várias as passagens na obra de Nietzsche que apontam esta “exclusão-inversão” da verdade com relação aos valores da vida. Mais uma vez Roberto Machado (1984, p.121) será nosso guia:
“Não coloco, portanto, a ‘aparência’ em oposição à realidade, aquela que resiste a toda transformação em um imaginário ‘mundo verdadeiro’. Um nome preciso para esta realidade será a ‘vontade de potência’... (Fragmentos Póstumos -Agosto-Setembro de 1885,40). O mundo ‘aparente’ é o único: o mundo verdadeiro é apenas um acréscimo mentiroso (Crepúsculo dos Ídolos, parágrafo 2)... A verdade é do tipo erro sem o que uma certa espécie de seres vivos não poderia viver. O que tem valor, do ponto de vista da vida, decide em última instância (Fragmentos Póstumos, Abril- Junho de 1885, 34)”
E ainda acrescenta de seu próprio punho:
“A vida é o contrário da verdade e da bondade. Dizer sim à vida é dizer sim a mentira. E se a vida é falha, o ideal de verdade é uma negação da vida... Afirmar que a vida é aparência, reivindicar a positividade do falso, é se insurgir contra a possibilidade de um julgamento da vida a partir de um critério de verdade; é ressaltar como a vontade absoluta de saber é um ultraje à vida” (Machado, 1984, p.122)
Assim ao revalorar a aparência e a ilusão próprias da arte, Nietzsche está firmando um aspecto mais “verdadeiro” desta: aponta a potência de mentira, de fabulação que a criatividade humana impõe na produção de metáforas. A ciência por outro lado, oposta à arte, nega a sua própria fonte, desvalorando aqui o que permite o próprio conhecer, renegando a ilusão criativa em nome da suprema verdade, posta cima de todas as coisas, como um ideal firmado e estabelecido para todo o sempre: “Tudo o que destaca o homem do animal depende desta capacidade de fazer valorizar as metáforas intuitivas num esquema, logo dissolver a imagem num conceito” (Nietzsche, 1873, p.95). Portanto a arte é mais “verdadeira”, não apenas por acolher a criatividade das ilusões metafóricas em que nasce a ciência, mas também por recusar a rigidez desta, que, congelando tal fluxo em esquemas, projeta-as como “valor-além”, para acima da realidade móvel das intuições onde foram geradas. É por tal que a “verdade” é pois falsa: ao propor esta rígida oposição valorativa entre dois mundos, e denegando o próprio em que foi criado.
James, especialmente em seu pragmatismo, vai também salientar a duplicidade dos mundos intuitivos e conceitual, em que, em paralelo a Nietzsche, afirma a artificialidade dos conceitos, e contrário a ele, sustenta que a medida de verdade destes está no operar utilitário sobre o fluxo intuitivo. Isto demarca uma oposição entre as posturas excludente e includente de ambos os autores. Henri Bergson numa solução intermediária, nem tão includente, nem tão excludente, afirmará que existe a inteligência, órgão vital marcado na utilidade de se conhecer os sólidos descontínuos, mas também a intuição, cruzamento do intelecto com o instinto, e apta a melhor conhecer a realidade da vida enquanto duração. Ainda que se possa afirmar que esta verdade seja mais verdadeira, as obras da inteligência não poderão ser ditas, como em Nietzsche, que sejam falsas.
