PREFÁCIO

 

Ao longo das últimas 2-3 décadas, assistimos, em todo o mundo, a um crescimento explosivo do conhecimento científico, em todas as áreas do saber. Nas ciências biológicas e da vida, particularmente, tal crescimento foi impulsionado pelo desenvolvimento de um vasto leque de metodologias que têm permitido, dentre outras conquistas, a elucidação cada vez mais detalhada das estruturas moleculares e das arquiteturas celular e tecidual responsáveis pelas funções biológicas, das vias de sinalização que operam intracelularmente desencadeando respostas celulares específicas, e também da comunicação entre as células de um ou mais órgãos em um ser vivo. Em paralelo, os avanços recentes na área de genômica (a investigação do conteúdo total de informação genética contido em uma célula) e da proteômica (o mapeamento de todas as proteínas existentes em uma determinada célula) têm nos revelado novas vias metabólicas e/ou de sinalização até recentemente insuspeitadas, e novos mecanismos envolvidos na fisiopatologia de um grande número de importantes doenças humanas.

 

Neste riquíssimo cenário do avanço de nossa compreensão dos mecanismos da vida, a Bioquímica desempenha papel central por apresentar, como objeto de estudo, não apenas as estruturas das biomoléculas e as reações químicas de que elas participam, mas, principalmente, a busca da compreensão das inter-relações entre moléculas e da regulação dos processos biológicos que permitem a manutenção da vida. Com isto, não deve ser surpresa constatar que, com todas as suas diferentes vertentes, a Bioquímica é uma das áreas que mais cresce na Ciência mundial, e também na brasileira. O conhecimento novo produzido diariamente em milhares de laboratórios de pesquisas em todo o mundo é primariamente descrito em artigos científicos publicados em algumas centenas de periódicos especializados de circulação internacional. Para que o leitor possa ter uma idéia do que isto representa em termos de quantidade de novas informações, apenas os volumes publicados em um único ano em um destes periódicos podem conter cerca de 20.000 páginas! A conclusão que se pode tirar desta constatação é que se tornou humanamente impossível imaginar que qualquer pessoa possa, hoje, acompanhar a totalidade do conhecimento em Bioquímica (o mesmo valendo, naturalmente, para todas as áreas da Ciência). O tempo dos grandes sábios universais, que reuniam quase todo o conhecimento disponível em todas as áreas do saber, há muito se foi. Hoje em dia, a necessidade de aprofundamento em uma determinada sub-área do conhecimento leva necessariamente a uma forte especialização e, por vezes, a uma certa dificuldade na compreensão das áreas vizinhas àquela que constitui nosso principal foco de atenção. Por isto se torna, hoje, cada vez mais importante derrubar as barreiras que separam os profissionais de diversas áreas. É da desconstrução destas barreiras e da construção de uma abordagem verdadeiramente transdisciplinar que decorrerão os maiores avanços científicos.

 

É neste contexto que vejo com entusiasmo iniciativas como a que resultou na edição do presente livro. “Tópicos Avançados em Bioquímica do Exercício” foi escrito não por um, mas por cerca de uma dúzia de autores, com formações prévias bastante distintas. Mais importante ainda, neste universo de conhecimento que se deseja sem fronteiras, os autores são todos jovens cientistas brasileiros ativos e produtivos em diferentes áreas do conhecimento. Espalhados por laboratórios em diferentes instituições do País, os autores se dedicam a linhas de estudos complementares, o que lhes permitiu realizar, neste livro, uma síntese de alguns dos conceitos mais importantes e de novos avanços na Bioquímica muscular e do exercício físico.

 

Além do conhecimento científico diretamente resultante de suas atividades de pesquisas, os autores estão, sobremaneira, habilitados a realizar, para o leitor que se inicia ou que busca atualização nesta área, a necessária contextualização do conhecimento científico de ponta, de forma a integrá-lo ao estudo de áreas afins.

 

Trata-se, portanto, do resultado de um esforço coletivo qualificado que deverá, sem dúvidas, tornar-se fonte de referência importante para os que se interessam pela Bioquímica do exercício.

 

 

Sérgio T. Ferreira

Professor Titular

Chefe do Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ

Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências