AS CIDADES DE BAUDELAIRE E HUGO NA PARIS
MODERNA DE WALTER BENJAMIN
Antonio Carlos Gaeta
(UNESP)
Universidade Estadual Paulista – Faculdade de
Ciências e Letras (Araraquara) – Departamento de Administração
Pública
Doutor em Geografia Humana
gaeta@fclar.unesp.br
RESUMO : O artigo analisa a proximidade dos
retratos da Paris do século XIX feitos por Charles Baudelaire,
Victor Hugo e Walter Benjamin, de modo a compreender de modo mais
amplo a filosofia do espaço que Benjamin desenvolve. Parte-se da
Paris de Baudelaire, suas escolhas, a consideração dos pequenos
lugares, a “alma” e a universalidade desses espaços, e a
repercussão de tais perspectivas no interior de “A Paris do
Segundo Império” de Walter Benjamin. Confronta a Paris monumental
de Victor Hugo com a Paris trivial de Baudelaire. Busca descrever
as escolhas dos autores, bem como apreender o sentido profundo da
afinidade entre o poeta, o romancista e o filósofo, de modo a
iluminar as interpretações e conceitos sobre o espaço,
desenvolvidos por Benjamin.
Palavras-chave: Walter Benjamin –
Charles Baudelaire – Victor Hugo
ABSTRACT : The article analyzes the proximity of
the portraits of Paris of the century XIX done by Charles
Baudelaire, Victor Hugo and Walter Benjamin, in way to understand
in a wider way the philosophy of the space that Benjamin develops.
We left of the consideration of Paris of Baudelaire, of their
choices, of the consideration of the small places, of the "soul"
of those places, of the universality there present, and the
repercussion of those perspectives in the work of Benjamin "Paris
of the Second Empire". It is confronted monumental Paris of Victor
Hugo with to trivial Paris of Baudelaire. It is looked for to
describe the authors' choices, as well as to apprehend the deep
sense of the likeness among the poet, the novelist and the
philosopher, in way to illuminate the interpretations and concepts
on the space, developed by Benjamin.
A compreensão da filosofia do espaço benjaminiana
requer a consideração da sua Paris, a qual compreende a
consideração das várias cidades presentes no autor. Trata-se do
espaço não apenas como “sede” da modernidade, mas também como
revelador de sua complexidade e contradições. Em A Paris do
Segundo Império (ou A Paris do Segundo Império em Baudelaire), nos
quais Baudelaire é seguidamente citado, estão importantes e
reconhecidas interpretações da modernidade por Walter Benjamin.
A crítica da cultura e da sociedade são eixos importantes do
pensamento do autor. Benjamin analisa o nascimento de valores e da
destruição de outros tantos que ocorrem durante o século XIX, em
especial em sua primeira metade, e que marcarão profundamente o
século XX. A mercantilização acentuada da vida é tratada pelo
autor através das sutilezas, das nuances e dos pequenos
acontecimentos. Acompanha, sem dúvida, a mudança na própria
estruturação e interpretação do tempo que a modernidade traz,
projetando o cotidiano como uma dimensão heróica.
Porém, ainda
que não acentuado pelos seus intérpretes, o pensamento de Walter
Benjamin dedica-se também ao espaço. Não é apenas a cidade eleita,
pois de fato ela é o espaço símbolo da modernidade, em especial a
grande cidade, como Paris. Também trata da revolução na vivência e
na interpretação do espaço. Atém-se aos pequenos lugares, às
estruturas novas e antiquadas que a grande cidade cria e recria.
Por outro lado, uma das questões sempre presente é a afinidade
eletiva do autor diante de tão importantes intérpretes de Paris
como Victor Hugo. O porque de Baudelaire também deve ser procurado
na sua análise citadina, nas suas escolhas de cidade e o
contraponto com Victor Hugo contribui para tal estudo. Baudelaire
apresenta uma peculiaridade de pensamento e diferenciação frente
às análises de sua época, peculiaridade e diferenciação que
conquistaram Benjamin.
* * *
Nos escritos de Benjamin para
a sua inacabada obra prima __ o chamado “Trabalho das Passagens”
__ há inúmeras referências à cidade de Paris, símbolo da
modernidade urbana. Há nos escritos voltados ao Trabalho das
Passagens uma preocupação intensa em incluir a grande cidade como
suporte de suas reflexões sobre a modernidade. Isto pode ser
observado de modo evidente no esboço “Paris, capital do século
XIX”, bem como na parte central __ única concluída __ denominada
“A Paris do Segundo Império em Charles Baudelaire”.
A
consideração de tais escritos permite afirmar que há um importante
retrato de cidade em Walter Benjamin, fruto das reflexões do
autor. Este, por sua vez, toma diversas outras “cidades”, como
suporte, citadas no corpo do texto: a cidade de Baudelaire, de
Victor Hugo, de Haussmann, de Simmel, de Balzac, de Aragon, e,
talvez menos explicitamente, a cidade de Splenger.
Os escritos
de Walter Benjamin sobre a Paris moderna __ a do século XIX __
atentam de modo significativo para os intérpretes da cidade, em
especial, para os literatos. A sua referência fundamental, a sua
principal afinidade é, como se sabe, com Charles Baudelaire.
A
obra mais importante de Charles Baudelaire __ As Flores do Mal __ é a eleita por Walter Benjamin como fonte de seu mais ambicioso
projeto __ O Trabalho das Passagens. A parte concluída, denominada
A Paris do Segundo Império (ou A Paris do Segundo Império em
Baudelaire), está subdividida em três partes intituladas A Boêmia,
O Flâneur, e A Modernidade.
No caso de Baudelaire, o estudo de
Benjamin dirige-se para várias de suas dimensões: o poeta, o
crítico da modernidade, a testemunha da modernização social. Mas
há também uma significativa referência ao seu sensibilidade
interpretativa urbana.
De fato, no esboço “Paris, capital do
século XIX”, um dos pares é “Baudelaire ou as ruas de Paris”.
Sujeito e espaço urbano estão aí postos lado a lado. Dos diversos
pares propostos no esboço será este o que ficará definido para o
trabalho final das Passagens. A preocupação de Benjamin com as
tríades espaço – tempo - sujeito têm Baudelaire como o grande
tema.
Na parte concluída para o Trabalho das Passagens, a
referência mais importante a Baudelaire dá-se a partir de sua obra
prima “Flores do Mal”. Menos citados estão “Meu Coração Desnudado”
e “O pintor da vida moderna”.
Flores do Mal, primeiramente
editada em 1857, em plena época de Napoleão III e de Haussmann,
apresenta no seu conteúdo e na sua construção diversos elementos
de abordagem da grande cidade que serão tema da filosofia de
Benjamin. A estrutura desse livro de poesias é composta por seis
partes, além da “Introdução”: Spleen e Ideal; Quadros Parisienses;
O Vinho; Flores do Mal; Revolta; e A morte.
Na estrutura da
obra de Baudelaire há a revelação de parte de sua vida. O início
pelo “spleen” revela o seu estado de ânimo e sua visão crítica da
modernidade. O sentido imediato de spleen é o de entediado da
vida. Tome-se como exemplo um de seus poemas “Spleen”:
Quando
o céu baixo e hostil pesa como uma tampa/ Sobre a alma que,
gemendo, ao tédio ainda resiste,/ E do horizonte todo enleando a
curva escampa,/ Destila um dia escuro e mais que as noites
triste;/ Quando a terra se torna em úmida enxovia/ Onde a
Esperança, como um morcego perdido,/ Nos muros vai bater a asa
tímida e fria/ E a cabeça ferir no teto apodrecido;/ Quando a
chuva, a escorrer suas cordas tamanhas,/ De uma vasta prisão as
grades delineia,/ E a muda multidão das infames aranhas/ No
cérebro da gente estende a sua teia,/ Sinos badalam, de repente,
furibundos/ E lançam contra o céu um rugido insolente,/ Como
espíritos que, sem pátria e vagabundos,/ Começam a gemer
recalcitrantemente./ __ E enterros longos, sem tambor e sem
trombeta,/ Desfilam lentamente em minha alma; a Esperança,/
Vencida, chora, e a Angústia prepotente avança/ E em meu crânio
infeliz planta a bandeira preta.
