DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS: NIETZSCHE, CRÍTICO DA
EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
Ana Carolina da Costa e
Fonseca
Bacharela em Direito (Universidade Federal do Rio
Grande do Sul - UFRGS) Mestre e doutoranda em Filosofia
(UFRGS)
(atualmente realizo estágio de doutoramento na Humboldt
Universität em Berlin)
ana@orion.ufrgs.br
Resumo
A partir de uma passagem de O crepúsculo dos
ídolos, discute-se o que Nietzsche entende por moralidade, de que
modo a pretensão de melhorar os seres humanos pela educação moral
transforma-os em animais de rebanho, bem como, por que educar
moralmente significa domesticar. Por fim, discute-se em que
sentido Nietzsche é um imoralista.
Abstract
This article discusses
Nietzsche’s conception of morality, concerning specially the
relation between the human being improvement and its moral
education. The latter transforms them in flock animals. It is also
discussed why to educate means to domesticate. Finally, it is
argued in what sense Nietzsche is an immoralist.
Nietzsche - educação -
moralidade
DESDE QUE NÃO SOMOS MAIS TRÁGICOS:
NIETZSCHE, CRÍTICO DA EDUCAÇÃO MORAL E IMORALISTA
Ana Carolina
da Costa e Fonseca (UFRGS)
Nietzsche considera Sócrates o
criador da moral como um problema devido à sua pretensão de
distinguir o bem do mal de modo absoluto. Durante o período
trágico, bem e mal eram aspectos da mesma ação. Neste trabalho,
discute-se inicialmente o problema da moralidade em relação ao
significado da atribuição de valor moral às ações, em especial, em
relação ao significado da pretensão de melhorar a humanidade pelo
ensino do valor atribuído às ações. Após, expõe-se em que consiste
a imoralidade de Nietzsche e seu critério para avaliar as ações.
Por fim, discute-se o novo problema filosófico que Nietzsche nos
propõe, bem como, em que sentido a educação moral acarreta o
surgimento de um determinado gênero humano, o animal de rebanho,
que se compara com o tipo humano trágico. Toma-se por ponto de
partida a seguinte passagem:
Em todos os tempos quis-se
“melhorar” os homens: este anseio antes de tudo chamava-se moral.
Mas sob a mesma palavra escondem-se todas as tendências mais
diversas. Tanto a domesticação da besta humana quanto a criação de
um determinado gênero de homem foi chamada “melhoramento”. (CI, Os
“melhoradores” da humanidade, 2; KSA, v. 6, p. 99) (está grifado
no original).
Destacam-se as expressões “moral”, “melhorar os
homens”, “domesticação”, e “criação de um determinado gênero de
homem”, que são utilizadas como fio condutor deste trabalho e
discutidas em comparação com outras passagens da obra de
Nietzsche.
Entende-se moral ou moralidade como
conjunto de regras de conduta. A moralidade estabelece os
comportamentos considerados adequados e os comportamentos
considerados inadequados para os seres humanos nas suas relações
com outros seres humanos e consigo mesmos, ou seja, “com base na
sua determinação vigente [da moralidade] é decidido se uma ação é
moral ou imoral” (HDH I, 42; KSA, v. 2, p. 65-66). Fazem-se juízos
de valor a respeito das ações, que são, de fato, interpretações.
Nesse sentido, a afirmação “[n]ão existem fenômenos morais, apenas
uma interpretação moral dos fenômenos” (BM, 108; KSA, v. 5, p. 92)
significa que às ações em si não corresponde um valor moral, ao
contrário, o valor decorre da interpretação. “O que quer que tenha
valor no mundo de hoje não o tem em si, conforme sua natureza - a
natureza é sempre isenta de valor: - foi-lhe dado, oferecido um
valor, e fomos nós esses doadores e ofertadores!” (GC, 301; KSA,
v. 3, p. 540) (está grifado no original). As ações são valoradas
porque os seres humanos as interpretam e atribuem um valor à sua
interpretação, desse modo, não a ação em si, mas a interpretação
da ação revela uma moralidade. A crítica de Nietzsche à moralidade
é uma crítica tanto à criação da moralidade e sua conseqüente
problematização, como à valoração decorrente da moralidade.