Na estratégia excludente, sendo a verdade falsa e a ilusão verdadeira, não nos encontraríamos em pleno reino do “ceticismo”? Assim seria, se a missão de Nietzsche fosse menos a de revalorar do que a de desvalorar. É deste modo que o filósofo alemão irá tomar a vontade de potência como escala termométrica e recusar os tradicionais valores de bem/mal, verdadeiro/falso em prol de forte/fraco na vida, ou seja, o que permite a sua expansão ou se basta na sua conservação: É neste termômetro “extra-moral” que se poderia encontrar a “verdadeira verdade”, para alem das ilusões da “verdade metafísica e mentirosa”. Nesta escala, a arte ocuparia o ponto mais alto da valoração por conduzir ao conluio das pulsões dionisíacas (potência) e apolíneas (aparência). Neste aspecto, um contraste marcante com James: este não inverte, nem cria novos valores; apenas assimila-os, embaralha-os todos na vida. É desta forma que o verdadeiro, o bom e belo mantém-se valores, porque da vida, incumbida em conservar-se e expandir-se. A verdade será uma noção positiva includente (ou melhor, incluída) na vida. A própria vida não seria excluída de si, ela seria verdadeira mesmo em seus momentos de maior contração; não devido a qualquer valor de um mundo além, mas sim por um movimento de si própria. A fratura, a inversão e a revaloração que Nietzsche propõe atinge então a própria vida enquanto fonte de valor: há uma vontade de potência positiva (expansiva) e outra negativa (conservadora). A diferença se dá na medida em que James identifica a vida a adaptação, utilidade, enquanto para Nietzsche este seria o sentido mais fraco, mais impotente da vontade de potência.
Neste sentido, a consideração da “vontade de verdade” como uma “vontade de potência”, ainda que negativa, aparentemente conduz a uma oscilação entre a estratégia includente e a excludente. Includente, pois a vontade de verdade ou a vontade moral faz parte da vida, ainda que ligada a seus estados menos intensos, de pura conservação: “... o homem prefere querer o nada do que nada querer; a vontade de nada, a revolta contra as condições fundamentais da vida, ainda é vontade de potência (Genealogia da moral III S28)” (Machado, 1984, p.80). Excludente, pois tal vida não mereça talvez ser chamada de vida, e sim de sua negação, qual seja a morte: “A vontade de conservação é a expressão de uma situação desesperada, de uma restrição de instinto vital que, por sua natureza, aspira a uma extensão de potência e por isso freqüentemente põe em jogo e sacrifica a própria conservação (Gaia Ciência, S 349)” (op.cit.,p.81). Representa mais um certo desvio da vida, um esquecimento da potência que lhes permitiu existir, conduzindo à uma moral ascética e reativa, própria dos escravos e mais digno de morte que de vida: “Quando considerado na perspectiva das forças, a moral é um poderoso instrumento de conservação do fraco, mas por isso mesmo enfraquece a vida, transforma a força em fraqueza” (op.cit., p.82).
Nesta fratura e inversão dos valores, a verdade é pois deslocada da vida, ao menos de seus estados mais “intensos” e “verdadeiros”. Esta exclusão visa o acoplamento com a arte, por incluir os valores dionisíacos (da potência) e apolíneos (da aparência) tão caros a vida, em detrimento dos morais, ou ao menos de uma certa moral:
“O essencial dessa teoria é a concepção da arte em suas relações com a vida: ela é, tanto fisiológica, quanto psicologicamente o grande estimulante, aquilo que impele eternamente para a vida, a eterna vida. (Fragmentos Póstumos, Primavera de 1888, 14)... O sentimento de belo, é um aumento do sentimento de potência, da vontade de potência. (Fragmentos Póstumos, Outono de 1887,10)” (Machado,1984,p.124).
Em síntese, ao adotar a estratégia excludente, Nietzsche está rachando a vida e a cultura Humana: de um lado, a vida em sua máxima potência, os instintos, a arte, o belo encontro entre Apolo e Dionísio, os novos valores superiores; de outro, a conservação da vida, a morte, o intelecto, a moral e a verdade, Platão e Sócrates na Academia, os antigos valores agora desvalorizados. Tudo isto sob o termômetro da vontade de potência. A verdade não reside na vida, a não ser enquanto expansão, exagero, desmesura. Quando útil, pode servir no máximo à conservação da vida, a sua manifestação menor.