A sua revolta com os modelos familiares e a
dificuldade em fazer-se reconhecer pela sua sensibilidade marcaram
a sua formação, bem como se refletiram ao longo de sua vida. O uso
dos recursos financeiros familiares, os endividamentos
conseqüentes, os amores proibidos, levaram sua família a
interditá-lo através de uma tutela judicial. Baudelaire, então
como despossuído, passa a ser marcado pela errância de moradias.
Supõe-se que tenha vivido em torno de 44 endereços, até a sua
morte com 46 anos. A motivação para a errância, no entanto, não
estaria apenas na miséria, segundo Robert Sctrick, um dos
intérpretes de Baudelaire (1998: p. 20).
Esse estado de ânimo
encontrou afinidades em Benjamin, principalmente tendo em vista o
olhar estrangeiro, enviesado, revelador de uma riqueza oculta ao
indivíduo comum.
Na obra de Benjamin a referência mais
explícita à cidade de Baudelaire centra-se em “Quadros
Parisienses”. Ele já os havia traduzido para o alemão (1921). Dos
dezesseis poemas aí contidos, são reproduzidos sete em parte ou na
íntegra ao longo do texto central das Passagens: O Sol; O Cisne;
Os Sete Velhos; As Velhinhas; A uma Passante; O Esqueleto
Lavrador; O Crepúsculo Vespertino.
Pode-se dizer que a obra de
Baudelaire, além de toda a sua complexidade e riqueza estética, é
importante para Benjamin por dois aspectos essenciais que dizem
respeito a características externas e internas complementares: o
estado de ânimo e olhar do qual parte o autor, e o seu cotidiano e
realidade de vivência e reflexão. Eles são o seu olhar de
desconforto, de inadaptado, que lhe revela com maior precisão a
transitoriedade como alma da vida moderna. Em segundo lugar, a
grande cidade, produto da nova sociedade. O encontro dos dois
aspectos dá-se na procura da interioridade na cidade moderna. A
propósito, Benjamin afirma sobre a cidade de Baudelaire: “A Paris
de seus poemas é uma cidade submersa” (1991a: p. 39).
Os
aspectos contraditórios presentes na sociedade moderna, bem como
os aspectos distintos do qual parte Baudelaire __ ou seja, o seu
olhar sensível e a cidade concreta __ revela-se no próprio título
da obra maior, Flores do Mal, mas também nos seus títulos
iniciais, pré-titulos, As Lésbicas e Os Limbos, no qual
destacam-se os estados vagos, imprecisos, transitórios que o autor
interpreta na modernidade. E também se identificam como o
nostálgico, o entediado, o inadaptado.
Desse modo, o assunto da
poesia de Baudelaire é, também, o universo cotidiano representado
pela cidade, na qual procura a vida interior e o que ela pode
conter de simbolicamente universal. Mas, além disto, ele procura
encontrar ou transformar a própria cidade em interior.
A busca
da interioridade em Baudelaire encontra uma expressão citadina.
Isto é, em Baudelaire a interioridade não se perdeu para sempre.
Ela pode ser encontrada no símbolo da própria modernidade, na
cidade moderna. A cidade moderna em Baudelaire é a grande cidade,
a Paris do século XIX. Mas, no essencial, é a sociedade que vive
em uma grande cidade. Neste sentido, a preocupação central é com a
“cidade” e não com a “urbe”.
Mas a estrutura urbana, ainda
assim, aparece. Lugares de encontro são destacados, bem como são
destacadas as ruas, esse novo elemento de encontro que é realçado
com as reformas urbanas no século XIX, em especial com os
bulevares de Haussmann. Ou seja, Baudelaire parte da constatação
comum aos seus contemporâneos: a percepção da perda de totalidade.
Victor Hugo também vê na cidade moderna __ ainda que por outra
perspectiva __ a perda de uma visão de totalidade, simbolizada
pelo ocaso da arquitetura frente ao que veio da Idade Média.
Mesmo entre os não críticos à ordem que se estabelece, como os
burocratas, como Haussmann, o reformador de Paris, há a
consciência da perda de totalidade na cidade e a necessidade de
uma reformulação que a una, que a integre.
Mas em Baudelaire
__ e Benjamin acompanhará este aspecto __ é possível encontrar na
modernidade a interioridade. No âmago da modernidade, na própria
cidade moderna, da multidão, dos contrastes, do efêmero, a
interioridade, a sensibilidade, a “alma” ainda está presente. Esta
questão é crucial para Benjamin e aí sua afinidade com Baudelaire:
modernidade e romantismo confluem.
Em Baudelaire, a ausência
de totalidade é percebida, problematizada, e une-se à sensação de
vazio, de esvaziamento, de percepção de dissolução da
individualidade. Mas Baudelaire procura, e consegue encontrar, a
beleza na modernidade. A partir deste corte radical, ele encontra
a beleza na modernidade: no contingente (e não no eterno); longe
da natureza (pois esta não é moderna); na sociedade; como
qualidade social. O belo restaura a individualidade que se
dissolve pela ação exterior. O belo deve ser buscado no que há de
melhor na sociedade, no que está acima da média, da vulgaridade e
da moral comum. O belo é sempre singular.
“O belo pode-se
distinguir em tudo o que sai do acostumado, do normal e do
mediano. Inclusive o feio e o cômico, levados ao limite, são belos
... o artista tem o dever de ser uma exceção, de sentir mais que
os demais e de maneira distinta; só marginalizando-se da sociedade
pode estar em condições de analisar, interpretar e, dentro dos
limites de suas possibilidades, orientar e dirigir a sociedade”.
(ARGAN, p.78)
Embora algumas questões fiquem pendentes para
Benjamin na sua procura de conciliação entre universalidade e
essência (projetos França e Alemanha – futuro e passado), decorre
disto algo essencial que é a importância ao desprezado, ao
descartado, ao detalhe. A cidade será vista por esse ângulo: daí a
contraposição à posição (não teórica, mas prática) de Haussmann,
que a vê como um plano único, de único olhar, que se impõe à massa.
O reconhecimento por Baudelaire da importância ao
desprezado e ao detalhe, conectada a sua defesa da
individualidade, representa também a constatação da inserção de
uma nova sociedade que, avassaladora, destrói não somente a
totalidade do passado ainda existente, como evita toda remontagem
na medida em que impõe destruição permanente e renovação. Nessa
perspectiva, a realidade é vista em Baudelaire como um amontoado e
é a partir desta constatação que se constrói a beleza, o sentido e
a unidade:
É esta mesma constatação que é utilizada na
apreciação da cidade. Benjamin também encontra afinidade nesta
sensibilidade baudelairiana. Em Benjamin a realidade é vista como
esfacelada, o sujeito ameaçado na sua essência. Ainda assim,
partindo de um alicerce em Baudelaire, Benjamin encontra a
possibilidade de interpretar a sociedade e a cidade modernas a
partir de construções e reconstruções diversas com os fragmentos
que a compõem.
É possível observar a importância dada a cada
fragmento, a cada qualidade, a cada ser, na medida em que ele
contém toda a universalidade, na seguinte observação de Baudelaire
sobre Delacroix:
“Quem, entre as pessoas clarividentes, não
compreende que o primeiro quadro do mestre continha todos os
outros em germe?”. (BAUDELAIRE, 1988, p. 65)
As considerações de Baudelaire para com o
rejeitado são importantes na elaboração da abordagem benjaminiana,
a qual destaca o valor metodológico do rejeitado (em seu duplo
sentido). Em “A Modernidade”, de A Paris do Segundo Império em
Charles Baudelaire, Benjamin traz, não por acaso, uma descrição em
prosa de Charles Baudelaire escrita um ano antes de O Vinho dos
Trapeiros:
“Aqui temos um homem __ ele tem de recolher na
capital o lixo do dia que passou. Tudo o que a cidade grande jogou
fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que desprezou, tudo o que
destruiu, é reunido e registrado por ele. Compila os anais da
devassidão, o cafarnaum da escória; separa as coisas, faz uma
seleção inteligente; procede como um avarento com seu tesouro e se
detém no entulho que, entre as maxilas da deusa indústria, vai
adotar a forma de objetos úteis ou agradáveis”. (BENJAMIN, 1991a,
p. 78)
Essa descrição de Baudelaire é introduzida com a
seguinte observação de Benjamin: “Os poetas encontram o lixo da
sociedade nas ruas e no próprio lixo o seu assunto heróico”.