Tem-se, portanto, a criação de uma moralidade decorrente da
suposição de que as ações podem ser valoradas positiva ou
negativamente de modo absoluto como a primeira etapa do problema
da moralidade.
Após o ser humano saber que deve agir
moralmente, ou seja, que deve agir de acordo com as condutas ditas
boas, ou morais, ele estabelece um modo de ensinar a todos a
maneira de se conduzir moralmente. Educação moral é o modo pelo
qual alguns seres humanos ensinam a maioria a agir moralmente.
Agir moralmente significa, usualmente, agir de uma maneira melhor.
Nietzsche, contudo, considera essa afirmação equivocada. Para
Nietzsche, a educação moral torna o ser humano escravo porque
ensina o ser humano a agir de maneira homogeneizada: suprime-se o
diferente, o que pulsa em cada um tornando-o um indivíduo.
Nietzsche menciona alguns modos de educação moral.
A prolongada
sujeição do espírito, a desconfiada coerção na comunicação dos
pensamentos, a disciplina que se impôs o pensador, a fim de pensar
sob uma diretriz eclesiástica ou cortesã ou com pressupostos
aristotélicos, a duradoura vontade espiritual de interpretar todo
acontecimento segundo um esquema cristão, o redescobrir e
justificar o Deus cristão em todo e qualquer acaso .... essa
tirania, esse arbítrio, essa extrema e grandiosa estupidez educou
o espírito; ao que parece, a escravidão é, no sentido mais
grosseiro ou no mais sutil, o meio indispensável também para a
disciplina e cultivo espiritual. (BM, 188; KSA, v. 5, p. 109)
(Está grifado no original.)
Pela educação moral pretende-se
tornar o ser humano melhor. O “melhoramento” consiste em adequar o
comportamento humano aos comportamentos estabelecidos como
aceitáveis. Isso acarreta a aniquilação do indivíduo devido a i)
limitar o ser humano a preceitos conhecidos e aceitos por alguns,
ii) impor aos seres humanos valores que eles não escolheram para
si. Com a moralidade, consideram-se morais apenas os seres humanos
que agem de acordo com o padrão de ser humano moral criado pelo
próprio ser humano. Para Nietzsche, melhorar é sinônimo de
domesticar. É preciso ressaltar que apesar do esforço empreendido
por muitos pensadores, o ser humano ainda não chegou a um consenso
sobre qual é o padrão de conduta humana desejável. Se houver um
padrão de conduta humana que possa ser descoberto pela razão, a
busca desse padrão é justificável. Porém, a defesa de que o ser
humano deve ser o criador de seus próprios valores pressupõe que
não haja valores absolutos. Se houver valores absolutos não é
possível que o ser humano haja moralmente e crie seus próprios
valores simultaneamente.
Nietzsche utiliza a palavra domesticação,
que se refere ao que os seres humanos fazem com os animais
irracionais, para se referir ao que seres humanos fazem com outros
seres humanos. Domesticar é adequar as atitudes do animal -
irracional ou racional - que está sendo domesticado à conveniência
do animal - racional, ou seja, do ser humano - que está
domesticando, de modo a tornar as atitudes do primeiro agradáveis
e compatíveis com as expectativas do segundo. Os animais não se
tornam melhores porque são domesticados, eles se tornam o que os
seres humanos gostariam que eles fossem. Após serem domesticados,
os animais perdem suas características naturais, o que acarreta o
surgimento de um novo animal tão inofensivo quanto
impotente.
Chamar a domesticação de um animal seu
“melhoramento” soa, para nós, quase como uma piada. Quem sabe o
que acontece nos amestramentos em geral duvida de que a besta seja
aí mesmo “melhorada”. Ela é enfraquecida, tornam-na menos nociva,
ela se transforma em uma besta doentia através do afeto depressivo
do medo, através do sofrimento, através das chagas, através da
fome. - Com os homens domesticados que os sacerdotes “melhoram”
não se passa nada diferente. (CI, Os “melhoradores” da humanidade,
2; KSA, v. 6, p. 99) (Está grifado no original.)
O que se
entende por educação moral, Nietzsche considera uma forma de
domesticação. Melhorar equivale a enfraquecer e acarreta o
enfraquecimento do ser humano. Tornar o ser humano adequado
significa homogeneizar suas ações, ou seja, substituem-se a
criatividade e os impulsos por padronizações. O ser humano melhor
é fraco e deixa de ter sua capacidade de autodeterminação. A
tentativa de agir constantemente de acordo com o instituído
ocasiona o esquecimento da sua condição de ser humano que deseja e
cria. Seu desejo passa a ser apenas o de se adequar, sua vontade
de potência é esquecida, há vontade de ser igual, ou vontade de
não-ser.
[Q]ue ingenuidade patética é em geral dizer que o
“homem deveria ser de tal ou tal modo!” .... mesmo quando o
moralista se volta simplesmente para o indivíduo e lhe diz: “tu
deverias ser de tal e tal modo!”, ele não deixa de se tornar
risível. (....) Dizer-lhe [ao indivíduo] “transforma-te” significa
exigir que tudo se transforme, até mesmo ainda o que ficou para
trás... E, realmente, houve moralistas conseqüentes; eles queriam
os homens diversos, mesmo virtuosos, eles os queriam à sua imagem,
mesmo beatos: para tanto eles negavam o mundo! (....) a moral é
uma idiossincrasia de degenerados que provocou muitos e indizíveis
danos!... Nós outros, nós imoralistas, ao contrário, abrimos
amplamente nosso coração para todo tipo de entendimento,
compreensão e aprovação. Não negamos facilmente, buscamos nossa
honra no fato de sermos afirmativos. (CI, Moral como
contranatureza, 6; KSA, v. 6, p. 86-87) (Está grifado no
original.)
Para ser afirmativo é preciso superar o medo ou o
temor. Devido ao sentimento de medo, o ser humano comportar-se da
maneira que lhe parece ser a mais segura. A moral provoca no ser
humano uma sensação de segurança, por isso “o temor é aqui
novamente o pai da moral” (BM, 201; KSA, v. 5, p. 122). Atendo-se
à moral, o ser humano sabe como agir - ele não se surpreende
consigo mesmo - e sabe como os outros podem agir - as atitudes
alheias são compreensíveis e previsíveis. A moral passa a ser um
padrão e torna qualquer análise particular desnecessária. É
preciso apenas conferir se determinada ação está elencada como uma
ação de acordo com os critérios morais. Se estiver, recebe o
rótulo de moral, se não estiver, de imoral.
Educar moralmente significa negar a vida.
Contra a moralidade vigente, Nietzsche propõe a imoralidade
afirmativa, que não nega a vida pelo estabelecimento de padrões
criados pelo próprio ser humano e ditos superiores após sua
criação. Os padrões ditos superiores negam a vida por dois
motivos: por negarem sua origem humana, ou seja, por negarem que
os seres humanos possam ser criadores de valores; e por
pretenderem limitar as ações humanas às ações consideradas morais.
A superação da moral - e da educação moral - poderá ocorrer,
afirma Nietzsche, pela superveniência de um período extramoral, no
qual os conceitos serão considerados além do bem e do mal. Desse
modo, seres humanos voltarão a ser afirmativos em relação à vida,
como o tipo humano trágico fora outrora (BM, 32; KSA, v. 5, p.
51).
Nietzsche critica a moralidade decorrente da distinção
entre bom e mau, mas ele mesmo distingue o que é bom do que é mau.