Includência

Contudo em Nietzsche, pode-se encontrar uma estratégia includente. Neste ponto, o diálogo com James é mais do que possível. Suas manifestações se dão especialmente numa concepção funcionalista da verdade e do intelecto, e do conhecimento enquanto produtor de realidade (próximo pois, do pragmatismo de James). A inserção do intelecto na vida não se processa impune, sem recaídas na estratégia excludente:
“Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza, congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. -Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano (grifo meu). Houve eternidades, em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido” (Nietzsche, 1873, p.89).
Contudo, a consideração includente do intelecto se processa no “perspectivismo”, em que o nosso conhecimento é visto não como um processo neutro e desinteressado, mas como solução de compromisso no jogo de força apresentado pelos múltiplos instintos em ação. De resto, trata-se de uma noção paralela e de liberdade em Spinoza, em que esta se daria, não na superação de nossas paixões, mas no seu conhecimento de nossas inclinações:
“Só há visão perspectiva, só há conhecimento perspectivo; e quanto mais deixamos os sentimentos entrarem e consideração e respeito de uma coisa, quanto mais sabemos incorporar novos olhos, olhos diferentes para essa coisa, mais nosso ‘conceito’ desta coisa, nossa ‘objetividade’ será completa. Eliminar a vontade, afastar todos os sentimentos sem exceção, supondo que isso fosse possível, não seria castrar o intelecto?... (Genealogia da moral, III S12)” (Machado, 1984, pp. 108 e 109).
Quanto a uma concepção funcionalista da verdade, podemos encontrar subsídios nesta outra citação:
“É apenas num sentido tão restrito como este que o homem quer a verdade: ele ambiciona as conseqüências agradáveis da verdade, as que conservam a vida; é indiferente em relação ao conhecimento puro e sem conseqüências e manifesta uma atitude hostil em relação às verdades prejudiciais e destrutivas” (Nietzsche, 1873, pp. 91 e 92).
Aqui é quase possível se fazer eco a identidade biunívoca proposta em James (1907-b, p. 73) entre o útil e o verdadeiro. Quase seria, se Durkhrein (1914, p.25) não lembrasse “... que Nietzsche não diz que o que é útil é verdade, mas o que parece verdadeiro foi estabelecido por utilidade. A seus olhos, o útil é fácil. Há, segundo ele, uma forma de verdade diferente da que é qualificada de verdadeira pelos homens do ‘rebanho’...” Ou seja, o verdadeiro pode ser útil, mas não vice-versa: há uma verdade de maior fundo que é expressa pela intuição do artista. Pensar uma verdade mais verdadeira traz alguns problemas para estas “filosofias da vida”, especialmente para Nietzsche, que se arrisca de forma mais pujante na reversão e oposição de valores. Machado (1984, pp 119 e 120) irá se contrapor à possibilidade de uma verdade mais verdadeira, ainda que em certos textos, Nietzsche dê ensejo a tal interpretação:
“Negando o privilégio da verdade, a filosofia de Nietzsche não poderia reivindicar para si a própria verdade... sob pena de diminuir a radicalidade de sua crítica mesmo quando utiliza o termo verdade... o lugar onde se pretende considerar o conhecimento e criticá-lo não é mais o lugar da verdade, mas o da vontade de potência. O que é fundamental na posição em que se situa - e que a meu ver deve se constituir como critério, para avaliar inclusive o seu pensamento - é a dimensão das forças, é a perspectiva da potência, e considerar as forças que se manifestam no conhecimento não significa instituir a força como novo critério de verdade”.
Em “verdade”, pensar numa verdade mais verdadeira conduz a todos os riscos de sua tomada enquanto relação de adequação, cópia, ascensão, ou mesmo descenso às forças, como no caso de Nietzsche. Talvez seja isso o que este filósofo busque evitar, se não se esquecesse que a própria realidade da “vontade de potência” convidasse, não mais à cópia, mas a criação, a potência de invenção, tão caras a arte, e que James também inclui a verdade, especialmente na vontade de crer enquanto possibilidade efetiva de concreção de uma realidade através de fé. Isto talvez evite o problema de se afirmar a existência de uma realidade (a das forças) que não seja verdadeira. Não é verdadeira dentro de um conceito clássico como o de adequação: tais forças não podem ser representadas; tão somente efetivadas. Afirmá-las verdadeiras seria possível dentro de uma renovação includente do conceito tal como sugere James, enquanto produção, onde força, vida e verdade se conjugam. Aqui nem por lógica, nem por efeito de linguagem se pode falar de uma verdade mais “verdadeira”: o suposto fundo de verdades, seja o fluxo da experiência, ou o mosaico das forças, ele só é verdadeiro porque se efetiva, produz, se expressa em toda sua multiplicidade. Não há mais como falar em duas realidades, uma mais real que a outra.
Apesar de Machado (op.cit.,p.119) por em ressalva estas iniciativas, Nietzsche parece considerar tal argumentação e em alguns momentos tomar a verdade enquanto relação de produção, outrora restrita ao âmbito da arte:
“Fomos nós que criamos o mundo que tem valor! Reconhecendo isso já reconhecemos também que o respeito que temos pela verdade é a conseqüência de uma ilusão [enquanto criação- Fragmentos Póstumos, Primavera de 1884, 25]...Também no conhecimento, sinto apenas a volúpia de minha vontade de procriar e devir, e se existe uma inocência em meu saber, é que há nele vontade de procriar [Zaratrusta II, “Nas ilhas bem-aventuradas”]. Assim, a verdade não é uma coisa que existiria para ser encontrada e descoberta- mas alguma coisa que deve ser criada e que dá nome a um processo, mais ainda a uma vontade de ultrapassar que não tem fim: introduzir a verdade como processus in infinitum, determinação ativa e não como devir consciente de algo (que) seria ‘em si’ firme e determinado. Nome próprio da ‘vontade de potência.’”
A recusa à identificação da verdade enquanto descoberta, cópia ou representação e sua conseqüente tomada como invenção também é endossada por James: “A crença cria a sua verificação. O pensamento torna-se literalmente pai do fato, como o desejo é pai do pensamento” (James, 1882, p. 341). Machado, talvez na busca de uma coerência, um sentido único no trato com a verdade por parte de Nietzsche tenha negligenciado esta posição includente quando apresentada recusando a identificação textualmente feita entre “vontade de potência” e “verdade”. Ainda que represente mais uma exceção do que regra no pensamento do filósofo alemão, tais momentos includentes se apresentam opondo-se à massa dos excludentes. E nesta oscilação estratégica é que podemos apontar as aproximações e afastamentos em pontos particulares nas obras de Nietzsche e James. Isto, para no choque entre as duas estratégias, recolher subsídios para novas estratégias de combate da “verdade”, contra qualquer forma de saber pretensamente desenraizada da vida.