Embora na sua análise, Benjamin retrate o sentimento de
Baudelaire, do poeta e do artista, sem dúvida ele mantém afinidade
com ele. A sua afirmação de que “trapeiro ou poeta __ a escória
diz respeito a ambos; solitários ambos realizam seu negócio nas
horas em que os burgueses se entregam ao sono ...” (1991a, p. 78)
aproxima o rejeitado economicamente e o culturalmente distinto
frente ao mundo da ditadura do econômico. O trapeiro, como o
artista, encontra, faz, recria. Além disso, “ [embora] o trapeiro
não [possa] ser incluído na boêmia ... desde o literato até o
conspirador profissional, cada um que pertencesse à boêmia podia
reencontrar no trapeiro um pedaço de si mesmo. Cada um deles se
encontrava, num protesto mais ou menos surdo contra a sociedade,
diante de um amanhã mais ou menos precário” (1991a, p. 17).
Os “pedaços” e o “precário” ganham valor metodológico completando o
“rejeitado”. O “caminho tortuoso”, enviesado, o olhar estrangeiro
ganha destaque em Baudelaire e esses também são aspectos
destacados por Benjamin. E é deste modo que é apresentada e
entendida a cidade. Acompanhemos Benjamin na sua análise de
Baudelaire:
“... Baudelaire gostava de apresentar como
artísticos os traços marciais. Quando descreve Constantin Guys, a
quem era muito apegado, visita-o numa hora em que os outros
dormem: ‘Ei-lo curvado sobre a mesa, fitando a folha de papel com
a mesma acuidade com que, durante o dia, espreita as coisas a sua
volta; esgrimindo com seu lápis, sua pena, seu pincel; deixando a
água do seu copo respingar o teto, enxugando a pena em sua camisa;
perseguindo o trabalho rápido e impetuoso, como se temesse que as
imagens lhe fugissem. E assim ele luta, mesmo sozinho, e apara
seus próprios golpes’. Envolvido nessa ‘estranha esgrima’
Baudelaire se retratou na estrofe inicial de O Sol, talvez a única
passagem de As Flores do Mal que o mostra no trabalho poético. O
duelo em que todo o artista se envolve e no qual ‘antes de ser
vencido, solta um grito de terror’ está compreendido na moldura de
um idílio; sua violência passa a segundo plano, e permite a seu
charme aparecer. Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros/
Persianas acobertam beijos sorrateiros,/ Quando o impiedoso Sol
arroja seus punhais/ Sobre a cidade e o campo, os tetos e os
trigais,/ Exercerei a sós a minha estranha esgrima,/ Buscando em
cada canto os acasos da rima,/ Tropeçando em palavras como nas
calçadas,/ Topando imagens desde há muito já sonhadas.” (1991a, p.
68)
O caminho cambaleante, o tropeçar, chama a atenção
de Benjamin. Este rumo destacado por Baudelaire é apresentado nas
escolhas de Benjamin dentro da obra baudelairiana. Não somente na
análise, destacada acima, como também na seleção de poemas: O sol;
O vinho dos trapeiros; As velhinhas; Os sete velhos. Nestes poemas
define-se um olhar, uma afinidade, que encontra no caminho
irregular, no ritmo irregular, a crítica e a revelação da época
moderna, dentro de um espírito filosófico e romântico.
* *
*
Além de Baudelaire, há uma outra presença vigorosa. Victor
Hugo é esse outro grande relevo, o qual surge, até mesmo, para
explicar o olhar particular, a leitura de Benjamin para com cidade
moderna e a modernidade. Quanto a Victor Hugo, a consideração de
Benjamin recai sobre Os Miseráveis e poemas selecionados, ainda
que o principal retrato parisiense (da cidade concreta) de Hugo
tenha sido feito em Notre Dame de Paris.
É mesmo curioso
indagar porque Benjamin não adotou a perspectiva de Victor Hugo,
na medida em que nesta __ mais que em Baudelaire __ há a denúncia
clássica de esquerda da desigualdade e da injustiça social.
Afinal, é reconhecida em Benjamin a forte presença da crítica
social, do inconformismo, a partir da formulação marxista.
As
menções a Victor Hugo nos textos básicos sobre a grande cidade
moderna estão concentradas em A Paris do Segundo Império em
Charles Baudelaire. Em A Boêmia as referências são a Os
Miseráveis. Em O Flâneur são citados os poemas A inclinação do
devaneio, Os castigos, além de Os Miseráveis. Em A Modernidade são
citados alguns poemas e novamente Os Miseráveis.