“O que é bom? - Tudo o que aumenta o homem no sentimento de poder,
a vontade de poder, o próprio poder. O que é mau? - Tudo o que
nasce da fraqueza.” (AC, 2; KSA, v. 6, p. 170) Esta atitude é
aparentemente contraditória, pois Nietzsche estabelece critérios
para que se interprete as ações e para que se considerem algumas
ações boas e outras más. Contudo, a diferença entre Nietzsche e os
filósofos que o precederam, é que Nietzsche considera que a vida
deve ser o critério de julgamento das ações, isto é, a vida deve
ser o critério de julgamento da própria vida. Ter a vida como
critério de julgamento significa “permanecer fiel à terra” (Z, I,
Prefácio de Zaratustra, 3; KSA, v. 4, p. 15).
A distinção entre
bem e mal compõe o processo de simplificação das relações no
mundo. Simplificam-se critérios de avaliação das ações próprias e
das ações alheias classificando as ações em duas categorias: bom e
mau. Essa distinção considera que ser ou bom ou mau é intrínseco à
própria ação. Nietzsche pergunta sobre os motivos pelos quais as
ações precisam ser distinguidas e classificadas em boas e
más.
Exigindo que os filósofos se coloquem
para além do bem e do mal, e exigindo que os filósofos considerem
o ilusório e o criado como ilusório e criado, e não como dado e
absoluto, Nietzsche não está fazendo o mesmo que já foi feito. Ele
não está criando valores e pretendendo que todos creiam nos mesmos
valores. Se Nietzsche oferecesse seus valores como válidos para
todos, sua crítica não teria sentido, pois ele estaria agindo
exatamente do modo como critica. Ao contrário, Nietzsche afirma
ser possível escolher entre diversos valores, mas relembra que a
criação dos próprios valores acarreta responsabilidade em relação
aos valores criados.
Interpretar é valorar. “[E]m sua maior
parte, o pensamento consciente de um filósofo é secretamente
guiado e colocado em certas trilhas pelos seus instintos. Por trás
de toda lógica e de sua aparente soberania de movimentos existem
valorações, ou, falando mais claramente, exigências fisiológicas
para a preservação de uma determinada espécie de vida.” (BM, 3;
KSA, v. 5, p. 17). No mesmo sentido, em outra passagem, Nietzsche
se refere aos valores e à moral como necessários para a
conservação do ser humano. “Valores foi somente o homem que pôs
nas coisas, para se conservar - foi ele somente que criou sentido
para as coisas, um sentido de homem!” (Z, I, Dos mil e um alvos;
KSA, v. 4, p. 75). A afirmação que se segue a uma interpretação
que atribui valor a algo é uma valoração criada pelo ser humano e,
segundo Nietzsche, sua origem pode e deve ser investigada. Essa é
a exigência de uma crítica dos valores morais para, por meio desta
crítica, descobrir o valor dos valores, ou seja, descobrir como os
valores em si são avaliados e valorados. A crítica do valor dos
valores, isto é, a crítica do valor atribuído aos valores, explica
por que o ser humano convenciona considerar o bom superior ao mau,
e por que as ações são classificadas ou como boas ou como más.
“[F]ica evidente que o mundo não é nem bom nem mau, e tampouco o
melhor ou o pior, e os conceitos ‘bom’ e ‘mau’ só têm sentido em
relação aos homens, e mesmo aí talvez não se justifiquem do modo
como são habitualmente empregados....” (HDH I, 28; KSA, v. 2, p.
49). Nada é ou bom ou mau em si, todo valor atribuído a algo tem
como origem o ser humano e sua interpretação. Nietzsche faz uma
nova exigência: “Enunciemo-la, esta nova exigência: necessitamos
de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores
deverá ser colocado em questão” (GM, prólogo, 6; KSA, v. 5, p.
253) (está grifado no original). A novidade desta exigência não
está em ser outra exigência de Nietzsche, mas em ser uma nova
exigência para a filosofia, um novo problema a ser
resolvido.
Para colocar em questão o valor dos valores é
necessário conhecer as condições de surgimento e desenvolvimento
desses valores. Este é, segundo Nietzsche, “um conhecimento tal
como até hoje nunca existiu nem foi desejado” (GM, prólogo, 6;
KSA, v. 5, p. 253). Até Nietzsche o valor dos valores é
considerado algo dado, que, por isso, não precisa ser questionado.