 

 

Conclusão

A importância destes combates em torno da verdade se dá ao revelar a potência criadora em que constantemente nos reinventamos “humanos”. Importante por revelar nesta reinvenção infinda nenhuma evolução, nenhum ponto ou porto final, que não seja constante revolução das figuras e formas em que momentaneamente nos descobrimos. O problema aqui, contrário da filosofia grega clássica, não é o do movimento, mas o da fixação, o da estagnação; a saber: por que certas formas perseveram? Responder a esta questão não apontaria senão para peculiaridades temporais, ou “a prioris históricos”, em que momentaneamente nos sedimentamos..
Contudo, esta vinculação entre saber e vida não apontaria para um valor que estaria subjacente às formas históricas, justificando e avaliando a sua dispersão? Esta questão toca no problema do “estofo”, ou do “substrato” deste mundo, ainda que movediço e sem nenhum solo firme. Considerá-lo ainda como fluxo múltiplo da experiência (James), ou jogo cego das forças em expansão (Nietzsche) não representaria ainda um suspiro de “cosmologia”, ou uma certa “metafísica” ainda que mínima? Não se procederia como denuncia Heidegger uma confusão do ser como “ente”? Eis um dos problemas mais complexos a qualquer alternativa à tese da representação. Recusado por todo caráter estático, consistente e monolítico do ser, como repensá-lo, sem proceder qualquer mínima solidificação, formalização deste? Paralelo aos escolásticos medievais que se perguntavam pela matéria, pela potência pura, hoje poder-se-ia perguntar pela “produção pura”. Sem qualquer “entização” mínima, seja a extensão do fluxo, seja a intensidade das forças. Todas elas já seriam formas mínimas, restos últimos do que se denunciaria como “produção pura e nossas imagens, nossas metáforas.
Se nossas metáforas, nossas imagens são produzidas ao livre sabor de nossas criações e fixadas por valores que são momentâneos (sejam racionais, niilistas, práticos ou potentes), não há sentido num projeto excludente da verdade contra qualquer produto, inclusive aqueles que negam a sua própria origem na existência, buscando se fixar em oposição a seu próprio solo móvel. Eles seriam verdadeiros, porque se efetivam. Assim todas as “metafísicas da representação” o seriam. Foram possíveis, e produziram “homens” a sua imagem e semelhança. Mas não tão “verdadeiros” quanto outros que reconheceram e reconhecem o seu próprio terreno de produção, incentivando inclusive a recriação ao modo artístico de novas imagens. Eis a grande virtude das trincheiras cavadas por Nietzsche e James.

 

Referências bibliográficas

Nesta bibliografia, a data do texto original é posta em colchetes, ao lado do nome do autor. Quando o original for consultado, ou outra edição qualquer, desconhecendo-se o ano da primeira, será suprimida a data final da referência.
1. Deleuze, G. [1969] - Lógica do sentido. São Paulo, Perspectiva, 1974.
2. Durkhein, E. - Pragmatismo y Sociología. Ed. Schapire, Buenos Aires. (Conferências pronunciadas em 1914].
3. James, W. 1882] - The sentiment of rationality. In: Mc Dermott (org). The writings of William James. Nova York, Random House, 1967.
4. ___________[1904] - Um mundo de experiência pura. In: Pensadores. São Paulo, Cultrix, 1974.
5.__________[1907]-Pragmatismo. In: Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979.
6.__________[1909- c]- Significado da Verdade [Prefácio do autor]. In: Kallen, H.M. (org).A filosofia de William James. São Paulo, CEN, 1943.
7. Machado, R. [1984] - Nietzsche e a Verdade. Rio de Janeiro, Rocco.
8. Nietzsche, F. [1873] - Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral. In: Livro do filósofo.Porto, Rés, 1984.