O pensamento
sobre a cidade em Hugo aparece, de modo mais evidente, em
Notre-Dame de Paris, publicada em 1831. Hugo era obcecado pelo
tema da cidade, de Paris, e apaixonado pela arquitetura, “esta
arte – rainha”. Empenhou-se decisivamente na defesa dos monumentos
antigos e encontrava na unidade da cidade medieval o ideal sedutor
da “organicidade”. A propósito escreve sobre a Paris
medieval:
“Então não era só uma bela cidade; era uma cidade
homogênea, um produto arquitetônico e histórico da Idade Média,
uma crônica de pedra”. (1998: p. 170)
A “crônica de pedra” é a cidade medieval: história
e expressão dadas pela arquitetura. A cidade é monumento, escrito
e linguagem. Ao mesmo tempo, seu apego apaixonado à cidade
medieval é a afirmação da idéia do declínio trágico da grande
arte. Hugo, com tristeza, testemunha seu desaparecimento no século
XIX, não apenas pela ação do Estado __ a qual, na metade do
século, seria simbolizada fortemente pela ação de Haussmann __
mas, e fundamentalmente, pela lógica inerente à modernidade.
O
elemento fundamental de sua crítica à cidade moderna e a
transformação urbana é a saudade. Deste modo, a cidade, entendida
como produto artístico passa a ser apenas recordação. A cidade
concreta, a cidade enquanto estrutura física revela, portanto, não
somente a história como também a arte.
O seu negativismo está
situado frente ao presente. A sua crítica dirige-se à modernidade
e aos novos agentes sociais que conduzem o mundo, incluindo-se a
burguesia e as classes revolucionárias. Ou seja, não se trata
apenas de condenar a lógica econômica que nada vê a não ser o
lucro. Deve-se observar que as suas críticas também eram dirigidas
aos “dessacralizadores”, àqueles que, em nome da Revolução e da
Razão, destruíam igrejas, catedrais e monumentos da nobreza:
Em
Victor Hugo, a cidade é associada e reconhecida pelo monumental.
Em contraste com a Paris de Baudelaire __ que é trivial, efêmera,
da rua __ essencialmente moderna e na qual o poeta reconhece a
capacidade dos objetos desprezados e pequenos dizerem “além de si
mesmos”, a cidade de Hugo é monumental. A Paris de Victor Hugo é
cidade monumento, porém já perdida.. Essa sensação de perda
irreparável, por sua vez, é também moderna. Insere o autor como
intérprete destacado da modernidade. O seu tema urbano mais
importante é passado: Notre-Dame de Paris. Não há na cidade
moderna, na sua construção, expressividade, arte, riqueza
subjetiva objetivada, complexidade. Deste modo, o autor caminha
para a abstração da cidade moderna. Antes era a “bíblia de pedra”.
Mas, a lei do progresso, representada pela impressa, a substitui
pela “bíblia de papel”. Somente a palavra pode dizer na
modernidade.
Daí, possivelmente, a grande afinidade de Benjamin
com Baudelaire e menor com Hugo, embora este último também tenha
vivido (1802-1885) no período eleito por Benjamin: o Segundo
Império de Napoleão III e Haussmann (1852-1870). É justamente ao
redor do período que aparecem as suas duas obras mais consagradas:
Notre-Dame de Paris (1831) e Os Miseráveis (1862).
Em Victor
Hugo a crítica da modernidade é pessimismo em relação à
expressividade da cidade moderna. Partindo do princípio que a cada
época corresponde um modo de pensar e a cada modo uma maneira de
expressão, Hugo identifica apenas a palavra escrita, o livro, como
capaz de dar vazão ao tempo contemporâneo.
Mas, mesmo que
Victor Hugo não encontre expressividade na cidade moderna, como em
Benjamin, há aproximações entre os autores.
A primeira
proximidade envolve a questão da centralidade. Para Hugo a cidade
é centro. É o lugar onde nasce e se distribui a idéia. Como
desdobramento, o autor condensa o princípio na forma: “urbs resume
orbis”. Trata-se de uma aproximação entre o círculo e a cidade
delimitada. A valorização da cidade é a valorização do centro. O
ideal de cidade medieval é o sinônimo da ausência do subúrbio. O
seu centro é a cidade e a sedimentação de camadas históricas de
usos e gostos. Essa cidade – centro é palco da diversidade de
tempos e modos.