Contudo, Nietzsche suspeita desse padrão de julgamento dos valores
e pergunta o que aconteceria se o julgamento concluísse o oposto
disso.
E se o contrário fosse a verdade? E se no “bom” houvesse
um sintoma regressivo, como um perigo, uma sedução, um veneno, um
narcótico, mediante o qual o presente vivesse como que às expensas
do futuro? Talvez de maneira mais cômoda, menos perigosa, mas
também num estilo menor, mais baixo?.... De modo que precisamente
a moral seria culpada de que jamais se alcançasse o supremo brilho
e potência do tipo homem? De modo que precisamente a moral seria o
perigo entre os perigos? (GM, prólogo, 6; KSA, v. 5, p. 253) (Está
grifado no original.)
A obra de Nietzsche é um sonoro sim a
estas questões. O bom é sintoma de regressão, de perigo, ele seduz
e envenena pelo que promete, pela superioridade que sugere conter
em si. Nietzsche inverte a perspectiva de análise dos conceitos
bom e mau, com isso evidencia que há um valor dos valores morais e
considera toda interpretação uma valoração. Nietzsche critica a
moralidade como uma criação humana e investiga sobre sua origem.
Contudo, critica-se a moral não por ela ser criação humana, mas
porque sua origem humana é esquecida, porque alguns seres humanos
criam valores para si e para os outros e porque a maioria dos
seres humanos adota valores alheios sem compreender o que
justifica a escolha desses valores, ou seja, sem tomá-los para si.
Desse modo, agem como se fossem animais de rebanho.
Ser animal de rebanho significa agir do
modo como os outros agem, e com isso, eliminar o que há de único
em si. O ser humano que é chamado animal de rebanho não é um
indivíduo com características e vontades próprias. Ao contrário,
ele é mais um entre os membros de uma coletividade, ao qual se
impõe que aja, pense e julgue moralmente como todos. A moral
estabelece um limite além do qual o ser humano não pode aspirar,
pois além deste limite o ser humano não é mais controlado e deixa
de compor o rebanho. Esse limite dá segurança aos seres humanos
enfraquecidos i) porque estabelece as condutas que podem ser
escolhidas como condutas próprias, ii) porque torna as ações
alheias previsíveis. Sabendo como o outro agirá, o ser humano
enfraquecido sabe como deve reagir.
[O] que aqui julga saber, o
que aqui se glorifica com seu louvor e seu reproche, e se
qualifica de bom, é o instinto do animal de rebanho do homem: o
qual irrompeu e adquiriu prevalência e predominância sobre os
demais instintos, fazendo-o cada vez mais, conforme a crescente
aproximação e assimilação fisiológica de que é sintoma. Moral é
hoje, na Europa, moral de animal de rebanho.... (BM, 202; KSA, v.
5, p. 124) (Está grifado no original.)
Animais de rebanho são
seres educados moralmente, que aceitam essa educação e agem de
acordo com ela. Eles são ditos animais porque sua racionalidade é
necessária apenas para a identificação de padrões e para que as
próprias condutas possam ser adequadas a esses padrões. Eles são
ditos de rebanho porque agem como membros de uma coletividade
homogeneizada.
O enfraquecimento do espírito humano é a causa
da distinção entre bom e mau. Os animais de rebanho precisam de
critérios objetivos e externos para avaliar ações próprias e
alheias porque não conseguem ser criadores de seus próprios
valores. Enquanto o ser humano nobre cria valores para si, o ser
humano enfraquecido, animal de rebanho, vive de acordo com os
valores criados por outros e torna-se, desse modo, previsível. A
previsibilidade ameniza o medo do ser humano fraco em relação ao
horror do mundo. A moral é criação do ser humano enfraquecido que
não consegue conviver com a incerteza da realidade efetiva e,
desse modo, a moral revela o instinto de rebanho.