A centralidade é também um dos pontos
importantes no retrato da cidade em Benjamin, porém com outras
características. Trata-se da identificação, do reconhecimento, da
procura de lugares em que se concentram as pessoas em suas buscas,
em suas aventuras. Em Victor Hugo a centralidade está concentrada
na catedral. Em Benjamin ela surge em diversas outras construções
modernas como as galerias ou os passeios dos bulevares.
Outro
aspecto de aproximação entre os autores, embora de modo diverso
envolve a sacralidade. Em Victor Hugo essa centralidade é revestida de sacralidade:
A sacralidade em Benjamin reveste-se
de ares profanos. Tal como Aragon, ele busca os lugares de
confraternização, dos “novos cultos”, incluindo-se especialmente o
do efêmero que caracteriza a modernidade. A citação de Aragon é reveladora:
“Hoje não se adoram mais deuses sobre as alturas.
O templo de Salomão passou, nas metáforas em que ele abriga ninhos
de andorinhas e lívidos lagartos. O espírito dos cultos,
dispersando-se na poeira, fez desertos os lugares sagrados. Mas há
outros lugares que florescem entre os homens, outros lugares em
que os homens se ocupam descuidadamente de sua vida misteriosa, e
que pouco a pouco nascem para uma religião profunda. A divindade
ainda não os habita. Ela se forma neles, é uma divindade nova que
se precipita nessas modernas Éfesos, como no fundo de um vidro o
metal deslocado por um ácido; é a vida que faz aparecer aqui essa
divindade poética ,ao lado da qual tanta gente passará sem nada
ver e que, repentinamente, torna-se sensível e terrivelmente
obsedante para aqueles que a tenham percebido, desajeitadamente
uma vez.” (ARAGON, 1996, p. 43)
Considerações Finais
Ao procurar a compreensão
da modernidade, Benjamin valoriza como componente importante a
urbanidade. As escolhas de retratos urbanos de Paris são feitas
por Benjamin tendo em vista algumas de suas particularidades
metodológicas: privilégio ao conflito, às tensões latentes;
privilégio ao fragmento, à destruição, como questões
particularmente desnudadas na modernidade; negação da razão
sobreposta a todas as dimensões humanas e, portanto, recuperação
do “homem integral” (da emoção, da interioridade) particularmente
legível através da expressão artística.
Na escolha do retrato
de Paris, Benjamin não se vale dos retratos dos “cientistas”, dos
historiadores, e sim dos literatos, em especial dos poetas. A
arte, reveladora e mais próxima do íntimo do ser, teria sua melhor
expressão escrita na poesia. Benjamin vale-se da poesia também por
sua capacidade condensadora, sintética, e esteticamente ao mesmo
tempo aproximada do fragmento e da iluminação.
Na seleção que
faz das obras de Victor Hugo, Benjamin não destacou Notre-Dame de
Paris, o melhor retrato hugoniano da cidade - luz, tendo em vista
que se fala de outra época que não a escolhida (século XIX).
Distancia-se dos discursos fechados, como os presentes na tese de
Hugo sobre a cidade. Distancia-se da concepção de um romantismo
saudosista, cujo ideário, na época de Benjamin, aproximava-se
perigosamente do discurso nazista. Não compartilha do descarte de
Hugo à “obra de pedra” em nome da escrita. Em oposição, Benjamin
vê a possibilidade na catedral moderna. Hugo teria acreditado no
fim das catedrais, no livro e talvez no discurso dentro da
multidão vazia. Benjamin parece encontrar na modernidade a
construção de novas catedrais, capazes de criar uma nova
sacralidade, inerente ao homem (culto e reunião), muito além da
luta política explícita (o próprio cotidiano).
Em oposição,
Benjamin encontra em Baudelaire outro olhar sobre o passado.
Benjamin fixa seu olhar não no passado que desapareceu, mas
naquilo que do passado restou. Fascina-se por esse passado, por
esse resíduo, ainda que despojado de sua aura, de seu glamour,
como fruto da destruição causada pela modernidade.
Bibliografia de Referência
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