Instinto de
rebanho. - Onde quer que deparemos com uma moral, encontramos uma
avaliação e hierarquização dos impulsos e atos humanos. Tais
avaliações e hierarquizações sempre constituem expressão das
necessidades de uma comunidade, de um rebanho: aquilo que
beneficia este em primeiro lugar - e em segundo e terceiro - é
igualmente o critério máximo quanto ao valor de cada indivíduo.
Com a moral o indivíduo é levado a ser função do rebanho e a se
conferir valor apenas enquanto função. Dado que as condições para
a preservação de uma comunidade eram muito diferentes daquelas de
uma outra comunidade, houve morais bastante diferentes; e, tendo
em vista futuras remodelações essenciais dos rebanhos e
comunidades, pode-se profetizar que ainda aparecerão morais muito
divergentes. Moralidade é o instinto de rebanho do indivíduo. (GC,
116; KSA, v. 3, p. 475) (Está grifado no original.)
Diferentes
grupos reagem de diferentes modos em relação à realidade efetiva.
As diferentes reações expressam-se por diferentes moralidades.
Grupos que atribuem às diferentes moralidades papel uniformizador
do comportamento são grupos com instinto de rebanho. As
moralidades são criadas para justificar ações suportáveis e para
proibir a manifestação do insuportável. Elas são diferentes porque
o considerado insuportável varia no tempo e no espaço. Contudo, as
moralidades têm em comum a negação do instinto criador do ser
humano, que, segundo Nietzsche, é parte constitutiva do tipo
humano que afirma a vida.
Existem morais que pretendem
justificar perante os outros o seu autor; outras morais pretendem
acalmá-lo e deixá-lo contente consigo mesmo; com outras ele quer
crucificar e humilhar a si mesmo; com outras ele quer vingar-se,
com outras esconder-se, com outras transfigurar-se e colocar-se
nas alturas; essa moral serve para o autor esquecer, aquela, para
fazê-lo esquecer de si mesmo ou de algo de si; alguns moralistas
gostariam de exercer sobre a humanidade seu poder e seu capricho
criador.... (BM, 187; KSA, v. 5, p. 107)
A origem da
necessidade de distinção entre bem e mal é atribuída a Sócrates.
Sócrates não sabe quais ações podem ser ditas boas e quais ações
podem ser ditas más, mas ele acredita que o ser humano possa
saber. Segundo Nietzsche, por influência socrática, as sociedades
ocidentais aceitam a existência da distinção entre bem e mal e
dividem as ações em boas e más. Não apenas nossos pensamentos
morais, mas a moral como um problema, surge com Sócrates (BM, 191;
KSA, v. 5, p. 112). Esse é um dos aspectos pelos quais se
distinguem os tipos humanos trágico e socrático. Depois de
ocorrido o primeiro ato de criação, a moral se transmite e
transforma-se por diversas formas de educação. Os sucessivos atos
de transformação correspondem às diversas formas de educação
moral.
Nietzsche se considera um filósofo que
cria valores e reconhece que outros filósofos também criam
valores. Podem-se criar valores que afirmem e valores que neguem a
vida, para si e para os outros. Nietzsche cria valores para si e
propõe que cada indivíduo seja criador de seus próprios valores.
“Nós, porém, queremos nos tornar aqueles que somos - os novos,
únicos, incomparáveis, que dão leis a si mesmos, que criam a si
mesmos!” (GC, 335; KSA, v. 3, p. 563) (Está grifado no original.)
“Vede bons e justos! Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas
tábuas de valores, o quebrador, o infrator: - mas este é o
criador. Vede os crentes de toda crença! Quem eles odeiam mais?
Aquele que quebra suas tábuas de valores, o quebrador, o infrator:
- mas este é o criador.” (Z, I, Prefácio de Zaratustra, 9; KSA, v.
4, p. 26). Ser criador de valores acarreta ser responsável por
suas próprias escolhas, desse modo, não há qualquer tipo de
educação moral na filosofia deste imoralista. Nietzsche substitui
o ensino de uma moralidade, como um conjunto de valores, pelo
ensino do desenvolvimento da capacidade de criar
valores.
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